Patrimônio Material e Imaterial de Macaé

Macaé

Neste município foi realizada a pesquisa documental na Biblioteca Municipal da própria cidade e também dos distritos da região serrana por onde passa a LT. Os distritos identificados e pesquisados foram: Córrego do Ouro, Glicério e Frade. 

Macaé é uma cidade localizada no Norte Fluminense e desde os primórdios despertou o interesse dos que passavam por seu interior ou por sua costa marinha. A pesquisa indica que  foram os índios que habitavam a região quem lhe deram o nome de Macaé referindo-se a doçura do coco da Macaba, (maca-e que significa coco – doce), sendo esta uma palmeira muito comum na região no período  colonial.

Seu povoamento se deu quando Gaspar de Souza ordenado pelo governo Espanhol, na época do domínio deste sobre Portugal, estabeleceu por volta do ano de 1615 o aldeamento de  cerca de 200 índios goitacás oriundos da região de Campos para estabelecer o  povoamento da região. Esta aldeia foi estabelecida próxima ao rio Macaé e do mar sob o comando de Domingos Leal.

De lá até os dias atuais a cidade e seus distritos foram amplamente modificados, gerando histórias das mais diversas. Sua cultura imaterial apesar da pouca divulgação é bastante interessante, constando de muitas lendas, lugares significativos, modos de fazer e celebrações bastante peculiares dentro da região. Como parte da estratégia da  pesquisa de Estudos de Patrimônio Imaterial (EPI), na primeira fase se tentou desvendar Macaé não somente pelos documentos secundários, mas também e principalmente, pelas “lembranças’ ainda restantes na memória de  antigos moradores que apontam  para os vestígios da  cultura imaterial que ainda  resistem  no local até o presente.

Macaé - Centro Córrego do Ouro Glicério Frade

 

Celebrações

Celebrações Religiosas

Nossa Senhora de Santanna - Sua igreja erigida em 1630 está localizada no topo do morro de Santanna e sua festa é uma das mais concorridas. O dia da padroeira é comemorado em 26 de julho com procissão e quermesse;

São João Batista - Santo padroeiro de Macaé é celebrado no dia 23 de junho com festas, quadrilhas, missas, alvorada e procissão;

São Pedro – Celebrado no dia 29 de junho por pescadores que organizam e participam de uma tradicional procissão marítima enfeitando barcos para saírem ao mar a partir do mercado municipal de peixes. Este ritual de cunho religioso é uma forma da gente de Macaé reverenciar o mar do qual sempre dependeram tanto.

Santo Antônio - Na região serrana de Macaé já no Distrito de Glicério (sinônimo de trapiche com óleo)  acontece há mais de cem anos uma  festa em homenagem a Santo Antônio. Esta é sempre celebrada com muitas barracas e missas.

Nossa Senhora da Conceição - No distrito do Frade acontece a celebração em homenagem a Nossa Senhora da Conceição no dia 8 de dezembro. A igreja foi fundada por padres jesuítas e está localizada no centro do distrito.

Nossa Senhora das Neves - No distrito de Córrego do Ouro acontece a celebração em homenagem a Nossa Senhora das Neves realizada no dia 5 de agosto, bastante prestigiada pelos moradores da região.

Outras Festividades

v  As festas de 1° de maio organizadas pelos trabalhadores das oficinas da Estrada de Ferro Leopoldina marcaram a época áurea da vida social da região no fim do século XIX, mas com a decadência da rede ferroviária só restaram as lembranças e antigas fotos.

Carnaval - Bois pintadinhos - A região possui forte tradição carnavalesca desde o século XIX nas ruas e clubes da cidade e nos distritos. Na região serrana, no distrito de Frade acontece o mais tradicional carnaval da região iniciando com os bois pintadinhos (manifestação cultural) e o enterro dos ossos ou do boi na quarta feira de cinzas. É uma manifestação cultural de origem africana e regionalizada em Macaé onde grupo de foliões formam blocos, tendo como elemento principal uma alegoria em forma de boi, movimentada por pessoas, decorada com temas diversos e desfilam pelas ruas da cidade ao ritmo de músicas carnavalescas.

Igreja de Santo Antônio - Glicério - Macaé Igreja do Frade Boi pintadinho


Formas de Expressão

As Lendas

Macaé possui várias lendas que permeiam a imaginação de seus moradores. Por muitos anos persistem algumas bastante conhecidas. Outras nem são tão antigas, mas mesmo assim seus mistérios continuam despertando a curiosidade de sua gente. Entre essas se destacam:

A “praga” de Mota Coqueiro – Esta se refere a um personagem da região que foi condenado à forca (o último do Brasil) e que se dizia inocente. Diz a lenda que no seu último momento de vida rogou uma  praga à cidade de Macaé. Esta sofreria 100 (cem) anos de decadência.  Coincidência ou não este período de atraso aconteceu e só terminou 100 anos depois com a descoberta de poços de petróleo no litoral em meados da década de 1970 no século passado.

