Programa de Pesquisas Arqueológicas, de Educação Patrimonial, Levantamento do Patrimônio Cultural Imaterial e Estudos de Elementos de Arquitetura Histórica na Estrada RJ-149 – Rio Claro-Mangaratiba – Estrada do Imperador - Parte III

O contrato estabelecido entre o Departamento de Estrada de Rodagem do Estado do Rio de Janeiro – DER-RJ e o Instituto de Arqueologia Brasileira-IAB tornou possível a realização do Projeto de Pesquisas Arqueológicas de Prospecções e Resgate na Estrada RJ-149 (do Imperador) – Rio Claro – Mangaratiba – DER-RJ&IAB.

Serviços Técnicos Especializados de Prospecção Arqueológica Interventiva, Monitoramento Arqueológico das Obras de Salvamento ou Resgate Arqueológico no Trecho 01 da RJ-149 (Rio Claro/Mangaratiba/Estrada do Imperador”. Esta designação resultou da revisão do cliente/patrocinador e é o principal marco de identificação do mesmo para os termos contratuais.

Este Projeto foi originalmente organizado para integrar o “Programa de Pesquisas Arqueológicas, de Educação Patrimonial e de Estudos de Elementos Arquitetônicos na Estrada RJ-149 – Rio Claro-Mangaratiba”.

A Pesquisa Arqueológica

Histórico da Organização da Pesquisa

Ainda que oficialmente os trabalhos de campo tenham se iniciado no ano de 2011 as pesquisas de verificação arqueológica tiveram seu começo no ano de 2010.  

Em julho daquele ano, fomos convocados por representantes da Firma Delta Engenharia, encarregada dos serviços de recuperação da Estrada, para efetuar um levantamento preliminar da situação das obras, então paralisadas por determinação dos órgãos ambientais.

Este início de atividades constou de duas manifestações práticas de pesquisas. A primeira se configurou como um “caminhamento”, ou levantamento de potencial, sendo percorrida e estudada toda a estrada e demarcados os pontos de interesse. Incluindo-se os sítios arqueológicos, dos quais cinco foram desde logo definidos no trecho situado entre a cidade de Rio Claro e o Parque Cunhambebe. 

A segunda objetivou atender à solicitação de preparação de um Projeto específico de atuação arqueológica. Procedemos, então, a uma série de visitas objetivando o levantamento de informações junto ao INEPAC; ao INEA; à SEOBRAS e com a Fundação Mário Peixoto de Mangaratiba. Culminamos tal levantamento com os contatos com o DEERJ e organizamos um texto inicial denominado como “Pré-Projeto”. Tal documento se constituiu o elemento de base para os entendimentos necessários objetivando a elaboração de um Projeto a ser discutido pelas partes interessadas.

Os contatos preliminares acima referidos se iniciaram no mês de junho e prosseguiram durante todo o restante daquele mesmo ano.  Neste ínterim também iniciamos as démarches necessárias para concretização do Programa junto ao IPHAN, tanto de forma particular, quanto em conjunto com os demais participantes do empreendimento. Em setembro, por exemplo, organizamos o primeiro Projeto efetivo, no qual adotamos a divisão das áreas de pesquisa segundo os lotes das obras.

Submetido o primeiro Projeto à discussão, fomos solicitados a preparar um novo e mais completo Programa (o segundo) contemplando três Projetos de Arqueologia (Prospecção, Salvamento e Monitoramento arqueológicos); um Projeto de Levantamento de Estudos de Patrimônio Imaterial e um Projeto de Educação Patrimonial.

Características do Projeto

Ainda que os anteriores Programas e Projetos de arqueologia seguissem a metodologia geral aplicada a todos os trabalhos até então, por determinação do IPHAN nova orientação de abordagem de campo foi então adotada. Tal fato se prende à discussão que se alonga a respeito do que é, ou o que caracteriza o sítio arqueológico histórico. Não se trata simplesmente do “sítio histórico”, pois este na sua existência não implica, nem altera, em nível constitucional, a questão da sua propriedade. O máximo que pode suceder a qualquer um deles é que – pela sua importância – possa vir a ser “tombado”, fato que limita a atuação do seu proprietário sobre seu uso, configuração, reforma etc. Mas não atua sobre o direito de sua propriedade.

Já o registro ou cadastramento de um sítio histórico como “arqueológico’ implica, legalmente, e de forma constitucional, até mesmo na perda da sua propriedade pelo particular que o usa, comprou, recebeu de herança, etc.

Por esta razão temos por base não cadastrar locais históricos de importância e habitados atualmente, como tal. Somente aquelas porções, ruínas, áreas abandonadas, etc, sem função social atual é que assim podem ser consideradas.

Foi, portanto, recomendada pelo IPHAN a adoção de nova metodologia de abordagem, no sentido de “como tratar” o lugar da pesquisa ou como nele penetrar com as técnicas arqueológicas. E este Programa se configura como pioneiro neste tipo de tratamento. Deve-se esclarecer, no entanto, que tais abordagens não implicam em mudanças metodológicas ou técnicas de campo e sim no que se refere à intensidade de aplicação de cada uma delas, de acordo com os procedimentos melhor recomendados pelo arqueólogo responsável ou pela coordenação.      

Para melhor caracterizar estes procedimentos estabelecemos uma terminologia que busca definir de forma clara a tipologia da abordagem, que é a seguinte:

Pesquisa – termo de uso comum, constituindo o objetivo dos trabalhos de arqueologia em seu contexto global, completo. 

Levantamento  - abordagem extensiva cobrindo grandes áreas, não se praticando abordagem  subsuperficiiais.  Não se deve, salvo exceções, também recolher material de superfície.  Avaliação preliminar do potencial de uma área.

Prospecção – pesquisa extensiva em áreas ainda não percorridas pelos pesquisadores. Avaliação do potencial arqueológico de uma área prevê abordagem subsuperficial ampla e não aprofundada;

Caracterização – correspondente ao que se denominava prospecção intensiva, com o uso de processos de escavação extensivos, objetivando o esclarecimento contextual amplo (espaço, tempo e morfologia) daqueles locais já anteriormente “levantados” e/ou prospeccionados e julgados de importância para aprofundamento do conhecimento. Aplicado, em especial, para sítios históricos com estruturas amplas e complexas;

Pesquisa intensiva – termo adotado para abordagem profunda ou escavação dos locais já identificados como sítios arqueológicos, correspondendo ao salvamento. Desde que não se preveja risco de destruição dos mesmos uma parte significativa do sítio deve ser protegido para abordagens futuras.

Resgate – termo adotado quando o sítio pesquisado deverá sofrer impacto direto e destruído, em conseqüência. Dever-se-á documentá-lo da maneira mais completa possível e pela sua escavação retirar do mesmo o máximo de dados e de material.

Monitoramento – sem alteração em relação ao seu uso comum, ou seja, a do acompanhamento das obras em locais já pesquisados.

Considerando que este Programa contém e se propôs a efetuar trabalhos arqueológicos tanto de prospecção e salvamento, quanto de monitoramento e que esta segunda categoria é mais simples de descrever e de analisar, iniciaremos por ela.

Monitoramento

Aspectos Gerais

O monitoramento é normalmente desenvolvido juntamente com qualquer tipo de obra em que o terreno, o solo, o ambiente circundante sofre a ação direta de elementos impactantes, sejam máquinas ou trabalhos manuais. Sofrer impacto significa que tais locais ou pontos de obras sofrem pela intromissão daqueles elementos necessários para a construção objeto de acompanhamento. Tais locais perdem suas características naturais, de forma total ou parcial e tanto podem desaparecer substituídos por algo novo, quanto permanecer descaracterizados, ou seja, sem sua morfologia original.

Frente à legislação atual torna-se obrigatório o acompanhamento de equipe especializada em arqueologia para salvar quaisquer vestígios de importância postos a descoberto por tais intromissões.  Na dependência da organização dos trabalhos é até mesmo possível que tais locais, uma vez comprovado se tratarem de sítios arqueológicos sejam resgatados de imediato, impedindo o atraso do andamento das mesmas obras. Outras vezes são eles isolados, protegidos e posteriormente salvos, com as naturais conseqüências.

No caso deste Programa não foram descobertos novos locais de interesse ao correr do monitoramento, em especial pelo fato de que as etapas anteriores (sejam os “caminhamentos”, seja a prospecção de dezembro de 2010) terem sido praticadas em detalhe e de forma cautelosa. Esgotaram, de fato, as possibilidades de novas ocorrências.

Constituíram-se como exceção os trechos da estrada em que – por determinação do INEPAC – foram colocados a descoberto os pisos ou calçamentos originais, então ainda recobertos por camada(s) de aterro.

