Programa de Pesquisas Arqueológicas, de Educação Patrimonial, Levantamento do Patrimônio Cultural Imaterial e Estudos de Elementos de Arquitetura Histórica na Estrada RJ-149 – Rio Claro-Mangaratiba – Estrada do Imperador - Parte IV

 

 Levantamento do Patrimônio Cultural lmaterial

 

O Decreto do IPHAN nº 3.551 de 4 de agosto de 2000, institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e define um programa voltado especialmente para estes bens. O decreto rege o processo de reconhecimento de bens culturais como patrimônio imaterial, institui o registro e, com ele, o compromisso do Estado em inventariar, documentar, produzir conhecimento e apoiar a dinâmica dessas práticas socioculturais. Vem favorecer um amplo processo de conhecimento, comunicação, expressão de aspirações e reivindicações entre diversos grupos sociais. Tal decreto tem por base o artigo 216 da Constituição promulgada em 1988, onde considera:

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I - as formas de expressão;

II - os modos de criar, fazer e viver;

111 - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Parágrafo 1. O poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.

 

O levantamento de patrimônio cultural teve como objetivo identificar os principais itens da cultura imaterial local estabelecidos pela UNESCO e adotado pelo Brasil através do IPHAN. Assim, buscaram-se os bens que representam o patrimônio da cultura imaterial do país, bem como, resgatar o histórico da região, através de pesquisa de campo.

Essa pesquisa é, antes de tudo, uma forma de reconhecimento e busca a valorização dos bens, e pode ser aplicado como base de instrumento legal. Assim, de acordo com o Decreto nº 3.551/2000, os bens de natureza imaterial são divididos nos seguintes livros de inscrição do Patrimônio Imaterial Nacional: 

I - Livro de Registro dos Saberes, onde serão inscritos conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades;

11 - Livro de Registro das Celebrações, onde serão inscritos rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social;

111 - Livro de Registro das Formas de Expressão, onde serão inscritas manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas;

IV - Livro de Registro dos Lugares, onde serão inscritos mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas. 

§ 2º A inscrição num dos livros de registro terá sempre como referência a continuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira.

Metodologia

A primeira atividade desenvolvida consistiu em um levantamento primário dos bens culturais imateriais junto às Secretarias de Educação e Cultura, Associações Comunitárias e pessoas de destaque na comunidade local, através de entrevistas e pesquisas de campo diretamente com os indivíduos envolvidos.

É importante destacar que este trabalho refere-se ao levantamento primário da Cultura Imaterial da Área Indiretamente Impactada (AII) pelo empreendimento, cujos resultados foram enviados ao IPHAN em relatório final, bem como divulgados na comunidade científica e entre as comunidades pesquisadas. Assim, essa etapa teve como objetivo mapear os campos do patrimônio imaterial, sumarizando os dados obtidos para elaboração de um quadro referencial a respeito do tema.

Como material de apoio foram utilizadas fichas de registro específicas para cada categoria descrita a seguir:

1) Saberes e Fazeres: conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades - artesanato, culinária, entre outros.

2) Formas de Expressão: manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas.

3) Celebrações: rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social.

4) Lugares: mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e se reproduzem práticas culturais coletivas.

Município de Mangaratiba

Em Mangaratiba foram realizadas pesquisas junto à Secretaria de Cultura local através da Fundação Mário Peixoto. O contato foi realizado através da historiadora Mirian Bondim que forneceu informações significativas para a realização deste projeto. Segundo ela, a cultura imaterial local é bastante diversificada, com destaque para as lendas, danças, artesanato e celebrações. Além deste contato a equipe visitou a feira de artesanato local e conversou com artesãos e culinaristas que trabalham com vários materiais e produtos oriundos da cultura local.

Ainda como parte deste trabalho, a equipe entrevistou moradores e pessoas ligadas à cultura no distrito da Serra do Piloto: a professora Luciana Fernandes, diretora da escola municipal Cordélia Josefina de Magalhães Pahl e, no distrito de Conceição de Jacareí, Sr Adir de Souza, membro da Associação Cultural Afro-brasileira Conceição de Jacareí. Como resultado desta pesquisa, a equipe elaborou uma lista inventário das localidades de Mangaratiba e seus distritos:Serra do Piloto, Conceição do Jacareí, Muriqui e Itacuruça. Segue abaixo a lista inventário.

Formas de expressão

Lendas

As lendas povoam a mente das pessoas e por gerações são divulgadas. Nesta região foram identificadas as seguintes:

  • Lenda do trem - Ibicuí
  • Lenda do engenho -Ingaíba
  • Lenda do vento Vieira - Muriqui
  • Lenda da pedra do sino - Marambaia
  • Lenda da pedra do banquete - Sahy
  • Lenda do pouso triste - Serra do piloto
  • Lenda das Alminhas - Serra do Piloto
  • Lenda da cachoeira dos escravos - Serra do Piloto

 

Folias de Reis

  • Folia da Serra do Piloto
  • Folia de Conceição de Jacareí

 

Danças

• Jongo na ilha de Marambaia

Saberes e fazeres

Culinária

O modo de preparar as comidas da região foram passadas por gerações através das receitas que geralmente utilizam ingredientes da região. A equipe identificou algumas destas receitas para posteriormente registrar o modo de preparo.

  • Doce cremoso de banana - Serra do Piloto
  • Bolinho de banana - Serra do Piloto
  • Licor de banana - Serra do piloto
  • Queijo caseiro - Serra do Piloto
  • Peixe com banana - Mangaratiba
  • Banana passa - Mangaratiba
  • Casquinha de siri -Itacuruça
  • Banana chip doce e salgada - Sahy
  • Cocada molhada de Muriqui
  • Banana passa - Praia do saco
  • Cocada de Ingaíba

 

Ofícios e Modos de fazer

Na região pesquisada, mais especificamente a da Serra do Piloto identificamos entre os mais variados ofícios os relacionados à agricultura e agropecuária. São eles:

  • Cultura da banana
  • Criação de bovinos e suínos

 

Expressões artísticas populares - Artesanato

O artesanato na região não apresenta grande variedade, porém os artesãos locais aprimoram a cada dia seus trabalhos e vendem nas feiras dos distritos ou em suas casas. Destacamos:

  • Artesanato em madeira - Serra do Piloto e Mangaratiba
  • Artesanato em fibra de bananeira - Muriqui
  • Tapeçaria com barbante - Mangaratiba
  • Cestaria em bambu - Serra do Piloto
 
Celebrações
  • As práticas sociais, rituais e festividades acontecem ao longo do ano na região pesquisada. De acordo com a Secretaria de Cultura, as celebrações católicas são as mais expressivas e acontecem em todos os distritos conforme inventário a seguir:

     

Festividade Período Local Observações
       
  Festa de São João Marcos  27 de setembro  Serra do Piloto Esta data lembra a destruição da cidade, porém a celebração ao Santo acontece na data oficial no mês de março, em outras ocasiões.
 Celebração a Nossa Senhora de Aparecida 12 de outubro  Serra do Piloto   
Festa de Nossa Senhora das Graças  27 de novembro   Muriqui Santa padroeira do Distrito de Muriqui. A festividade ocorre há 66 anos 
 Festa de Nossa Senhora da Conceição  08 de dezembro  Praia de Conceição de Jacareí   Tradição de mais de 124 anos, ocorrendo na pequena capela localizada na Praia de Conceição de Jacareí
 Celebração a Oxum  08 de dezembro  Praia de Conceição de Jacareí Culto afro em homenagem ao orixá Oxum no sincretismo representado por Nossa Senhora da Conceição é realizado pelo Centro de Cultura AfroBrasileiro de Conceição de Jacareí com procissão pelas ruas do Distrito e homenagem em frente à Capela com a participação do padre da paróquia 
 Festa de Nossa Senhora de Santana  26 de junho  Itacuruçá Procissão e quermesse no entorno da Praça Central do Distrito de Itacuruçá 
 Desta de São Pedro 29 de julho  Itacuruçá  Procissão de barcos 
 Festa do Peão de Mangaratiba  mês de setembro  Parque de Exposições em Mangaratiba Um dos maiores eventos regionais

 

Lugares

As práticas relativas ao conhecimento da natureza e da ocupação de lugares naturais ou não e referenciados como sendo de cunho cultural.

