Projeto de Diagnóstico Arqueológico Não Interventivo do Corredor Viário Transbrasil - Parte II

Continuação da pesquisa histórica do traçado do Corredor Viário Transbrasil-RJ - Parte II   Parte I Parte III

As Obras

Histórico Resumido 

Localização

Este trecho (“02”) pode ser referenciado e estudado em dois setores:

Setor 01 - O primeiro, povoado desde cedo, que se estende da Igreja da Candelária até o Campo de Santana;

Setor 02 - O segundo, aquele que vai do Campo até o litoral onde desembocava o Canal do mangue de São Diogo.

Subsetores 02.1 e 02.2 - O segundo trecho por sua vez, pode ser também subdividido em dois subsetores: O primeiro (02.1) ocupado pelos mangais (ou manguezais) de São Diogo, até as proximidades da atual Praça da Bandeira e o segundo (02.2) em que o canal do mangue infletia para Norte em direção à Baía de Guanabara, nela desembocando nas proximidades das então existentes Ilhas do Melão (ou das Moças) e dos Cães.

Subsetores referenciados no Trecho 02.

Em relação ao agenciamento da área pela ocupação da cidade, podemos também dividir as obras do Trecho 02 em três segmentos, cada um correspondendo a um período histórico, organizado cronologicamente.

Primeiro – Agenciamento do Canal do Mangue no trecho urbano (a ele nos referenciaremos com o título “Canal do Mangue”); Trecho 02, Setor 02:01.

Segundo – Urbanização da Desembocadura do Canal na Baía, no Trecho 02 Setor 02:02 - sendo que a ele nos referenciaremos como “Avenida Francisco Bicalho”;

Terceiro – O último a ser agenciado, justamente na área mais antiga urbanizada, entre a Igreja da Candelária e a Praça Onze (logo após o Campo de Santana). A ele nos referenciaremos como “Avenida Presidente Vargas”. Trecho 02, Setor 01.

Crônica Histórica

Apesar de denominarmos o primeiro setor a ser historiado com o número 02, foi ele o primeiro a ser motivo de obras de saneamento e embelezamento da cidade ainda no século XIX.  Denominamos como Setor 01 o mais recente assim abordado por ter maior significado urbano, sendo aquele em que tais obras causaram o maior impacto em áreas de muito antiga ocupação e de valor arquitetônico.

Trecho 02 – Setor 02.01:

Com tais considerações em mente, comecemos pelo Setor 02, sub-setor 01 aquele em que, apesar também de ter sido percorrido e aproveitado desde a conquista, pelas suas características ambientais conheceu uma restrita densidade ocupacional.

De uma maneira geral este subsetor era constituído por terras baixas, pantanosas, formado por um vale amplo, que recebia as águas do maciço da Carioca e dos morros do litoral (em especial São Diogo, Conceição, Senado e até mesmo do Castelo). Nele, outrora, existiram diversas lagoas, que foram sendo drenadas ao longo do tempo; a mais importante delas a Lagoa da Sentinela, nas proximidades da atual Praça Tiradentes. Constituindo a periferia do centro urbano, ali se fixou o “Rocio” da cidade, local de uso comunal, para pasto ou lazer, onde também se costumava fixar o “pelourinho”, ponto de castigos públicos e símbolo do poder da autoridade régia “fazer justiça”. Neste “rocio” se localizou a Igreja de Santana que acabou dando nome ao parque. Hoje é a Praça da República. Mais para o interior, mas nas suas proximidades, também se estabeleceria depois o “rocio pequeno”, mais tarde (em função e lembrança da Guerra do Paraguai), a “Praça Onze”.            

Desde o período da conquista que neste vale amplo e pantanoso ocorreram tentativas de fixar engenhos e pelames (ou curtumes), mas fosse pela natureza do terreno no primeiro caso, ou pelo mau cheiro intolerável pela relativa proximidade urbana, no segundo, tais iniciativas não lograram êxito, ficando toda a área praticamente desocupada.

Com a vinda da família real no início do século XIX e a fixação da residência régia na Quinta da Boa Vista, aquele trecho passou a constituir o principal e mais curto acesso a partir da cidade (embora pudesse ser a Quinta também acessada pela Rua do Mata Cavalos). Tal fato obrigou o Senado da Câmara a praticar aterros que constituíram uma estreita via cortando os pantanais.  Este traçado pode ser visualizado no Mapa de 1831.

Detalhe do Mapa de 1831, com a demarcação do “aterrado”, dos “Mangues” e do “Rocio Pequeno”.

Já naquela época pensava-se em drenar a área alagada e construir um canal para criar um curso d’água navegável até o “Rocio Pequeno”, mas nada de positivo foi feito, a não ser o restrito aterro aqui focalizado, que consta em algumas notícias ter sido concluído somente em 1835.

Como capital do Império, era também insuportável que o lugar continuasse como uma fonte de insalubridade, culpada por febres palustres e outras mazelas oriundas das águas paradas e estagnadas, ainda que sob a influência das marés.  

Finalmente, durante o segundo reinado, em 1857, Irineu Evangelista de Souza (depois barão de Mauá), obteve licença para construir um canal e um caminho transitável (uma alameda arborizada) aonde também viria a estabelecer a sua fábrica de gás para a iluminação da cidade. Ao custo de 1:378$000 (um milhão e trezentos e setenta e oito mil réis) inauguraria as obras em 1860. Mais tarde, em 1876 seria construída uma comporta para controle do fluxo das marés e dos alagamentos de verão nas proximidades da Ponte de São Diogo, depois denominada “dos Marinheiros”.

Foto do interior da Fábrica de Gás em 1860, na época de sua inauguração. O aterrado em 1860. Ao fundo a Serra da Carioca.