Vestígios de sarjeta da antiga Estrada Imperial, na estaca 700 da atual RJ-149 Vestígios de sarjeta da antiga Estrada Imperial, na estaca 700 da atual RJ-149

Também podem ser considerados como tal dois pontos de importância não inventariados na lista original, mas que ao ser efetivado o acompanhamento das obras se revelaram de interesse para a pesquisa. Um deles recomendado pelo INEPAC, (o “mirante”) e outro valorizado pela equipe do IAB, (o “bebedouro 1”).     

O monitoramento foi desenvolvido naqueles trechos da estrada que se encontravam em obras ao ser iniciada a pesquisa de campo, todos restritos ao primeiro trecho da Estrada, situado entre as ruínas do “Saco de Mangaratiba” e o “Parque Cunhambebe” (onde se inicia o segundo trecho da mesma).

O monitoramento se fez atuante, em especial, no que diz respeito aos cuidados de exposição e de preservação das antigas obras viárias, a maioria delas da época da sua construção. Alguns trechos já modificados por antigas obras de reparo foram também vistoriados e, na medida do possível, adaptados às condições originais, como – por exemplo – a recolocação de pedras, blocos, detalhes arquitetônicos de cantaria, deslocados no passado pelas várias intervenções anteriores.

Não só o calçamento, mas também as sarjetas, as canaletas, os muros e muretas de arrimo proteção ou de contenção, além de detalhes das pontes e dos bueiros, foram limpos, colocados a descoberto, protegidos contra a destruição ou impedidos de serem obliterados pelas camadas de asfalto. Todas estas atividades objetivaram expor, para conhecimento do passante, e para a valorização da estrada, tais elementos que, afinal, constituíam o cerne daquela própria via histórica e que correram o risco de desaparecer, deslocados ou destruídos pelas máquinas, pela pá dos trabalhadores ou recobertos pelo asfalto.

É importante considerar que durante a vigência do Contrato, todos os trechos da estrada que se encontravam em obras foram sistematicamente monitorados pela equipe do IAB sob chefia do arqueólogo responsável. Qualquer movimentação de caminhões transportando material, instalação de locais de abrigo, de uso sanitário, bota-fora, jazida, ou de quaisquer espécies foram verificados pelo mesmo, que acompanhou o trabalho das máquinas e das turmas de trabalhadores, fosse no leito da estrada, propriamente dito, fossem nas obras de arte que a compõe, nos muros de arrimo ou de contenção, enfim, em todo e qualquer ponto em que se fazia intervenção sobre o terreno. Somente ficaram de fora, no que diz respeito ao leito da estrada, aqueles trechos já asfaltados antes da chegada da equipe. Mesmo assim, no entanto,  pontes e bueiros, muros e demais elementos de importância situados nestes mesmos trechos foram também pesquisados ao correr do monitoramento.

Alguns pontos em que se situavam estruturas ou elementos arquitetônicos de importância foram acompanhados ao correr das obras, evitando-se fossem eles danificados ou destruídos. Não se hesitou mesmo em paralisá-las sempre que necessário para que neles fossem executados os trabalhos necessários de arqueologia.    

Acontece que, no entanto, entre as pesquisas efetivadas pelo Projeto de Emergência de novembro do ano findo e o início das atividades de monitoramento em junho do ano corrente, as obras de asfaltamento impactaram uma significativa extensão da estrada no seu Trecho 01. Sendo assim a primeira tarefa da equipe de arqueologia do IAB foi percorrê-lo e comparar a situação vigente com aquela registrada em Relatório.

Pode-se registrar que toda a extensão do Trecho 01 da Estrada, situado entre as estacas 700 (Limites com o Trecho 02) e a estaca 390 já havia sido impactado pelo asfaltamento. Este se encontrava completo ou em vias de concretização, com a colocação das camadas de suporte do capeamento asfáltico. Alguns pequenos trechos se encontravam ainda “in natura” , caso desta bica:

Bica d'água em 2010 Bica d’água estado atual

Segundo a tradição local a ereção desta bica de uso público não é contemporânea da estrada, e sim mais recente, já datando do século XX.

Pela verificação in loco pôde-se observar que este patrimônio foi o mais prejudicado com as obras de calçamento. Na verdade nada mais resta das calhas e muretas que ladeavam e antecediam a bica d’água, desde que, infelizmente tudo foi destruído pelas máquinas restando apenas a bica isolada e  sem contexto.

Sítio do Mirante 

Conforme discorremos acima, este local não havia sido incluído na Lista do IPHAN. Foi, isto sim, selecionado pelo INEPAC para abordagem de caráter arqueológico, com a remoção do saibro colocado sobre o seu calçamento original. Também foi sugerida, pelo mesmo órgão de fiscalização patrimonial, a retirada da cobertura de saibro a cinqüenta metros de distância para cada lado a partir do centro do local do mirante. No local, se pode observar que praticamente nos dois pontos terminais da limpeza sugerida existe uma sarjeta ou calha encoberta por grandes lajes, que atravessam toda a largura da estrada e que serviram, portanto, de marcos terminais de tal operação.

Desta forma, este trabalho deve ser encarado como uma contribuição da nossa equipe para o bom entendimento entre as partes interessadas e para a melhor caracterização deste bem patrimonial que é a estrada RJ-149 (também denominada “Estrada do Imperador”).

A pesquisa se iniciou com a decapagem no platô do Mirante com a recuperação do calçamento em pedra que em algum momento no passado foi aterrado por saibro. Procurou-se deixar toda área no seu estado natural da época de sua construção, com o calçamento original à superfície.

Pode-se constatar que, em função de grande movimentação de veículos no local, inúmeras pedras originais da construção foram retiradas e danificadas, inclusive pela implantação de um poste de energia elétrica. Por este recomendamos ser necessário o restauro do local.

Foi executada também a desobstrução da saída do bueiro que capta a água pluvial da estrada e deságua junto ao mirante. Ao ser efetuada a decapagem constatou-se que a camada de saibro aparentemente foi, no passado, colocada propositalmente sobre o piso de pedra original da estrada.

Como hipótese alternativa, ainda que menos provável, pode-se supor que aquela camada pode ter sido resultante simplesmente da erosão natural, ou por acúmulo de detritos resultantes da circulação constante de veículos sobre a pista.

Em toda esta operação não foi evidenciado qualquer vestígio arqueológico que não fosse o calçamento, muro de proteção e sarjetas.

Piso original da Praça do Mirante evidenciado após a decapagem Piso original da estrada após a retirada do saibro Limpeza de muro e mureta de contenção na área do entorno do Mirante

 

Sítio do Bebedouro I 

A construção consiste em uma estrutura confeccionada em pedra bruta e trabalhada formando um muro em direção à Mangaratiba. Nela se encontra inserida uma bica d’água e um bebedouro para animais, muito rudimentar, com sarjetas de escoamento na sua frente. A busca pela origem do fornecimento d’água se estendeu para aquela mesma área, situada em terreno de leve aclive coberto por vegetação. Não foi evidenciado qualquer modelo construtivo neste sentido, mas foi encontrada, soterrada por sedimentos, uma pequena nascente distante cerca de 2 metros acima. Retirados tais sedimentos a água voltou a correr e o bebedouro voltou a funcionar plenamente.

 

Bebedouro da Barreira

A economia de Mangaratiba, no século XIX, estava totalmente direcionada ao porto e para a Estrada Imperial. Com 90% da produção agrícola da região escravista do Vale do Paraíba (café, açúcar, mandioca, banana e feijão) direcionada para o exterior e para alimentar a corte na capital do país, a estrada apresentava um movimento diário estimado em 70 caleças do comércio de café, além da circulação de bens de consumo de luxo das grandes fazendas (móveis, porcelanas, tecidos).

Deu-se então a primeira "privatização" de estradas da história do Brasil, através da Companhia Industrial da Estrada de Mangaratiba, com direito a pedágio sobre as carruagens, tropas e carroças que por ela transitassem, cujos sócios eram a família do Comendador Breves, com 400 ações; a família Barroso de Morais, com 650 ações, o desembargador Joaquim José Pacheco, juntamente com o Conselheiro Antonio Barbosa, o Tesouro Fluminense, com 1.500 ações e do Barão de Mauá.

Este pedágio era cobrado em uma barreira (espécie de barreira alfandegária), com uma severa tabela de preço por produtos e por muares. Em frente à barreira foi construído um belíssimo bebedouro para matar a sede dos viajantes tropeiros e dos animais de carga. Segundo a história oral, Dom Pedro II deu água para seu cavalo neste bebedouro na inauguração dessa estrada em 1857.

 

 

Muros de contenção, muretas de proteção e sarjetas

Trabalhos foram efetuados como intuito de identificar o modelo construtivo dos muros de contenção, muretas de proteção e sarjetas.