  • Estrada Imperial RJ-149 - foi a primeira estrada de rodagem do país e ainda mantém em alguns trechos as estruturas originais de pedra.
  • Ilha de Marambaia - local onde antigamente existia a fazenda de engorda de escravos do comendador Breves. Atualmente ainda existe descendentes do povo africano, se tornando um quilombo.
  • Ingaíba - antigamente conhecido por praia de São Brás, este local foi o primeiro a ser colonizado pelos desbravadores europeus na região.
  • Sahy - local onde até hoje existem as ruínas das antigas construções, foi o primeiro porto da região.

Abaixo serão descritas com mais detalhamento as categorias de patrimônio imaterial levantadas durante a pesquisa de campo e serão apresentadas as particularidades de cada cultura. Assim, os itens serão divididos por categorias.

Categoria Lugares Históricos

Uma das primeiras ações executadas consistiu no registro fotográfico e no levantamento histórico dos lugares anteriormente identificados como importantes historicamente pelos moradores da região.

Estes itens entrarão nesta pesquisa em categoria especialmente criada com esta finalidade - "Lugares Históricos" e não com o conceito utilizado pelo INRC do IPHAN denominada Lugares, definidos por este órgão como locais de práticas culturais.

Tal escolha baseia-se no fato de que os locais apresentados a seguir não se enquadram nesta categoria, mas integram a memória coletiva, sendo considerados "lugares de memória". 

a) Praia de São Brás

Este lugar foi identificado como importante historicamente por ter sido o primeiro ponto do continente explorado pelos colonizadores europeus na região de Mangaratiba, conforme relatos dos historiadores locais. 

"Mesmo esmagados ante o espetáculo de luz, de cores e de sons, cuja suavidade por certo, sempre emociona as almas sensíveis às obras de Deus, não passou despercebida a experiência do ilustre Fundador, a pouca extensão do terreno situado ao lado leste da baía e onde se assenta esta atual sede.

De maneira que, observando esse aspecto e mais, o quanto era esta zona sujeita as batidas dos ventos Norte e Nordeste, MARTIM DE SÁ, inteligentemente fez continuar o rumo na direção N.O., onde via mesmo de longe a vasta extensão que se alonga para muito além das terras de "INGAIBA" e onde as Serras - de perfis recortados em formas originais - se confundem com a fimbria do horizonte.

Seus olhos se fixaram na praia muito alva e longa entrando pelo mar em meio círculo - como arco de um peito que se curva - e a qual, desde este primeiro instante, exerceu particular atração sobre o espírito do Fundador. ..( ... ) Por ali, no ano de 1548, muitas vezes, entre apreensivo e esperançoso, Hans Staden caminhou preso aos índios chefiados pelo grande e bravo "CUNHAM BEBE, por longos meses.

Não unicamente devido ao enlevo da paisagem, mas, é lógico, influenciado pela grandiosidade da planície fértil que se estira do litoral e avança para o interior até o sopé das altas e caprichosas serras - cujas vertentes se recortam num pitoresco emocionante - MARTIM DE SÁ fez para ali aproarem suas embarcações e, com aquela tripulação, fundou o primitivo povoado, batizando, então, aquela meia lua de areia de uns quatro quilômetros, de "PRAIA DE SÃO BRAZ", razão que nos leva a dizer que esse evento se deu no "DIA 3 DE FEVEREIRO, que é a data do Santo, Bispo de Asbesto, martirizado na Armênia, no ano de 316." (Cadernos de Historia Municipal- Volume 4 pags. 14, 15 e 16) 

Atualmente, nesta área está localizado o condomínio Portobelo e a área exata onde seria a praia de São Brás está cercada por casas de luxo, não sendo permitida a entrada de pessoas que não sejam moradores. Nem a equipe do IAB, responsável por este levantamento, obteve autorização para ir até o local, teoricamente público, tendo que realizar o registro fotográfico da praia a partir da rodovia Rio-Santos.  

b) Ingaíba

O nome Ingaíba aparece nos primeiros mapas da região no século XVI, já com certo destaque pela belíssima composição de sua área de grande planície, cercada de montanhas e cortadas por grandes rios. Talvez tenha sido por esta riqueza, escolhida no século XVII para sediar o povoamento tupiniquim em São Braz (uma de suas praias).

Já no século XVIII, grandes fazendeiros começam a se estabelecer na região de Mangaratiba à procura de terras férteis. Neste período esta localidade se destacava pela grande produção de arroz, anil e de mandioca (na região do Batatal).

Em 1832, Mangaratiba recebe a visita ilustre de Charles Darwin, que descreve em um de seus livros sua hospedagem na Ingaíba como o tipo de todas as hospedarias do país: 

"Estas casas, comumente grandes, estão construídas todas elas da mesma forma: cravam postes no solo e entretecem ramos de árvores entre eles e cobrem tudo com uma camada de barro. Raro é encontrar-se o chão soalhado e nunca há vidros nas janelas.

O teto achava-se em bom estado. A fachada, que se deixa aberta, forma uma espécie de átrio onde se colocam bancos e mesas. Todos os dormitórios comunicam uns com os outros, e o viajante dorme como pode sobre uma tarimba de madeira coberta com um mau enxergão." (ATAS DA CÂMARA - Livro 33 - folha 53) 

Durante todo o século XIX Ingaíba se destacou como uma das áreas mais produtoras de Mangaratiba. Com seus engenhos, fazendas e casas de negócio exportavam centenas de arroubas de café, milho, arroz, feijão e farinha etc.

Após a decadência do Povoado do Saco (1864), toda a atenção das autoridades do município ficou virada para Ingaíba, por esta ser a principal área produtora de Mangaratiba. Em 1881, a Ingaíba é citada nas Atas da Câmara como centro de maior produção desse município. Neste mesmo ano foi solicitado a criação de escolas de meninos e meninas em Patrimônio e São Braz. (ATAS DA CÂMARA - Livro 33 - folha 53).  

c) Cachoeira dos Escravos

A Cachoeira dos Escravos sempre se destacou como obra da Estrada. Não só pela arquitetura romântica de seus arcos de pontes como também por seus enormes muros de contenção de barrancos e das águas os quais, em épocas de fortes chuvas controlam a fúria da cachoeira. É comum avistar passantes se refrescando em sua queda d'água e admirando a bela estrutura de pedras. Este lugar chega a ser um ponto de referência para os frequentadores da Serra do Piloto. 

A passagem por esta estrada só foi possível depois desta grande obra projetada pelo engenheiro WEBB e construída pelas mãos dos escravos. Antes dessa, poucos eram aqueles que se arriscavam a atravessar este trecho em dias de chuvas. Muitas reclamações de animais caindo nesse despenhadeiro foram registradas em ofício ao governo da Província solicitando melhoria na antiga estrada.

Uma das maiores lendas da Serra do Piloto informa que o nome Cachoeira dos Escravos é devido ao fato de que alguns fazendeiros da região teriam o costume de jogar seus escravos cachoeira abaixo para matá-tos.

Considera-se este um lugar histórico por conta das diversas histórias locais em que é referenciado.

Praia de São Brás a partir da Rio-Santos Cachoeira dos Escravos Bebedouro da Barreira

 

d) Bebedouro da Barreira

A economia de Mangaratiba, no século XIX, estava totalmente direcionada ao porto e para a Estrada Imperial. Com 90% da produção agrícola da região escravista do Vale do Paraíba (café, açúcar, mandioca, banana e feijão) direcionada para o exterior e para alimentar a corte na capital do país, a estrada apresentava um movimento diário estimado em 70 caleças do comércio de café, além da circulação de bens de consumo de luxo das grandes fazendas (móveis, porcelanas, tecidos).

Deu-se então a primeira "privatização" de estradas da história do Brasil, através da Companhia Industrial da Estrada de Mangaratiba, com direito a pedágio sobre as carruagens, tropas e carroças que por ela transitassem, cujos sócios eram a família do Comendador Breves, com 400 ações; a família Barroso de Morais, com 650 ações, o desembargador Joaquim José Pacheco, juntamente com o Conselheiro Antonio Barbosa, o Tesouro Fluminense, com 1.500 ações e do Barão de Mauá.

