Histórico Paraty

Informações gerais sobre Paraty

No que diz respeito à região de Paraty, ainda que frente à importância histórica da mesma, os trabalhos já realizados sejam ainda insuficientes para um claro delineamento do seu passado arqueológico, a disponibilidade de fontes seguras de informação é melhor. É possível dispor-se, por exemplo, da documentação dos primeiros trabalhos cientificamente conduzidos na área, nos anos finais da década de mil novecentos e sessenta e iniciais da década seguinte, sob a minha direção, (Ondemar Dias). Conduzi as pesquisas encomendadas pelo IPHAN ao Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), objetivando o levantamento do potencial arqueológico do “Município Tombado de Paraty”. No IPHAN constam tanto as fichas de registro de sítios, quanto o Relatório referente.  Em 1971 foi publicado o trabalho intitulado “A Fase Paraty. Apontamentos sobre uma fase cerâmica Neo-Brasileira na Revista Universitas de número 8 (jan/agosto, pp.ll7-l33, ilustrada) de Salvador, Bahia.

Alguns anos depois, sob a mesma direção, foram efetivadas pesquisas na área de Angra dos Reis, pelo “Programa Litoral Fluminense” do mesmo Instituto (IAB), com registro de novos sítios então cadastrados no IPHAN (resumo adiante).

Com a fundação do curso de Arqueologia da Faculdade de Arqueologia Marechal Rondon, depois anexado ao curso de Arqueologia da Universidade Estácio de Sá, pesquisadores daquela instituição se dedicaram à região, criando, inclusive um Programa de atuação específico, dirigido pelo arqueólogo Alfredo Mendonça e coadjuvado por Nilton Parnes. O primeiro publicou como resultado, um trabalho intitulado “Pré-História de Parati”, em 1977, na Revista “Nheengatu” (Ano 1, Nº 2, Rio de Janeiro). O segundo, Nilton Parnes, o “Relatório Preliminar das Prospecções Arqueológicas em Realização no Município de Parati – Estado do Rio de Janeiro” apresentado no quinto Congresso Nacional de Arqueologia, realizado em Canelones, no Uruguai.

O único texto referente ao século atual, já publicado, diz respeito a pesquisas efetuadas em Angra dos Reis, trabalhos conduzidos por Pedro Funari e Nanci Oliveira, em 2005, sob o título “Textos Didáticos, Arqueologia em Angra dos Reis”, publicado pela UNICAMP, São Paulo.

No escritório do IPHAN de Paraty existe também cópia de um Relatório recente da década passada de autoria da Zanettini Arqueologia (São Paulo) que pesquisou na praia da Djanira, para a instalação de um “Resort” na área. Já existia cadastrado o sítio do mesmo nome, quando das pesquisas do IAB em 1968/1970 que o arqueólogo daquela empresa mudou de nome (não se sabe se alterou também o registro do mesmo no IPHAN), além de cadastrar outros sítios na mesma praia. Não tendo sido possível fornecer cópia do mesmo para consulta mais demorada, fica o registro das pesquisas, sem contabilizar tais novos sítios.   

Informações sobre os sítios do litoral sul fluminense, com resumo de cada um, fonte de publicação e, quando existente, suas siglas, podem ser também encontradas no já antigo trabalho de Maria Beltrão “Pré-História do Estado do Rio de Janeiro”, da Forense Universitária (Rio de Janeiro) datado de 1978.

Deve ser considerada ainda a lista o Arquivo do IPHAN com o Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos Brasileiros, que ainda incompleto é fonte de informação segura para qualquer levantamento do tipo. 

Para completar podem-se incluir as notícias mais antigas a respeito da potencialidade arqueológica de Paraty, ainda que referentes a trabalhos sem os rigores científicos atualmente exigidos. Neste caso está o trabalho de Alberto Löfgren, denominado “Os Sambaquis de São Paulo”, publicado no Boletim da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, de número 9, datado de 1893, que se refere a este tipo de sítio em Paraty. Também Silvio Fróes de Abreu fez uma “Comunicação à Sociedade de Geografia em 1928”, publicada pelo Jornal do Comércio de seis de maio daquele ano.   

Em resultado destes trabalhos, uma boa quantidade de sítios foi pesquisada na região, de tipologia diferenciada e variado material cultural. Mesmo que a descriminação do acervo recolhido e até mesmo a descrição dos trabalhos e dos sítios nem sempre possam ser seguramente utilizados numa reconstituição geral da pré-história local, pode-se estruturá-la em linhas gerais sem correr o risco de erros muito profundos.   

Análise de documentação cartográfica disponível

Também previstas no Projeto de Pesquisas de Diagnóstico Não Interventivo, foram desenvolvidas atividades objetivando o levantamento da cartografia disponibilizada nos arquivos locais. Não foram encontradas tanto em função da falta de informações nos locais pesquisados, quanto frente à exigüidade do tempo disponível

Pode-se, no entanto, localizar alguns mapas antigos em que a região se encontra bem delineada, assim como mapas e plantas cartográficas de cunho turístico, estes últimos vendidos em bancas de jornais e livrarias da cidade.

Entre os mapas mais antigos que focalizam a região, podem ser destacados três deles:

Entre os dois mais antigos pode ser considerado o de Jacobus Hondius, datado de 1574.

Trecho do mapa focalizando a região do Espírito Santo a São Vicente Em destaque aquela capitania e Angra dos Reis Mapa famoso do Capitão Luiz Teixeira com a divisão do país em Capitanias Hereditárias Mapa famoso do Capitão Luiz Teixeira com a divisão do país em Capitanias Hereditárias

O terceiro mapa é do século XVII, de autoria de Sanson D’Abeville, datado de 1656.

Tem como peculiaridades documentar a distribuição das tribos indígenas após o início da colonização. A cidade do Rio de Janeiro segue denominada como S. Sebastiam e marcada com um triângulo. Logo abaixo dela a “Angra dos Reyes”. Os tupinambás seguem na mesma localidade, identificados como “Toropinambautus”. Destaca-se também neste mapa a linha de limitação entre o Espírito Santo, o Rio de Janeiro e São Vicente, praticamente nos limites atuais entre os estados.

No século XVIII foram produzidos os primeiros mapas da Capitania do Rio de Janeiro, destacando-se o Mapa de Teixeira Leão e o de Jorge Lobo de 1778. Como o segundo é menos conhecido, reproduzimos o mesmo abaixo.

Ainda nele que a cidade não apareça em detalhe, a área sombreada entre três rios corresponde à sua localização. Os rios são denominados como Piraqui ao norte, Jaguaquara no meio e Paratiguaçu mais ao sul. Destaque-se a ponta do “sernambi” sinônimo de sambaqui e aquela que aparece desde os mais antigos mapas, a Ponta de Curuçu (ou Cairuçú).

Mapa de Sanson D’Abeville - 1656 Mapa de Sanson D’Abeville - 1656 Mapa de Jorge Lobo de 1778 Mapa de Jorge Lobo de 1778

Outro mapa do século XVIII foi copiado no livro Mamanguá (Nogara, 2005:48) sem, no entanto, registro de procedência (vide bibliografia). É o mais detalhado que se conseguiu localizar.

Cópia do mapa completo, segundo publicação citada. Observe-se a variação no nome dos rios que desembocam na área de Parati e o “Pico do Cayruçu”. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Detalhamento do mapa com a região situada entre a cidade de Parati e Parati Mirim - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Neste detalhamento observa-se a localização do Engenho Dágoa (Dágua?) próximo à foz do Rio Matheus Nunes na praia de Boa Vista, fronteira à cidade e na baía de Parati o Engenho do Padre Manoel Alvres Velludo, nas proximidades da área pesquisada.