Foi executada a capina e a limpeza das muretas e sarjetas que foram evidenciadas ao longo da estrada. Para execução das escavações arqueológicas extensivas foram retiradas grandes quantidades de blocos de pedras encontrados dentro das sarjetas, provenientes de desmoronamentos ocorridos em épocas de fortes chuvas.

Vista da estrutura do muro de contenção no início da pesquisa  (remoção de vegetação) bueiro modelo construtivo histórico canaleta em direção à estaca 395

Pesquisas em busca de Evidências do Posto de Pedágio

Pesquisa na propriedade particular da margem esquerda da estrada, com a autorização da sua proprietária e do zelador, onde – segundo a tradição local – teria se localizado um posto de cobrança que seria o primeiro pedágio rodoviário do Brasil.

Os trabalhos tiveram por objetivo localizar restos arqueológicos que comprovassem a existência do “posto de cobrança” do pedágio como carimbos, moedas, pesos de balança. 

Escavação na área da garagem Escavação na área dos túmulos próximo à residência Calceteria em platô a 30 m da casa sede em direção à estrada do atalho

 

Outros Pontos Abaixo da Residência 

As pesquisas prosseguiram na busca da ligação entre a área do platô e a estrada do atalho. Ficou constatado que este trecho se encontrava desconfigurado pela ação das fortes chuvas (atuais e do passado), restando apenas algumas poucas marcas de tal estrada. Elas se configuram pela existência de amontoados de pequenos blocos de pedra que eram utilizados em calçamentos de pé de moleque e também as marcas de um corte muito desgastado no solo que sugere ter sido o leito de um possível caminho, um dia calçado.  

Calceteria - A primeira evidência detectada foi o do local onde podem ter sido elaborados os trabalhos de calceteria, ou seja, o de preparação das pedras usadas nos calçamentos e demais obras, incluindo as estruturas construtivas, muretas, muros de arrimo, sarjetas, etc. de pedra que eram utilizados nos calçamentos.

Área do Platô - Os trabalhos se concentraram na parte baixa do sítio, em uma área denominada como platô, localizada cerca de 30 metros da casa sede em direção à Estrada do atalho, com um barranco de aproximadamente 45° de declividade.

Vias de Acesso à Área do Platô (“Área do Galinheiro”)

Terminados os trabalhos nesta área, ficou o questionamento de como teria sido feita a ligação entre o suposto “posto de cobrança” (que deveria em termos lógicos localizar-se nas proximidades da sede atual e em nível mais alto) e a área do platô.

Foram evidenciados fragmentos do muro de contenção e uma pequena estrada na lateral direita da casa sede atual.

Galinheiro – Trata-se de uma pequena área com estruturas de pedra. Recebeu esta denominação pelo fato do galinheiro da residência estar ali instalado. As estruturas em pedra confirmam claramente a existência da estrada que fazia a ligação entre os dois pontos em questão constituída por vestígios das estruturas e se iniciam no muro que divide a casa sede desta área. No seu final forma uma curva em direção à área do platô, com vestígios de calçamento melhor preservado. Segundo informações dos moradores locais a área foi parcialmente destruída por ação de enxurradas que continuamente modificam a geografia local.

De importância arqueológica somente um cachimbo de barro, angular, foi localizado nesta região. 

Pequena Estrutura de Apoio (Guarita?)

Durante as pesquisas e limpeza da estrada que faz a ligação entre o local do suposto “posto de cobrança” e o “platô da calceteria” foi evidenciada também uma pequena estrutura localizada no lado direito da casa sede. Ela se situa junto ao muro em direção à estrada que faz a ligação entre a área da sede atual e o platô. Poderia tratar-se de uma guarita de controle de entrada e saída. Novamente surgiu a dúvida de por que não haver uma passagem entre esta “guarita” e a estrada, pois entre um e outro há um muro de pedra original da antiga construção. A resposta veio a partir de um morador, o Sr. Paulo Albuquerque, que informou que há algum tempo atrás este muro caiu e foi totalmente restaurado, inclusive mudando-se o portão de acesso entre as duas áreas de lugar. Com esta informação ficou claro que realmente existia uma construção com um portão de acesso às duas áreas. Trata-se de uma pequena área com estruturas de pedra que confirmam claramente a existência da estrada que fazia a ligação entre os dois pontos em questão. Estas se iniciam no muro que divide a casa sede desta área. No seu final forma uma curva em direção à área do platô, com vestígios de calçamento melhor preservado. Mais uma vez, segundo informações dos moradores locais a área foi parcialmente destruída por ação de enxurradas que continuamente modificam a geografia local.

Conclusão

Um trabalho futuro deve contemplar não somente a limpeza, desobstrução e reconstituição desta estrada que se mantém em regular estado de conservação, quanto testemunha uma importante tentativa viária não concluída com êxito. Por este fato foi abandonada, ainda incompleta, razão que explica, em parte, sua preservação. Conforme a crônica de sua construção ela é ligeiramente anterior à estrada (à época) em obras e objeto do nosso estudo. Por tudo isto seu estudo e sua preservação se configuram como tarefas altamente recomendáveis, visto – inclusive – seu alto teor de importância como objeto de turismo histórico.      

Em relação ao estudo dos túmulos, além da necessidade de serem outros devidamente explorados pela arqueologia, devem se incluir nestes estudos análises do solo para saber o valor do PH, pois de acordo com a acidez do solo dificilmente os restos humanos se preservariam neste local.

Quanto ao sítio como um todo pode-se concluir sua abordagem considerando dois fatores diferenciados:

Primeiro – O bebedouro propriamente dito e as obras do seu entorno, diretamente relacionadas.

O bebedouro se encontra em bom estado quanto às suas características históricas e funcionais, vertendo água segundo o que deve ter sido planejado pelos seus construtores. Mas, segundo o parecer do engenheiro que visitou a área, antes mesmo de serem iniciados os estudos de arquitetura histórica, corre risco de vir a baixo pela pressão que sofre em virtude dos sedimentos que o pressionam na parte traseira. Não foi possível, pelo término do prazo, retirar tais sedimentos, para ser verificada a hipótese da existência ou não de uma parede de contenção do morro. que pode ter cedido à pressão de enxurradas (ou outras causas) e ter sido destruída há tempos.

Destaque-se o fato de que a sarjeta que pode ser visualizada na periferia do bebedouro, na parte de trás do mesmo desaparece soterrada. Na sua proximidade uma pedra com trabalho de cantaria também permanece soterrada nesse ponto.         

Segundo – No que tange às estruturas localizadas na vertente abaixo, entre as duas estradas limites do sítio, pode ser considerado de importância o fato de que foi possível detectar pela pesquisa, locais de interesse antes não conhecidos.

A área calçada identificada como uma calceteria, ou local de trabalho em pedra, ou ainda cantaria, assim como as vias e caminhos de acesso que interliga tais pontos tanto podem estar relacionados às obras de construção da estrada do “Imperador” quanto à estrada do “Atalho”. Esta, segundo as crônicas locais nunca foi concluída, mas pelo que se pode acompanhar do que sobrou do seu trajeto, era também um caminho sólido e bem calçado.

Os “túmulos” que a rodeiam justamente neste trecho podem ter sido criados, conforme consta na tradição local, para sepultar os cativos mortos da construção das estradas. Nenhum vestígio ósseo confirma esta hipótese, mas continuamos a denominar tais montículos de pedra com este nome, pelo fato que em arqueologia assim são denominados, contenham ou não corpos sepultados.

Finalmente resta considerar que, embora a mesma tradição se refira à existência de um posto de cobrança de pedágio, o primeiro do país, não se encontrou vestígios que confirmem sua existência. Pode acontecer de se tratar de um registro infundado (e, neste caso, espera-se confirmar algo nas pesquisas documentais de história) ou de fato ter sido destruído com o passar o tempo. Como no patamar das casas atuais do lado esquerdo da estrada RJ-149 foram construídas residências, (no melhor local para colocação do Registro), o mesmo pode ter sido destruído quando das suas construções.

Uma vez terminados os estudos laboratoriais sobre o material coletado e quando a equipe do IAB puder dispor de todos os dados, sem dúvida uma melhor e mais completa concepção poderá se configurar, colocando todo este sítio no seu verdadeiro contexto histórico e cultural.

De qualquer forma, no entanto os novos dados produzidos pela pesquisa de campo já conformam um complexo pacote de conhecimentos somente tornado possível pela pesquisa arqueológica.   