A imagem de Santana – Contam que a imagem da santa foi encontrada na ilha e levada para o continente. Mas que, sem mais nem menos, desaparecia e voltava a ser encontrada na ilha. Resolveram então mudar a porta principal da igreja para o lado oeste, não sendo possível assim que “ela visse” o mar. Mas mesmo assim a imagem desapareceu na década de 1990 e nunca mais foi vista.

O córrego do Ouro – sedimentos de minerais sem valor, de cor dourada, carreados pela água levou a população a denominá-lo como tal por acreditarem ali brotar ouro. Esta lenda acabou por dar origem ao nome do distrito de Córrego do Ouro na região serrana, onde ele nasce.

A mãe do Ouro – dizem ser algo em forma de tocha de fogo que passeia pelas montanhas da região serrana de Macaé e protege os locais onde “há ouro”.

O Solar do Barão de Povoá – trata-se de um antigo casarão assombrado em que os donos moraram por pouco tempo e todos os que passavam a noite por lá sentiam seus “efeitos”.

A Biquinha do Amor em Glicério, a Porca de Tamancos e João Girá também são lendas locais.

Saberes e Fazeres (ofícios)

A Culinária

A culinária macaense não se apresenta muito diferente das demais da região serrana, porém no distrito de Glicério, diretamente impactado pelo empreendimento, identificamos, em pesquisa junto à comunidade, as seguintes especiarias:

Paçoca de banana (angú de banana) - feita com banana verde e temperos é uma comida salgada preparada com alho, sal e azeite. Trata-se de um prato tradicional da região rural empregado antigamente como alimentação alternativa em épocas difíceis. Atualmente apenas os mais jovens o apreciam, sendo rejeitado pelos mais idosos por remetê-los aos tempos de dificuldades.

Festival do Aipim – na região da Serra da Cruz, grande produtora de aipim, se produz diversas receitas a partir dessa raiz. Estas são bastante apreciadas pelos moradores e visitantes quando vendidas em barracas numa festa que acontece no mês de agosto em forma de festival.

Chouriço – muito apreciado na região é uma iguaria feita com miúdos dos porcos criados pelos moradores locais. Apresenta os mesmos ingredientes e modo de preparo dos feitos em outras regiões.

Paçoca de banana Ingredientes da paçoca de bananaIngredientes da paçoca de banana  

 

O Artesanato

Uma curiosidade local é a produção artesanal de um veículo automotor, bastante utilizado na região serrana, conhecido como “aranha” e patenteado como “MUD BUG” ou inseto da lama.

Atualmente produzido por Alan Kardec Hotz, em Glicério, este veículo utiliza o chassis de automóveis dos tipos fusca ou brasília e surgiu da necessidade de seu pai levar materiais de construção até o sítio que compraram no alto da serra, portanto de difícil acesso e os veículos comuns da época não o atendia. Foi então que seu irmão, Joaquim Hotz, construiu a primeira aranha em 1986 para suprir esta necessidade a partir do chassis de um velho fusca. Em 2004 surgiu novamente a necessidade de um veículo especial então o jovem Alan se lembrou da velha aranha e resolveu fabricar outra em casa. O bom funcionamento e a alta utilidade estimularam os moradores da região a adquiri-lo o que deu início à fabricação das várias unidades que circulam pelas ruas dos distritos serranos de Macaé, tornando-se um veículo amplamente utilizado na região. Desde sua recriação foi aperfeiçoado ao longo do tempo e já havia sido produzido até a data de levantamento desta pesquisa cerca de 70 unidades. Alan produz o “Mud Bug” em sua oficina ao lado de sua casa e ainda vende peças de reposição aos proprietários. O curioso é que não se encontra nenhuma dessas aranhas usadas para vender, o que se deduz que seus proprietários devem estar satisfeitos com a aquisição.

 

Lugares

Alguns lugares em Macaé funcionam até hoje como verdadeiros pilares de memória coletiva e referências de identidade para seus habitantes, são eles:

v  O arquipélago de Santanna;

v  O rio Macaé;

v  A enseada de imbetiba;

v  O pico do Frade;

v  As cachoeiras da região serrana;

v  A rua direita ou da praia