Esta obra era, no entanto, muito mais de caráter higiênico e viário do que de embelezamento da cidade. Tais cuidados começaram de fato no governo Rodrigues Alves (1902/1906), atuando em duas direções. A primeira com a urbanização e saneamento do canal do mangue e a segunda com a remodelação, aterro e urbanização da área do cais do Porto e a ligação entre ambas.

Sob a responsabilidade do Prefeito Lauro Miller o canal foi remodelado, plantadas palmeiras em sua extensão e colocadas grades de ferro nas margens. Este trecho se estendia da Ponte dos Marinheiros até a Praça Onze.

Num segundo momento, na verdade quase contemporâneo, se deram as obras e o aterro da desembocadura do canal na baía de Guanabara onde seria aberta a Avenida Francisco Bicalho.

Aspectos do Canal do Mangue no início do século XX, na época da sua remodelação Canal do Mangue, detalhe. Pode-se ver, ao fundo, o Hospital São Francisco de Assis.

Num segundo momento, na verdade quase contemporâneo, se deram as obras e o aterro da desembocadura do canal na baía de Guanabara onde seria aberta a Avenida Francisco Bicalho.  

Trecho 02: Setor 02.02

Neste subsetor as obras se fizeram em função dos trabalhos de modernização da área do Cais do Porto promovidas durante o governo de Rodrigues Alves (1902-1906). Toda uma extensa faixa costeira foi aterrada, incluindo ilhas, praias e pequenas angras existentes naquela época. Tornou-se necessário, então, estender o Canal do Mangue em direção ao litoral, aterrando o trecho conhecido como praia Formosa, aos pés do morro-pedreira de São Diogo:

Na planta abaixo se pode observar uma parte do planejamento do Porto, na época da sua remodelação, com a vantagem que o melhoramento aparece colocado sobre a topografia então existente.

Planta da época com a sobreposição da área planejada sobre a parte então existente.

Nos mapas abaixo, separados por pouco mais de meio século de existência podemos observar com maior detalhamento o recorte do litoral, mas também o crescimento da cidade, tanto na área específica quanto no seu entorno. 

No mapa de 1831 o desenho do litoral do cais do Porto na época, demarcada a área em estudo Mapa de 1885 focalizando o mesmo litoral bem mais recortado por ruas e instalações portuárias.

O que se pode observar pela cartografia acima, também parece não confirmar o que relatam alguns pesquisadores, pois a zona onde desaguava o Canal do Mangue em 1885 se encontrava aterrada, em boa parte, em especial no trecho entre a Ponte dos Marinheiros e as proximidades da “Praia Formosa”. Este trecho é justamente aquele onde seria aberta a parte inicial da Avenida Francisco Bicalho.

O que se pode concluir é que na época da remodelação do Cais do Porto, com o aterro e retificação da maior parte do litoral, o que ocorreu foi a extensão dos aterros então existentes, encobrindo as ilhas. Também se nota certa confusão nos nomes das Ilhas, entre os mapas.  No de 1831 a Ilhota mais a Leste é denominada como “Ilha dos Cães” e no do mapa de 1885 como “Ilha das Moças”. Já a maior, no primeiro é a “Ilha das Moças” e no segundo a “Ilha dos Melões”.        

“Ilhas à parte” o que interessa é que a abertura da Rua Francisco Bicalho e a extensão do canal do Mangue até as proximidades do Cais do Porto se deram no Governo de Rodrigues Alves e seu sucessor, sendo concluídas em 1911. Naquela mesma data foi para ali transferido o gasômetro da cidade. No local existiu também um guindaste que retirava a carga de carvão mineral transportada por chatas de ferro dos navios até as suas instalações.

Na área da Francisco Bicalho ficava localizada a Vila Guarani, uma dos primeiros empreendimentos do tipo na cidade, em 1879, loteamento para bairro residencial, no local aproximado de onde existe hoje a Rodoviária do Rio de Janeiro (“Novo Rio”).

Também naquela Avenida seria estabelecida a Sede da Companhia Ferroviária Leopoldina (Leopoldina Railway), de crônica complexa, mas que afinal inaugurou o prédio em 1926. Funcionou de 1897 a 2004, quando desativada, passando os trens que serviam ao trecho sob sua responsabilidade a partir da Gare D. Pedro II.

Na mesma avenida, próxima ao Porto, foi colocada a “Rodoviária Novo Rio”. O local da mais antiga Rodoviária do Rio de Janeiro, na Praça Mauá ainda foi utilizado durante algum tempo, sendo finalmente desmobilizado.

Gasômetro na Avenida Francisco Bicalho, nas primeiras décadas do século XX Em época mais recente, com o gasômetro ainda em funcionamento, vendo-se além dele o Canal do Mangue na Avenida Francisco Bicalho. Estação da Leopoldina Railway, com o prolongamento do canal do mangue em primeiro plano, entre as duas pistas da Avenida.

 

Trecho 02 – Setor 01 - Avenida Presidente Vargas

Conforme já foi considerado, este trecho situado entre a Igreja da Candelária e a Praça Onze (ou sua congênere maior e mais antiga, a Santana), apesar de ser o mais importante em termos relativos, foi o ultimo a sofrer o impacto da modernidade. Isto se deve ao fato de ser aquele de mais antiga e densa povoação. Tal assertiva se baseia na observação de que só no que diz respeito à Igreja, quatro delas, tradicionais, foram derrubadas para sua abertura, (Igrejas de São Pedro dos Clérigos, Bom Jesus do Calvário, São Domingos e N. Senhora da Conceição), enquanto que nos demais trechos (Canal do Mangue e Avenida Francisco Bicalho) não existiam sequer uma delas. Também, por outro lado, sua importância foi tal que anexou ao seu traçado todo o Canal do Mangue, a ponto de suas histórias se confundirem.

