"Causos" da Arqueologia

"Sobrevivi"

03/03/2014

Desta feita a coisa está mais para aquela série que passou há tempos na TV paga denominada “Sobrevivi”. É uma aventura verídica, pela qual passei no Acre e que só as pessoas mais próximas conhecem. O fato aconteceu comigo, mas acredito que muitos outros colegas passaram por situações tão dramáticas quanto aquela, o que demonstra que apesar de muito longe da época da arqueologia romântica, nossa profissão ainda guarda alguns momentos de verdadeira aventura e perigo.

O casal Marcos Vinicius e Célia terminaram seu estágio no IAB, onde se conheceram e retornaram à cidade de Rio Branco, terra natal dela, onde iniciaram uma nova vida, que se configurava cheia de perspectivas.

Em um determinado momento pediram-me que viajasse até lá, para ajudá-los em sua nova existência, conhecer sua casa, sua posição na Prefeitura da cidade, brigar, ao lado deles, pela criação de um centro de pesquisas e por um lugar na Universidade. Aproveitaria também para conhecer alguns sítios vinculados à Tradição Quinarí, que estabelecera alguns anos antes, com seus “vasos careta”, seus círculos de terra e outras peculiaridades próprias. Entre eles, deveríamos visitar uma Fazenda no “riozinho do Rola”.

E lá fomos nós...

O tal riozinho faz jus ao nome, relativamente estreito e de águas brancas. Pegamos uma canoa com motor de rabeta e depois de algum pouco tempo de viagem chegamos ao lugar, onde - como de praxe - fomos bem recebidos pelo proprietário, que já nos esperava. Visitamos o local, demarcamos mais de um sítio de superfície e retornamos no dia seguinte.

Conversando antes de embarcar de volta, surpreendi-me com o fato da Célia não saber nadar, nem a Malu, nossa outra companheira de pesquisas. Argumentei que nunca nadei bem, mas que por mais de uma vez tive que me safar de acidentes, de forma que é imprescindível, sobretudo na Amazônia, que o pesquisador saiba o suficiente para se manter flutuando e nunca perder a calma, etc, etc.

O barqueiro foi pontualmente nos apanhar, pois ainda nos dirigiríamos a um outro local. Ele nos levaria até uma ponte onde apanharíamos um carro, fazendo o resto do trajeto por rodovia. Sem qualquer cuidado, aparelhei-me todo, pronto para enfrentar a selva, com as pesadas botas de campo, calça jeans, camisa de manga comprida, etc. E. confiante, montei na proa da canoa, pegando na cara o ventinho gostoso. A dita voava, com a “rabeta” à toda... de repente, um toco emergiu à nossa frente e foi “aquele vôo”. A canoa virou parcialmente de lado e eu “tchbum” dentro dágua. Nem me passou pela cabeça qualquer perigo... Seria um mergulho inesperado e – no máximo – uma roupa molhada.

Só que por mais que batesse os braços e as pernas eu cada vez mergulhava mais fundo. As botas... cheias d’água me arrastavam inexoravelmente para a escuridão.

Com muito esforço assomei à superfície, para ver que, distante uns quinze metros o barqueiro retornava para me “pescar”. O interessante é que (como num filme) a linha d’água oscilava entre minha boca e os olhos e por mais esforço que fizesse não conseguia me manter flutuando. As botas pareciam pesar uma tonelada, assim como a calça encharcada. Tudo me puxava para o fundo...

Para piorar, o barqueiro aterrorizado, embicou a toda velocidade na minha direção. Eu só vi que a quilha da dita voava para cima de mim. O Marcos se debruçou na borda, mas a proa da canoa passou rasante por mim e antes que o casco me pegasse eu tratei de me afastar, deitar de costas e deixar afundar, com a hélice rosnando a um palmo da minha cabeça...

Aí tudo se acalmou. Eu afundei como uma pedra para a escuridão. Devo ter batido no fundo, mas o fato é que não me assustei (nem sei como...). A água estava tépida e o silêncio era absoluto. Tive calma para avaliar a situação, sentir os pulmões cheios de ar e na cabeça uma determinação urgente de me safar daquela. Pensei comigo mesmo: “Não é hora de me afogar. Não, não vou morrer bestamente aqui”. Nada de imagens passando pela minha mente, nem uma série de flashes sobre minha vida. Só a certeza de que sairia daquela embrulhada.

E resolvi retornar. Não sei quantos minutos demorei para subir. Só sei que fiz muita, mas muita força mesmo, durante uma eternidade, até assomar ao maravilhoso e puro ar da floresta. Vi que o pessoal, com cara de enterro, estava nas proximidades, a uns dez metros distantes, dentro da canoa parada e olhando em torno. Ao me verem, Marcos e o barqueiro mergulharam... e eu passei por um breve desmaio, até sentir me pegarem por baixo dos braços.

Acredito que fui arrastado para a margem do rio, pois não cheguei a afundar totalmente de novo, dando tempo para me alcançarem, erguerem e colocarem dentro do barco.
Só então a reação da adrenalina chegou e eu comecei a tremer. Minha primeira reação foi tirar as desgraçadas das botas e atira-las no meio do rio.

Ainda tive espírito para brincar com as garotas. “Viram? Se eu não soubesse nadar o suficiente, já era...”.
E pensei comigo mesmo: “É... mas não precisava dar tal demonstração...”

Mas até hoje, vez por outra, embaixo do chuveiro morno aquela sensação angustiante retorna e me faz lembrar do susto.

Autor: Ondemar Dias

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