Projeto de Diagnóstico Arqueológico Não Interventivo do Corredor Viário Transbrasil - Parte III

Contexto Histórico

Todo o território da cidade do Rio de Janeiro durante o século XVI pertenceu inicialmente a uma única Freguesia, a da Sé (Velha) no Morro do Castelo. A primeira divisão se deu com a criação da Freguesia da Candelária, de forma que todos os habitantes da cidade e do seu recôncavo tinham que se dirigir para o centro para batizarem seus filhos, para se casarem ou enterrar seus mortos, familiares ou cativos. A vida política e administrativa se confundia com a religiosa e era comum que até mesmo cópias de testamentos e partilhas constassem dos livros paroquiais.

No início do século seguinte, ainda que se coloquem dúvidas a respeito, a primeira freguesia criada seria a de N. Sra. das Neves, depois “do Pilar” no recôncavo (por  volta  de  1613 ).  Sem maiores discussões aceita-se que a primeira realmente criada teria sido a Freguesia de N. Sra. da Apresentação de Irajá, 1647, abarcando todo o interior antes de ser desmembrada para formação das demais (Inhaúma, Campo Grande, São João de Meriti – antes Trairaponga – Santo Antônio de Jacutinga, Piedade de Iguaçu, etc.), ao longo dos séculos XVII e XVIII.

A área que nos interessa aqui, onde se desenvolveriam os bairros e as localidades cortadas pela rodovia em foco, é aquela com os pontos principais demarcados nos mapas acima.

Pontos Principais

Braz de Pina

Primeiro ponto de importância, acima da Penha, pertenceu ao contratador da Pesca da Baleia, fornecedor do óleo para iluminação doméstica e pública da cidade.  Foi detentor do monopólio durante longos anos, até 1765. Além disso, em suas terras também implantou um engenho de açúcar. Sua propriedade se estendia até o litoral, mas como não possuía um bom porto mandou construir um novo mais próximo à cidade, o porto que inicialmente levou seu nome e depois foi chamado de “Cais dos Mineiros”, para escoar seus produtos.

A sede do seu engenho subsistiu até o século XX, merecendo pesquisas e despertando o interesse dos historiadores, localizando-se numa colina situada do lado direito da Estrada de Ferro (Leopoldina). 

A reportagem de 1940 discute as ruínas ainda existentes atribuindo-as à sede do antigo engenho que deu nome à parada da Estrada de Ferro.

As terras passaram por diversos donos, inclusive para o português José Maria Esteves, entre 1842 e 1870. No século XX, a área foi modernizada, com a criação da Estrada de Ferro Leopoldina e comprada pela companhia Kosmos Construtora, que loteou o bairro, construindo “bangalôs” típicos da época e denominando-o como “Vila Guanabara”. A Igreja é de 1929.

O bairro em si, não será afetado diretamente pelas obras da rodovia, mas certamente se beneficiará delas. Em relação às terras do antigo engenho mais próximas ao mar e já cortadas pela abertura da Avenida Brasil, frente ao projeto disponível, também serão elas pouco impactadas, recomendando-se, no entanto, o seu monitoramento permanente. 

Jornal “A Noite” de 17 de fevereiro de 1940. Ano XXIX, N° 10.064 Casas da Época

Cordovil

A história da ocupação da região recua ao século da conquista, mas a documentação específica para o local que seria conhecido como “Cordovil”, começa a ser registrada em detalhes no início do século XVIII. Ali foi erguido o engenho N. Sra. de Bonsucesso, que partia com terras do engenho de Braz de Pina e com o engenho que viria a ser do Vigário Geral. Pertencia ele, em 1760, ao Provedor Mor da Fazenda Real, Francisco Cordovil de Siqueira e Melo, casado com D. Catarina Vaz Moreno, que o venderam a José de Souza Andrade. Pela nota do Tabelião, fora ele registrado na Freguesia de Irajá[1]. Mas a família já estava estabelecida na área desde as décadas iniciais do mesmo século, pelo menos desde 1711.

O pai do citado proprietário, de nome Bartolomeu de Siqueira Cordovil e sua mulher D. Margarida Pimenta, na casa do seu engenho, venderam um curral de gado em Bacaxá[2].

O engenho passou por outros proprietários, apagou seus fogos no século seguinte, e em 1902, as terras foram vendidas para o Visconde de Morais que loteou a região na década seguinte. A estação da Leopoldina que levou o nome da antiga família de proprietários, Cordovil, foi estabelecida em 1910.

Pelo bairro passou também à antiga Rio-Petrópolis (atuais Ruas Itabira e Bulhões Maciel).