A Avenida tornou-se necessária em função do crescimento da cidade, Capital Federal, e de todas as transformações pelas quais passou o mundo nas primeiras décadas do século XX. Mas somente no Governo de Getúlio Vargas foi possível acumular a energia necessária para uma obra de tal vulto. Foram desapropriados e derrubados mais de 500 prédios, desapareceram ou foram anexadas diversas ruas, demolida uma Escola (Benjamim Constant), mais o prédio da Prefeitura e duas praças (Praça Onze ou Rocio Pequeno e Praça General Osório, ou do Capim). No início se estendeu no trecho em análise por cerca de dois quilômetros e logo depois, somando o trecho da “Ponte dos Marinheiros” à Praça da Bandeira, sua extensão chegou perto dos quatro quilômetros.

A Igreja de São Pedro A Igreja de São Pedro Igreja de São Domingos Praça Onze de Junho
Campo de Santana Igreja de São Pedro na demolição – Ao fundo da Praça o prédio da Prefeitura, na área destruída para a passagem da Avenida A Praça General Osório em plena efervescência. Processo de demolição do seu tradicional Mercado

Foi ela aberta sob a égide do Prefeito Henrique Dodsworth e permitiu durante muito tempo a circulação livre entre os bairros da Zona Norte e os subúrbios da Cidade. Hoje ainda se constitui no eixo principal do trânsito entre o centro e a periferia mais populosa da Cidade.

Segundo Mello Júnior, sua obra rivaliza com a Avenida Central (Rio Branco) anterior e que a corta perpendicularmente, sendo que os planos para sua abertura recuariam ao período imperial. De acordo com este autor, o projeto original do Visconde de Mauá, no canal do Mangue, tinha por objetivo levá-lo até o cais dos Mineiros, para onde se voltava a Igreja da Candelária (1988:190/s).

Suas pistas atuais (2013) têm a largura aproximada de 60 metros, e em alguns pontos chegam a 80 metros. 

Aspectos das obras de abertura da Avenida Aspectos das obras de abertura da Avenida Antiga Gare da Estrada de Ferro D.Pedro II, vendo-se, atrás a construção do novo prédio.

 

Podemos visualizar algumas alterações aqui mencionadas nos Mapas abaixo.

Mapa Arquitetural do Rio de Janeiro em 1874 Mapa Arquitetural da Cidade quarenta anos depois (1914)
Mapa da mesma região em 1965, ou seja, meio século depois Finalmente a mesma área em 1993, ou seja, 28 anos mais tarde.

Contexto Arqueológico

Em relação aos sítios arqueológicos já pesquisados na área, somente temos conhecimento das pesquisas desenvolvidas por Guadalupe Nascimento no prédio do antigo Museu Real, situado na esquina da Rua de Santana com a Rua Visconde do Rio Branco.

Mandado erguer nos primeiros anos do século XIX por rico mercador de carne seca, fornecedor da marinha real, no tempo de D. João VI, doou ao Rei o prédio que mandara construir após derrubar diversas casas mais antigas, cujas estruturas foram levantadas durante a pesquisa. Um acervo volumoso foi recolhido. Ali foi então instalado o Museu Real, sucessor da “Casa dos Pássaros” e mais tarde o Arquivo Nacional, antes de sua transferência para o prédio atual do outro lado da Praça.

Considerando que os terrenos da atual Praça da República, ex-Campo de Santana e antigo Rocio da Cidade foram muito pouco usados para construções, ainda que severamente utilizados ao longo dos séculos, constituem-se eles um dos melhores locais em termos de potencial para a pesquisa arqueológica.  Qualquer intervenção deve obrigatoriamente levar tal fato em conta.

Segue a lista dos bens tombados:

Trecho 3- Avenida Brasil/Caju/Manguinhos a Penha

Contexto Etno-histórico

Origens

A região que seria cortada pelo traçado da Avenida Brasil constituiu desde cedo a periferia Oeste da Cidade do Rio de Janeiro, sendo que os bairros mais próximos, São Cristóvão e Caju são de antigo povoamento urbano. Somando-se à região da Tijuca, estes bairros conformaram, inicialmente, uma área de engenhos de pequeno porte, depois chácaras e pequenas propriedades suburbanas. Dentre elas se destacou a Quinta da Boa Vista, de Elias Antônio Lopes que a doou para a família reinante, recém chegada de Portugal em 1808 que veio a constituir o Paço Real, depois Imperial.

Confirmando a relação antiga entre São Cristóvão e Caju, neste último lugar, em uma ponta de terra que adentrava a baía de Guanabara, uma antiga chácara particular também foi adquirida pelo soberano para instalação de uma “casa de Banhos”, existente até hoje e transformada em Museu.

Neste mapa de 1850 pode-se ver a relação entre a Quinta da Boa Vista, e a do Caju, mais o Campo de São Cristóvão, a localização da futura Praça da Bandeira e a via de acesso à região pela estrada do Aterrad

A urbanização da região começaria no início do século XX, quando a partir de 1906, Pereira Passos mandou abrir uma via comunicando a área do Cais do Porto a Irajá, passando pelo Caju. Somente por volta de 1922 foi que, aproveitando os trechos existentes, foi aberta a primeira via de acesso a Petrópolis que seria conhecida como Estrada Automóvel Clube, que transitava pelo interior (depois seria denominada Avenida Suburbana e atualmente como Av. Dom Hélder Câmara).

Com o projeto de ser criada uma zona industrial na área de Manguinhos, em 1927, o novo traçado para a velha estrada foi atraído para o litoral e em 1940, seguindo a Estrada de Ferro Leopoldina, orientando finalmente o curso da Avenida Brasil.