No século XIX os mapas provincianos se tornaram mais comuns. O mapa da Província do Rio de Janeiro datado de 1830 (catálogo PD 76 do Arquivo Nacional) é bem detalhado e típico da época, com relevo sombreado e escala em braças

Planta da Província do Rio de Janeiro - 1830   Planta da Província do Rio de Janeiro - 1830 Planta Cartográfica de 1839

Muito parecido é o também Mapa da Província do Rio de Janeiro de 1866, mais recente, catalogado como PD-77 no Arquivo Nacional. Diferencia-se do anterior sobretudo pelo desenho do relevo, mais moderno. Também típico da época, linhas finas detalham o oceano alargando a linha da costa mar adentro.

Esta carta Corográfica da Província em 1839 foi toda ladeada com plantas das principais cidades fluminenses, entre elas Parati. Como detalhe interessante o detalhamento dos três rios que já figuravam no mapa de Lobo, de 1778 (Arquivo Nacional cadastro PD-97). 

Nesta Carta de 1861 (Arquivo Nacional CFB-E) também ladeada com plantas das principais cidades figura a de Parati. Consideramos interessante juntar uma cópia tirada diretamente da planta original, à esquerda, e colocar ao seu lado uma cópia atualizada, obtida por doação na cidade. Abaixo para comparação da situação da cidade nos anos oitocentos, juntamos dois detalhes das plantas, considerando somente o traçado do centro urbano de Paraty.

 O que se pode notar de mais evidente é o crescimento da área litorânea que embora possa se tratar somente de um detalhe acrescentado na mais recente e desprezado na mais antiga, tanto pode indicar diferenciamento de nível das marés como real avanço do assoreamento mar adentro.

Ainda que existam outros mapas, no que tange ao levantamento comprometido contratualmente, pode-se dar o mesmo por satisfeito. Caso existam novas fases do trabalho, esta pesquisa pode ser complementada, com o aprofundamento da mesma em outros arquivos.

O município de Parati dista cerca de 170 quilômetros da capital do Estado, sendo servido pela rodovia Rio-Santos, que substituiu em importância a estrada anterior vinda de São Paulo e que passava pela cidade de Cunha. Ainda é muito utilizada a estrada estadual que liga a rodovia Presidente Dutra (Rio-são Paulo), passa por Rio Claro e desemboca em Angra dos Reis, como alternativa.

O clima da região é o Aw de Koppen (quente e úmido), com as temperaturas médias anuais variando em torno de 20º centígrados, (de a 35º c. – máxima – a 14º c. mínima). Clima basicamente mesotérmico, com estação seca marcada e pluviosidade comum para este tipo de ambiente (chuvas intensas, tropicais, de verão e chuvas persistentes de inverno, provocadas por massas frias vindas do sul).

Como parte da cidade de Parati fica abaixo da altitude média do mar, na preamar, é comum ter algumas ruas inundadas quando das marés mais altas, sobretudo em função do plenilúnio. 

Como toda a micro-região da Baía de Ilha Grande, situa-se entre as montanhas de altitudes variadas da serra do Mar e o litoral recortado, por angras, sacos, pequenas baías estreitas, praias de mar aberto e mangues.   

Planta Chorográfica da Província do Rio de Janeiro de 1861 Planta Chorográfica da Província do Rio de Janeiro de 1861 Elementos cartográficos de comparação – centro urbano de Paraty - 1839

  

Esquema ambiental  

Considerando que a cultura é o principal elemento de adaptação desenvolvido pelo homem, em especial após se haver encerrada a fase de adaptação biológica, é sempre recomendável conhecer as principais características ambientais da área em estudo.

O município de Parati, juntamente com o de angra dos Reis, conforma a micro-região da Baía da Ilha Grande. Seu extenso e recortado litoral, possui 62 praias, contornando aquela baía que abriga um total de 42 ilhas. Nela deságuam mais de duas dúzias de rios, que nascem na serra ainda coberta de luxuriante mata atlântica (ou também chamada “floresta latifoliada tropical”, ou ainda “higrófila costeira”). Atingindo as praias ou as restingas do litoral, criam uma série de ambientes diversificados, em especial os mangues (da zona de transição) e alagados (tabuais). São comuns os “matacões” (grandes seixos) de granito ou gneis, que para a maioria dos geólogos são testemunhas dos pluviais intensos do “ótimo climático” (6.000 a 4.000 anos passados), ainda que para outros comprovem justamente o contrário. Para estes, tais rolamentos de rocha indicam o avanço de glaciares mais antigos. Tais glaciais poderiam deslocá-los  das suas inserções naturais nas montanhas, por força de erosão física, quebrando-os em blocos, que seriam posteriormente arredondados pelo empuxo das frentes das geleiras (morrainas ou morenas). No caso dos pluviais, hipótese mais viável, seu deslocamento das vertentes e arredondamento seriam resultantes da associação da erosão física (quebra por choques provocados pela alternância de temperatura) com a erosão química, por força das chuvas quase permanentes. Independentemente da sua origem, no entanto, tais blocos erráticos, juntando-se nos vales, formavam áreas cobertas aproveitadas pelos antigos habitantes para residência permanente ou sazonal.

Estes contavam com os abundantes recursos da mata, espécimes vegetais (troncos, folhas e palmitos, frutas e raízes) desde cedo garantiram coleta farta para populações reduzidas, assim como provisões de proteínas animais obtidas na diversificada fauna tropical.

O aspecto geral deste litoral, com razão denominado de “Costa Verde” ainda representa o que deve ter sido o panorama dominante no altitermal (o “ótimo climático” já citado) com os morros e montanhas vegetadas mergulhando no oceano. A linha de costa fica assim recortada em angras, cabos, baías, promontórios, ilhas e golfos, abertos ou fechados em função do relevo.  E tal período da pré-história é bem reconhecido como aquele mais propício e afluente para o aprovisionamento das sociedades que ali se estabeleceram.

Por todo este complexo e em função das alterações ocorridas, sobretudo nos períodos mais recentes, com o resfriamento e ressecamento gradual do macro clima, as adaptações culturais sofreram incentivos sensíveis. A eles se somaram as trocas de experiência, a difusão de novos conhecimentos, os deslocamentos sociais, de forma a construir um panorama ainda pouco conhecido até a chegada dos conquistadores europeus.

Esquema cultural                     

Graças aos trabalhos citados, conhecem-se hoje cerca de uma centena de sítios, localizados desde o litoral marinho e nas margens dos inúmeros rios locais; em praias abertas, grutas nas florestas, até os mangues e nas restingas, espalhados pelas praias ou nas encostas abruptas da serra.

Primeiro Grupo – Inclui os sítios mais antigos, formados basicamente, ainda que não exclusivamente conchas marinhas (uni ou bivalves) são os “sambaquis”.

Uma primeira categoria engloba aqueles sítios localizados em campo aberto bem próximos ao litoral. Estão espalhados pelas ilhas, em praias e nos mangues e representam um tipo de preferência econômica de povos que se adaptaram à coleta animal e vegetal.   Em campo aberto são mais comuns na área de Angra dos Reis e são poucos os sítios do tipo identificados em Parati. Entre estes o sítio da “Ponta Grossa”, localizado na base do morro de igual nome, registrado por Nanci de Oliveira (Cadastro IPHAN s/d). Também nas fraldas do morro onde se situa o forte “Defensor Perpétuo” existia um deles, aparentemente não registrado.

Tânia Lima (Cadastro IPHAN 2007) registrou o sítio “Da Ilha dos Cocos”, na enseada de Paraty Mirim, um sambaqui típico na parte norte daquela ilha, de significativa extensão para os padrões locais (80 m2).

Sambaqui na Ponta Grossa de Parati, bastante vandalizado, sem mais dados.

O material cultural se caracteriza pela existência de artefatos líticos, destacando-se os batedores e percutores de seixo, assim como lascas de quartzo. A indústria óssea é formada por pontas de ossos leves, artefatos de vértebras perfuradas. Em termos gerais, não locais, as populações sambaquianas apresentam compleição robusta, pelo consumo de proteínas da caça e, sobretudo da pesca e consumo de moluscos. Caracteristicamente seus dentes apresentam grande abrasão, limados pelos grãos de areia que costumeiramente acompanham tal alimentação.

