Programa de Pesquisas Arqueológicas, de Educação Patrimonial, Levantamento do Patrimônio Cultural Imaterial e Estudos de Elementos de Arquitetura Histórica na Estrada RJ-149 – Rio Claro-Mangaratiba – Estrada do Imperador - Parte II

Com o objetivo de complementar as atividades desenvolvidas na Fase 1 deste Projeto, bem como atender às exigências legais do Instituto  do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, através da Portaria 230/2002, foi desenvolvido pelo Instituto de Arqueologia Brasileira-IAB o Projeto RJ 149 – RIO CLARO-MANGARATIBA / ESTRADA DO IMPERADOR - Prospecção e Resgate/Salvamento Arqueológico da A II (Área de Influência Indireta) Educação Patrimonial, Levantamento do Patrimônio Cultural Imaterial e Estudos de Elementos de Arquitetura Histórica durante vários meses entre os anos de 2010 e 2012.

Estudos dos Elementos de Arquitetura Histórica

 

Aqui trataremos dos Estudos dos Elementos de Arquitetura Histórica na região pesquisada, desenvolvidos em quatro etapas:

1- Cadastro

2- Mapeamento de danos

3- Análise de patologias, diagnóstico do estado de conservação e proposta de intervenção

4- Restauro e manutenção

A proposta de intervenção presumiu um plano geral de manutenção, combinação de ações técnicas e administrativas, visando à recuperação em âmbito geral de cada elemento envolvido de forma a restabelecer plenamente a capacidade de utilização destes, e ainda, capacitá-las às novas demandas - função da revitalização da estrada como instrumento de transporte viário.

A transformação de estrada vicinal em estrada estadual imprimiu uma necessidade maior de suporte dos elementos constituintes - pontes, sistemas de drenagens e demais elementos originais - bebedouro, mirante e muros de arrimo. Uma análise preliminar evidenciou que todos os dispositivos de arrimo, captação e drenagem da estrada funcionam perfeitamente, o que remeteu à possibilidade de aproveitamento integral dos elementos listados.

Considerando que estão em funcionamento há 150 anos, e que a partir da segunda metade do século XX a solicitação de carga vem crescendo exponencialmente, estes elementos demandam reparos e reforços que visam sua estabilidade e adequação aos novos esforços decorrentes da pavimentação da estrada.

Cabe notar que a pavimentação original em pedras - pé de moleque, bastante irregular-,  inibia sua utilização; fato que seria superado com a pavimentação em asfalto o que implicou em alguns problemas, tais como a necessidade de maior largura da estrada, considerando que o fluxo de carga por intermédio de caminhões aumentaria consideravelmente. Este fato é bastante significativo pois imprime uma maior carga sobre a base da estrada, notadamente nas pontes de pedra.

Desta forma, foram apresentados os levantamentos, desenvolvidos de forma a estabelecer o cadastro básico que objetivava referenciar a etapa de mapeamento de danos.

Desenvolvimento das Atividades de Cadastro

Foram identificados e registrados todos os detalhes necessários à compreensão das dimensões do conjunto de cada elemento conforme relação abaixo:

  • Ruínas do Saco de Cima;
  • Ponte nova próxima ao Mirante.
  • Mirante;
  • Bebedouro da Barreira;
  • Elementos de drenagem da Cachoeira dos Escravos;
  • Ponte de pedra sobre o rio da Lapa;
  • Ponte Boa Vista;
  • Ponte do Matutu e
  • Cachoeira dos escravos 

Na primeira etapa, que visou apenas a medição e representação gráfica da volumetria e elementos construtivos da estrada, foram diagnosticadas diversas patologias considerando que as ações de manutenção, correção e reforços somente poderiam ser desenvolvidas a partir do conhecimento detalhado das características de cada elemento pesquisado.