A Avenida Brasil não foi construída de uma só vez, nem passando sempre por novos traçados, pelo contrário, aproveitou aqueles existentes sempre que convenientemente situados. Sua cronologia pode ser assim sumarizada:

Entre 1939 a 40 foram desapropriados os terrenos e as casas para a abertura da pretendida variante “litorânea” da Estrada de Rodagem Rio Petrópolis;

Nos anos 40´s foram iniciadas as obras viárias entre o Cais do Porto e Parada de Lucas, sendo que em 43 foi asfaltado o trecho inicial até Manguinhos e dois anos depois até o viaduto Lobo Júnior, na Penha. Em 1946 foi oficialmente inaugurada e se estendia até a Estrada das Bandeiras, no entroncamento com São Paulo.

Nos anos 50´s foi a via duplicada até Bonsucesso, retificados rios (como o Farias), construídos viadutos (como o do Galeão, em 1954) e duplicada em sua maior parte, alcançando o “Trevo das Missões”. Ali se iniciavam duas rotas: Uma para São Paulo e a outra que seguia para o interior do município, aquela denominada Avenida das Bandeiras. Em 1959 este trecho chegava a Bangu.

Na década de sessenta as pistas foram todas duplicadas; absorvida a estrada das Bandeiras pela Avenida Brasil e efetivadas melhorias. Nas décadas seguintes do século XX, foi criada a faixa seletiva (anos 80´s), a via passou para a Prefeitura, que ficou encarregada da sua conservação, que no século XXI promoveu obras de modernização até Santa Cruz, nos limites com o restante do Estado do Rio.

Pelos dados atuais, cobre ela 27 bairros cariocas; é transitada por perto de 250.000 veículos por dia e faz parte da BR-101. Em termos viários é dividida em três setores. O primeiro do Caju (onde começa na Rodoviária “Novo Rio”) até Irajá. O segundo de Acari a Guadalupe e o terceiro de Deodoro a Santa Cruz.

Para seu estudo de possíveis impactos, vamos estudá-la em trechos específicos: O primeiro entre os bairros do Caju e da Penha.     

Trecho 01 – Caju/Penha 

Mapa demonstrativo dos aterros sofridos no trecho do litoral entre a área de São Cristóvão e a região da Penha

Trecho 01ª – Caju e São Cristóvão

No território que se estendia do Saco de São Diogo até os brejos de Manguinhos se desenvolveram dois bairros, conforme comentamos acima. O localizado mais para o interior e mais próximo da cidade chamou-se São Cristóvão, tendo sido conhecido na segunda metade do século XIX como “Bairro Imperial”. Nele se destacou a residência da família do imperador e palacetes de membros da nobreza, como aquele da Marquesa de Santos na Avenida Pedro II e o do mordomo da casa real, na rua Francisco Eugênio. O campo de São Cristóvão, onde se realizavam as manobras do tempo do império, o Morro do Telégrafo e outros pontos de importância. No seu litoral destacava-se a Igreja do Padroeiro. A linha do litoral avançou bastante mar adentro; primeiro com os aterros da antiga enseada de Inhaúma e depois com aqueles que deram prolongamento ao cais do Porto, ainda hoje em funcionamento. O bairro do Caju dele se destacou após a abertura da Avenida Brasil.

Pontos Principais (Impacto Direto)

A Igreja de São Cristóvão

Igreja de São Cristóvão a beira-mar, com vistas da Praia Formosa Aterros no litoral de São Cristóvão, vendo-se a Igreja do santo padroeiro ao fundo e, em primeiro plano, os trapiches das proximidades da foz do canal do Mangue.

A Avenida Brasil passaria bem próxima a Igreja, sendo que recentemente o padre local mandou escrever na parede voltada para ela o nome de sua Igreja.

No Mapa abaixo, de 1770 pode-se visualizar a linha costeira no século XVIII e os principais pontos aqui mencionados já existentes na época.

Mapa de 1770 A Igreja de São Cristóvão a Beira Mar em 1901 ainda com canoas na sua frente.

Esta Igreja remonta ao século XVII (1627), e se localizava nas terras sesmariais dos jesuítas que a estabeleceram próximo a um porto de pesca utilizado tradicionalmente pelos indígenas no século da conquista. As terras do Engenho Velho se estendiam até o litoral e quando da expulsão da Companhia em meados do século seguinte, suas terras foram divididas em inúmeras chácaras (incluindo as chácaras do Caju e a Quinta da Boa Vista), o que incrementou a ocupação da região.      

Cemitério do Caju

Como é do conhecimento geral até meados do século XIX os enterramentos se faziam em “território santo” nas cercanias ou no interior das Igrejas. Desde algum tempo antes alguns locais eram destinados aos escravos, como o “cemitério dos pretos novos” da Gamboa. Também existiu um “Campo da Misericórdia” na Ponta do Caju, em frente à Praia de São Cristóvão, desde 1839, destinado ao mesmo fim.

Em 1851, obedecendo às novas regras de higiene pública, tal prática foi proibida e começaram a ser estabelecidas áreas destinadas aos sepultamentos, tendo sido criados dois cemitérios ambos entregues à administração da Santa Casa da Misericórdia (São Francisco Xavier e São João Batista), os dois em terras desapropriadas às chácaras e casas existentes em frente à praia de São Cristóvão.  Entre elas a chácara de José Goulart (Retiro Saudoso) e a de Baltazar Pinto Reis (Chácara do Murundu).

O terreno foi aplainado, preparado para os sepultamentos, criada via de acesso e no mesmo ano aterrada a praia de São Cristóvão, fronteiriça, onde depois se estabeleceriam as marmorarias.