Uma segunda categoria é aquela representada por sambaqui litorâneo mas localizado em um abrigo de boas proporções. Trata-se do abrigo escavado por Mendonça de Souza (op.cit) na praia do Jaraguá, batizado com o mesmo nome, no morro do Bom Retiro, em sua base pantanosa, próximo ao rio Draga. Indústria lítica numerosa e semelhante aos sambaquis comuns, destacando-se 68 peças de quartzo, granito, e gnaisse, como furadores, quebra-cocos, batedores, etc. Artefatos sobre ossos de peixe e dentes de animais (tubarões, golfinhos, porcos do mato, macacos, etc). Foram exumados dois sepultamentos de adultos em decúbito lateral com acompanhamento funeral formado por elementos decorativos. Em bom estado de conservação, com dentes que revelam pouca abrasão e cáries. O autor conclui que a caça não era muito praticada, por pouca freqüência nos setenta centímetros de espessura da estratigrafia escavada      

A terceira categoria inclui os sítios do mesmo tipo, porém distanciados do litoral, em especial ocupando pontos cobertos, locas e abrigos entre os matacões. Em tais sítios foram sempre recolhidas evidências de consumo de moluscos, ainda que também subsistam outros restos alimentares.   

O mesmo autor se refere a dois sítios denominados “Ponta Leste I” e “Ponta Leste II”, entre blocos isolados, com boa indústria lítica, incluindo pontas ósseas de aves e peixes, além de esporão de arraia e adornos de vértebras, dentes de tubarão, etc.

Destacam-se nestes sítios três sepultamentos, em covas rasas, sendo que se diferenciam dos sambaquianos pela existência em alto grau de cáries dentárias, indicando o consumo de açúcares (carbo-hidratos).     

Mendonça também pesquisou o sítio abrigo de Parati-Mirim, nas bases do morro do Cerro Grande, próximo, portanto da área focal deste Relatório. Recolhidos artefatos líticos, dentes de porco do mato, mão pelada e tubarões perfurados. Seixos e lascas de quartzo completam o acervo.

Parnes (op.cit:129/s), descrevendo os trabalhos procedidos na região de Trindade, em Parati, se refere a uma série de sítios. Entre eles, se enquadra nesta categoria o sítio denominado “Loca do Defunto”, em meio à mata , em encosta de boa altitude, onde forma registradas evidências de enterramentos fragmentados, com acompanhamento funerário (colares de dentes de tubarão, presas de animais perfuradas, adornos de espinha de peixes, etc). O mesmo autor também se referencia à Toca do João Raulino, situada em Paraty Mirim, pesquisada em 1976, onde foram coletadas principalmente evidências líticas (raspador e buril), malacológico e ósseo. Recomenda-se igualmente uma visita ao local quando da realização de pesquisas mais profundas na região.  

Uma quarta categoria é definida pela existência de sítios em abrigos, de composição semelhante aqueles descritos, mas com a ocorrência de cerâmica. Mendonça (1977) se refere ao “Sambaqui do Olho DÁgua”, localizado nos contrafortes do Morro da Mãe d`água, a 350metros de altitude, próximo a um riacho e a quilômetro e meio do mar. Ainda que as conchas não sejam predominantes nota-se grande consumo das mesmas. O material cultural assemelha-se ao dos sambaquis, porém o autor registrou a ocorrência de alguma cerâmica (não identificada) e uma indústria lítica “pouco sofisticada”.

O que caracteriza este conjunto aparentemente testemunha da mais antiga ocupação local é o tamanho reduzido dos sítios, a ausência de cerâmica (ou sua ocorrência muito rara) e, sobretudo, a presença de restos malacológicos.

Os dados disponíveis são insuficientes, no entanto, para tornar possível a identificação cultural dos sítios de acordo com as tradições já conhecidas para o litoral fluminense. Falta, em especial, um número representativo de restos esqueletais. Aqueles já recolhidos apontam para a existência de populações que mesmo mantendo um alto grau de consumo de origem marinha, representada pelas conchas e animais oceânicos, também consumiam preferencialmente alimentação de origem vegetal (cáries e desgastes peculiares).

Segundo Grupo - Um segundo grupo é representado pelos sítios em que foram encontradas evidências claras de cerâmica indígena, ou pré histórica. Mendonça de Souza (op.cit) relata a descoberta de sítios com sua presença (sem esclarecer em detalhes sua tipologia) nos sítios cobertos “da Ilha Pelada”, “Ilha da Cotia” e “Toca dos Caboclos” (esta ultima homônima ou a mesma pesquisada por Dias Junior (1971) anteriormente, com material neo-brasileiro).

Aquele autor, no entanto, destaca a pesquisa efetivada no sítio da “Praia de Fora”, com estratigrafia de sessenta centímetros de espessura, onde foram coletados 42 cacos de cerâmica com características da Tradição Tupiguarani. Ainda que em número reduzido, esta apresenta decoração plástica (ungulado, acanalado, o escovado e o corrugado) e pintada (engobo branco com linhas ou faixas vermelhas). É interessante a observação de que predominam as bases planas, geralmente associadas à sua colocação em mesas, o que a ligariam já ao período histórico.

Dias Junior (1971) localizou um sítio desta categoria na “Toca do Cavalo”, com restrito material cerâmico, indígena de filiação tupiguarani, com material corrugado, engobado de branco e com restos de pintura vermelha sobre branco. Algum material conchífero associado (Lucina s.p. e Anomalocardia s.p).

Terceiro Grupo - Predominante, constituído por sítios com a presença de cerâmica neo-brasileira pode ser dividido em duas categorias.

A primeira categoria é formada pelos sítios proto históricos, isto é, aquele em que a cerâmica neo-brasileira se associa ao conjunto de material semelhante ao encontrado nos grupos anteriores, sendo a cerâmica dominante, com muito pouca ou sem associação ao material cultural do período histórico, colonial.

Mendonça de Souza classifica treze sítios desta categoria, todos associados a espaços cobertos. Entre eles deve se dar destaque à “Toca de Parati-Mirim”, na área especifica desta pesquisa.

Tratam-se de locais de pequenas dimensões (o maior com cerca de quarenta metros quadrados, a “Toca da Caixa D’Aço I”) próximos à nascentes ou córregos das encostas montanhosas, com cerâmica no nível estratigráfico superior, sobre níveis pré-cerâmicos mais profundos. A descrição do material não a enquadra exatamente nos padrões neo-brasileiros tradicionais, levando à possibilidade de uma interpretação variável, associando-a, possivelmente à Tradição Una, reconhecida para outros locais do Estado. Neste caso se impõe uma nova leitura, com reabordagem do acervo recolhido.       

Com cerâmica tipicamente neo-brasileira, Parnes (op.cit.) identifica seis sítios dentro desta categoria, cinco dos quais na região de Trindade e um nas proximidades da cidade de Parati (Toca do Cassununga). Neste se destacou o salvamento de restos esqueletais em bom estado de conservação. Infelizmente os dados sobre a situação das mandíbulas não estão completos. O material cerâmico se encontrava nos níveis superiores, podendo indicar uma reocupação e era constituído de fragmentos escassos.  

Dias Junior (op.cit.) registrou o Abrigo VI, na serra dos Caboclos, em que a cerâmica neo-brasileira ocorreu em mistura com alguns exemplares vinculados à Tradição Tupigurarani, do mesmo tipo daquela encontrada na Toca do Cavalo.

Esta categoria tanto pode indicar locais do início do povoamento da região, ainda com forte influência indígena e pouca significância colonial, quanto locações relativas a agrupamentos isolados do tipo quilombola, portanto mais recente. Neste caso seria significativo o fato de serem encontrados locais próximos com Fornos de Farinha (Caixa D’Aço II e Loca do Cazusa (Mendonça, op.cit.).         

A segunda categoria é aquela em que a cerâmica neo-brasileira ocorre associada ao material colonial, histórico, sobretudo representado por louça, artefatos de ferro, vidro, etc.     

Dias Junior (op.cit.) determinou a fase Parati, desta Tradição. Nela se incluem tanto sítios de Parati quanto de Angra dos Reis.