A questão fundamental envolveria ações de manutenção que seriam divididas em diversas ações que fundamentariam uma proposta de manutenção. Seriam elas:

Manutenção emergencial - ações de manutenção determinantes para em curto prazo evitar danos irreversíveis (envolveriam escoramentos e reforços estruturais);

Manutenção corretiva - ações de correção de tendências que incrementariam processos de deterioração e falência estrutural.

Manutenção preventiva - ações que visavam reforçar a capacidade de suporte dos elementos em questão face às novas solicitações, com vista a reduzir as probabilidades de falência nas performances destes elementos.

Restauração - ações pontuais de restauro de elementos em pedra nos pontos onde tais ações seriam necessárias.

Reparos e reforços - ações de complementos e reforços com a criação de novos elementos estruturais visando ao alívio dos esforços acima da capacidade de trabalho dos elementos históricos.

Mapeamento de Danos

Nesta etapa, apresentaram-se os registros do conjunto de danos e patologias observados em cada elemento arquitetônico em estudo. O conjunto dos danos e patologias referencia o estado de conservação geral e foram representados de forma particular para cada elemento a partir de plantas e vistas de modo a estabelecer o cadastro básico que orientariam as etapas subsequentes de diagnósticos e propostas de intervenção.

Foram identificados e registrados todos os dados necessários à compreensão da natureza dos danos e patologias que incidem em cada elemento.

Ruínas do Saco de Cima

O conjunto destes elementos está estável. Os danos verificados são recentes e se devem a abalroamento pois não há indícios, neste trecho, de crescimento de raízes, elementos vegetais que se infiltram nos interstícios das pedras e as soltam.

Ponte Nova 

A primeira ponte de pedra das quatro que a estrada possui, embora semelhantes, apresentam diferenças e características particulares. Esta ponte, em especial, tem a forma de um túnel, com o arco de pedra embutido totalmente no arrimo de pedra, razão pela qual absorve com maior facilidade os esforços decorrentes da estrada acima. Está em bom estado geral, contudo, observa-se o desagregamento dos blocos de pedra da alvenaria, que demanda ações de conservação.

O Mirante

 

O Mirante, implantado no ponto onde a estrada faz uma curva voltada para o litoral, constitui-se de um platô nivelado e pavimentado com pedras de diversos tamanhos. O local está bastante degradado por ação de vândalos que atiram do platô veículos, o que pode ser comprovado pelas inúmeras carcaças que se observa no fundo do penhasco.

A presença de veículos no local é o principal agente de degradação, considerando que as pedras são assentadas sem argamassa a tração exercida pelas rodas sobre as pedras as removem e deixam as inúmeras lacunas que verifica-se no local.

Pode-se observar que o conjunto principal de pedras perimetrais que arrematam a canaleta de águas pluviais apresenta falta significativa de elementos. Por outro lado, a pavimentação original do conjunto do platô também apresenta falta de grande trecho de pavimentação.

Outro elemento importante na leitura do conjunto do Mirante é o muro de pedra que foi erigido ao longo da estrada, cuja base está situada no limite da canaleta. O muro foi cadastrado em ambos os lados, pois apresenta cerca de 10 metros de cada lado e está em bom estado de conservação, com poucas perdas no trecho acima do Mirante - sentido São João Marcos, e maiores perdas no trecho contrário.

A estrada como um todo, apresenta diversos muros de arrimo em pedra. No Mirante há um grande muro com altura de cerca de 12 metros. Este tipo de elemento construtivo não está, de um modo geral, sujeito à ação de vândalos, e o fato de funcionarem por ação gravitacional, ou seja por peso, agindo de forma a manter o platô da estrada estável, não costuma ceder pela ação de peso.

O maior inimigo dos arrimos, sejam estes de pedra, como é o caso, sejam de concreto, deve-se a ação da água. Neste caso é válido lembrar que a estrada foi construída por iniciativa do Império em parceria com empresários da época, o que presume um apuro técnico e o emprego de tecnologia de drenagem bastante adequada e eficiente. Nota-se que cada trecho da estrada foi projetado e construído com a preocupação de coletar e orientar as águas pluviais, inúmeras caixas de coleta e galerias são observadas e funcionam perfeitamente mesmo passados 150 anos!