Marco de Pedra

Naquelas obras foi arrancado do lugar um marco de pedra histórico, marco este que a equipe de arqueologia localizou atirado na margem da estrada e o recolocou junto à estaca 308.

marco em pedra recolocado (2 léguas)

 

Em parte da estrada o calçamento original encontra-se evidente, permitindo identificar o sistema de pavimentação e sua semelhança com demais áreas anteriormente expostas (como o Mirante e o Bebedouro da Barreira). Pode-se, desta forma, inferir sobre a regularidade do padrão construtivo da estrada, apresentando os mesmos calçamentos, elementos de drenagem (bueiros, sarjetas)  e demais elementos constituintes do espaço viário.

Calçamento em pedra. Detalhe da construção com rochas dispostas em sentido transversal à estrada. Detalhe do sistema construtivo para pavimentação da estrada mistura de calçamentos

Em toda esta operação não foi evidenciado qualquer vestígio arqueológico que não fosse o calçamento, muro de proteção e sarjetas.

Cachoeira dos Escravos

A Cachoeira dos Escravos sempre se destacou como obra da Estrada. Não só pela arquitetura romântica de seus arcos e pontes, como também por seus enormes muros de contenção de barrancos e das águas os quais, em épocas de fortes chuvas, controlam a fúria da cachoeira. É comum avistar passantes se refrescando em sua queda d'água e admirando a bela estrutura de pedras. Este lugar chega a ser um ponto de referência para os frequentadores da Serra do Piloto.

A passagem por esta estrada só foi possível depois desta grande obra projetada pelo engenheiro WEBB e construída pelas mãos dos escravos. Antes dessa, poucos eram aqueles que se arriscavam a atravessar este trecho em dias de chuvas. Muitas reclamações de animais caindo nesse despenhadeiro foram registradas em ofício ao governo da Província solicitando melhoria na antiga estrada.

Considera-se este um lugar histórico por conta das diversas histórias locais em que é referenciado. 

Uma das maiores lendas da Serra do Piloto informa que o nome Cachoeira dos Escravos é devido ao fato de que alguns fazendeiros da região teriam o costume de jogar seus escravos cachoeira abaixo para matá-los.

Com a  limpeza das estruturas no ponto em que as águas da cachoeira passam sob a estrada atual, observou-se 2 tipos de bueiros, saídas de água na face externa do muro.

cachoeira dos escravos - Vista das estruturas após a evidenciação – bueiros Cachoeira dos escravos - Vista da área do sítio

 

Ruínas do Saco de Cima

O sítio Ruínas do Saco de Mangaratiba localiza-se no atual bairro Nova Mangaratiba (antigo Saco de Cima), Município de Mangaratiba, nas margens da RJ-149 (Estrada Imperial), que liga este município à cidade de Rio Claro.

Posicionada em área de intersecção entre a serra do Piloto e o mar, tornou-se porto escoador da economia cafeeira do Vale do Paraíba na época da sua construção, quando a linha do litoral adentrava mais a costa.

Em função dos dados disponíveis não foi possível determinar com clareza o uso dos prédios integrantes do sítio Ruínas do Saco de Cima na época da sua funcionalidade. Futuramente as análises de laboratório sobre o material recolhido poderão indicar ou sugerir algumas hipóteses. 

Sugere-se ser o Edifício A  o prédio referente ao teatro devido as suas características arquitetônicas assemelharem-se ao descrito nas Cartas da Câmara, bem como em Lamego,1962.

Pode-se, no entanto adiantar, tendo em vista a tipologia das construções, que se trata de um prédio robusto, com paredes espessas de pedra e tijolos sólidos, característico das construções senhoriais do século XIX. Destaca-se o fato da existência de um número significativo de portais e janelas.

Com vistas ao material recuperado e as estruturas internas identificadas no Edifício D se configurou como alta possibilidade o fato de ter possuído o mesmo um piso de madeira suportado por colunas ou pequenos amontoados de pedra. Também ficou delineado o fato de possuir uma calçada de lajes planas de pedra na frente e no entorno.

 Vista frontal do Edifício A Vista lateral do Edifício B Vista frontal do Edifício C  Vista lateral do Edifício D 

A planta resultante das escavações revelou a existência de um salão maior na frente, ocupando o lado direito da construção, com um corredor no seu lado esquerdo que provavelmente permitia o acesso ao interior, conduzindo a um espaço amplo. Aí se localizam 4 outros cômodos em linha, salas, quartos ou locais de depósito.

Artefatos de ferro, como panelas, ferro de passar roupa, peso de balança, talheres, ferraduras de cavalo e de mula, sugerem, como era característico nos séculos XVIII e XIX, a associação entre esferas comerciais e domiciliares (a preservação dos espaços domésticos é uma das características típicas da sociedade patriarcal, com restrições ao contato público). A existência de um cômodo amplo com três acessos para a rua (portais 1, 2 e 3), na parte frontal do prédio, pode indicar uma área de fácil e livre acesso, como espaço destinado ao público. A associação entre a disposição do espaço interno, os materiais arqueológicos recuperados e as informações históricas, permite sugerir a existência de dupla funcionalidade deste edifício.

Complementa a organização da estrutura e o planejamento do uso do espaço restos de um jardim com canteiros montados com lajes trabalhadas ou aparelhadas, formando desenho geométrico elaborado. Na parte de trás do prédio, entre a parede dos fundos e o portão também foram detectadas evidências de outros canteiros, em forma de valetas alongadas e paralelas, em sentido paralelo àquela parede. Elas se iniciam numa mureta (hoje ao rés do chão) e alcançavam o córrego que passa no lado direito do prédio que hoje jaz soterrado e canalizado pela prefeitura da cidade.   

A pesquisa arqueológica foi extensa e intensa, explorando da maneira mais eficiente possível as possibilidades disponíveis de tempo.

Disposição estrutura - área interna do Edifício D materiais arqueológicos resgatados durante a pesquisa Parede interna Edifício A Área do jardim, lateral SW do edifício D

Sítio Ruínas da Serra do Piloto

Trata-se de uma complexo de ruínas imponente situado na “Estrada do Sertão” que nasce na Estrada RJ-149 pouco adiante da bifurcação. Da rodovia se pode observar o complexo de paredes de pedra que se destaca ocupando uma elevação dos dois lados da estrada do Sertão que dividiu o complexo em dois ao ser aberta no passado. É possível que o acesso antigo, a partir da “estrada do Imperador” se fizesse mais acima, na aba do morro, passando em cota mais alta do que aquela em que se situa o “cemitério” adiante descrito. Ao que tudo indica seria uma comunicação do tipo “caminho de tropeiro”.

A elevação onde se situam as construções forma uma espécie de ponta após um vale entre o complexo e a estrada do Imperador e situa-se entre dois córregos que se juntam na extremidade da “ponta” e seguem em direção a São João Marcos.

Embora não se tenha detectado quaisquer elementos que comprovem esta função durante o processo de escavação, a aparência e a tipologia do padrão construtivo remetem a uma fortificação, fato reforçado pela sua situação topográfica. As pesquisas arqueológicas efetuadas no complexo permitem sugerir algumas possíveis funcionalidades, sendo que não foram registrados quaisquer elementos que comprovem ou mesmo insinuem a hipótese inicial.

O objetivo deste trabalho foi o de expor todo o complexo das estruturas na sua originalidade para que possam permanecer como testemunho histórico da Estrada Imperial e possam ser apreciadas pelos passantes, moradores e turistas desta e das futuras gerações.

Os trabalhos se iniciaram pela limpeza e capina das estruturas e do seu entorno, como forma de melhorar a visibilidade e o entendimento do modelo construtivo deste sítio que apresenta características algo diferenciadas em relação aos demais pesquisados ao longo da estrada.

Trata-se de uma grande área construída, formando um grande circuito fechado por muro e muralhas de pedra, sem que se possa facilmente definir a função de todo aquele complexo.

Até mesmo a sua extensão não ficava, antes da limpeza, claramente definida.

No processo de limpeza e exposição das construções foram surgindo formas e métodos construtivos que possibilitaram evidenciar um pouco mais da funcionalidade desta obra.

Com a exposição do complexo tornou-se possível dividi-la em áreas de acordo com as evidências encontradas ao longo do terreno.

Área das Ruínas 

Muralha

Muralha do sítio ruínas da Serra do Piloto (visão geral)

Os trabalhos concentraram-se inicialmente na área classificada como área das ruínas em virtude da identificação de fragmentos de um muro (ou muralha) confeccionado em pedra sem a utilização de argamassa, com aproximadamente 2 metros de altura acima da superfície. Possui um acabamento em adobe na parte superior, totalizando em média a altura de 3 a 3,5 metros. Seu sistema construtivo remete ao “canjicado” pelo fato de se basear na disposição e superposição de grandes pedras com a face exposta aplainada, com os interstícios entre elas preenchidos por pedras menores e cacos de telhas de goiva.