Os limites do bairro de Cordovil pelo rio Meriti marcam a fronteira da cidade com o restante do Estado do Rio (Duque de Caxias), aproximadamente na área onde seria erguida a “Cidade Alta” no século passado.

Devem ser consideradas as mesmas recomendações feitas acima em relação a Braz de Pina.

Vigário Geral & Jardim América

No seu devido tempo, o território de vigário Geral pertenceu à Freguesia de Irajá. A crônica de sua ocupação não é muito clara e demanda maiores pesquisas. Há uma referência antiga (agora não localizada) de que nas proximidades da foz do Rio Meriti, margem direita, existiu outrora uma grande construção pertencente ao Vigário Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Este local teria dado nome a toda a área e quando ali se localizou a parada “Velho Engenho” da Estrada de Ferro. Leopoldina teria sido este nome escolhido em referência a tal instalação. O fato é que existiu uma estrada ligando aquela parada ferroviária à sede da Freguesia de Irajá, denominada estrada do Vigário Geral, hoje a Rua Aníbal Porto.

As terras foram urbanizadas a partir de 1930 e loteadas pela Companhia Territorial do Rio de Janeiro.



[1] Documento do Arquivo Nacional, Cartório do Primeiro Ofício de Notas, Livro 131. Em 21 de maio de 1760 o Provedor da Fazenda Real, Francisco Cordovil da Siqueira e sua mulher Caetana Vaz Moreno venderam a José de Andrade o engenho “Nossa Senhora de Bonsucesso, que partia com terras do engenho de Braz de Pina e do Cônego Luiz da Silva Braga”.

Obs.: Das terras deste engenho seria retirada mais tarde porção que constituiria a propriedade do Bispo Castelo Branco, com sua casa senhorial do “Capão do Bispo”. O subúrbio de Bonsucesso ocupa parte das terras que um dia pertenceram ao engenho.

 [2] Em 1733 o Coronel Manoel Dias de Menezes vendeu ao seu cunhado Augusto de Cordovil, em sua propriedade no “Porto de Irajá”, um curral de gado em Bacaxá. Arquivo Nacional, Cartório do Segundo Ofício de Notas, Livro 44, em 28 de maio de 1733.

A família Cordovil,  já se instalara muito antes na Freguesia de Irajá, desde o século anterior. Em 1711 Bernardo Siqueira de Cordovil, pai do citado Francisco da nora 01, também Provedor da Fazenda Real, e sua mulher D. Margarida Pimenta, venderam seu engenho de Irajá para Antônio Machado Maciel, em 28de junho. Arquivo Nacional Cartório do Primeiro Ofício Livro 80.   

___________________________________________________________________

Na jurisdição do bairro também se localizava a velha Fazenda Botafogo que desapropriada em meados do século passado foi loteada dando origem ao bairro Jardim América.

Conjunto da Fazenda Botafogo – Jardim América

Costa Barros & Barros Filho    

Ambos os bairros são vizinhos entre si e com a Fazenda Botafogo, Pavuna, Acari e Vigário Geral.

A família Costa Barros era proprietária da Fazenda Boa Esperança e suas terras seriam cortadas por duas estradas de Ferro, a Estrada de Ferro Melhoramentos, depois “Linha Auxiliar” e pelo Ramal de Belford Roxo. Na primeira seria estabelecida a estação de “Barros Filho”, em homenagem ao filho do proprietário das terras que cedeu a área para fixação da mesma e passagem da ferrovia (construída entre 1892 e 1898) e inaugurada em 1908.

Já a parada de Costa Barros, em lembrança do antigo proprietário, é de data mais recente.

Aqui vale destacar que no trecho situado entre Madureira e Deodoro no limiar do século XX ainda subsistiam cinco Fazendas: A já citada, “Boa Esperança”, a “do Campinho”, a “do Portela”, a “do Valqueire” e a de “Sapopemba”. 

Acari

O bairro de Acari é um daqueles típicos que resultaram da passagem de rodovias pelo seu território. Uma das localidades mais antigas nasceu nas margens da Avenida Automóvel Clube (Rua Açuruí), a “Vila Nazaré”, de 1938. Acari resultou da ocupação engendrada pela Avenida Brasil.

Na sua margem direita na década de 1950 foi erigido um Conjunto Habitacional denominado “Amarelinho” e a este se juntando, pelo menos, cinco outros locais (Parque Acari, Vila Rica de Irajá, Parque Coroado e Vila Esperança) constituiu-se o bairro “Acari”.