A presença de galerias remete ao apuro construtivo, pois ao executar a estrada em nível nas retas e pequena inclinação nas curvas, se garante a maior estabilidade do leito. Por outro lado, demanda a construção de galerias atravessando a estrada para desaguar as águas coletadas nos níveis inferiores internos.

Outro dado importante é a pavimentação. Não foi encontrado nenhum trecho onde esta esteja íntegra e remeta a um modelo para sua reprodução. No geral, há falta generalizada de elementos de pavimentação. Apenas as pedras menores são encontradas e não formam um padrão.

Bebedouro da Barreira

Trata-se de uma construção em forma de muro de pedra com uma bacia instalada no nível adequado aos cavalos e mulas, que aproveitavam a parada para beber água e descansar. Presumivelmente existe algum elemento complementar de captação na parte posterior da construção. Porém esta constatação somente poderá ser confirmada após escavação arqueológica.

O conjunto do muro apresenta sinais de trechos desabados e recompostos com qualidade inferior ao partido original, em alguns pode-se  observar que a forma foi alterada.

O elemento principal, o bebedouro propriamente dito, é uma estrutura de pedra lavrada incrustada no muro, em estilo neoclássico, ao gosto da época. Está em razoável estado de conservação, com algumas perdas por deterioração dos elementos pétreos, notadamente na mísula que ornamenta a cobertura formada por duas grande lajes curvas posicionadas no topo do muro.

O maior problema deste elemento importante da estrada é o desnível geral que apresenta. Presumivelmente a destruição da canaleta e do sistema de drenagem proporcionou o recalque da fundação. Ressaltamos que as fundações de muros de pedra desta natureza se caracterizam por serem baldrames de pedra da mesma natureza do muro com largura pouco maior que a da parte superior, e que geralmente não possuem muita profundidade.

O conjunto do bebedouro apresenta alguns elementos adicionais, como canaletas, bicas de pedra lavrada, galerias, arrimos e muros.Os elementos complementares principais - os arrimos - estão em perfeito estado, assim como as galerias. Os muros laterais e as canaletas, por sua vez, estão bastante danificados e mesmo inexistentes em alguns trechos.

Ponte de Pedra da Bela Vista

Ponte original remanescente da construção da estrada. Possui impostas em muros construídos com blocos de pedra lavrada encaixada com precisão. Não se observa argamassa nos encaixes das pedras, que se apoiam em fundações rasas, também de pedra lavrada. A partir das impostas, nasce um arco pleno de blocos de pedra esculpida com compensação de ângulo - seção trapezoidal. O teto curvo se compõe de diversas linhas de pedras com as juntas desencontradas, proporcionando uma perfeita amarração que se efetiva com a coroa - uma linha de pedras de menor largura situadas ao centro no ponto mais alto do arco e que fecham e imobilizam o conjunto da estrutura.

Esta ponte sofreu a perda de alguns elementos da base, aparentemente por ação de enxurradas, que descalçou e deslocou estes blocos, situados no lado jusante da corrente do rio. Normalmente estes rios mais se parecem córregos, que, no entanto, em situações de chuvas fortes aumentam consideravelmente o fluxo levando, na corrente, troncos, pedras e diversos materiais que podem deslocar as pedras da ponte, principalmente as que estiverem sem o apoio da base da imposta. Ao que parece, alguns elementos de pedra lavrada estão no leito próximos à ponte, contudo somente durante um processo de intervenção poderão ser resgatados e recolocados em seus locais de origem.

Ponte do Matutu

Estrutura de pedra lavrada - o arco é composto de oito linhas transversais de cada lado da coroa. As juntas são desencontradas. Nesta ponte a mureta superior foi totalmente perdida em ambos os lados. O arco de pedra se apoia na impostas - maciço de pedra. Observa-se a alteração do padrão de arremate e da tipologia das pedras.