Como elemento construtivo característico registre-se o fato de que a sua parte mais alta é encimada pela construção de um muro de adobe. Os tijolos de adobe retangulares foram colocados com as extremidades voltadas para fora e ligados com uma massa de argila rica em pequenos seixos.

Esta área está localizada na margem esquerda da “Estrada do Sertão”, que corta o sítio, sentido RJ 149/Serra do Matoso. Foi construída posterior à construção do muro, e para permitir sua passagem parte do muro foi demolida em dois pontos, restando apenas vestígios de sua base nas extremidades.

Observa-se também que foi intensamente utilizada como pastagem ao longo dos anos, onde foram utilizadas máquinas pesadas para preparação do solo fazendo com que muitos dos vestígios arquitetônicos fossem destruídos, dificultando a interpretação mais precisa da ocupação local.

Quem sai da estrada do Imperador e segue pela estrada do sertão, após atravessar uma pequena ponte sobre um riacho, já pode observar vestígios do antigo muro tanto no lado esquerdo quanto no lado direito. Uns metros adiante se encontra uma soleira em pedra com marcas de encaixe retangulares de portal (de madeira?) deixando clara a existência de uma passagem (porta?).

A partir desta soleira se pode ter uma melhor definição do muro propriamente dito. Seguindo adiante se chega a um ponto entre o muro e a estrada com concavidade no terreno formando uma espécie de bacia ou lago. Provavelmente se tratava de um local destinado a acumular água, formando um lago raso ou represa. Entre as possíveis hipóteses para sua função se configura aquela de que se destinaria à lavagem de café, sobretudo considerando a tradição local da existência de um terreiro de café nas proximidades, adiante mencionado.

Neste ponto a muralha preservou sua forma quase original, sendo a área melhor preservada. A deposição de sedimentos encontrada por meio das escavações na parte mais profunda da base correspondente ao que seria o leito original da represa.

Ainda neste local foram evidenciadas quatro passagens de água formando uma biqueira pelo lado externo do muro. As localizações das passagens sugerem tratar-se de um possível “ladrão”, isto é, de um sistema de controle de volume de água dentro da área que forma a citada bacia ou lago.

 

Muralha em rocha com parte superior em adobe Curvatura da muralha saindo do eixo da estrada Pedra com marca de encaixe Muralha - Detalhe passagens de água

Estrutura de Pedra

Do lado oposto da estrada, na extremidade distal do conjunto (considerando-a a mais distante da estrada do Imperador) foi constatada a existência de uma estrutura de pedra, com calçamento e muita quantidade de cacos de telhas de goiva. Esta calçada desce em direção à represa e aparenta ser extensa. Não se pode concluir a pesquisa por ter se esgotado o prazo do Contrato.

Área do Terreiro de Café

Ao término dos trabalhos na Área das Ruínas, deu-se início a caracterização da área denominada como “Área do Terreiro de Café” em função das informações de moradores do local. Estes afirmam que naquela área plana existia um terreiro de secagem de grãos de café. Com o decorrer do tempo, segundo os mesmos, foi feita uma terraplanagem no local para a construção de um campo de futebol e, com isso, teria sido retirado um calçamento em pedras que ali existia.

Toda esta área se encontra protegida por muros de pedra. A sua caracterização foi iniciada junto à estrada, local  onde existe um pequeno muro de pedras, que seria o que restou da muralha neste ponto. Com a abertura da estrada do Sertão foi ela totalmente destruída. Ali a muralha se encontraria com o muro de contenção que suporta a área plana do “Terreiro de Café”.

Muro de Contenção

Ele está voltado para a RJ-149, de onde é visível, Seguindo este muro em direção ao morro percebe-se que ele provavelmente fazia parte de uma grande construção (casa) e fazendo parte do terreiro de café. Teria sido, no entanto, totalmente destruída por máquinas e se recomenda em outra oportunidade uma intervenção arqueológica no local.

Área do Moinho

Existe outro muro de contenção em grande parte já desmoronada. Os vestígios deste muro e da sarjeta formam uma espécie de caminho em direção à soleira, com um vão entre o muro (do que restou da construção) e a muralha de contenção. A sarjeta encontrada termina no alto do barranco e sugere ter sido útil para canalizar água para mover uma roda d’água ou moinho localizado abaixo.

Restos do “Moinho” - Fragmentos de construção com pequenos blocos de  pedras alinhados. Foram também encontrados 2 fragmentos de pedra de moinho e um ferro semicircular de apoio ao arreio de mula, reforçando assim a hipótese da existência neste local de um moinho e roda d’água, ou alguma coisa do mesmo gênero. 

Ponte - Foi feita também a caracterização de uma pequena ponte construída em pedras, com uma estreita passagem das águas, que possivelmente saiam do moinho.

Muro de Represa - O  regato que passava por sob a ponte desaguava em uma área, cujas características equiparam-se àquelas da área das ruínas; isto é, com uma formação da superfície aparentemente escavada para se formar uma pequena bacia ou lago.

Área da “Igreja”(Capela) - No lado direito da ponte, de quem desce do “terreiro” de café subsiste uma estrutura de pedra já destruída, constituída por um caminho e um complexo de alicerces ou baldrames cujos restos de estruturas aparentam se tratar de uma pequena capela, por estar em um ponto estratégico do entorno de toda construção.

Sarjeta para abastecimento de água para o moinho Área do moinho Área da ponte Área da Igreja (Capela)

 

Área do cemitério

Foi feita também a caracterização da área conhecida como cemitério.

Escavações identificaram a existência de um portão com pedras colocadas como soleiras que acessava o interior do recinto e o número avultado de restos ósseos humanos dispersos na camada subsuperficial, além de restos de pelo menos dois indivíduos, exumados, indicam claramente o uso da área como cemitério. Pelos restritos dados obtidos pode-se somente verificar que se tratava de indivíduos jovens. Segundo a tradição local ali seria o “cemitério das alminhas” destinado ao sepultamento de crianças.

Abastecimento d’água

Durante os trabalhos de caracterização foi feito um levantamento da área para saber se existia algum sistema que garantisse o abastecimento de água para o complexo. Considerando a existência de um possível lago e os vestígios de um moinho, haveria necessidade de uma suficiente quantidade de água para atender a demanda. Depois de exaustiva pesquisa, foi identificada uma área no alto do moro onde há vestígios de uma grande nascente de água que por conta do desmatamento do local possivelmente secou ao longo do tempo.

A partir desta nascente observa-se uma canaleta que parte do local da nascente até a margem da estrada atual, alguns metros distante do muro próximo à área do terreiro de café e que desapareceu por completo em função da terraplanagem da área.

 

Área do cemitério Área do cemitério vista da ponte Área do cemitério área possível da nascente

 

Conclusão

O material submetido às análises preliminares de laboratório confirma tratar-se de evidências históricas que permitem recuar a ocupação ao século XIX, embora ainda sem referência segura a que período daquele século.

A análise funcional das estruturas permite adiantar que se trata de obra sólida, maciça e cujo objetivo primordial sem dúvida foi a de proteger a área ocupada. Não se pode saber por enquanto qual seria o objetivo desta proteção, se algum temor a pressões humanas de qualquer ordem ou se somente precauções em relação à natureza. De fato as fortes chuvas comuns na serra podem causar sérios estragos e danos mas, por outro lado, não implicam na necessidade de cercar a área ocupada com tais precauções.

Pode-se, no entanto, constatar que o mesmo padrão de complexo construtivo é encontrado nas ruínas do Parque do Saí, no litoral, inclusive com a colocação de muros de adobe na parte alta de alguns muros e muralhas do lugar. Além disso, há referências de construções do mesmo padrão em locais próximos.

Sendo assim podemos estar frente a um padrão repetido, algo peculiar e que ainda nos foge da compreensão relativo a hábitos ou perspectivas típicas da região e que somente a continuidade da pesquisa poderá indicar caminhos mais seguros para a sua justa interpretação e inserção histórica.

Estrada do Atalho ou Segunda Estrada do Imperador

Com contexto histórico entrelaçado à Estrada do Imperador, atual Rodovia RJ-149, a Estrada do Atalho, como é mais comumente conhecida, teve sua construção aturdida por eventos de ordem conjunturais que impediram seu uso constante e efetivo de acordo com os seus propósitos iniciais. Este fator auxiliou na conservação de certos trechos da Estrada, permitindo sua representação próxima do que seria seu estado original, bem como a interrupção de seu traçado devido a desmoronamentos, inundações e construções posteriores. 

A Estrada tem seu começo na "Estrada do Imperador", na baixada de Mangaratiba, distante cerca de 800 metros das Ruínas do Saco de Cima, junto ao Centro de Eventos Municipal, ocupando, paralelamente, o Vale do Rio do Saco.