Guadalupe

Guadalupe é outro bairro que nasceu em função da Avenida Brasil. No Governo Getúlio Vargas quando da construção de conjuntos habitacionais vinculados aos Institutos de Aposentadoria e Pensões (como o I.A.P.I da Penha e o I.A.P.C. de Olaria) a esposa do presidente, Dona Darcy Vargas sugeriu que aquele da “Fundação da Casa Popular” na margem da Avenida homenageasse a “padroeira das Américas”. Nas proximidades se localizava a Igreja de N. Sra. de Guadalupe, que acabou nomeando o Conjunto Residencial e dele, o Bairro. Este confronta com Costa Barros, Barros Filho, Honório Gurgel, Pavuna, Marechal Hermes, Ricardo de Albuquerque, Anchieta e Deodoro. Deve-se destacar, no entanto, que a velha Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe localiza-se bem distante dali na área de Marapicu e existe preservada até hoje.

Suas terras originalmente pertenciam à mesma Fazenda Boa Esperança, situada nas margens do rio Sapopemba, também na antiga Freguesia de Irajá. 

Coelho Neto

Terras originalmente vinculadas também à Freguesia de Irajá. Seu território era cortado pela Avenida Automóvel Clube, pela Estrada da Pavuna e pela estrada do Areal (atual Avenida dos Italianos). Quando a Estrada de Ferro Rio D’Ouro passou pela região, ali estabeleceu a Estação de Areal que funcionou até a década de 60, do século passado, quando foi desativada juntamente com outras paradas ferroviárias.

A estação voltou a funcionar quando da criação do Metropolitano do Rio de Janeiro, e o bairro ganhou novo impulso, situando-se entre Del Castilho e a Pavuna, também servidos pela “Linha 2” do Metrô.

Inicialmente atingida pela Avenida das Bandeiras, depois Avenida Brasil é outro bairro que deve em grande parte sua ocupação a esta via que, por facilitar o acesso, serviu de polo de atração, reforçado pela serventia da linha do Metrô carioca.   

Marechal Hermes

Este bairro não dependeu da abertura da Avenida Brasil para seu estabelecimento e posterior crescimento. Possui uma crônica histórica própria que se prende às mudanças políticas e sociais dos anos finais do século XIX e iniciais do século XX.

Com a libertação dos cativos em 1888, permaneceu a preocupação de onde alojar a massa de escravos que não permaneceram nas fazendas ou nas casas dos antigos senhores. Um projeto daquele ano estabelecia a construção de um conjunto habitacional para alojá-los, com “casas populares” (com a média de três cômodos cada), mas possuidor de uma infraestrutura ideal, com escolas, ruas planejadas, serviços de água e esgotos, etc. Tal projeto não foi adiante.

Em 1911, no governo do Marechal Hermes, tais projetos ganharam ênfase tendo sido construídas, ao menos, vilas operárias na Rua Salvador de Sá e no Jardim Botânico. Também procurou mandar construir bairros residenciais para o alojamento das forças armadas, um com o nome de “Vila Militar” e outro específico para a aeronáutica no “Campo dos Afonsos” (outra velha fazenda colonial). 

Mas o bairro proletário inteiro com todas as instalações planejadas só começou a ser construído em 1911 e inaugurado em 1913, pelo presidente que o batizou com o próprio nome, contra uma campanha cerrada e ao custo de onze mil contos de réis.  

Ao deixar o governo em 1914, somente cerca de 20% dos prédios haviam sido construídos, mas os planos de arruamento e instalações subsidiárias organizadas a ponto de poder ser depois retomado, pelo menos parcialmente e com alterações, no governo Vargas, em 1930.

As reformas do Governo Vargas asseguraram nova dinâmica para o bairro, com a instalação de escolas, um centro comercial básico, linhas de ônibus completando a ligação ferroviária, etc. Com o tempo se instalaram o Teatro Armando Gonzaga, o Hospital Carlos Chagas e a Maternidade Alexander Fleming.

A abertura da Avenida Brasil não cortou o bairro e sim o tangenciou, mas de qualquer forma garantiu uma nova via de acesso, mais rápida do que as antigas ruas que acompanham a linha ferroviária e o liga às paradas tradicionais. 

Planta do Bairro Planejado de Marechal Hermes A Estação de Marechal Hermes Uma da escolas municipais do bairro

 As reformas do Governo Vargas asseguraram nova dinâmica para o bairro, com a instalação de escolas, um centro comercial básico, linhas de ônibus completando a ligação ferroviária, etc. Com o tempo se instalaram o Teatro Armando Gonzaga, o Hospital Carlos Chagas e a Maternidade Alexander Fleming.