Este pedágio era cobrado em uma barreira (espécie de barreira alfandegária), com uma severa tabela de preço por produtos e por muares. Em frente à barreira, foi construído um belíssimo bebedouro para matar a sede dos viajantes tropeiros e dos animais de carga. Segundo a história oral, Dom Pedro II deu água para seu cavalo neste bebedouro na inauguração dessa estrada em 1857. (ver foto 239)

e) Estrada do Atalho

A Estrada do Atalho foi construída como obra de melhoramentos da antiga estrada (Estrada Velha): Mangaratiba - São João do Príncipe, construída pelo comendador Breves em 1833 que, por ser apenas areada, vinha se deteriorando com as fortes chuvas e o intenso trânsito das tropas que se dirigiam ao Porto do Saco.

Após muitas queixas por parte dos negociantes de café que sofriam altos prejuízos pela péssima condição dessa estrada, em 1850 o governo da Província autorizou sua melhoria, a ser executada por Bernadino José de Almeida, cujo contrato foi assinado no dia 15 de setembro de 1850.

Porém, o compromisso não foi cumprido e em 26 de fevereiro de 1855, foi assinado novo contrato com o Desembargador Joaquim José Pacheco, criando para tal uma Companhia de sociedade anônima, para construir uma estrada de Mangaratiba à Barra Mansa, no trajeto de São João do Príncipe e Rio Claro.

Assim, devido à importância econômica do porto de Mangaratiba, no período histórico do Segundo Império, entre os anos de 1855 e 1856, estavam sendo construídas duas estradas na mesma direção: Mangaratiba - São João Marcos. Uma totalmente custeada pela província e a outra pela iniciativa privada, concorrendo também à província por meio de subscrição de ações.

Esta estrada que segue o mesmo trajeto da Estrada Velha, projetada por Conrado Jacob Niemeyer, com obras administradas por Joaquim José de Souza Breves, em 1833, ficou conhecida popularmente como Estrada do Atalho, por servir como atalho para encurtar o caminho da Serra do Piloto, ou por Estrada do Cemitério por guardar túmulos que, segundo a história oral, marca os sacrifícios dos escravos que trabalharam nesta obra.

f) Ilha de Marambaia

A Ilha de Marambaia é sempre referenciada nas conversas locais sobre a história de Mangaratiba. A história de Marambaia está diretamente relacionada com o tráfico de escravos do século XIX. Era neste lugar que o Comendador Breves, um importante senhor do café e do tráfico de escravos da época, deixava seus escravos em um período de "engorda", antes de serem vendidos para outros senhores. Alguns relatos indicam que por lá passaram pelo menos seis mil escravos.

Até os dias de hoje existem ruínas do que seriam estruturas da antiga fazenda, e seus moradores são na maioria descendentes dos ex-escravos do comendador Breves. O acesso a este local é restrito e somente autorizado a não moradores pela marinha do Brasil.

Este lugar torna-se importante historicamente por ter sido um dos principais pontos clandestinos de entrada no continente de escravos do Comendador Breves. Segundo historiadores, lá aconteciam os leilões de escravos para o trabalho nas fazendas do sul fluminense que eram levados através de caminhos pela Serra do Piloto.

Até hoje é possível ver as ruínas das antigas construções à beira mar entre a vegetação composta de mata atlântica e árvores exóticas.

Estrada do Atalho Ilha de Marambaia Ruínas do Sahy

 

Categoria dos Saberes

a) Artesanato

A história do artesanato é contemporânea com a própria história do homem, pois a necessidade de se produzir bens de utilidades e uso rotineiro, e até mesmo adornos, expressou a capacidade criativa e produtiva como forma de trabalho.

Segundo alguns historiadores os primeiros artesãos surgiram no período neolítico quando o homem aprendeu a polir a pedra, a fabricar a cerâmica e a tecer fibras animais e vegetais. No Brasil, o artesanato também surgiu neste período.

Os índios foram os mais antigos artesãos. Eles utilizavam a arte da pintura, usando pigmentos naturais, a cestaria e a cerâmica, sem esquecer a arte plumária como os cocares, tangas e outras peças de vestuário feitas com penas e plumas de aves.O artesanato pode ser erudito, popular e folclórico, podendo ser manifestado de várias formas como nas cerâmicas utilitárias, funilaria popular, trabalhos em couro e chifre, trançados e tecidos de fibras vegetais e animais entre outros.

O artesanato brasileiro é um dos mais ricos do mundo e garante o sustento de muitas famílias e comunidades, fazendo parte do folclore e revelando usos, costumes, tradições e características de cada região.

Órgãos ligados ao patrimônio cultural apresentam várias discussões sobre o tema. Entre as definições mais significativas destacam-se a do Sebrae:

"Artesanato é toda atividade produtiva que resulta em objetos e artefatos acabados, feitos manualmente ou com a utilização de meios tradicionais, com habilidade, qualidade e criatividade." 

Também temos a definição da escritora e folclorista Vera de Vives no livro O artesão tradicional e seu papel na sociedade contemporânea, onde diz: "O artesão tradicional é o agente que conhece o meio onde se situa, domina técnicas para construir trabalhos manualmente e possui sensibilidade para criação."

Partindo desse princípio foram pesquisados e destacados alguns itens desta subcategoria de patrimônio imaterial na região, conforme constam a seguir:

a.a) Artesanato em Madeira

Os artesãos especializados em madeira produzem objetos diversificados com motivos da natureza, do universo humano e da fantasia. Exemplos disso são as carrancas, ou cabeças-de-proa, os utensílios como cocho, pilão, gamelas e móveis simples e rústicos, os engenhos, moendas, tonéis, carroças e esculturas.

Esculturas zoomorfas em madeira

Artesão: Marcelo Firmino

O artesão Marcelo Firmino, 40 anos, morador de Mangaratiba é autodidata, confecciona esculturas em forma de animais (zoomorfas) com madeira oriunda de poda utilizando técnica de entalhe.

Ele começou este oficio há quinze anos ao observar o trabalho de outros artesãos que confeccionavam peças com madeira. A partir daí iniciou e aprimorou sua técnica procurando sempre chegar à perfeição de detalhes. Buscando inspiração na natureza, ele retrata figuras de animais, algumas em tamanho natural tão perfeitas que para muitos observadores parecem reais ao primeiro contato. De troncos e galhos caídos de árvores de várias espécies, surgem suas peças, entre elas figuras de onças, capivaras, pássaros, peixes e pavões que já foram expostas em galerias da região sendo algumas destas já premiadas.

Suas peças são únicas, algumas com acabamento em verniz e outras em tinta nas cores dos animais. Todas as peças são confeccionadas em seu ateliê natural, um espaço sob árvores na frente de sua casa, cercado por um lago e um riacho. Segundo ele "este é o melhor local para se trabalhar, pois é inspirador".

Utilizando em seus trabalhos a técnica de entalhe em peças inteiras ele usa ferramentas como: formão, goiva, serra elétrica, lixadeira elétrica e lixas de madeira.

Detalhes como a musculatura dos animais, pelos, dentes, penas e escamas são delicadamente representados em cada uma das peças e a maior preocupação do artesão é com a proporção, para que a semelhança com o animal inspirador de sua arte seja a maior possível. Seu método de trabalho é dividido nas seguintes etapas: seleção da madeira, desenho (a giz), molde, entalhamento dos detalhes, lixamento mecânico e manual, coloração e acabamento. Segundo Marcelo - "Trabalhar com madeira me trás um bem estar tão grande que muitas vezes, durante o trabalho, esqueço-me das horas e entro noite adentro sem cansaço", finaliza ele.

Marcelo Firmino Peças do artesão Marcelino Firmino Peça do artesão no contexto natural

 

Comedouros para pássaros

Artesão: Eduardo Henrique

O artesão Eduardo Henrique iniciou suas atividades há 10 anos; sua inspiração para realizar este trabalho também se deu através da observação do trabalho de outros profissionais.

Inicialmente ele confeccionava figuras zoomorfas, mais precisamente garças em madeira oriunda de poda de árvores na região onde mora. Atualmente em seu espaço na Serra do Piloto ele produz desde pequenas maquetes de elementos rurais (fogões de lenha, etc.), luminárias e comedouros para pássaros, que são bastante apreciados na região. Seu trabalho é rico em detalhes, as pequenas casinhas que compõem os troncos dos comedouros para pássaros possuem portas e janelas bem detalhadas, bom acabamento e acessórios como redes nas pequenas varandas.