Destacando os sítios localizados em Parati. Em ilhas da enseada foram registrados quatro deles (ilhas da Bexiga, Comprida, de Itacá e Ventura II) todos em campo aberto; em praias, outros quatro (Jabaquara, Djanira, Mamangaba ou Pimenta e Tocas) e na cidade, na foz do rio Piquiri-açu, no antigo curso do rio, hoje retificado o último deles. Dois sítios se localizam em abrigos, um deles no litoral outro (Abrigo nº IV, Corumbê) e outro na serra (Toca dos Caboclos, no vale do Corumbê).  

Destaque-se o fato de que o material é relativamente escasso. Excetuava-se o material rolado encontrado em boa quantidade nas margens do rio antes da sua retificação, no trecho urbano da sua foz. Com surpresa, numa das visitas à cidade, na década de setenta, a equipe do IAB constatou que uma das lojas de comércio oferecia à venda, cacos daquele material como suvenir.  

A cerâmica típica é acompanhada por cachimbos de barro, louça colonial, artefatos de ferro, raros fragmentos de porcelana, etc.

Em Angra dos Reis, outros sítios completam a fase: Quatro deles nas Ilhas (da Fitinha, Pequena e do Bigode, I e II); na Ponta da Ubá (um sítio); no Saco do Bracuí, dois (sítios do Aranda I e II), na vargem do Corumbê o sítio Toca dos Caboclos II e um na restinga (sítio da Picota),    

Sem dúvida associados a esta mesma fase se encontram os sítios registrados por Mendonça de Souza (op.cit) na Trindade (I, II e III), e outros dezessete espalhados pela região.

Quarto Grupo – Sítios Históricos. Caracterizados, sobretudo, pela existência de estruturas arquitetônicas.

Pelo menos dois locais com estruturas foram pesquisados na área de estudo.

Primeiro Local - O mais importante para este Projeto é aquele vinculado ao COMPLEXO ARQUEOLÓGICO RUÍNAS DE PARATY MIRIM. O trabalho foi dirigido pela arqueóloga Claudia Regina Plens, durante o ano de 2008. Além do detalhamento da planta do sítio, composto, pelo menos, por dois conjuntos principais foram recolhidas peças históricas em escavações controladas, remontando ao século XVIII e XIX. Destacam-se fragmentos de louça importada (em especial “companhia das índias”, cerâmica colonial e neo-brasileira, artigos de ferro, vidro e moedas do século XIX, de 20 e 40 réis).

Um dos conjuntos, situado do lado direito de quem chega ao local pela estrada é o mais complexo e apresenta uma série de colunas ainda em pé e paredes ao rés do chão. Mesmo se concentrando na área da praia, evidências de outras estruturas se alongam no sentido contrário da estrada, ocupando terrenos não pesquisados, inclusive aquele vizinho da área onde deverá se localizar a sede do Parque.

O outro conjunto, situado do lado oposto da estrada e que se alonga em ângulo de 90º com o primeiro é formado por ruínas ainda com paredes, referentes a pelo menos duas casas, uma das quais com telhado arruinado. Tais construções são vizinhas à Igreja local, recuperada e em uso.  

Segundo Local – Sitio histórico e ecológico do caminho do ouro SH-ECO/ Distrito de Souza. Paraty – Constando da ficha do IPHAN, também com o nome de “Caminho do Ouro”

Ruínas em pedra seca de três aposentos com material arqueológico – histórico dos períodos coloniais e império, como: cerâmica, ferro, vidros, carvão, balança e peso, configurando um estabelecimento regular para cobrança de impostos sobre mercadorias e fiscalização de viajantes, conhecido como registro. Situado no caminho do ouro, cercado por longos muros, com pouso de tropas anexo, ainda não prospeccionado.

Consta do livro “A História do Caminho do Ouro em Paraty”, de Marcos C. Ribas (2003:87/s), que a prospecção foi executada pela arqueóloga Maria Luiza de Luna Dias em 2002, com a localização e exposição do complexo das estruturas da Casa de Registro daquele caminho. Coletado também variado material arqueológico, que segundo informes se encontra arquivado na sede do Instituto Histórico e Artístico da cidade.   

Na ficha do IPHAN consultada, há referências complementares, como o nome do proprietário das terras (Sr.Marcos Caetano e endereço: Rua Dona Geralda, 327). Acesso: 12 Km de Paraty na direção de Cunha, até inicio da trilha, mais 3 Km a pé até o sitio histórico e ecológico do caminho do ouro. Medidas: 14,25 metros, de largura 6,25 metros, altura de 1,80 metros e área total de 89,062 metros quadrados.

Nome do documento cartográfico: Cunha-folha SF-23-2-C-11 no ano de 1974,Escala pelo IBGE: 1:50:000

Estratigrafia: uma camada arqueológica de 5 cm a 1 metro e meio (declive) de profundidade, com dotação relativa de mais ou menos 1790 a 1845.

Vestígios líticos (devendo se referir às estruturas e não ao material coletado): ruínas e muros em pedra seca dos períodos coloniais e imperial.

Material histórico: sítio arqueológico histórico: ferro, faiança, vidros, cerâmica, etc.

Síntese da Etno-História da Região

A reconstituição das características do período imediatamente anterior à conquista européia do século XVI é mesmo hoje prejudicada por três fatores principais:

O primeiro fator diz respeito ao povoamento indígena da região à época da chegada dos europeus. Ainda que repetida praticamente, e sem muitas variações, em todas as publicações que se referem à história de Paraty e áreas vizinhas, a afirmação de que o povoamento indígena naquele momento era de povos goianás (“Goias” ou “Goianazes”) esta simplificação parece se encontrar bem longe da realidade. Isto porque não existe ainda uma clara concordância no que se refere a tal população, sua vinculação genética ou lingüística e características culturais e sociais.

O segundo fator se refere, justamente, à falta de caracterização das suas manifestações de cultura material pelos antigos cronistas, escritores ou historiadores posteriores, fato que dificulta – em muito -  a vinculação com o material arqueológico da mesma área, praticamente impedindo análises comparativas e contextuais.  

O terceiro fator se relaciona à falta de datações exatas disponíveis para a área. A maior parte dos registros cronológicos se vincula à tipologia dos artefatos, em especial pelo fato de que estes se constituem, basicamente, de peças históricas.

Faltam datações (obtidas por quaisquer dos métodos atuais) referentes à pré-história do monicípio.  

Ribas (op,cit:61) e Mello (2009:19) entre outros e só para citar os mais recentes historiadores da região apontam tal filiação indígena, repetida também pelos arqueólogos que atuaram na área, em especial Parnes (op. Cit:75/s), este já discutindo suas vinculações culturais. As bases de tal associação se prendem aos mais antigos cronistas, como, por exemplo, Hans Staden (1554) que se referindo à Capitania de São Vicente a faz habitada pelos “Wayaganá” ou A. Knivet (Ed.1625) que em 1595 conviveu com os mesmos na Ilha Grande. Os dois delimitando assim, a extensão dos seus domínios. É, no entanto, em Gabriel Soares de Souza que se encontra a melhor descrição das suas características (1587, Ed. de 1987:115). Numa primeira análise parece claro tratar-se de um grupo estável, bem definido, e sem maiores parentescos com os tupi-guaranis que dominavam a costa na mesma época. Sobressaindo o fato de que não combatiam por glória; não possuíam cerâmica, nem consumiam carne humana, ritualisticamente ou não, principais características do grupo Tupi.

Isto não impediu, no entanto, que nas primeiras décadas do século passado etno-historiadores como H.Von Hiering (1895 e 1904) e Theodoro Sampaio  (1897) tenham mantido discussão a respeito das suas filiações lingüísticas. O segundo procurando argumentos que justificassem sua opinião de que pertencessem ambos ao mesmo grupo, do que discordava o primeiro. Ambos, no entanto, ainda que utilizassem as fontes com precisão, tanto parecem encontrar subsídios para provar seus pontos de vista quanto para negá-los. Sem dúvida parece tornar-se evidente que a vizinhança, os contatos e o longo período de convivência provocaram trocas culturais de importância e a possibilidade de mútuo entendimento entre os povos tupis e eles.