A abertura da Avenida Brasil não cortou o bairro e sim o tangenciou, mas de qualquer forma garantiu uma nova via de acesso, mais rápida do que as antigas ruas que acompanham a linha ferroviária e o liga às paradas tradicionais.

Deodoro

Também no governo do Marechal Hermes da Fonseca tornou-se necessário relocalizar as unidades do exército brasileiro, até então concentradas no perímetro urbano do Rio de Janeiro.

Foi então providenciada a desapropriação de uma extensa área do antigo engenho de Sapopemba, então pertencente ao Conde Sebastião de Pinho. As obras foram iniciadas em 1910 e concluídas em 1912, tendo sido criada a Vila Militar. Estas instalações seriam acrescidas e modernizadas nos anos seguintes.

A estação de Sapopemba, da Estrada de Ferro D. Pedro II, é de antiga construção, recuando a 1859. Seu nome foi trocado para Deodoro em homenagem ao proclamador da República. As instalações da estação ferroviária, assim como a do “Engenho de Dentro”, (excetuando a “gare D. Pedro II”) com sua armação de ferro e oficinas de reparo são as maiores da ferrovia.   

Posteriormente a partir dela foi estabelecido o ramal de Mangaratiba e inaugurada a estação de Vila Militar logo depois da inauguração do bairro.

Em 1907 já havia sido inaugurada a estação de Magalhães Bastos (ainda que alguns historiadores a coloquem no ano de 1914).  Em 1913 a de Ricardo de Albuquerque e nos anos 50 um ramal privativo dos militares que alcançava a área dos campos de Gericinó. Criaram-se os bairros de Guadalupe, Anchieta (na área do antigo engenho de Nazaré), entre outros.

Irajá

A região em foco pertenceu um dia praticamente toda ela a esta Freguesia, conforme já foi comentada a terceira mais “anosa” da Cidade, no dizer de Monsenhor Pizarro, ou seja, uma das primeiras a ser estabelecida no “Termo da Cidade do Rio de Janeiro”.  Das terras de Irajá sairiam depois as Freguesias de Inhaúma, Jacarepaguá e Campo Grande, algumas das quais também sofreriam parcelamento depois.

Do mapa abaixo, um dos mais antigos focalizando o território da Capitania do Rio de Janeiro e atribuído ao Cartógrafo Teixeira Leão, datado de 1767 e atualizado em 1828, destacamos a área desta antiga Freguesia e do território vizinho, registrando com mais detalhes os engenhos que ainda existiam no século XIX. Onde possível, indicamos o nome atual do lugar.  

Mapa de 1767/1828 no qual destacamos a localização dos antigos engenhos ainda existentes e das principais Freguesias, os primeiros em vermelho e as segundas em Roxo

 Pelos dados disponíveis no Arquivo de documentos históricos do I.A.B. foram inúmeros os engenhos, os alambiques, os sítios e as chácaras desta área, muitas das quais desapareceram sem deixar vestígios. Poucos, muito poucos, tiveram preservadas suas estruturas arquitetônicas, como o engenho D’Água em Jacarepaguá, a Casa do Capão do Bispo, em Inhaúma (atual Del Castilho) e a sede do Engenho do Viegas, em Campo Grande. Em pontos mais distantes outros resquícios podem ser ainda encontrados, como aqueles dos engenhos da Lagoa Rodrigo de Freitas, a casa do Engenho de Colubandê, em São Gonçalo e as Igrejas sede das Freguesias. Entre estas, a de Nossa Senhora do Loreto de Jacarepaguá, Nossa Senhora da Ajuda de Irajá, a de São Mateus no bairro do mesmo nome e a de Nossa Senhora do Pilar na Baixada Fluminense. Sem nunca terem sido sede de Freguesias, mas nem por isso menos importante, a Igreja da Penha ou a Capelinha oitocentista ainda preservada na Fazenda da Posse, em Nova Iguaçu.  

Considerações e Recomendações

Conforme as pesquisas desenvolvidas, pode-se constatar o alto potencial da área do empreendimento, representado, principalmente, pelos Trechos 1, 2 e 3. A existência de sítios arqueológicos pesquisados no Trecho 1, bem como na AID do empreendimento, confirmam esta assertiva.

A farta documentação levantada permite indicar que a área do Aeroporto Santos Dummont até trechos da Avenida Presidente Antônio Carlos é formada por aterros, provenientes do Morro do Castelo. Considera-se esta área como de médio potencial arqueológico.