A técnica utilizada em seu trabalho é o recorte e montagem da madeira (maçaranduba, cedrinho e compensado naval) para a construção das pequenas casas que posteriormente são fixadas aos troncos.

As ferramentas utilizadas são formões de vários tamanhos, serra elétrica, martelo, entre outras.

O processo de produção de suas peças começa com a escolha do material. Primeiramente o galho ou tronco que servirá de suporte para as casinhas, posteriormente ele prepara o material para montagem das casinhas (paredes, base e telhado) e acessórios. Numa próxima etapa ele fixa a casinha na estrutura e realiza o acabamento com pintura em tintas e verniz. Em seguida são colocados os acessórios para completar a peça e, está pronta.

Segundo Eduardo, apesar de ter outra ocupação, o artesanato é a função que lhe dá mais prazer, pois é gratificante ver as pessoas adquirirem suas peças com tanto gosto.

Eduardo Henrique Eduardo Henrique - Comedouro para pássaros

 

a.b) Artesanato com fibra de bananeira

A arte de trançar fibras, oriunda de nossos ancestrais indígenas, inclui esteiras, redes, balaios, chapéus, peneiras entre outros artefatos. Os objetos trançados possuem uma imensa variedade de decorações, explorada através de formas geométricas, espessuras diferentes, corantes e outros materiais. Esse tipo de artesanato pode ser encontrado com mais frequência nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, porém nas demais regiões também existem artesãos que trabalham com esta técnica confeccionando peças bastante interessantes.

A cultura da banana está presente em Mangaratiba em toda sua história, pois, como o próprio nome Mangaratiba já indica (mangará- ponta terminal da inflorescência da bananeira e "tiba - abundância), é considerada terra de muita banana.

A bananeira tem sua presença no brasão de armas simbolizando uma de suas maiores fontes de riqueza. Riqueza esta que, juntamente com o peixe, continua sendo uma das principais bases econômicas do município até os dias de hoje.

Produtos derivados deste vegetal são abundantes na região, desde doces, licores, pratos típicos e até mesmo o artesanato com uso de suas fibras.

Produzir artesanato em fibras de bananeira é, muitas vezes, transformar o simples no belo, utilizando uma matéria prima que se for deixada na natureza retornará ao ciclo rapidamente.

Toda a bananeira é cortada após a produção do cacho, e seu "caule" geralmente fica nas proximidades do terreno aguardando a decomposição natural enquanto outro rizoma cresce ao lado. É uma grandiosa fonte de matéria prima.

Da bananeira se aproveita aproximadamente nove tipos de fibras, entre eles o fio nobre, o fio grosso, a renda, a fibra lisa, o bambu e a fibra larga. Todos retirados com técnicas específicas. Em alguns casos os artesãos utilizam até mesmo amaciante de roupas para amolecer os fios e dar maior trabalhabilidade a estes.

Artesãos: lara MeIo e Raimundo Cerqueira 

O artesanato com utilização de fibra de bananeira deveria ser bastante comum em áreas produtoras deste fruto, porém em Mangaratiba não encontramos uma variedade de artesãos especialistas nesta técnica. No entanto, encontramos artesãos que trabalham com uma grande diversidade de produtos oriundos desta fibra utilizando várias técnicas.

Entre eles destacamos a Sra. lara Meio e Sr Raimundo Cerqueira que, apesar de serem também especialistas em produção de artesanato em outros materiais, dão preferência ao trabalho com a fibra da bananeira.

Eles trabalham com esta fibra há cerca de 20 anos e vêm desenvolvendo técnicas e produtos bastante diferenciados. Desde móveis revestidos, acessórios, agendas, até jogos americanos entre outros.

Com a renda geralmente são feitos os laços e acabamentos das peças e com o fio nobre é possível fazer trabalhos em crochê e costura para acabamentos.

Entre as etapas do processo estão: o desfibramento, que consiste na separação das camadas da "folha" do tronco, onde os fios estão nas laterais, a fibra lisa na parte interna, a renda no miolo e a fibra grossa na parte interna. O próximo passo é a lavagem e secagem das fibras que é feito de acordo com cada tipo.

Para confeccionar um jogo americano eles utilizam a fibra tipo "bambu" que é realizado no seguinte processo:

Primeiro a fibra depois de limpa e seca é cortada em tiras de acordo com o tamanho da peça a ser feita. Segundo, ela é trançada como se fosse uma pequena esteira, podendo apresentar várias cores de acordo com o artesão, pois as fibras podem ser tingidas. Na terceira etapa é feito o acabamento das margens com utilização de cola de boa qualidade. Na etapa final é feito o envernizamento da peça completando o acabamento da mesma.

Iara Melo e Raimundo Cerqueira Iara e Raimundo - Peças confeccionadas

 

a.c) Artesanato em conchas

Desde a pré-história existem registros da utilização das conchas como ferramentas, armas e adornos. Até hoje os homens do Sudão cobrem-se de búzios em cerimônias especiais e na nossa sociedade a pérola é muito valorizada como enfeite.

Os habitantes dos sambaquis e das dunas do litoral brasileiro já utilizavam esta matéria prima para confeccionar suas ferramentas e adornos, conforme revelado pelas pesquisas arqueológicas, tornando este artesanato um dos mais antigos a serem produzidos no Brasil.

Embora comum a todo o litoral do Rio de Janeiro, na área da pesquisa identificou-se em Mangaratiba a produção deste artesanato pela Senhora Regina Silva que comercializa na feira de artesanato local e na fábrica de doces.

Ela confecciona peças diversas com o uso de conchas do tipo bivalve coletadas nas praias do Sahy e do Saco em Mangaratiba. Entre as peças estão: esculturas zoomorfas (aves), antropomorfas (que se assemelha ao ser humano) e luminárias de vários modelos.

Na confecção de suas peças ela utiliza cola quente para fixação e massa tipo biscuí e tinta para os pequenos detalhes. Nas luminárias as conchas são fixadas com cordões a estruturas de bambu. 

 

 

Categoria dos Ofícios

Entre os vários ofícios exercidos na região alguns estão intrinsecamente ligados à história e ao meio ambiente. O clima, o relevo e os recursos naturais fazem com que atividades cotidianas de extrema importância sejam realizadas e seus métodos sejam transmitidos por gerações.

a) Ofício de Pescador

A pescaria é um dos ofícios mais antigos do mundo, tornando-se também um modo de vida e de sobrevivência para muitas famílias ainda hoje. Seja no mar, no rio ou na lagoa, o pescador leva o sustento para casa à custa de muito trabalho.

Este ofício geralmente é passado de pai para filho na costa brasileira, fazendo com que este patrimônio cultural imaterial persista por gerações. 

A pesca é a cultura mais antiga de Mangaratiba pois começou antes da colonização quando era realizada pelos índios tupinambás, antigos moradores dessas terras. Historicamente, atas da Câmara Municipal registraram no século XIX o lucro que o dízimo da banca de peixes dava aos cofres públicos.

A colônia de pescadores de Mangaratiba está sediada do distrito de Itacuruçá e foi fundada em 1926. Está em funcionamento até os dias atuais, servindo de ponto de apoio para todos os moradores que exercem o ofício de pescador.

Muitos destes pescadores fabricam suas próprias redes ou adquirem de artesãos especializados. O produto oriundo de seu trabalho é comercializado nas peixarias locais e adquirido por pessoas de vários municípios.

A maioria dos pescadores inicia a pesca nas primeiras horas do dia, de acordo com o conhecimento empírico adquirido por gerações. Todos tendem a obedecer às normas impostas pelos órgãos de meio ambiente e os que regulamentam a pesca.