Uma observação de importância, no entanto parece ter passado despercebida, pois uma das características fundamentais dos povos tupis era a do nomadismo restrito em busca de um paraíso perdido, já muito estudado e discutido, e que foge aqui ao nosso intento. Os Goia, no entanto, pelo que se configura pelo estudo das suas peculiaridades, se aproximam dos costumes Gê de maior fixação, como os Goitacaz, por exemplo. Não há mesmo impossibilidade que com o avanço dos estudos, novas pesquisas e descobrimento de documentos ainda inéditos, um dia seja possível estabelecer vinculação profundas entre Goia e Goitacaz, ambos aparentemente Gê.       

As pesquisas arqueológicas já visualizadas aqui apontam para a existência de intrusões de grupos Tupi na área, em minoria, porém presentes e que poderia explicar tais relações detectadas pelos pesquisadores citados acima.

Independentemente, portanto, de tais discussões, fica evidente que a região em foco era habitada pelos grupos genericamente reconhecidos como “Goianazes”, ou “Goia”, que possuiriam pelo menos dois diferenciais (registrados por Theodoro Sampaio, em especial) relativos aos povoadores do litoral e da serra. Confrontariam pelo sul com os “Kaigangs”; possivelmente – um dia - com os Goitacás ao Norte e com os Tupi por todos os lados. Não é impossível que num distante momento do passado tenham constituído uma única grande tradição. Esta se estenderia do Paraná e Rio Grande do Sul (“Kaigang”), com o centro em São Vicente (“Goia”) e dali ao Espírito Santo (“Goitaká”), perfurada e fracionada pelas vagas constantes dos povos Tupis, que com eles disputavam a região ainda na época da conquista européia. E que, por outro lado, encontraram séria resistência por parte destas tribos.     

Somente o avanço da pesquisa arqueológica, com a identificação das vinculações culturais do acervo cultural coletado tornará possível elucidar tais elementos e estabelecer as necessárias vinculações entre os períodos (pré-histórico e histórico).  

Esta ocupação é a melhor conhecida, bem documentada e encontrada em todas as publicações que versam sobre o assunto. É a própria história do município e foi a preservação das suas evidências arquitetônicas que tornaram possível a inclusão da cidade no “Patrimônio Cultural da Humanidade”.

De acordo com Cyro Corrêa Lyra (2006:137/s) alguns bens patrimoniais específicos podem ser destacados na mesma cidade, começando pela Capela de Nossa Senhora das Dores (dos inícios do século XIX), o engenho da Fazenda Bananal (Engenho das Três Fazendas do Século XVII) e o Forte Defensor Perpétuo (primeira metade do século XIX). A lista inclui também a Igreja Matriz de N. Sra dos Remédios (sés. XVIII e XIX), a Igreja de N. Sra do Rosário (século XVIII), a Igreja de Santa Rita (Museu de Arte Sacra e Cemitério Anexo) do século XVIII e o prédio da Prefeitura (séculos XVIII e XIX).

Notícias sobre a região em que se situaria a cidade recuam ao século do descobrimento. Gabriel Soares de Souza (Ed.1987:109), por exemplo, ao findar aquele século (antes de 1587), menciona o “morro do Caruçu” a nove léguas da ponta da Ilha Grande, ao descrever o roteiro marítimo do Rio de Janeiro a São Vicente. Conforme já foi dito, é ele na pag.115 do mesmo livro que se refere aos Goianázes da  área.

Pouco depois (provavelmente em 1594) também Anthony Knivet contou a respeito dos Guaianazes, a quem visitou na aldeia de Jaguarapipo (op.cit:pag.72). Esta aldeia estaria situada na área de Angra dos Reis, em especial no vale do rio Ariró, pesquisado pelo IAB em 1968 e onde se localizou um sítio neo-brasileiro. Segundo as tradutoras e comentaristas da edição em português (2007) do texto de Knivet (Vivien Kogut Lessa de Sá e Sheila Moura Hue), estes índios orientaram o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides e seus filhos (sobretudo Martim de Sá), na penetração para o interior da Capitania. Estes se utilizavam da “trilha dos Goianazes” em suas expedições de preação de índios.

Tal caminho, segundo as observações de Theodoro Sampaio (apud. Kogut&Hue:op.cit: 77) se iniciava naquela aldeia, alcançava a Serra do Mar, atravessando-a nas cabeceiras do rio Bananal e seguindo em direção Norte, alcançava o rio Paraíba, dali o rio Turvo e alcançava a Serra da Mantiqueira.

Mapa das viagens de A. Knivet no Brasil (Hue & Lessa, 2007: 28-29) Mapa das viagens de A. Knivet no Brasil (Hue & Lessa, 2007: 28-29)

Aquela que é possivelmente a mais antiga referência à Parati consta do mesmo livro de “aventuras e infortúnios” do Knivet (pag.93) que se refere ao fato de que no dia 14 de outubro de 1597 partiu do Rio de Janeiro em companhia de Martim de Sá. O objetivo da viagem era fazer guerra aos tamoios, ajudando seus aliados Guaianazes que haviam sido derrotados recentemente pelos mesmos. Segundo ele, setecentos portugueses e dois mil índios aliados embarcaram em seis canoas (450 pessoas por canoa!) e seguiram pelo mar “até um porto que fica a umas trinta milhas do Rio de Janeiro, chamado Paraty”. Penetrariam pela trilha que alcançava o território de Minas Gerais pela “rota indígena que viria a ser conhecida como caminhos da serra do Facão” (op.cit:93). No mapa acima esta rota figura em linha cheia de cor preta (Fig.30).  

Segundo outra fonte, uma que pode ser ainda mais antiga referência, mas a qual falta a data exata, pertence a um documento anônimo, cujo original se encontra na Biblioteca da Ajuda de Lisboa. Trata-se de uma carta do Secretário de Estado, Mendo de Foyos Pereira, a respeito do caminho para o local das jazidas ou minas de “pedras minerais” “que passava por um lugar chamado de Paratihy” (Anais da BN vol.7:173). Para nós parece sem dúvida ser mais recente.

Não se sabe exatamente quando começou a colonização de fato da área que Knivet chama de “Porto de Parati”, mas a quantidade de sítios neo-brasileiros aponta para uma ocupação dispersa e ampla. Como já tratamos, são sítios pequenos, alguns aproveitando a existência de áreas cobertas, abrigos e cavernas entre os matacões isolados nas serras mais baixas ou no litoral, assim como áreas abertas nas proximidades. Provavelmente foram, de início, ocupadas as margens dos rios (sobretudo daqueles três que desembocam nas proximidades do sítio da cidade). Desta forma, ao que se pode deduzir, antes mesmo das distribuições de sesmarias, populações aculturadas ou miscigenadas se distribuíram pela área, provavelmente beneficiada pelo comércio de gêneros e de gente (escravos índios) que transitava pelo caminho da serra do Facão.

Ainda no século XVI (29 de dezembro de 1593) foi concedida aquela que parece ser a mais antiga sesmaria datada na área específica deste estudo, dada a Miguel Aires Maldonado (também possuidor de vastas sesmarias no Rio de Janeiro) e recebida do Capitão Geral de São Vicente. Dom, Lopo de Souza. Légua e meia de terras em quadra na Ponta de Cajaíba, limitando pela costa ao norte com o rio Paratimirim, com todas as terras, pontas e ilhas, incluindo a ponta de Cairuçu, Joatinga, Pouso e Paratimirim. Seria esta a primeira cessão de terras da nossa área específica de estudo (segundo Gurgel & Amaral s/d:28).  Numa das pontas de sua propriedade, num outeiro próximo à praia se instalariam os frades do Carmo, fundando seu mosteiro em 1590, segundo Alípio Mendes (“O Convento de Nossa Senhora do Carmo da Ilha Grande”, 1980). 