A análise do trecho compreendido pela Avenida Primeiro de Março até a Candelária aponta alto potencial arqueológico, visto as pesquisas já desenvolvidas na AID do empreendimento (Antiga Sé e Praça XV) terem apontado resultados positivos, bem como a indicação no levantamento histórico da importância da área. A identificação de vestígios de paliçadas (Antiga Sé), variações arquitetônicas e estratigráficas, cemitérios etc., remetem à continuidade ocupacional desta região.

Apesar da apresentação atual, a área da Igreja da Candelária, até o atual Campo de Santana possuía a concentração populacional, com residências nas proximidades da Instituição religiosa. Com a construção da Avenida Presidente Vargas vários edifícios foram demolidos tornando as intervenções arqueológicas na área necessárias e de alto potencial.

O Trecho representado pela Avenida Francisco Bicalho foi alvo de diversas intervenções urbanísticas, desde a criação de vias transitáveis até um canal, em meados do século XIX, permitindo o acesso por meio de uma região pantanosa a pontos estratégicos do Rio de Janeiro. Desta forma, por mais que tenha havido aterros, o conhecimento pormenorizado dos aspectos construtivos e arquitetônicos do Canal do Mangue e seu entorno devem ser considerados, tornando-o de alto potencial arqueológico.

O Trecho compreendido pelo Caju e São Cristóvão até a Penha também apresentava, nas imediações da área abrangida pelo empreendimento, ocupações pretéritas, ainda que a linha do litoral tenha tomado novos contornos. A conformação desta área, associado ao seu contexto histórico, tornam o trecho de médio potencial arqueológico.

Deste Trecho até Deodoro, a construção da Avenida Brasil impulsionou a ocupação na área no entorno desta via. A existência de ocupações pretéritas não pode ser descartada, visto o desenvolvimento histórico na região, permitindo considerar esta área como de baixo potencial arqueológico.

Na área de impacto direto do Trecho 04, da Penha a Deodoro, não há identificação de registro de algum marco histórico correndo risco de destruição. Isto não impede, todavia, que seja recomendada a máxima atenção ao serem efetivadas as obras da Transbrasil.

O monitoramento das mesmas, neste trecho, é algo que se impõem pela importância que este espaço sempre desfrutou como parte integrante da história carioca e brasileira.

Como se pode ver no mapa abaixo, as áreas consideradas de Alto Potencial Arqueológico, de uma forma geral, estão envolvidas por Áreas de Proteção do Ambiente Cultural – APAC, a saber: APAC Corredor Cultural; APAC Ministério da Fazenda; APAC Cruz Vermelha, APAC São Bento, APAC SAGAS; APAC São Cristóvão, bem como por um vasto número de bens tombados por órgãos de proteção ao patrimônio.

Não por coincidência, estes trechos coincidem com aqueles apontados como relacionados intimamente com a construção espaço urbano conhecido atualmente como Cidade do Rio de Janeiro. Diversos eventos históricos se desenrolaram nas ruas da cidade, bem como em seus gabinetes e morros, deixando marcas paulatinamente no espaço e no tempo.

Mapa com os trechos 1 e 2 com áreas das APACs no entorno.

 Atualmente, o trecho que abrangerá o Corredor Viário Transbrasil atravessa vias urbanas públicas que escondem sob as camadas de pavimentação parte da história do Rio de Janeiro. Com o estudo das estruturas e monumentos através de seu caráter técnico e construtivo, a aplicação da arqueologia em projetos de intervenção e revitalização de áreas históricas permite trazer à tona informações atualmente perdidas que estão associadas aos espaços públicos que compõe este núcleo urbano. Tem-se, assim, a renovação da dinâmica social do Rio de Janeiro, através de uma nova abordagem urbanística, com novos contornos em espaços já explorados.

A interdição das vias públicas para construção de novas alternativas de transporte e comunicação trará uma oportunidade ímpar para o conhecimento arqueológico da região de forma extensiva.

Recomenda-se assim que, sejam realizadas atividades de prospecção e caracterização nas áreas consideradas como de alto e médio potencial arqueológico e nas áreas designadas para canteiros de obras e bota-fora.

O Monitoramento Arqueológico deverá contemplar as etapas sequenciais à caracterização das estruturas, onde e enquanto houver atividade de revolvimento de terras, bem como as áreas consideradas de baixo potencial arqueológico.

Assim, o desenvolvimento de um Programa de Pesquisas Arqueológicas Intensivas deverá ser desenvolvido, atendendo à legislação vigente, bem como a partir da compreensão de ser a ciência arqueológica a única capaz de renovar o conhecimento relativo à cidade atual, permitindo destacar sua identidade e seus valores de autenticidade e singularidade.

 ♦ Pesquisa realizada pelo Professor Ondemar Dias - Instituto de Arqueologia Brasileira - IAB