Itacuruçá - colônia de pescadores Mangaratiba - barcos pesqueiros

 

b) Ofício de Bananeiro

A denominação de Bananeiro está relacionada mais comumente ao vendedor de bananas, porém o agricultor que se dedica exclusivamente a esta cultura também pode receber esta denominação de acordo com a região. O plantio sistemático da banana na região de Mangaratiba começou, provavelmente, por volta do século XVIII ou XIX, mas sua produção em grande escala ascendeu nas primeiras décadas do século XX, coincidindo com a decadência do café, cuja ausência de mão de obra escrava, após a abolição, era fato consumado. O padre Manuel Álvares Teixeira no Tratado ou Ideia Geral de Todo Terreno da Freguesia de Mangaratiba e dos seus Indígenas e Habitantes, de 1810, deixou o seguinte registro: : "Igualmente se estende a fertilidade do terreno de Mangaratiba a várias frutas, entre estas devo primeiro tratar das bananas, que as produz muito boas, assim das chamadas da terra, como das de São Tomé e isto em todo o sítio e lugar sem distinção desses ou daquele terreno." (Fonte: Acervo da Fundação Mario Peixoto)

No início do século XX, o cultivo da banana na região teve um maior incentivo para produção com o apoio do Major Caetano de Oliveira, dono da Fazenda Santana de Itacuruçá, juntamente com outros grandes fazendeiros da região da banana, que travaram uma verdadeira luta para trazer o trem ao município de Mangaratiba.

Já em meados do século XX, diversas tropas carregadas de bananas em seus jacás oriundas da Serra do Piloto, Rubião, Mangaratiba, Ingaíba, Muriqui e Itacuruçá seguiam em direção às estações e paradas de trens. A grande produção de banana neste período era conduzida aos vagões dos trens destinados à Santa Cruz, cujos compradores já esperavam pelo produto na estação.

O Senhor Nicanor Alves Soares (ex-empregado da Fazenda de Santa Bárbara do Sr. Osório), hoje com 90 anos e residente no Sahy, começou a "puxar" banana da Serra do Piloto, na década de 40, período em que a Fazenda Lapa dominava toda a região serrana pelo seu poderio econômico e produtivo e a Fazenda das Três Orelhas, na Ingaíba, se destacava como a maior produtora do município.

O porto de Mangaratiba inundava-se de pequenas e grandes embarcações carregadas de bananas, que eram trazidas dos bananais da região, em média 80 a 100 dúzias de cachos dessa fruta. Canoas aproximavam-se da praia e, seus remadores, transportavam o produto para o interior dos trens.

Tão marcante é a força desse produto histórico-cultural nesse município que o trem que por lá circulava ganhou o apelido carinhoso de "macaquinho" por andar com vagões carregados de banana.

Neste período Mangaratiba produzia diversos tipos de bananas. As principais espécies desta região são: prata, d'água, nanica, maçã, são tomé, ouro, pacova, da terra, maranhão, etc.

Segundo o Sr. Virgílio Barbosa, produtor de bananas em Muriqui desde 1960, uma bananeira de banana prata, em muda, leva um ano para crescer e dar cacho e seis meses para "devesar" (a banana ficar no ponto de corte). Já outras, como a banana ouro e a banana maçã, o tempo para "devesar" é menor (de três a quatro meses). Explicou também, que o plantio da mudinha de banana é geralmente feita em buraco de 50 cm de largura e de mesma profundidade.

Devido ao clima tropical e a grande umidade do solo de Mangaratiba, o cultivo e a colheita da banana é feita durante todo ano, sem muito destaque para o verão como período de safra.

De acordo com estas informações pode-se afirmar que a banana, assim como peixe, vem, há muitos anos, alimentando a economia de Mangaratiba, tornando extremamente importante o ofício dos agricultores que cultivam este fruto, popularmente chamados de Bananeiros. 

Carregamento de bananas Plantação de bananas

 

Categoria Celebrações

a) Folias de Reis

Em continuidade à pesquisa desta categoria resgatou-se as Folias de Reis identificadas na região. Esta celebração católica é um festejo de origem português ligado às comemorações do culto do natal, trazido para o Brasil ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira e que ainda hoje mantém-se vivo nas manifestações folclóricas de muitas regiões do país.

Ela apresenta um caráter profano-religioso, fazendo parte do ciclo natalino, anualmente realizado entre 24 de dezembro a 06 de janeiro, quando se realizam as comemorações do nascimento de Jesus com várias festividades ou festejos populares.

a.a) Folia de Reis da Serra do Piloto

Denominação: Os Três Reis Magos do Oriente

A Folia de Reis da Serra do Piloto é oriunda da antiga cidade de São João Marcos, onde acontecia desde o início do século XIX. Comandada com muita devoção pelo mestre Geraldo Martins, que dedicou sua vida a esta festa, a comunidade da Serra celebra até os dias atuais a chegada do menino Jesus na Terra. "É algo incomparável... É muito grandioso! Enquanto eu viver e tiver força, continuarei com a Folia de Reis", afirma o Mestre Geraldo que, aos 72 anos e com pouca saúde, é um dos maiores detentores da cultura local.

Esta folia tradicional tem no quadro de componentes as figuras do Melchior (contra mestre), o Gaspar (sanfoneiro) e o Baltazar e, ainda, a figura do palhaço. Mestre Geraldo conta com seus filhos e amigos para manter essa tradição, que começou com seus antepassados que cantavam pelas ruas da extinta cidade de São João Marcos.

Ao todo são 15 componentes e os instrumentos utilizados são: sanfona, acordeon, viola, violão, cavaquinho, pandeiro, zabumba, bumbo, triângulo, chocalho, reco-reco, caixa de guerra e caxixi. 

Nesta pesquisa registramos algumas estrofes, sendo umas tradicionais da cidade de São João Marcos e outras que foram escritas por Sr. Geraldo e seu filho Melchior, completando a profecia de acordo com a Bíblia. Para eles a profecia é sagrada e se reza cantando.

Depois da apresentação da Folia acontece a apresentação do palhaço, se o público assim desejar. O palhaço é um elemento que representa o tentador, em sua apresentação, ao toque da sanfona em ritmo animado e em mazurca, acompanhada pelos demais instrumentos, ele pula e diz versos engraçados e, ainda, arrecada dinheiro independente da oferta à bandeira. Neste caso, o dinheiro oferecido ao palhaço é exclusivamente dele.

Esta folia apresenta muita cantoria e seus cânticos são compostos de muitas estrofes, porém neste relatório será apresentada apenas a primeira estrofe dos cânticos de cada ato  

Cântico de concentração

Pai Eterno e soberano

pai do meu jesus amado 
dai-me voz para cantar 
seu natal tão suspirado ....

 

Cântico de chegada às casas

 

Porta aberta e luz acesa 
é sinal de alegria

venha pegar nossa bandeira

que vem abençoar vossa famílla...

Cânticos de anunciação de João 
Batista

Zacarias estava orando 
num templo sacerdotal 
quando apareceu um anjo 
com seu anuncio fatal. ..

Os cantos da anunciação do Menino 
Jesus

Maria estava em casa 
nisto um anjo apareceu 
saudou a cheia de graça 
e a notícia lhe deu...

Cânticos da visita de Maria a Isabel

Maria se levantou

foi para cidade de Judá 
na casa de Zacarias 
sua prima visitar...

Os cantos do alistamento

No tempo de César Augusto 
era um decreto marcado 
que o povo desta cidade 
havia de ser alistado... 

Cântico do nascimento de Jesus

Os pastores os chamavam 
São José e Santa Maria 
enviando-os pra uma gruta 
aonde nasceu o Messias...

Cânticos da visita dos três reis

Os três reis estavam

dormindo

tiveram um sonho profundo 
sonharam que era nascido

Jesus libertador do

mundo...

 

Cânticos da fuga de herodes

 

     Enquanto os reis

descansavam

em sonho o anjo avisou

que voltassem por outro 
caminho

por causa do traidor...

do mesmo jeito aconteceu 
com Maria e São José

que tomaram o menino nos 
braços e fugiram de Nazaré ...

Cânticos das lendas relacionadas à 
fuga

Passaram por um lugar 
que não tinha morador 
andando logo adiante 
uma pessoa encontrou...

Finalmente a despedida

"do mais" adeus, adeus 
santos reis assim permita 
para o ano se deus quiser 
faremos outra visita. ..

ASSIM TERMINA A CANTORIA DE FOLIA DE 
REIS.

Versos do Palhaço

Aqui chegou topetudo 
caboclo da relação 
chapéu quebrado na testa 
cacete curto na mão

só piso neste terreiro ... 
com a licença do patrão 
-patrão, da licença ou não?