As atividades desenvolvidas na Estrada do Atalho, como é usualmente conhecida, permitiram identificar, além de sua extensão média, três estruturas possivelmente associadas, sugerindo, como encontrados atualmente, a existência de recuos ou pontos de parada. Foi realizado um levantamento pormenorizado do seu traçado, através da divisão em trechos. O início e o fim de seu traçado encontram-se com a atual RJ 149. De uma forma geral, o estado de conservação da estrada é regular, com trechos em bom estado de conservação e outros completamente descaracterizados. Ações antrópicas e da natureza (desabamento de encostas, acúmulo de sedimento, por exemplo), auxiliaram na desconfiguração de algumas áreas. Na extensão da estrada foram identificados cinco bueiros, uma ponte, um marco e três possíveis recuos.

Traçado Estrada Do Atalho - Imagem Satélite Google Earth Trecho 4 da Estrada do Atalho - sentido noroeste Trecho 22 da Estrada do Atalho. Vista sentido Noroeste

 

Estruturas Associadas à Estrada

Como estruturas associadas, foram identificados dois bueiros, estruturas de construções e possíveis túmulos, semelhantes aos identificados durante as escavações do Bebedouro da Barreira.

bueiro Área dos túmulos

Área da Escadaria

Localizada após a terceira curva do aclive da Estrada do Atalho, esta estrutura em pedra apresenta como característica principal uma escadaria dividida em três blocos, além de muros em alturas variadas possivelmente remanescentes da fundação de uma antiga construção. O piso apresentou fragmentos de lajota cerâmica que pode ser a pavimentação da parte interna da construção. A área onde aparecem as estruturas está coberta por vegetação de floresta ombrófila densa com formação de sub-bosque. Na parte posterior da escadaria, onde seriam os fundos da construção está localizado um curso d'água de pequeno porte que passa sob a estrada através de um bueiro de pedra. 

De acordo com as características apresentadas após a evidenciação, possivelmente trata-se de ruínas de um prédio comercial, de pequenas dimensões, que poderia servir de apoio aos usuários da antiga estrada, em que as escadarias dariam acesso às portas da construção. 

No curso da estrada foram identificadas uma nova ponte e duas construções em pedras. A primeira delas localizada na margem do lago formado pela represa e a segunda encoberta pelas águas da represa não sendo possível, por este motivo, efetuar demais atividades nesta última área . 

Evidenciação escadaria Nova ponte Construção no lago da represa

 

Galpão dos Tropeiros

Entre o lago da represa de Ribeirão das Lages e a estrada foi identificada uma estrutura conhecida popularmente por freqüentadores do local como “galpão dos tropeiros”. Trata-se de uma estrutura em pedras justapostas que se encontra quase totalmente inundada nesta ocasião e que, portanto, não permitiu fossem executadas intervenções no interior da estrutura. 

Engenho ou Usina I Sítio Engenho de Santa Justina

Este sítio foi identificado durante o levantamento arqueológico e chamado de Engenho ou Usina I, sítio identificado e listado para caracterização. A partir do trabalho desenvolvido no sítio mudamos sua denominação para "Sítio Engenho de Santa Justina", a fim de melhor identificá-lo.

Ele está localizado no município de Mangaratiba, em uma Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN), administrado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA). 

Está implantado em área plana, na base de uma elevação, com vegetação de capoeira. Trata-se de uma construção em cantaria com cerca de oito tanques. Junto a estes é possível ver dois outros tanque circulares, também em pedras. Situa-se entre os tanques, uma construção que aparentemente seria a frente do prédio. Junto aos tanques retangulares observa-se também o maquinário do "engenho" confeccionado em ferro (aparentemente fundido) deixado em meio a um matagal.

Estrutura do antigo Engenho Tanques retangulares.jpg Detalhe do tanque circular Engrenagem de engenho

 

Ruínas do Solar dos Breves 

Estas estruturas localizadas na margem esquerda do rio Pires, lateral à Ponte Bela fazem parte da fundação de um antigo casarão. Neste local encontram-se muros de pedra e colunas com altura e comprimentos variados por uma área de aproximadamente 800 m2. Verifica-se junto à estrada uma área de leve inclinação com piso do tipo pé-de-moleque que seria possivelmente o acesso ao antigo casarão.

Percebem-se as características do prédio em seu contexto sistêmico e o seu estado no período da prospecção, permitindo a associação da ruína encontrada ao Solar dos Breves, indicada por Lamego (1963), como integrante da Fazenda Bela Vista. Relatos de frequentadores do local afirmam a existência de uma grande área de calçamento na parte inferior, visível em épocas de seca da represa, que atualmente está completamente submersa, portanto não foi possível confirmar esta informação.

Solar dos Breves (acervo Light).jpg Ruínas área Solar dos Breves Piso encontrado em área contígua à ponte.jpg

 

Ponte do rio Pires e adjacências

Este trecho é formado por vestígios de ponte em rochas sobre o rio Pires, que integraria, possivelmente, a estrada que ligaria São João Marcos à Rio Claro. A estrutura que forma a cabeceira da ponte na margem esquerda do rio Pires é confeccionada em pedra no mesmo processo construtivo das demais pontes identificadas na região, porém apresenta piso com revestimento de cimento de cor vermelha (vermelhão).  A estrada, da mesma forma que as demais identificadas, apresenta calçamento em pedras. A antiga estrada encontra-se, em certos trechos, encoberta por soterramento sendo visualizado, praticamente todo o seu calçamento, somente através de sondagens. No final da prospecção foi possível observar parte da estrutura em pedra da antiga estrada sob a atual ponte do Rio Pires na RJ 149.Como resultado das atividades desenvolvidas na área identificou-se o sistema construtivo da ponte, bem como parte do traçado da estrada. A pesquisa foi interrompida devido à negativa de permissão do proprietário para a entrada na fazenda onde prossegue o restante da estrada, assim, a equipe não pode continuar com a identificação do traçado.Mesmo não conseguindo a permissão do proprietário para se continuar com as prospecções no traçado da estrada, o objetivo previsto no programa foi cumprido pois se conseguiu aprofundar o conhecimento sobre a área.

Ponte Bela  Detalhe construção parede em pedras do Galpão dos Tropeiros.  

 

Ponte Bela

Segundo relatos de historiadores, a Ponte Bela foi construída em 1857 na Estrada Imperial que ligava São João Marcos à Mangaratiba. Está inserida em área de relevo acidentado coberto por vegetação de Mata Atlântica (floresta ombrófila densa), sobre o leito do rio Pires, que atualmente faz parte da represa de Ribeirão das Lajes. Seu acesso se dá através de um trecho da estrada de São João Marcos próximo à entrada do Parque Arqueológico e ambiental na RJ-149. A distância entre a RJ-149 e a ponte Bela é de cerca de 5 Km.

Trata-se de uma estrutura confeccionada em pedra de cantaria. Em suas laterais apresenta mureta com topo arredondado fragmentada em diversos pontos. Uma de suas quatro colunas laterais também está danificada, com uma metade caída sobre a estrutura da ponte e outra submersa na represa. Sua base é composta por pedras justapostas e o piso aparentemente foi confeccionado em macadame com pedras irregulares. Sua ligação com as margens do rio Pires se dá através de muros de pedra nas laterais nos dois sentidos da estrada.

Sítio Bom Futuro

Localizado na margem direita da Estrada do Atalho sentido Mangaratiba/Serra do Piloto, encontra-se inserido em uma área mista de meia encosta e planície, na base da Serra do Piloto, com vegetação atual de pastagem, com arbustos esparsos. Apresentou um número expressivo de material histórico, como muros em pedra de comprimento variado e uma soleira de aproximadamente 10m. A área apresenta perturbações antrópicas originadas por ação do arado.

Muro em pedra Biqueira identificada no muro Soleira

 

Sítio Três Voltas

O Sítio denominado Três Voltas está localizado em Mangaratiba na região de mesmo nome na margem direita da Estrada do Atalho, sentido Serra do Piloto. Ao norte limita-se com o córrego do Saco. 

As características de implantação do Sítio Três Voltas, assemelham-se ao Sítio Bom Futuro, distando deste cerca de 200 m, separados pelo córrego do Saco e, implantado na base da Serra do Piloto apresenta, na área, vegetação de pastagem com pequenas capoeiras e, ao entorno, vegetação de transição para floresta ombrófila densa de terras baixas.

Apresentou um número expressivo de material histórico em superfície, como louça e metal, assim como estruturas em pedra (muro e base de construção).