Com o passar dos anos outros cemitérios foram sendo anexados à área, como o Cemitério Israelita, o Cemitério da Ordem Terceira da Penitência e mais recentemente o Memorial do Carmo, com seu crematório.

É interessante que nos mapas consultados mais próximos da época do estabelecimento não figuram os cemitérios existentes, ainda que outros locais e topônimos estejam marcados. É o caso, por exemplo, do Mapa de 1877, em que se pode ver a sucessão das praias da Baía, como a “das Palmeiras” (fronteiriça à Igreja de São Cristóvão), a “Praia de São Cristóvão” e em seguida a “Praia do Caju”. Embora a área dos cemitérios já existisse a pelo menos um quarto de século, ela não é demarcada (Vide Imagem 07, adiante).

Outro detalhe do mesmo mapa e que contradiz os textos consultados é o fato de que consta historicamente que a praia fronteiriça ao campo santo foi aterrada em 1851 e isto não aparece no mesmo mapa. Em contrapartida a região aparece bem mais arruada do que nos mapas anteriores.

Estes dados só aparecem no Mapa de 1885.

Mapa de 1877, com os pontos principais ressaltados Mapa de 1885, com a localização dos diversos cemitérios do Caju na época. Como destaque o aumento do arruamento da área e o surgimento da “Praia dos Lázaros”, no lugar da Praia das Palmeiras. Também um grande quartel nas proximidades da Igreja de São Cristóvão.

 Fábrica do “Sabão Português” da União Fabril Exportadora (UFE)

A Sociedade foi fundada em 1922 e ampliada em 1934 por comerciantes e industriais do ramo dos sabões e produtos de limpeza, sendo estabelecida uma fábrica na Rua de São Luiz Gonzaga. Em 1938 saiu das suas antigas instalações e se fixou na Rua da Alegria, ambas no bairro de São Cristóvão, antes da passagem da Avenida Brasil. Produzia o popular “Sabão Português”, que segundo um “jingle” da época “quem usar o sabão português uma vez, ficará seu freguês trinta dias no mês”, etc.

O cheiro da fábrica era penetrante para quem cruzasse nas suas imediações, quando a Avenida Brasil foi aberta passando na sua porta (número 2.391). Na década de 1990 era a mais antiga fábrica de sabão produzindo no país, mas entrou em decadência pela concorrência de produtos mais modernos e encerrou sua produção logo depois. A empresa continua existindo, comprada por outra empresa do ramo, mas o antigo prédio foi abandonado e recentemente sofreu um incêndio em parte das instalações (em 19 de outubro de 2012).     

Impacto Indireto

Mesmo que somente atingidos de forma indireta pelas obras programadas, alguns locais merecem comentários:

Quinta do Caju    

Embora fora da área de impacto direto vale mencionar que nas proximidades do cemitérios, décadas antes, ficava situada a Chácara do comerciante português José Gouveia Freire, comprada pela família real, para a comodidade do rei D. João VI tomar banhos de mar (a “Casa de Banhos”, hoje Museu). A casa restaurada é do final do século XVIII e possui um interessante alpendre com colunas toscanas, típicas da época. Em 1890 a Casa pertenceu ao Visconde Ferreira de Almeida que fundou a Casa de Auxílio à Velhice, hoje Asilo São Luiz (Campo de São Cristóvão).      

Fábricas de Tecidos

Um comerciante chamado Pinto Guerra doou terras no Caju da sua antiga chácara, para a Santa Casa da Misericórdia ali estabelecer um asilo. Esta, no entanto, vendeu a propriedade para Teixeira de Azevedo que construiu uma fábrica de tecidos em 1880. Falindo logo depois, foi ela arrematada pelo Banco do Brasil que, por sua vez, passou as instalações para o exército que ali estabeleceu o Arsenal de Guerra.

Outra fábrica de tecidos existiu no Caju na década de vinte do século passado, denominada “Fábrica Bonfim” e se vinculava a uma indústria têxtil com instalações na Baixa Fluminense, em Pau Grande (Fábrica Cruzeiro).  

Hospitais de Isolamento no Caju

O mais antigo foi criado em 1880, com a denominação de Hospital São Paulo, em virtude do surto de varíola que assolava a cidade, para isolamento dos doentes. Viria a se chamar “Hospital Emílio Ribas” para tratamento de doenças contagiosas.

Em 1889 foram criados dois Hospitais públicos, um denominado Hospital São Francisco de Assis e outro Hospital São Sebastião. O primeiro foi associado a USP e o segundo a UFRJ e ambos funcionam atualmente.   

Campo de São Cristóvão

Campo de São Cristóvão antes do aterro do litoral.  Foto demonstrando sua proximidade com os armazéns e diques do litoral da baía de Guanabara (Ca.1906)

 O Campo de São Cristóvão foi, desde cedo, um terreno destinado ao uso comum, feiras e pastos comunais, ou seja, um “rocio” atendendo aos moradores do interior. Inicialmente se encontrava dentro das terras dos engenhos dos jesuítas. Após sua expulsão e divisão das terras, permaneceu com aquelas funções e, pela proximidade com o Paço Imperial, era ponto de vida social, relaxamento e festividades. Até então era também um local de descanso dos tropeiros e de trocas comerciais, inclusive dando origem à Rua da Feira, hoje Figueira de Melo. Também servia de lugar de parada e recuperação do gado trazido do interior para abate no Matadouro, então situado na atual Praça da Bandeira. No primeiro reinado era usado como campo de manobras do exército e de revista das tropas, uso que se estendeu até a República Velha. Na época das reformas de Pereira Passos mereceu a atenção das autoridades (por volta de 1906). Foi então ajardinado, construído um coreto, e depois, serviu de ponto terminal de linha de bondes. A tradição do lugar foi mantida com a realização de importante “feira livre” aos domingos, atendendo aos moradores da área.