Cantiga de despedida final

Despede aurora 
despede, despede, 
despede aurora 
despede da folia

que  a  bandeira

vai-se embora

despede, despede, 
despede aurora 
despede da folia

que a bandeira 

vai-se embora.

 

a.b) Folia de Reis de Conceição de Jacareí

Responsáveis: Professoras Ângela Maria e Fernanda Silva (herdeiras culturais de Sinhá Mulata)

Há mais de 70 anos existe em Conceição de Jacareí uma Folia de Reis anteriormente comandada pelo Mestre "Cabeça de Reis" Dito Filhinho. Esta folia que recebe a denominação de "Folia de Reis de Conceição de Jacareí" deixou de se apresentar há cerca de seis anos atrás, após a morte de seu Cabeça de Reis. Porém, em 2008 após um ano de falecimento do antigo mestre esta celebração, foi resgatada pelas senhoras Ângela Maria e Fernanda Silva, professoras do município de Mangaratiba e herdeiras culturais de Sinhá Mulata, antiga participante do festejo.

Anteriormente muitas pessoas acompanhavam a folia, inclusive a família das professoras. A senhora Maria Eulália (conhecida como Sinhá Mulata), avó das professoras Ângela e Fernanda, não só acompanhava a folia como também era a anfitriã, abria a porta de sua casa para receber os foliões. Pouco antes de falecer há 19 anos Sinhá Mulata deixou de herança cultural a pedido de suas netas os versos cantados na folia, e estas atualmente dão continuidade a esta cultura imaterial como as novas "Cabeças de Reis", como são chamados os mestres de folia nesta região.

Segundo as professoras "Eles (os foliões) antigamente chegavam sorrateiros, sem barulho... somente os cachorros anunciavam sua chegada. Era aquela "cantoria" na porta da casa! Como era gostoso sermos acordados com aqueles versos simples e melancólicos anunciando o nascimento do Menino Jesus. Os foliões tomavam café com biroró (biscoito de mandioca), uns goles de pinga, e o forró começava. Era uma festa deliciosa que foi acabando com o tempo. As pessoas começaram a fechar a porta de suas casas com medo de ladrões. A modernidade (junto com as novas gerações) impediu a perpetuação desta cultura".

Esta folia é composta pelos Três Reis Magos, anjos, estandarte e a tripa (palhaço). Atualmente se apresenta sempre na primeira semana de janeiro (próximo ao dia seis de janeiro - Dia de Reis) em casas previamente agendadas no distrito de Conceição de Jacareí, liderada pelas "Cabeças de Reis" e acompanhadas por um seleto grupo de pessoas composto por filhos e netos dos antigos foliões. Os instrumentos utilizados são: acordeon, pandeiro, triângulo, bumbo e chocalho. 

Conforme palavras da professora Ângela: "Não cantamos pelas ruas, somente à porta das casas das pessoas e elas dizem que o ano se toma próspero com nossa visita. Se elas acreditam, nós também acreditamos. Por que a nossa mensagem é de alegria, amor e fé. Fé Naquele que nasceu para nos proteger e guiar." 

Versos cantados na folia:

Na chegada

Honrado dono da casa
Passa a mão na fechadura
Venha nos abrir a porta
Coração de pedra dura.

Bate asa e canta o galo
25 de Dezembro

Dizendo Cristo nasceu
Quando o Menino nasceu
Os anjos do céu disseram
E na Quinta-feira Santa
Glória seja o Santo Deus!
Quando o menino morreu.

Nunca vi céu sem estrelas
Na quinta ELE morreu
Nem altar sem castiçal

No sábado ressuscitou

Na casa de homem honrado
No domingo às 9 horas
Nunca falta REIS prá dá
Missa nova ele rezou

O que faz linda pastora
ELE cantou sua missa
Pastorando nossos gados

E pregou seu Santo Sermão
Estou pastorando o menino
Deixou pra nos reunir

Que está no berço deitado.
O rei São Sebastião

Oh! de casa é nobre gente
Quem ta deitado levante
O de fora quem será?
Quem ta dormindo acordai

OS TRÊS REIS DO ORIENTE
Que o Santo Rei não dorme
Que veio nos visitar;

É bom que vós não durmais. 

Quando São José chegou

Se quiser abrir a porta

Achou o menino no berço
Abra já sem mais demora

Os anjos saíram cantando
Ninguém sabe o quanto custa
Rezando e dizendo o terço.
Andar de noite por fora

Bem podia nascer Deus

Nós andamos cantando REIS
Em colchão de ouro fino

Não é pelo dinheiro

Para dar exemplo ao mundo
Viemos beber o vinho
Nasceu tão pobre Menino.
Deste nobre fazendeiro.

Deixou cama, deixou rosas
Honrado dono da casa
Deixou lindos travesseiros
Passe a mão na fechadura
Não quis nascer em colchão
Venha nos abrir a porta

Foi nascer entre palheiros.

Coração de pedra dura

Honrado dono da casa
Deitado em seu colchão

Abençoa Senhor a família, amém,
A sua divina esposa

Abençoa Senhor, a minha também!
Ao lado do coração.

Mangaratiba - Folia de Reis Serra do Piloto - Folia de Reis Conceição de Jacareí - Folia de Reis Conceição de Jacareí - Palhaço

 

Categoria Formas de Expressão

No período Imperial Mangaratiba destacou-se como Rota do Café e Rota dos Escravos, por sua proximidade com a cidade de São João Marcos. Cidade esta reconhecida historicamente como berço da expansão cafeeira no Vale do Paraíba, sendo um dos principais núcleos produtivos de café, no século XIX. Pelo porto do Saco de Mangaratiba escoava-se para a Corte no Rio toda a produtividade deste próspero município, como também de Piraí, Barra Mansa, Resende, Rio Claro e Bananal (São Paulo).

A Rota do Café do Vale do Médio Paraíba para o Porto do Saco ajudou a entrelaçar culturas de grupos diversos, trazendo para essa região as tradicionais Folias de Reis, as cantarias de Calangos, as danças de Caninha Verde, as quadrilhas de festas juninas etc...

Após a destruição da cidade de São João Marcos, alguns de seus moradores migraram para a Serra do Piloto trazendo como herança dos marcossenses essas manifestações culturais, que foram preservadas pela característica que toda zona rural possui de manter suas tradições culturais, devido ao distanciamento do mundo urbano.

Na região costeira do município surgem dos antigos quilombos as formas de expressão herdadas dos antigos escravos do Comendador Breves, o maior escravagista da região. As danças que antes celebravam a vitória em suas lutas ou acalentavam seu sofrimento, hoje mostram a alegria e a habilidade de seus praticantes durante as constantes exibições de capoeira, jongo e maculelê em eventos pelo Município.

a) Jongo da Marambaia

o Jongo, manifestação cultural afro-brasileira, também conhecido como Caxambu, é uma forma de expressão que integra percussão de tambores, canto e dança. O Jongo/Caxambu, presente no sudeste brasileiro, fez o caminho do café e da cana-de-açúcar, praticado pelos negros de origem bantu, trabalhadores escravizados nas lavouras da região.

Registrado como Patrimônio Cultural Brasileiro, em novembro de 2005, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (lPHAN), o Jongo/Caxambu foi registrado no Livro das Formas de Expressão. O registro, reivindicado e conquistado por comunidades jongueiras do sudeste, teve como base a pesquisa desenvolvida pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e como suporte a metodologia do Inventário Nacional de Referências Culturais.

O Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu é uma das conquistas das comunidades jongueiras, resultado do registro. Desenvolve ações de articulação das comunidades e procura contribuir para os processos de garantia de direitos.

Na Ilha de Marambaia em Mangaratiba existe uma comunidade quilombola, formada pelos descendentes dos escravos do Comendador Breves e outros oriundos das batalhas da região sul do país. Estes preservam alguns de seus ritos culturais, entre eles o jongo, que é cantado e dançado por representantes de várias gerações em festas na ilha e ocasiões especiais no continente quando convidados.

O Jongo da Marambaia, como é conhecido, realizou uma apresentação em março de 2012 no Sahy em Mangaratiba e foi registrado pela equipe do IAB. Nesta ocasião apresentaram várias performances em sua dança a um público variado, encantando a todos.