Em seguida consta aquela concedida em 9 de janeiro de 1595 a Sebastião Leme, Antonio da Costa e Belchior da Veiga, de uma légua em quadra para cada um, no rio Paratiguaçu. A série de concessões segue pelo século seguinte, demarcando a ocupação da região. Na área do Mamanguá, vizinha de Parati Mirim, se destaca a concessão de meia légua de terras concedida a Francisco Farel em 1620.

Durante as primeiras décadas do século XVII a região pertencia à Condessa de Vimieiro, herdeira e donatária perpétua da Capitania de São Vicente. Era Capitão Mor e seu Loco Tenente uma das figuras mais complexas da época, o cristão novo João de Moura Fogaça. Ele foi instituído nesta função pelo seu irmão Matheus, primeiro procurador da Condessa.

Segundo Salvador, (1976:79/80) na disputa de uma faixa de terras entre as capitanias pertencentes ao Conde de Monsanto e à condessa de Vimieiro, Matheus de Moura Fogaça fora nomeado ouvidor e capitão mor de São Vicente, procurador dos interesses de Dona Mariana de Souza de Guerra. Tomou posse em 30 de novembro de 1622 dos dois cargos, com jurisdição nas 100 léguas que pertenciam à Capitania de São Vicente. Em 26 do mesmo mês substabelecera o seu irmão João como procurador da Condessa.

Segundo Pizarro (II,74/s), seria João de Moura Fogaça o verdadeiro fundador da Vila de Angra dos Reis, nos primeiros dias do mês de outubro de 1624. Mas, segundo ele já existia uma vilazinha antes, talvez dos finais do século XVI, a chamada Vila Velha, na Ilha Grande, execrada por aquele autor pelo fato dos vizinhos terem assassinado seu cura em 1617. Trata-se, no entanto, de uma longa história que não se enquadra aqui.

Nesta condição e procurando manter na linha os turbulentos moradores daquela Ilha Grande, até onde se estendia sua jurisdição, o Capitão João Fogaça teria fundado a vila de Angra dos Reis. De acordo com Alípio Mendes (op.cit.), no entanto, como já citamos, os frades do Carmo estariam instalados na mesma vila alguns anos antes, pelo menos desde 1590. Em 1621 erigiram uma igreja nova. Com o assassinato do vigário da Vila Velha em 1617 os seus habitantes começaram a se mudar para as proximidades do convento, para assistência religiosa. Eles conseguiram novas terras, doadas pelo Capitão Fogaça ao Carmo do Rio de Janeiro a quem estava subordinado o Convento de Angra. João de Moura Fogaça, como procurador da Condessa de Vimieiro, doou tais terras na Ilha Comprida, daquela baía e mais duas léguas de terra para o sertão, sesmaria devoluta que pertencera a Manuel Antunes “capitão que fora da Ilha Grande”.  Passada em Santos em 8 de novembro de 1622.

Conclui-se assim que o que fez João de Moura Fogaça foi instalar oficialmente a vila nas proximidades do convento que já existia e atraía a população de toda a área.

Também segundo Monsenhor Pizarro, que visitou a vila de Parati em 1794 e 1799 (Marina de Mello e Souza, 2008:36) os antigos moradores locais afirmaram que o primeiro povoado do lugar se localizava no alto do morro do Forte (então chamado de Vila Velha). A capela local era dedicada ao culto de São Roque e teria sido erigida nos inícios do século XVII. Em 1660 a economia paratiense se encontrava decadente, gerando desconforto e protestos da população, com a fama de que a cidade era “valhacouto de malfeitores”. Chegando a ponto de se revoltar, o Senado da Câmara local instituiu o pelourinho (símbolo de autonomia e de poder de exercer justiça), o que forçou o reconhecimento real da categoria de Vila por Carta Régia de 1667.

Para tanto foi fundamental o fato de que – até então – ali tinha início o único caminho que ligava o litoral ao interior do país. Nesta época a vila já havia se localizado nas margens do rio Paratiguaçu (hoje Perequêaçu) e passado para a proteção de Nossa Senhora dos Remédios. Com isto se separou da Paróquia da Ilha Grande.            

Ao correr do século XVII o cultivo da cana de açúcar se desenvolveu por toda a Capitania, com a criação dos engenhos e das engenhocas com seus alambiques. A produção da cachaça cresceu, servindo, inclusive de moeda para a compra de escravos africanos. A concorrência com a aguardente portuguesa (a “giribita”), com o mesmo fim no mercado, gerou problemas para a economia, tendo sido mesmo proibida sua produção, felizmente logo anulada até mesmo por instância dos governadores da Capitania.

É, sem dúvida interessante, o fato de que antes de findar o século e da descoberta das minas principais, Parati já fosse assolada por piratas. Segundo Parnes (op.cit:48) foi localizado no Cartório do Segundo Ofício da Cidade um livro de 1680 em que foi registrada a ordem do Conde da Ilha do Príncipe mandando um oficial vigiar com seus homens, dia e noite a cidade. Ordena-se a seguir a construção de cinco fortes no século seguinte.    

Mas foi a descoberta das minas, no final daquele século que garantiu o crescimento da vila. O “caminho do ouro” trouxe-lhe uma importância maior ainda do que aquele do comércio comum. As primeiras minas de ouro foram encontradas por volta de 1695 no ribeirão de Ouro Preto, Ribeirão do Carmo e Rio das Velhas, denominadas como as “minas de Cataguazes”.

Três nomes de bandeirantes se tornam o ícone desta aventura. É em função das bandeiras bem sucedidas, ainda que com muito sofrimento e após muitas dificuldades que Fernão Dias, Garcia Rodrigues Pais (seu filho) e Manoel Borba Gato (seu genro) finalmente encontram minas suficientemente valiosas para custear sua exploração com muito lucro. Teve início então o “Ciclo do Ouro”, ou “das Minas”.

Mapa do Caminho do Ouro (Ribas:2003:30)

E o caminho de Parati ou Serra do Facão é o único que permitia o escoamento das riquezas e o abastecimento da população que acorreu de todas as partes em busca da fortuna, despovoando partes do nordeste, do litoral da Bahia ao Rio de Janeiro e São Paulo. Por ele passaria a comitiva do Governador do Rio de Janeiro, Arthur de Sá e Menezes no final do século. Este mesmo governador tomou a iniciativa que aumentaria exponencialmente a importância do caminho ao proibir fosse usado o “caminho do sertão”, que vinha da Bahia. Somente gado poderia transitar por ele, ficando reservado todo o restante ao caminho de Parati (em 1702).

Além de “escabroso e difícil” como se dizia então, ainda se lhe somava o percurso marítimo entre Parati e o Rio, para completá-lo, tornando-o também extremamente perigoso, fosse pelas dificuldades e fragilidades da navegação frente aos elementos naturais, fosse pela presença dos piratas. 

Tornava-se necessária a abertura de uma nova via - um “caminho novo”-, planejado, que o substituísse. Sob a responsabilidade do Garcia Pais este foi finalmente completado, ou dado como concluído em 1725. O fato de encurtar significativamente o tempo da viagem, reduzindo-a de muitos dias, provocou novo e forte afluxo de aventureiros, colonizadores, escravos, comerciantes, tropeiros e todas as instalações necessárias para abrigo ou residência de tanta gente. Assim como aquelas destinadas fosse ao registro do ouro (1703 em Parati e Santos), fosse às tropas de transporte e milícias de vigilância e combate ao contrabando florescente. 

O incremento da mineração e a riqueza gerada pela exportação dos metais e pedras preciosas, fez com que as autoridades régias criassem a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, em 1720. A ela foi anexada a vila de Parati, que só retornaria ao Rio de Janeiro cinco anos depois. Nesta fase, segundo Parnes (op.cit:47) existiam mais de 1900 prédios, “na maioria sobrados ricos, 102 alambiques e 20 usinas de açúcar”. Registre-se que alguns destes dados são nitidamente enganosos. Primeiro que “usina” é um termo designativo das fábricas do século XIX/XX, movidas a vapor e mais tarde combustível, Além disso refinavam o produto, coisa que os engenhos não faziam. Segundo, que em relação ao número de casas deve ter havido erro de datilografia, sem dúvida seriam 190 residências.       