Nele foi construída uma grande área coberta para exposições, considerada a maior do Brasil nos anos sessenta do século passado, que não durou mais que poucas décadas. Hoje abriga a “feira dos nordestinos” que ocupava o campo externamente e acabou por converter-se em ponto de atração turística, sendo frequentado por milhares de usuários e visitantes, em especial nos fins de semana.

Sem a menor dúvida, ainda que não atingido pelas obras da Transbrasil, sofrerá novos impactos, quiçá positivos pela sua localização próxima.

Trecho 1b – Manguinhos a Penha

De uma maneira geral todo este trecho foi de escassa povoação no período colonial, ocupado por engenhos e, com a decadência da indústria açucareira fluminense, por chácaras e residências isoladas. Com a passagem das estradas de Ferro, principalmente a Leopoldina e, em menor escala a Rio D’Ouro, a ocupação adensou, beneficiada e impulsionando a divisão das terras, com o surto dos loteamentos que se multiplicaram, sobretudo no século XX.

Os engenhos principais estabelecidos no período colonial e que deixariam remanescentes históricos na atualidade, se destacaram o Engenho da Pedra e o engenho da Penha. Mais adiante, embora com menor significado as propriedades de Braz de Pina e as terras do Vigário Geral, este já na periferia da área.

Área de Manguinhos

A área deve seu nome aos terrenos baixos e inundáveis situados entre o Caju, a Praia Pequena de Benfica e o Engenho da Pedra (na altura do bairro de Ramos), estendendo-se também para o Saco de Inhaúma (na altura da Ilha do Bom Jardim).

Era região cortada pela Estrada Real de Santa Cruz (depois Suburbana e hoje Dom Helder Câmara) e pela Estrada da Penha (atual Avenida dos Democráticos).

Na Fazenda de Manguinhos existia uma grande carvoaria que se valia dos mangues existentes e do que restara dos matos antigos, pertencente a João Dias Amorim. Num morro do mesmo nome é que em 1900 foi ereto o Instituto Soroterápico Federal, no governo Campos Salles.

Nos mapas de época aparece citada (mais de uma vez) a Olaria de Francisco Xavier, que aparentemente nada tem a ver com o bairro de Olaria, conforme veremos adiante. Em relação à primeira, situada nas proximidades do Saco de Inhaúma, não encontramos registro nesta etapa da pesquisa.  

Instituto Oswaldo Cruz(I.O.C.)

O Instituto Soroterápico Federal foi fundado para produzir vacinas, na época combatendo a peste bubônica que infestava a cidade. Mais tarde sua produção se diversificou e ganhou cada vez mais importância a ele se anexando - na mesma instituição – a Escola de Saúde Pública.

A área foi gradualmente higienizada com o saneamento do pântano, em função da abertura do “canal do Cunha”, a junção dos rios Jacaré e Farias, antes mesmo da abertura da Avenida Brasil, tornando-se mais habitável e bem mais tarde um polo de atração para a população de baixa renda. Foi aberta pela Leopoldina a parada “Amorim”, depois chamada de “Carlos Chagas” e finalmente “Manguinhos”, tendo sido também aberta uma avenida paralela à estrada de Ferro, acessando as instalações do Instituto (Leopoldo Bulhões).

Nos terrenos conquistados ao mangue e no aterro do litoral estabeleceram-se na década de 1936 o Aeroporto de Manguinhos e nos anos 50´s a Refinaria de Petróleo.

Mapa de 1821 com as estradas de penetração na região, a localização de Manguinhos, do Engenho da Pedra (Ramos) e da Estação da Penha. Mapa de 1925 com a localização dos terrenos de mangue e em detalhe o prédio do Instituto Oswaldo Cruz. A quina esquerda superior da foto colocada próxima ao local de sua localização no morro do Amorim

 Aeroporto de Manguinhos

Em 1911 foi fundado o Aeroclube do Brasil, inicialmente sediado em Santa Cruz até 1919 quando ali foi estabelecida a Academia da Aeronáutica, o que forçou sua saída do lugar.   

Depois de muitos esforços seus diretores obtiveram autorização para instalá-lo em terras da Fundação Oswaldo Cruz e ali permaneceram entre 1936 e 1959.

Com o acidente que envolveu um avião de treinamento da aeronáutica e um Viscount quadrimotor turboélice, com desfecho trágico que causou vítimas, inclusive no solo, atingindo pessoas que aguardavam atendimento em um consultório de dentista em Ramos, as autoridades resolveram afastar do lugar o aeroporto. Foi considerada muito perigosa sua localização nas proximidades do aeroporto do Galeão e assim, mesmo sem nada a ter a ver com a tragédia, foi ele interditado a partir de 1961, dois anos depois do sinistro.

Aeroporto de Manguinhos. Ao fundo, vê-se o Instituto Osvaldo Cruz Aeroporto de Manguinhos em plena atividade nos anos 50´s. Localizava-se no lado direito da Avenida Brasil, que passava entre ele e o Instituto Oswaldo Cruz.

 Área de Bonsucesso

Esta área limítrofe com Manguinhos pertencia ao Engenho da Pedra (Vide Imagem 50) ainda que não saibamos os limites exatos entre as Fazendas antigas. Pode ser até mesmo que o atual viaduto que liga a Ilha do Governador e a Linha Vermelha com a Avenida Brasil e o interior, incluído na “Linha Amarela” passe nas suas imediações. Nesta área podemos destacar:

Impacto Direto

Hospital Federal de Bonsucesso

No lado esquerdo (ímpar) da Avenida Brasil se localiza o antigo Hospital General Nascimento Vargas, inaugurado no governo Gaspar Dutra em 1948 e vinculado ao IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos empregas de Transporte e Cargas), depois ao INAMPS e de 1990 integrado ao SUS.