Segundo a jongueira Bárbara "o Jongo é feito de perguntas e respostas e precisa da participação do público para animar ainda mais a dança". As perguntas são feitas pelos cantores e as respostas dadas pelo público em perfeita sintonia.

Cantiga do Jongo da Marambaia 

Minha mãe me chamou pra fazer a farinha
Minha mãe me chamou pra fazer a farinha
Vamos todos farinhar, vamos todos farinhar

Mas tinha o jongo no terreiro e eu deixei a farinha pra lá
Mas tinha o jongo no terreiro e eu deixei a farinha pra lá

b) Capoeira

A capoeira é uma arte marcial, com quase cinco séculos, baseada em tradicionais danças e rituais africanos. Foi desenvolvida no Brasil por escravos oriundos da África, região de Angola, inicialmente como técnica de defesa.

Estes escravos praticavam capoeira nos intervalos do trabalho, treinando o corpo e a mente para situações de combate. Devido à proibição de qualquer tipo de arte marcial pelos seus donos, a capoeira continuou, mas encoberta como uma "inocente" dança recreativa. Os escravos utilizaram o ritmo e os movimentos de suas danças africanas, adaptando a um tipo de luta. Surgia assim a capoeira, uma arte marcial disfarçada de dança. Foi um instrumento importante da resistência cultural e física dos escravos brasileiros.

A prática da capoeira ocorria em terreiros próximos às senzalas e tinha como funções principais à manutenção da cultura, o alívio do estresse do trabalho e a manutenção da saúde física. Muitas vezes, as lutas ocorriam em campos com pequenos arbustos, chamados na época de capoeira ou capoeirão. Do nome deste lugar surgiu o nome desta luta.

Até o ano de 1930 a prática da capoeira ficou proibida no Brasil pois era vista como uma prática violenta e subversiva. A polícia recebia orientações para prender os capoeiristas. Em 1930 um importante capoeirista brasileiro, mestre Bimba, apresentou a luta para o então presidente Getúlio Vargas. O presidente gostou tanto desta arte que a transformou em esporte nacional brasileiro.

Mestre Bimba e Mestre Pastinha fundaram a primeira escola de capoeira, em Salvador, Bahia. Mestre Bimba criou um novo estilo, a "Capoeira Regional", afastando-se da tradicional "Capoeira Angola" introduzindo novos movimentos e técnica.

Atualmente a capoeira possui três estilos que se diferenciam nos movimentos e no ritmo musical de acompanhamento. O estilo mais antigo, criado na época da escravidão, é a capoeira angola. As principais características deste estilo são: ritmo musical lento, golpes jogados mais baixos (próximos ao solo) e muita malícia. O estilo regional caracteriza-se pela mistura da malícia da capoeira angola com o jogo rápido de movimentos, ao som do berimbau. Os golpes são rápidos e secos, sendo que as acrobacias não são utilizadas. Já o terceiro tipo de capoeira é o contemporâneo, que une um pouco dos dois primeiros estilos. Este último estilo de capoeira é o mais praticado na atualidade.

A capoeira é caracterizada por uma roda formada por praticantes da arte capoeirista. Na roda um Mestre encarrega-se de tocar o berimbau, acompanhado por outros capoeiristas com instrumentos específicos como o pandeiro ou o atabaque. Os membros restantes irão praticar o 'Jogo" e, dois a dois, alternadamente, jogam a capoeira, caracterizado por um misto de dança, pontapés, saltos, etc.

Em Mangaratiba, o principal grupo é do Cordão de Contas que tem sua sede em Itaguaí e já está atuando no município há 23 anos comandado pelo Mestre Reinaldo Mestiço, promovendo aulas para moradores locais e realizando apresentações em diversos eventos culturais pelo município. 

Jongo da Marambaia - Mangaratiba Jongo da Marambaia - Mangaratiba Capoeira - Mangaratiba

 

c) Maculelê

O maculelê é uma dança de conjunto desenvolvida por homens, compreendendo dançadores e cantadores, todos comandados por um Mestre denominado "macota". Para esta dança são utilizados bastões de madeira e o do macota é o mais longo.

Os bastões são batidos uns nos outros, em ritmo firme e compassado. Essas pancadas presidem toda a dança, funcionando como marcadores do pulso musical. A banda que anima o grupo é composta por atabaques, pandeiros e, às vezes, violas de 12 cordas. As cantigas são puxadas pelo macota e respondidas pelo coro. A área de origem e maior incidência do maculelê é a região de Santo Amaro no Estado da Bahia.

Em Mangaratiba as apresentações desta dança são realizadas pelo grupo Cordão de Contas em vários eventos realizados em todos os distritos. 

d) Calango

Segundo alguns especialistas no assunto a origem do calango pode estar relacionada a duas fontes étnicas: a europeia e a africana, pois estes tinham hábito de dar nomes de bichos a suas danças. 

Sugerem também a hipótese de que a forma primitiva do calango fosse uma dança imitativa, os dançarinos nesse caso imitariam o "passo do calango". O arrasta-pé, característica ainda observada nesse folguedo, talvez seja o vestígio do andar arrastado do réptil.

Além de uma dança, também é um desafio, é possível que a etimologia negro-africano, não seja propriamente kalanga significando "lagartixa", mas o verbo de kibumdo, kalanga que significa "prevenira"; conforme Pereira do Nascimento em seu Dicionário sobre o kimbundo, onde registra: Prevenir, v. a. Kalanga. Ficar de prevenção (ensina o africanólogo luso) em kimbundo é o verbo kanga. Ora, num desafio ambos contendores se encontram sempre de prevenção. Não será excesso ligar o calango desafio com o verbo kalanga (prevenir).

Nesta dança recreativa em que tomam parte ambos os sexos os pares dançam arrastando pé: o arrasta-pé acompanha o ritmo musical.

O canto é em gênero de desafio com dois cantadores ou mais. Cada cantador é independente na sua cantoria e apenas o "pé de cantiga" une os assuntos; os temas às vezes não possuem nenhuma conexão entre si; apenas o "pé de cantiga" religa-os. O canto não tem nenhum caráter de polêmica, nem de sátira. Embora haja verso improvisado, a contextura do calango é ordinariamente tradicional. Cantam quase sempre em falsete, e não deixa de ser curioso  ver negro forte e de voz grossa cantando fino e em tom anasalado.

Por ser uma tradição de regiões interioranas suas raízes estão ligadas às antigas formas de expressão oriundas de Minas Gerais ou da região da Baixada Fluminense onde há registros de sua ocorrência há muitos anos.

Segundo registros da fundação Mario Peixoto de Mangaratiba, este folguedo acontecia com frequência na região da Serra do Piloto, atraindo público de toda parte do município, mas atualmente ocorre em raras apresentações.

A cantoria de calangos era a tradição mais forte da Serra do Piloto. Até alguns anos atrás, qualquer reunião festiva na serra terminava sempre numa roda de calango para animar o ambiente.

Segundo Sr. Geraldo Martins, um dos mais antigos calangueiros da região - o calango é um tipo de forró, que a gente toca na sanfona e inventa os versos na hora, fazendo rimas em determinada linha. É uma disputa que pode durar noite toda... Vence quem canta o último verso ou quem não perde a rima. Assim tem a linha com as terminações com A, E, I, 0, U e ÃO.

Além da cantoria na linha escolhida, há também quem cante sem linha determinada. Cada cantador vai trovando com o que quiser. Perde o desafio quem não responde ao último verso. As vezes o cantador canta o verso e repete o refrão. 

e) Caninha Verde

O ciclo da cana-de-açúcar no Brasil foi um período cruel para muitos nativos e africanos escravizados por conta do trabalho pesado para o cultivo da cana e todo o trabalho gerado na produção das iguarias que esta planta pode oferecer. No entanto, como das situações ruins também se pode tirar coisas boas, a cultura brasileira se enriqueceu um pouco mais neste período.

Entre as danças das zonas canavieiras, do norte e do sul, a caninha verde parece a mais antiga. Aclimatou-se de tal jeito que já diversos folcloristas brasileiros chegaram a sustentar que essa dança nasceu no Brasil. A verdade é que essa tradição coreográfica originou-se de Portugal, na região do Minho.