Ao longo do século XVIII a documentação aumentou substancialmente, toda ela se referindo ao crescimento da área, às dificuldades do trânsito, mas reforçando a importância daquele caminho, agora chamado de “Caminho Velho”. Depois de um período de proibição de seu uso, naquela época, voltou a ser permitido seu trânsito. Por documento datado de 1775, por exemplo, a viagem que fez Martim Lopo de Saldanha, que saiu do Rio de Janeiro para assumir o cargo de Governador de São Paulo parece demonstrar que este era ainda o melhor para uso. Isto devido ao lastimável estado do “Caminho Novo” e as dificuldades da rota marítima por Santos e Cubatão (Ribas, 2003:41). 

De acordo com Marina de Mello e Souza, no entanto, tal via não foi tão significativa para o crescimento e enriquecimento dos habitantes da cidade como geralmente se supõe. Para aquela autora, a sua maior contribuição para que Parati mantivesse “participação significativa no quadro da economia colonial” se fez “enquanto local de comércio de gêneros que contribuíram para o abastecimento das minas e de produtora de aguardente”, de primeira qualidade, diga-se (2008:46). Como prova da sua afirmação comenta as dificuldades que a população encontrou para erigir seus templos ao longo do tempo.

Já nas décadas finais da primeira metade do mesmo século, a população começava a sentir o enfraquecimento econômico, pela diminuição do transito e do comércio, em grande parte desviada pelos novos caminhos que se estabeleciam ligando a sede da Capitania às minas. Por outro lado, no entanto, mesmo que mais dependente do controle externo do que a mineração, a produção de açúcar e aguardente cresceu cada vez mais. Chegou a tal ponto que Parati passou a ser sinônimo de Cachaça.

Nesta fase o “caminho velho” passou a ser mais utilizado como via de comércio escravocrata e, no século seguinte como escoadouro da produção cafeeira do vale do Paraíba. Por volta de 1746 abrigaria uma população de cerca de 2.700 pessoas (Mello e Souza, op.cit:47).

Pelo Relatório do Governador Vice-Rei Marques do Lavradio a Freguesia de N. Sra. dos Remédios de Parati, em 1777 contava com 560 fogos  (casas, perfazendo 4.58% da população livre da Capitania) e tendo cinco engenhos (não mais do que 1,0% do total de engenhos que nela existiam). A produção dos mesmos era de setenta e três caixas de açúcar por ano (1.46% do total) e 1.554 pipas de aguardente (34.37% da mesma, que chegava a 4.521 produzidas em toda a Capitania), contando com 1727 cativos (com um percentual de 15.42% da mão de obra provincial). Possuía 67 engenhocas (alambiques, 36.02% do total) que produziam uma quantidade de pipas não levantadas (e que devem estar incluídas junto com aquelas dos engenhos). Em relação a outros gêneros, sua produção era de 14.533 alqueires de farinha (ou sejam 4.50% dos 333.555 alqueires da Província fluminense); 2.208 de feijão (3.39% do total), 952 de milho (1.45%) e 1.302 de arroz (2.24%).

Em que pese a fama de Parati, no mesmo levantamento Angra dos Reis possuía 808 fogos (casas, 6.61% do total) com dez engenhos funcionando (2.01%), produzindo 222 caixas de Açúcar (4.46%), mas somente 149 pipas e um total de 2862 cativos(25.56% dos 11.193 escravos declarados). Batia Parati no número de engenhocas, tendo sido registradas 82 delas (44.08% do total), produzindo 808 pipas de aguardente que somadas àquelas dos engenhos totalizam 957 pipas, da produção total de 4.521 pipas da Capitania, portanto correspondendo a 21.17%.

Comparando os dados, Angra dos Reis na época apresentava sinais de ter se constituído numa grande concorrente de Parati. Possuía mais 248 casas (fogos ou “famílias”); cinco engenhos a mais, que produziam 149 caixas de diferença e com um plantel superior de mais 1.135 cativos. Batia Parati no número de engenhocas produzindo (82 contra 67) e só perdia em relação à produção. Angra produzia 957 pipas, contra 1.554 de Parati (597 pipas de diferença).    

Parece que, sem dúvida a fama da Freguesia ficou consolidada não só pela quantidade produzida, como pela qualidade da cachaça (Arquivo Nacional Códice 71).   

Os dados fornecidos por Monsenhor Pizarro de Araújo (Ed.1946) mostram que entre a data do Relatório e os anos em que visitou a Vila, a economia açucareira demonstrou um notável crescimento. De fato, dos cinco engenhos que funcionavam no citado documento, o visitador afirmou existirem doze engenhos e cerca de cem engenhocas então funcionando. A população subira para – (pelo menos, desde que se trata somente de uma estimativa, sobretudo baseada nos livros paroquiais utilizados pelo Monsenhor, para suas “Memórias Históricas”) seis mil cento e sessenta almas, morando em 950 “fogos”. Ou seja, pelo menos trezentos e sessenta novas casas. Sem duvida, a sensação de empobrecimento se devia mais à restrição do movimento comercial da área do que realmente à diminuição da produção local.       

No século XIX a cidade passou ser um “Condado” sob o titular Conde de Paraty (D. Miguel Antonio de Noronha Abranches Castelo Branco) em 1804. Segundo Ribas (2003:44), naquela mesma data transitaram pelo caminho velho, quase 161.000 cabeças de homens e de animais. Segundo a mesma fonte, citando outro autor (Samuel Costa, s/d) o caminho era então “uma vereda estreita com trechos aqui e ali mal calçados, de grandes lajedos e atoleiros profundos”.

Um dado destoante é aquele do mesmo autor (idem) ao afirmar que em 1820 a vila possuía um total de quatrocentas casas, algumas de sobrado. Sendo verdade a informação registraria uma nova fase real e intensa de decadência em perto de vinte anos, o que dificilmente corresponde à realidade. Pode-se concluir haver erro ou em Pizarro ou na fonte de informação deste autor.     

Nogara (op.cit:49) comenta que durante aquele século, como foi comum para outras regiões da Província fluminense, começaram a chegar migrantes de diversas origens para se fixar na área. 

Em relação à Parati Mirim na mesma época

Embora já habitada antes, inclusive com um engenho registrado no mapa de 1711, a localidade de Paraty Mirim só seria elevada à categoria de Freguesia em 1836, com o título de “São João Batista do Mamanguá”. Somente em 1853 seria transferida para a praia atual (Fazenda de Parati Mirim). É interessante que segundo Paulo Nogara (op.cit:42) a região, ao contrário de Parati seria habitada pelos Tupinambás. Não se encontrou, no entanto, qualquer sítio arqueológico no local que confirme esta tradição. Mas deve-se destacar o fato de que em uma das gravuras que ilustram o livro do aventureiro inglês, ao relatar sua viagem na companhia de tupis do Rio de Janeiro, consta o termo “ocarasu”. O autor citado interpreta como se referindo ao “Pico do Cairuçu”, “a montanha mais alta de Mamanguá”, aliás, como também tem sido referido por outros autores (op.cit:43). Mas esta palavra pode somente identificar a aldeia ilustrada no desenho, pois significa “aldeia grande”.

A região acompanhou o crescimento da cidade de Parati, nela se instalando pelo menos três engenhos, todos com roda d'água. Se os dados do Relatório do Marquês de Lavradio estão corretos, ali se localizava a  maioria deles, desde que são citados somente cinco no mesmo, conforme já comentamos. Mas é possível que tais dados se refiram ao período de crescimento da segunda metade do século dezoito e suas doze fábricas do gênero.

Voltando a Parati.

A vila foi elevada à qualidade de cidade em 1844 e já se configurava com o mesmo traçado do centro histórico mantido até hoje. O almanaque Laemmert  (Setor Provincial) em 1851 se refere ao fato de serem sete ruas, correndo de Oeste para Leste e seis de Norte para o Sul. Discorre sobre o fato de serem casas bem alinhadas, sendo algumas delas assobradadas. As ruas apresentavam o característico traçado formando curvas ou quebras suaves, provavelmente um artifício para contenção da força dos ventos.