Elevação onde se localiza a estrutura em pedra Detalhe da construção em pedra.jpg Metal e Cerâmica encontrados em superfície.jpg

 

Sítio Ruínas da Fazenda Santa Izabel

Também localizado na RPPN, administrado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (lBAMA), município de Mangaratiba, o sítio Ruínas da Fazenda Santa Izabel está implantado em área plana, em base de elevação, com vegetação de capoeira. Sua área apresenta vestígios de colunas em pedras. Além das colunas, foi evidenciado também um pequeno muro de construção e um bueiro no modelo construtivo idêntico aos encontrados ao longo da RJ 149. Ao chegar à sede da fazenda Santa Izabel, logo na entrada, no lado direito próximo a porteira, depara-se com um conjunto de quatro colunas que, reaproveitadas para servir de base para construções recentes, também já foram demolidas. No local se observam tijolos, ladrilhos, telhas e reboco com cimento característico do século XX envolvendo as colunas antigas. 

Ruínas Fazenda Santa Izabel Ruínas vista lateral.jpg Detalhe paredes.jpg

 

Sítio Abrigo do Pouso Triste I  

Localizado no município de Mangaratiba em uma pequena encosta, com vegetação ombrófila (mata atlântica), na margem esquerda da Rodovia RJ-149, caracterizado como um abrigo sobre rocha, apresentando solo pulverulento, com fragmentos de conchas na superfície e estrutura de combustão, sendo possivelmente um fogão.

Sítio Abrigo do Pouso Triste II

Localizado no município de Mangaratiba em uma pequena encosta, com vegetação ombrófila (mata atlântica), na margem esquerda da Rodovia RJ149, caracterizado como um abrigo sobre rocha, apresentando solo pulverulento na superfície e estrutura de combustão, sendo possivelmente um fogão, bem como vestígios de lixo caseiro.

Sítio Abrigo Pouso Triste 1 Sítio Abrigo Pouso Triste 1 Sítio Pouso Triste II A. Pouso Triste II - combustão

 

Sítio Ruínas do Gravatá

O sítio Ruínas do Gravatá está localizado às margens da Estrada do Atalho, distando cerca de 500 m da RJ 149, em área plana, vegetação de capoeira e pastagem, na margem direita do rio do Saco e é formado por um conjunto edificado de colunas à base de pedra e cal. Observam-se nas colunas que nas suas laterais internas e externas existem marcas de continuidade de paredes mostrando que a construção era maior. Com a realização de limpeza superficial na área, retirando-se parcialmente a vegetação que a encobria, pode-se observar que o solo no interior desta construção apresenta restos de reboco produzido com cal e fragmentos de conchas mostrando que as paredes foram desmoronadas.

Sítio Ruínas do Gravatá Tradagem - Ruínas do Gravatá Sítio Ruínas do Gravatá

 

Sítio dos Fornos

O Sítio Arqueológico dos Fornos é formado por estruturas de fornos com a função de produzir carvão vegetal. Assim nas próximas linhas será relatado um breve histórico sobre a produção de carvão vegetal. O carvão vegetal é hoje produzido, em sua maior proporção, da mesma forma como o era há um século. A tecnologia é primitiva, o controle operacional dos fornos de carbonização é pequeno, e, de uma forma geral, não se pratica o controle qualitativo e quantitativo da produção.

Desde o princípio da colonização no Brasil dá-se a exploração secundária deste produto. Utilizado como combustível originava-se das lenhas obtidas através do desmatamento provocado pela abertura de campos para plantio ou para criação de gado.

Atualmente é destinada ao atendimento da demanda de diversos segmentos da indústria (siderurgia, metalurgia, cimento, etc.), bem como para utilização residencial urbana e rural. A principal utilização, no entanto, se faz na indústria de siderurgia, havendo nesses casos plantios destinados a este fim.

Processo de Produção de Carvão

De modo esquemático, o processo de produção de carvão se inicia com o corte da madeira da mata nativa ou de florestas homogêneas de eucalipto, utilizando ferramentas manuais como foice e machado, ou mecânicas como a motosserra, dependendo dos recursos do empregador ou contratador do trabalho. Cortada a lenha, ela é "Ierada", ou seja, os galhos são retirados deixando os troncos roliços e dispostos para secar e, assim, diminuir o seu peso. Após um intervalo de 15 a 30 dias, a lenha é "embraçada", formando feixes e transportada até próximo ao forno, com o auxílio de animais de tração pelos "muleteiros" ou do trator, dependendo do porte da carvoaria, e aí armazenada em pilhas.

Para abastecimento ou enchimento do forno são executadas as seguintes atividades: (a) preparo do forno; (b) transporte manual da madeira estocada na área externa até a porta do forno; (c) transporte manual da madeira da porta do forno até o interior do mesmo; (d) enchimento do forno, organizando cuidadosamente as madeiras e; (e) fechamento do forno. No preparo do forno, o trabalhador limpa o interior do mesmo, retirando completamente o carvão produzido no processo anterior, utilizando garfo, pá, enxada, "raspelo" e rodo. A seguir, ele dispõe folhas secas pelo chão, preparando uma espécie de "tapete", para diminuir as perdas de calor para o solo. Continuando, as peças de madeira que estão estocadas na parte externa do forno são transportadas manualmente e deixadas perto da abertura ou "boca" do forno. Uma vez preenchida a abertura do forno começa o transporte manual da madeira para o interior do mesmo. A produtividade do forno depende do processo de enchimento. Se a carga é mal feita, a produção será menor do que a capacidade do forno, ocorrendo uma seleção cuidadosa de toras. Sua disposição é feita de modo a aproximá-las do espaço do forno que será preenchido naquele momento. O empilhamento prossegue até uma altura tal que permite apenas a passagem do trabalhador da área externa para o interior do forno. Como o forno possui o formato de uma "oca", o trabalhador dispõe as "toras" em posição vertical para, em seguida, fazer o chamado "chapéu" do forno, colocando as "toras" de menor dimensão em sentido horizontal, sobre aquelas postas em sentido vertical. Este modo operatório tem o objetivo de garantir a qualidade do carvão exigida pelas siderúrgicas, que depende da combustão. 

Tipos de Fornos

Usualmente, os fornos para produção de carvão vegetal são divididos em dois tipos: um com carbonização com fonte externa e outro com fonte interna de calor. Visto ser o segundo tipo o identificado no Sítio dos Fornos, serão apresentados os tipos mais comumente encontrados.

Localizado no município de Rio Claro, RJ, às margens da rodovia RJ 149, o Sítio dos Fornos abrange uma área de 600 x 730m, compreendendo sete fornos. A delimitação da área de abordagem obedeceu a critério relacionado à proporção de amostras de modo a permitir a caracterização do conteúdo do sítio, visto os fornos para produção de carvão vegetal estarem localizados em diversos trechos das margens dos rios Piraí e Rio Claro. De acordo com Alarcão (1983 apud, Bicho, 2006, PP.459). 

A Arqueologia não é apenas a descoberta, interpretação e classificação dos objetos de que o homem se serviu; o homem viveu num espaço organizado, espaço que é uma combinação dinâmica, e por isso mesmo instável, de elementos físicos e de fatores culturais: tecnologia, divisão social do trabalho, estruturas sócio-econômicas e sócio- políticas, ideologia, condicionam essa organização, sendo função da Arqueologia reconstituir o espaço, explicá-lo, acompanhá-lo na sua constante evolução.

Assim sendo, o objetivo da abordagem arqueológica neste sítio contemplou objetivos específicos, associados à compreensão dos processos produtivos referentes à produção de carvão, bem como sua relação com o contexto sócio espacial em que está inserido.

Caracterização do conjunto

Este conjunto de fornos está localizado em sua maioria nas encostas dos morros existentes na região nas margens dos rios Pirai e Rio Claro, à cerca de 2 km da cidade de Rio Claro. 

Apesar de assemelharem-se ao forno tipo meia encosta ou barranco, foram construídos inteiramente nos barrancos dos morros, sem utilização de nenhum tipo de alvenaria de tijolos. O processo construtivo aplicado consiste em escavação de um buraco no solo (encosta) deixando uma abertura, um orifício no centro para entrada de oxigênio quando necessário, uma chaminé nos fundos para saída da fumaça e uma porta ou "boca" para acesso à área interna.

Forno 1 Forno 2  Forno - Limpeza e caracterização do Forno 4 Vista da entrada e parte interna do Forno 5 
 Forno - Parte interna do Forno 6.  Vista da porta de entrada e parte interna do Forno 7. Vista da parte interna do Forno 5  Vista frontal do forno 6 

 

Sítio Pedras Soltas

Conforme o diagnóstico arqueológico realizado em 2010, encontrou-se na área do empreendimento pedras soltas com possíveis evidências de polimentos ou gravações, sendo incorporado no programa com o objetivo de pesquisa intensiva/salvamento. o salvamento deste sítio estava previsto para janeiro/fevereiro de 2012, no entanto, quando a equipe de arqueologia chegou ao local não encontrou vestígios das pedras. Fez-se, então, um minucioso levantamento nas margens do Rio Piraí e nas proximidades da RJ-149 para verificar se havia alguma pedra com vestígios arqueológicos em área próxima ao sítio, porém não foram encontradas rochas ou blocos que tivessem marcas de utilização pelo homem.