Passou por diversas melhorias com o passar dos anos, ampliando o campo dos atendimentos especializados, mantendo, no entanto, área de emergência, creche e ambulatório. Seu atendimento inclui operações de transplante e pesquisas e tem a disponibilidade de 500 leitos atualmente.

Embora de história recente, é um marco pelo seu significado, em especial numa cidade onde os serviços do gênero nunca foram abundantes e muitas vezes nem mesmo suficientes para atender a demanda.

Bairro de Bonsucesso

Este bairro, antigo subúrbio da Leopoldina, se desenvolveu em terras do antigo Engenho da Pedra. Segundo os registros de documentos históricos cartoriais do I.A.B. trata-se do antigo "Engenho Velho de Irajá" desmembrado daquela Freguesia em 1683 quando o Cap. Agostinho Pimenta de Moraes doou terras, prédio, imagens e paramentos para a criação da Capela Curada de Inhaúma, por ato do Vigário Geral Dr. Clemente Martins de Castro[1].

Pertenceu a Ignácio de Andrade que era também senhor de engenho no Gericinó que o adquiriu em 1669 ao Cap. Balthazar Alves com uma légua de terras em quadra[2].

Permaneceu na família durante todo o século XVII e seguinte, sendo que em 1754 era sua proprietária D. Cecília Vieira de Bonsucesso que reformaria a Capela de Santo Antônio do mesmo engenho. No século XX as terras passaram à propriedade do engenheiro Guilherme Maxwell que resolveu loteá-las, arruando a área e dando às ruas, nomes de países. O centro do bairro foi localizado na “Praça das Nações”.



[1]Documento do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - Lata 57 Pasta3.

[2]Documento do Arquivo da Cidade, Códice. 42-3-56 F.126, também existente no Arquivo Nacional, Cartório do Primeiro Ofício, Livro 49 F.64 v.

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Praça das Nações em 1929

Quando das pesquisas do “Mapa Histórico e Arqueológico do Estado da Guanabara”[1], por pesquisadores da Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Guanabara, foi localizada parte das ruínas do prédio do engenho na Estrada Engenho da Pedra, em Ramos. As fotografias tiradas na época devem estar arquivadas na instituição sucessora da Divisão, o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro.



[1]A equipe que durante anos desenvolveu a pesquisa para o citado “Mapa” atuou junto ao Serviço de Museus daquela Divisão, dirigido pelo falecido prof. Luiz Carlos Palmeiras e pelo Serviço de Tombamento e Proteção, dirigido pelo Arquiteto Dr. Olínio Coelho. Completavam a equipe o Prof. Florentino Guimarães e o Arqueólogo Prof. Ondemar Dias.

Ainda que não se tivesse feito na época pesquisas arqueológicas para confirmar a assertiva, a localização de uma estrutura de pedra com tal volumetria constitui forte indício para sua aceitação como tal, ainda mais se tratando de uma construção na estrada que preservou o nome do Engenho.

Bairro de Ramos (Praia de Maria Angu, Praia de Ramos e seu piscinão)

A área originalmente se integrava ao Engenho da Pedra, cuja sede (caso a hipótese da casa de pedra ter sido parte do engenho seja correta) localizava-se numa das tradicionais ruas do bairro, aquela que conservou o nome do engenho.

O bairro de Ramos se desenvolveu no entorno da Estação de igual nome estabelecida pela Estrada de Ferro Leopoldina em 1886. Seu nome deriva dos proprietários, Fonseca Ramos, que doaram o trecho para instalação da parada que facilitou o acesso às suas terras. O povoamento se adensou quando no início do século passado foram as terras loteadas, sendo que algumas das ruas então criadas receberam o nome de membros das famílias proprietárias, “Nunes” e “Freire”.

A passagem da ferrovia e o estabelecimento das linhas de bondes “Ramos” e “Penha” ajudou a urbanizar a área, sobretudo com o calçamento da Rua Leopoldina Rego, onde se estabeleceram cinemas, lojas comerciais e bancos. Também contribuíram para tanto a abertura e calçamento da Rua Uranos do outro lado da via férrea. O bairro foi palco do acidente aéreo que provocou o fechamento do “Aeroclube” de Manguinhos e é conhecido pelo Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos, pelo Social Ramos Clube, um dos mais tradicionais do gênero e pelos músicos que ali fizeram história, desde Pixinguinha e Vila Lobos a Zeca Pagodinho. Também é de Ramos a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense.

Praia de Ramos

Um tradicional balneário popularizado, sobretudo, após a abertura da Rodovia. Muito assoreado e pouco higiênico, mereceu em 2001 a atenção do poder púbico que ali desenvolveu obra de saneamento e mandou construir uma praia artificial (com areia drenada da baía) e uma piscina com água tratada. Foi assim criado o “Piscinão de Ramos”. Segundo dados divulgados pelo Google, em fins de semana do verão a praia é frequentada por até 60.000 banhistas.      

Praia e porto de Maria Angu

Uma das praias tradicionais da orla da baía de Guanabara. Não se sabe exatamente sua origem, mas é muito provável que se relacione a uma figura local que por algum motivo deixou sua marca de longa data na crônica da cidade.

Ruínas do prédio de pedra atribuído ao Engenho da Pedra em Ramos.  Estação de Ramos na década de 20. Fotografia em sentido à Rua Uranos  A estação de Ramos nos anos 50´s, tirada em sentido contrário, com a rua Uranos calçada, com os bondes circulando 

 O fato é que no Mapa de 1770 o “Porto de Maria Angu” aparece demarcado, seguido do Porto N. S. Penha, ambos situados mais a Oeste do que o Engenho da Pedra.