Na base a parede tem dois níveis e há uma transição entre as pedras lavradas e outras com menor elaboração, trabalhadas apenas o suficiente para se apoiar nas pedras abaixo. Isto é claro na alvenaria da base. Presume-se que a parede do lado oposto seja da mesma forma.

Na parede da imposta, no nível do arco, a situação é diferente; há sinais que sugerem recomposições pretéritas com menor qualidade que o padrão original. Nos trechos superiores à direita pode-se observar a falta de diversos elementos e o início do processo de arruinamento.

No centro da ponte à esquerda, pode-se observar um desarranjo das pedras da base. O motivo é a falta da pedra onde estas se apoiam, uma peça de seção retangular com 20 cm de altura. Provavelmente foi assoreada e deslocada. É possível que se encontre soterrada na areia nas proximidades do local de origem.

Cachoeira dos Escravos

A cachoeira dos escravos situa-se em uma curva da estrada implantada em um talvegue de grande dimensão que apresenta um fluxo contínuo de pouco volume. Contudo a construção de um vertedouro lateral com cerca de 2,00 metros de largura sugere que em situações de chuvas fortes este fluxo cresce consideravelmente. Podemos observar a implantação da estrada sobre a rocha maciça por intermédio de muros de pedra e, ainda, observar as duas saídas dos dois vertedouros que apresentam as mesmas dimensões. São túneis de pedra lavrada com paredes em alvenaria e tampos em lajes de pedra maciça.

O relevo do local remete ao trecho mais inclinado contíguo à estrada, e um trecho relativamente nivelado no trecho superior, criando um sítio de rara beleza.

O conjunto recebeu algumas alterações espúrias, como o complemento do muro original - desabado por abalroamento de veículos pesados, e um muro de forma circular feito com pedras de seção regular, e que circunda o ponto de queda principal. Notoriamente destoante do conjunto dos elementos de pedra originais.

O conjunto possui ainda os demais elementos complementares como os muros e canaletas. Todos os muros apresentam elementos faltantes. As canaletas estão assoreadas, com desnivelamento e trechos faltantes.

 

Áreas de Interesse Histórico

Fazenda Palmeiras

Em direção à comunidade de Três Vendas, localizada na Serra do Matoso, que dista cerca de 30 km da estrada de São João Marcos, passando pela fazenda Bálsamo, há ruínas de uma antiga casa grande identificada pelos alicerces da sede, de um moinho e de um engenho.

Calçamento de pedra na entrada da Fazenda Palmeiras Fazenda Palmeiras

 

Fazenda Santarém

Dois quilômetros após essa mesma comunidade em direção à represa pela estrada calçada, foram encontradas outras ruínas de uma antiga fazenda, cujo nome atual é Fazenda Santarém, também composta por um muro e vestígios de paredes de pedra.

Ruínas da atual Fazenda Santarém

Fazenda Santa Tereza – Serra do Matoso

Em uma estrada sem calçamento na direção do município de Seropédica, chega-se à fazenda Santa Tereza que foi construída no ano de 1851. Seus proprietários atuais são o Sr. Alberto Seabra Teles e a Sra. Maria Laura Seabra que procuram manter a fazenda em sua arquitetura original para preservar a história da região. No entorno da casa sede ainda se encontram muros de pedras, vestígios do antigo moinho e no seu interior um pátio interno com um belíssimo chafariz ou tanque de água que até hoje é utilizado pelos moradores da sede, e que possui um excelente sistema de escoamento.  Na foto podem-se destacar as figuras antropomorfas, o trabalho de cantaria e os azulejos que decoram parte da fachada do mesmo.

Fazenda Santa Tereza - Serra do Matoso Fazenda Santa Tereza  - Bebedouro

No interior da sede da fazenda, ainda se encontram móveis antigos, de época; várias fotos e louças que contam a história deste importante patrimônio arquitetônico.

Fazenda Santa Tereza –  parede original Fazenda Santa Tereza - cadeira Fazenda Santa Tereza  - piano