A equipe de arqueologia verificou que na área onde encontravam-se as pedras houve a construção de uma ponte, removendo e danificando o sítio que se encontrava nas margens do Rio Piraí, denominado de Pedras Soltas.

Sítio Pedras Soltas

Sítio Arqueológico Fazenda Mackenzie

O sítio arqueológico está localizado no Município de Rio Claro, em terreno com um declive levemente acentuado, cobertura vegetal formada por gramíneas de pastagem e árvores frutíferas esparsas, distante cerca de 100 metros ao lado esquerdo da Estrada RJ-149, sentido Mangaratiba/Rio Claro, na área da Fazenda Mackenzie.

A partir da sua caracterização se concluiu que o mesmo está localizado somente na área sul, situado aos fundos da atual sede da Fazenda Mackenzie.

No decorrer das escavações observou-se que o sítio arqueológico foi antropizado, com a colocação de entulho. Este misturou-se com material da antiga sede interferindo diretamente nas camadas estratigráficas do sítio e a camada húmica ficou coberta pelo aterro cerca de 30 a 40cm. Foram localizados e resgatados mais de 4 mil artefatos entre cerâmica, lítico, louça, porcelana, vidro e metal.

Considerações

Na área sul, (da área sul) devido o tipo de material coletado e a sua localização próxima à casa da fazenda, acredita-se que esta tenha passado por uma reforma e o entulho tenha sido jogado na área do sítio. Assim, o material arqueológico coletado representa vestígios da antiga casa da fazenda. Esta área também é considerada importante pelos vestígios de ocupação indígena tupi guarani encontrado, supondo que houve uma ocupação ou que estes passaram por ali.

Na área oeste devido à pequena quantidade de material encontrado e a sua posição, supõe-se que seja material vindo da área sul pela erosão do terreno ou conturbação do solo ou água da chuva.

Localização do Sítio Fazenda Mackenzie. Fonte: Google Earth  32   Sítio Fazenda Mackenzie - Vista geral

 

Sítio Fábrica de Tecidos

Breve Histórico

Em 1909 a Fábrica de Tecidos e Fiação São José, instalada em São João Marcos, de propriedade do coronel José Norberto de Meio, teve suas terras desapropriadas pela Light para construção da represa de Lages. Com o dinheiro recebido, transferiu sua fábrica para o bairro Estamparia em Barra Mansa, sendo assim a primeira indústria do município. Como na época não havia energia para mover as máquinas, entre 1911 a 1913 o coronel Norberto de Meio conseguiu da câmara deste município a concessão.

Caracterização

O Sítio Fábrica de Tecidos é formado por vestígios de construção e relatos históricos informam a utilização do espaço como sede da Fábrica de Tecidos e Fiação São José, fato ratificado pela pesquisa arqueológica. Sua alvenaria segue o mesmo padrão dos demais sítios pesquisados na região, utilizando pedra como elemento principal. Tal como no "Sítio Arqueológico Antiga Residência", (descrito abaixo) houve a utilização de argamassa em cimento para revestimento de algumas estruturas.

Localização do Sítio Fábrica de Tecidos. Fonte: Google Earth Vista panorâmica do sítio Fábrica de Tecidos

 

Considerações

As áreas "A" e "B" não demonstraram diferenciação significativa em relação aos materiais, sendo identificadas as mesmas classes e os mesmos objetos de maquinário, armazenamento de substâncias como óleos e combustíveis, além de alguns materiais de construção (tijolos, telhas e pregos). 

Já a Área "C",  é distinta das demais. Além de apresentar estratigrafia menos perturbada, foi alvo de setorização, permitindo o controle dos níveis e regiões específicas de onde os artefatos foram recuperados. A mesma apresenta uma diferença mais significativa em relação às outras áreas, com registro de materiais mais para uso residencial como talheres, aparelhos de louça ou porcelana, copos, garrafas de perfume, de remédio, objetos para enfeites, ferramentas (enxadas e foice), materiais de construção (pregos e dobradiças) e objetos diários e pessoais como navalha, cachimbo, peças de jogo e moedas.

Área de possível entrada de água Sistema de drenagem Área da Escada

Por outro lado foram identificados nesta mesma área materiais que a vincula as outras áreas do sítio, como vidros muito finos, provavelmente de lâmpadas. Materiais indígenas, com núcleo biface e cerâmicas, sugerem uma ocupação anterior à Fábrica.

Os dados arqueológicos de campo e de laboratório ratificam as informações acerca do espaço pesquisado, considerando-o como fábrica de tecidos. A identificação de metais utilizados para maquinário, possível usina hidrelétrica, área para tratamento de água auxiliam na recomposição da ocupação da área. Chama a atenção a identificação de materiais indígenas e domésticos. Este último apresenta materiais cujo período de fabricação pode ser contemporâneo ou até concomitante à Fábrica de Tecidos, sugerindo a existência de áreas de moradias vinculadas ou não ao espaço têxtil.

Quanto ao material indígena, não há registro de presença de nativos na região em finais do século XIX e início do XX, podendo indicar a presença anterior do grupo em questão.

Desta forma, o sítio Fábrica de Tecidos apresenta características multifuncionais, com espaços definidos e caracterizados.

     

 Sítio Antiga Residência 

 

O sítio localiza-se no município de Rio Claro, estado do Rio de Janeiro, na margem direita da estrada RJ 149,  e está implantado em área de pequeno platô, circundado por morros formando, como característica comum ao traçado da estrada, um estreito vale que liga os municípios de Rio Claro à Mangaratiba.

O Sítio Arqueológico denominado Antiga Residência é formado por vestígios de construção que utilizaram, seguindo o padrão dos demais sítios pesquisados na região, alvenaria em pedra. Como elemento diferencial está a inclusão de argamassa em cimento para revestimento de algumas áreas, como a escadaria existente. 

Distribuído em uma área de, aproximadamente, 30x30 metros, foi identificado um conjunto de alvenaria em pedras, além de uma estrada de acesso.

 

Forte

Implantada no topo de uma elevação, a cerca de 470 m de altitude, o local onde se situam as ruínas do Forte possui visão privilegiada da baía da Ilha Grande.

A estrutura encontrada no local é construída em pedras justapostas, possui a dimensão aproximada de 8x8 metros e altura de 1,00m em alguns pontos.  Esta estrutura encontra-se em péssimo estado de conservação, mas ainda é possível identificar alguns locais importantes como o piso de pedra e as trincheiras que ficam em torno do mesmo. Na área externa das ruínas, foi identificada uma nova estrutura em pedra.

As rochas identificadas em profundidade são dispersas, sugerindo integrar a formação geológica do local.

As atividades de prospecção realizadas apresentaram resultados positivos, que contribuíram para a construção de um quadro ocupacional para a região de Mangaratiba e Rio Claro. O crescente populacional registrado no decorrer do século XIX vem corroborar a informação advinda das atividades aqui apresentadas.

Estrada de Acesso ao Forte

A estrada atualmente não permite tráfego por qualquer tipo de veículo automotivo, onde não se identificou vestígios de pavimentação. Esse acesso só é possível através de caminhada por aproximadamente uma hora, pois a vegetação encontra-se fechada com acesso apenas por trilhas. Em alguns trechos o terreno é muito íngreme.

Início da Estrada Abertura de trilha Estrada de acesso ao forte. Vista sul.

Sítio Fazenda Bálsamo

Localizado em uma pequena colina entre a Serra do Piloto e a Serra do Matoso, no município de Rio Claro na margem esquerda do rio Bálsamo, o sítio arqueológico Ruínas da Fazenda Bálsamo possui uma área estimada em 30m2, incluindo um amplo espaço cercado com muros em rocha, bem como ruínas de uma moenda. Formada por alvenaria em pedra e cal tem seu sistema construtivo semelhante às demais ruínas encontradas na região, como São João Marcos, Ruínas da Serra do Piloto, Ruínas do Saco. 

A pesquisa intensiva é aplicada nos sítios arqueológicos existentes que poderão ser preservados e protegidos para futuras pesquisas arqueológicas. Os objetivos dessas pesquisas são possuir um quadro completo de conhecimento do passado, avaliação profunda do potencial de cada sítio e o estabelecimento de cronologias dos complexos culturais, essa pesquisa caracteriza o salvamento dos sítios arqueológicos.