O porto era local de atracação de embarcações que navegavam pela baía e que transportavam os produtos da região para a cidade e dela traziam mercadorias a serem comercializadas. Também era ponto de embarque e desembarque de passageiros, com serviço cotidiano de “faluas”, “saveiros” e canoas que garantiam a circulação entre os diversos portos da cidade. A navegação pela baía era meio usual de transporte pessoal e de carga sendo mais comum até do que o deslocamento pelas péssimas estradas terrestres.

Mapa de 1770 O Porto de Maria Angu antes da abertura da Avenida Brasil

Penha

As terras da região faziam parte do Engenho N. Sra. da Ajuda de Irajá, pertencente a Baltazar de Abreu Cardoso, no século XVII. Teria se passado com este senhor a lenda do ataque de uma cobra quando observava suas plantações do alto do penedo local. Frente ao perigo invocou a proteção da virgem, tendo sido salvo por um lagarto que espantou a serpente. Em agradecimento mandou erigir a capela que depois seria elevada à Igreja de N. Sra. da Penha, cujo templo atual é de 1780[1].

Posteriormente suas terras se desvinculariam do engenho anterior, constituindo um novo sob a invocação de Nossa Senhora da Penha. 

Seu acesso tanto se fazia pela estrada terrestre que levava o nome do lugar, quando pelo porto localizado em área fronteiriça, mas relativamente distante, na Baía de Guanabara.  

Em resultado das pesquisas efetuadas para o citado “Mapa Histórico e Arqueológico do Estado da Guanabara”, na década de 60, para a Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico da Guanabara o que pode ter sido o prédio da Fazenda da Penha foi então localizado nas proximidades da “Casa dos Milagres” daquele templo. As fotos tiradas e a documentação levantada devem hoje fazer parte do acervo do Arquivo da Cidade.



[1]Em relação à devoção é interessante ressaltar que a Nossa Senhora da Penha é a mesma (e de mais antigo culto) N. Sra. da Vitória. Esta invocação sob a qual se fundou a capital do Espírito Santo, cuja imagem venerada foi colocada no Convento sobre uma montanha (uma “Penha”) passou a ser a N. Sra da Vitória da Penha do Espírito Santo. Depois, simplesmente, como Nossa Senhora da Penha.

Em função do crescimento da favela do entorno da Igreja, este prédio desapareceu sem deixar vestígios.  É interessante ressaltar que o estilo arquitetônico do prédio remete à segunda metade do século XVIII, com sua varanda e colunas toscanas, do mesmo tipo da Casa do Capão do Bispo, do Engenho de Columbandê e outros exemplos ainda preservados. 

Ficaram, no entanto, perpetuadas as festividades tradicionais em honra de N. Sra da Penha que até hoje conduzem ao local, milhares de romeiros.

Fazendinha da Penha

Se a Igreja da Penha não corre risco de impacto direto, situa-se na margem da Avenida Brasil (nº 9727) um outro local de importância. Trata-se da “Fazendinha da Penha” onde se localiza a Escola Wenceslau Belo, da Sociedade Nacional de Agricultura.

Suas terras foram desmembradas desde cedo do antigo território do Engenho da Penha e ali foi estabelecida aquela instituição de ensino e pesquisas que fornece cursos diversos, mantém um horto, criação de abelhas, etc. Em 1984 foi criada no local uma Área de Proteção Ambiental, preservando uma extensão verde de 144.000 m2.

A construção existente nas proximidades da Casa dos Milagres da Igreja da Penha que subsistiu, pelo menos, até a década de 60 do século passado Escola Wenceslau Belo, na Fazendinha da Penha

 

Avenida Brasil

Contexto Arqueológico

Não foram identificados sítios na ADA, AID ou AII do empreendimento.

Trecho 4

Da Penha a Deodoro

Este trecho possui uma configuração ocupacional específica, pois, nele a própria rodovia se constituiu em polo de atração para o povoamento, ao contrário do anterior em que a mesma impactou e alterou de forma significativa as perspectivas históricas tradicionais. São áreas distintas em torno da mesma realidade, mas de passado ocupacional diferenciado.

Isto, no entanto, não quer dizer que a área não fosse povoada, pelo contrário é uma das mais antigas a ser partilhada em sesmarias desde a época da conquista. Seu povoamento, no entanto era esparso, constituído basicamente por propriedades de produção açucareira ou por alambiques de aguardente. Pelo mapa de Jorge Lobo, de 1778, pode-se ter uma ideia dos principais pontos ocupados.

Pode-se observar que, não obstante o território se encontrar dividido em propriedades

amplas, existem vazios populacionais entre elas. Seriam estes “vazios” justamente aqueles beneficiados pela abertura da Avenida.

Anteriormente somente as estradas de ferro (a partir da segunda metade do século XIX) e o estabelecimento das estações de parada incentivaram e atraíram o povoamento.

Em mapa bem mais recente, de cem anos depois, pode-se verificar que malgrado as mudanças de nome, o panorama geral pouco se alterara.

O ponto final do traçado da rodovia que nos interessa agora tratar, Deodoro, aparece em ambos os mapas com a antiga denominação do engenho local: “Sapopemba” (no mais antigo como “Sacupema”).

Este nome era dado às grandes raízes de árvores da floresta tropical, que conformam verdadeiros recintos na sua base. 

Mapa de Jorge Lobo de 1778 com os principais pontos de ocupação demarcados. Mapa de 1870 com o traçado da Estrada de Ferro D. Pedro II Desenho de Rugendas, focalizando uma “floresta virgem”, com uma árvore com raízes em “sapopemba” em primeiro plano.

 

Pesquisa Histórica Parte III