Durante o século XIX a estrada da serra do Facão por onde ainda transitavam tropas de muares, frente a acidentes e perdas de animais e até de um arrieiro, e por instâncias da Câmara local, recebeu alguns reparos em ocasiões diversas.

Neste período dois fatos colaboram para a decadência da cidade. O combate ao tráfico negreiro (Lei Euzébio de Queiróz, posta em prática com a anuência do imperador) e a chegada da Estrada de Ferro D. Pedro II a Barra do Piraí, em 1864. Em 1877 seu traçado atinge Guaratinguetá. Com o comércio de mão de obra escrava proibido e a abertura de novos pontos de escoamento de mercadorias, as atividades produtoras e comerciais da cidade entraram em declínio acentuado, como também em outras “vilas de comércio” da Província (sobretudo Piedade de Iguaçu e São João Marcos, como exemplos). Com a libertação dos cativos em 1888, o caminho velho foi totalmente abandonado à natureza, praticamente paralisando seu uso.    

Em contrapartida, em 1925 foi aberta a estrada que permitiria doravante o acesso por automóveis e que aproveitou alguns trechos do caminho antigo. Ela seria utilizada pelas tropas mecanizadas que afluíram a São Paulo na Revolução de 1932, causando-lhe grandes avarias e nova paralisação do seu uso. Ela seria reaberta somente em 1954, à custa de esforços de alguns paulistas interessados em chegar a Parati, já por interesses turísticos. Segundo Ribas (op.cit:50) “uma nova era se inicia para a cidade”.

De fato, a descoberta do potencial turístico de uma cidade colonial regularmente bem preservada e magnificamente situada na paisagem da “costa verde” sul-fluminense, possibilitou o renascimento econômico de toda a região. Incentivou, inclusive, fosse aberto um novo acesso à cidade, ligando-a ao Rio de Janeiro e a Ubatuba, por uma das mais pitorescas estradas do litoral brasileiro, ainda que à custa de inúmeras agressões ao meio ambiente.     

Entre 1958 e 1966 o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombou o município de Parati e o inscreveu como Patrimônio Nacional. Dois anos depois foi desenvolvido o Programa de Pesquisas Arqueológicas no Município Tombado de Paraty, sob a responsabilidade do Instituto de Arqueologia Brasileira sob os auspícios do IPHAN. Estas foram as primeiras atividades de pesquisas arqueológicas de cadastro, prospecção e resgate efetivadas na área. Como resultado foi identificada a fase cerâmica Parati, cujos sítios se espalham até Angra dos Reis. Esta fase é constituída por sítios com olaria vinculada à Tradição Neo-brasileira. Esta cerâmica é a primeira produção cultural tipicamente brasileira, resultante da miscigenação de tradições indígenas, africanas e européias. As fases significam as variações locais (manifestadas em áreas espaciais) segundo as diferentes influências de origem de cada um dos três elementos participantes. Demonstram igualmente a maior ou menor presença de cada um deles na formação das idéias e práticas locais ao longo do tempo. Assim, na Baixada Fluminense a Fase Calundu apresenta variáveis em relação à Fase Parati, significando tais influências diferenciadas a formação diversificada da população que constituía a sociedade popular em cada uma das áreas em que foram detectadas.  

Na década seguinte, com a criação do primeiro curso de arqueologia do Brasil, inicialmente instalado na Faculdade Marechal Rondon e posteriormente passado para a Faculdade Estácio de Sá, pesquisadores da mesma desenvolveram novas pesquisas na área de Parati Mirim, Trindade e Patrimônio, aqui já sintetizadas.

Somente no século XXI se reiniciariam as pesquisas arqueológicas na área, em 2002 pelo projeto de prospecção das Ruínas da Casa de Registro, localizadas no sítio histórico e ecológico do caminho do ouro (Ribas, op.cit:50).

Em 2009 foi efetuada a pesquisa no Complexo Arqueológico Paraty-Mirim, com a execução do Plano Geral e Levantamento Arqueológico. Pela mesma época foram executadas pesquisas do mesmo teor na Praia da Djanira (para os quais, no entanto,  nos faltam detalhes informativos).            

Finalmente em 2011 o mesmo Instituto de Arqueologia Brasileira foi convidado a executar as pesquisas aqui focalizadas, na área onde se pretende localizar a sede do Parque vinculado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEA) e à  Superintendência de Biodiversidade – SUPBIO do Instituto Estadual do Ambiente – INEA.

Pesquisa Histórica: Ondemar Dias

 

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            Editora quanta Ltda, Rio de Janeiro

1999 – De Volta à Estrada Real

            Rio de Janeiro

Lima, Honório

1889 - Notícia Histórica e Geographica de Angra dos Reis

 Niterói, Rio de Janeiro

Lyra, Cyro Corrêa Lyra

2006 – Documenta Histórica dos Municípios do Estado do Rio de Janeiro

            Documenta Histórica Editora – Rio de Janeiro

Maia, Teresa e Tom

2005 - Paraty – Encantos & Malassombras

Editora Santuário – aparecida – São Paulo

Mello, Diuner

2003 – Festa do Divino Espírito Santo em Paraty – Manual do Festeiro

            Estúdio Mercado Editorial

2006 e 2009 – Paraty Estudante

            Inst.Hist. e Art. de Paraty – P.M. de Paraty

Mello, Diuner & Rameck, Maria José

2003 – Roteiro Documental do Arquivo Público de Paraty, 1801-1883

            Câmara Municipal de Paraty – Instituto Histórico e Artístico de Paraty

Mello e Souza, Marina

2008 – Paraty – A Cidade e as Festas

            Ouro sobre Azul, Rio de Janeiro

Mendes, Alípio

1980 – O Convento de N.Sra. do Carmo da Ilha Grande

            Rio de Janeiro

Mendonça de Souza, Alfredo

1977 – Pré-História de Parati

Revista Nheengatu, Ano 1, Nº 2, Rio de Janeiro

 

Nogara, Paulo & Fajardo, Elias

2005 – Mamanguá, Berçário Marinho e Reduto Tradicional de Caiçaras

            Edição do Autor

Parnes, Nilton

1976 – Relatório Preliminar das Prospecções Arqueológicas em Realização no

            Município de Parati – Estado do Rio de Janeiro

Comunicação Apresentada ao V congresso Nacional de Arqueologia – Canelones, Uruguai.

 

Pizarro de Araújo, Monsenhor José de Souza Azevedo

1946 – Memórias Históricas do Rio de Janeiro

            MEC – INL, Bib.Popular Brasileira, VI, vols. 02 e 03

Ribas, Marcos Caetano

2003 – A História do Caminho do Ouro em Paraty

            Conteste Produções Culturais – Espaço Cultural Paraty – RJ

Salvador, José Gonçalves

1976 – Os Cristãos-Novos. Povoamento e Conquista do Solo Brasileiro (1530

 -1680).

Pioneira, São Paulo 

Sampaio, Theodoro

1897 – A nação Guayanã da Capitania de São Vicente, in:

            Revista do Museu Paulista, vol.11, pag.115-128, São Paulo

Soares de Souza, Gabriel

1987 – Tratado Descritivo do Brasil em 1587

            Brasiliana, volume 117, São Paulo

Documentos

Carta de Mendes de Foyos, sem data. Anais de Biblioteca Nacional, vol.07:173

Relatório do Marques de Lavradio, Arquivo Nacional, Códice 71    

Equipe responsável

Coordenação

Arqueólogo responsável - Ondemar Dias

Arqueóloga e Gerente Administrativa - Jandira Neto

Equipe Técnica 

Arqueólogo Junior – Antonio Carlos de Souza

Historiador – Antonio Carlos Gomes

Equipe de Apoio

Secretaria – Fernanda Tavares

Estúdio de Produção – Willian Cruz

Material e Arquivo – Leandro Correa