Trata-se de uma dança de pares, popular em vários estados brasileiros onde adquiriu formas locais, produzindo variantes da original. A coreografia mais conhecida é formada com duas rodas, uma de homens, outra de mulheres, que dançam em sentido contrário. Sem se tocarem, revezam de lugar, formando novos pares. Cada vez que se defrontam, dão uma batida de palmas. Pode integrar os bailes do fandango e da ciranda. Excepcionalmente ainda pode ocorrer uma pequena representação com trechos em prosa, no qual o personagem padre apresenta de maneira cômica os sacramentos da confissão, da comunhão e do casamento.

A caninha verde da Serra do Piloto em Mangaratiba é uma das variações desta dança. Apesar de esta região não ter sido de plantação de cana, pode ter vindo de regiões do entorno onde se cultivavam os canaviais.

Este folguedo acontecia há muitos anos e, atualmente, raramente se dança. Ela é semelhante à quadrilha, também é dançada em pares com vestes características de roça, ao som de sanfona e versos cantados pelos dançarinos. Nesta pesquisa foram resgatadas algumas trovas cantadas na região que estão registradas no acervo da Fundação Mario Peixoto. 

Todas as trovas foram resgatadas na comunidade do Rubião e da Bela Vista na Serra do Piloto, principalmente com ajuda de Dona Rosa (falecida) esposa de Sr. Geraldo (Mestre da Folia). 

Trovas da Caninha Verde 

 

No canavial trabalho

o dia todo sem parar (bis) 
quando a noite vem chegando 
vou sair pra namorar (bis)

a cana caiana é doce

doce que parece mel (bis)

com você menina linda

faço da terra um céu (bis) 

da cana faço garapa 
da garapa o café (bis) 
menina dança comigo

que eu não piso no seu pé (bis)

apurando a garapa

logo se torna melado (bis) 
menina, vou confessar

quero ser seu namorado (bis)

corto a cana vou moer

pra rapadura preparar (bis) 
menina tu vale ouro

quero com você casar (bis)

oh minha caninha verde 
danço sempre sem cair (bis) 
se seu pai não me aceitar 
menina, vamos fugir (bis)

com você menina linda

vou viver até morrer (bis) 
dançando caninha verde 
você é meu bem querer (bis)

a cana verde me disse

que eu havia de ir com ela (bis) 
vai-te embora cana verde

que eu vou pra minha terra (bis)

agora vou embora

já acabou a cantoria (bis) 
cana verde tá madura

tá madura, já é dia (bis)

Maculelê - Mangaratiba Calangueiros da Serra do Piloto Dança da Caninha Verde - S. Piloto

 

f) Lendas

As manifestações literárias, perucas plásticas e lúdicas, englobando as lendas regionais fazem parte da Categoria Formas de Expressão. Assim, serão apresentadas, a seguir, as lendas identificadas nos municípios de Mangaratiba.

Entre as várias definições de lendas encontramos a de que sejam histórias fantasiosas e sensacionalistas baseadas em fatos reais e transmitidas de forma oral que sempre acabam com o tempo sendo distorcidas. São contadas por pessoas e transmitidas através dos tempos. Caracterizam-se por misturar fatos reais e históricos com acontecimentos que são frutos da fantasia procurando dar explicação a acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais.

f.a) Lenda da Pedra do Banquete

Diz a lenda que, pai João, sentado na laje lisa, ao extenso da praia, olhava vagamente o mar imensamente verde e calmo e ruminava a ideia fixa que lhe assaltara, há muitos meses, e que lhe não deixavas sequer um momento de sossego.

Seu senhor embarcara na canoa de 18 pipas, de casco seguro e grande, capaz de levar ao porto da Corte aquele carregamento de aguardente.

Dessa feita, a "Flor dos Mares" iria, porém, só até ao Abraão, levar o "Sinnõ" e sua família, de volta ao Rio de Janeiro, e embarcar no "Marambaia" que ali fazia escala, vindo de Angra dos Reis.O feitor seguira também na embarcação, sabujo que sempre fora do fazendeiro e dos de sua grei.

Pai João acreditava que tinha chegado o momento. Olhava vagamente a Marambaia, cuja silhueta se esfumava no horizonte lá  longe, e lembrava a sua terra, a ardente Angola que Sinhozinho lhe ensinara que ficava muito além daquela ilha e restinga onde pontilhava como um régulo o Capitão Mata-Gente, homem temido cuja alcunha lhe assentava como uma luva... Ali sofriam e morriam, aos magotes, seus infelizes conterrâneos. se assinara a proibição do tráfico de escravos, mas, ainda assim, a negra mercadoria chegava à Marambaia em barcos de quais seriam então aprisionados pelas naves da esquadra inglesa, audaciosamente policiando as nossas águas territoriais.

E o seu pensamento voltava à sua terra natal, aos seus dias de infância descuidada, seu aprisionamento, seu embarque no cais de Luanda - onde o Bispo sentado na tradicional Cadeira de Pedra - abençoara o lote de escravos novos, seu embarque na caravela "Lusitana", a travessia atlântica de seis meses, onde trinta e cinco por cento de seus companheiros sucumbiram de frio e fome, sua chegada à Marambaia, sua venda em leilão em Mangaratiba, no trapiche do Morais e enfim, sua instalação na Fazenda do Sahy.

Aí encontra largo tempo de sossego. Casara-se com uma índia, também escrava, e desse enlace tivera cinco filhos. Agora possuía uma neta-moça-cafusa de 18 primaveras e sem maior enlevo. Maria! Que amor!

Há dois anos, porém, um feitor novo fora admitido na fazenda, que o antigo partira desta para melhor. Era "seu" Manoel, homem de mau gênio e de índole perversa. Por qualquer motivo e até sem motivo algum, os escravos sofriam os mais cruentos castigos. Muitos morreram no "tronco", aos golpes do "bacalhau". Dois de seus filhos tiveram esse destino. E agora "seu" Manoel não tirava os olhos de Maria e já lhe dissera que "assim que Sinhô viajasse ela iria morar com ele ... "

Era a afronta máxima! Às torturas físicas agüentara e como o mais velho dos 38 escravos da Fazenda do Sahy - sobre os quais sempre tivera ascendência absoluta - fizera os seus filhos e os seus tutelados suportá-las.

Mas, agora era demais! A revolta estava para estalar nas senzalas e não seria ele quem a iria sufocar.

De repente, pai João foi assaltado por aquele pensamento. Seria aquilo mesmo. Era o que merecia o feitor mau que sadicamente gozava as torturas de seus semelhantes.

E deu um assobio estridente. De imediato apresentou-se-lhe um negrinho ágil e forte. Pai João ordenou que o moleque fosse chamar à praia toda a população negra da fazenda. Quando todos estavam reunidos, pai João Ihes falou: - Meus filhos, seu Manoel não pode viver mais. Ele vai morrer! Vamos esperar, aqui na praia, a volta da "Flor dos Mares" e vamos executar pelos mesmos crimes e maldade que ele cometeu. Quero todo o mundo aqui e com roupa de festa.

Mais uma hora de espera e a canoa apontava na Ponta da Guaíba. Pai João acelerou os preparativos. Dentro em pouco a "Flor dos Mares" aportou. Dela saltou lépido seu Manoel, de chicote nas mãos, como sempre fora de seu uso. E ia gritar recriminando a reunião ali encontrada, quando dois pulsos fortes o agarraram pelos braços, forçando-o a sentar- se na pedra lisa, como num banco de réus, em cujo redor encontrava-se toda a escravaria. O homem estava lívido que compreendera o perigo em que se encontrava.
E pai João lhe falou:- Seu Manoel
- você vai morrer! Você matou muitos dos nossos, sempre sem motivo importante. Você violou nossas mulheres e roubou nossos haveres. Agora você pensa em furtar Maria, a minha neta querida, mas a sua hora chegou! 

Todos concordaram com gritos e aplausos. Seu Manoel caiu de joelhos no chão pedindo perdão. Foi-lhe aconselhado que orasse a Deus! E então, atada uma corda ao seu pescoço e, na extremidade da corda, foi presa uma grande pedra.

Embarcando novamente no "Flor dos Mares", a canoa volveu até onde a profundidade alcançava trinta braças, e aí seu Manoel foi jogado sem dó nem piedade.

Reunindo novamente seu povo, pai João ordenou que a adega da fazenda fosse arrombada e dela retirados vinhos e vitualhas que dariam para um batalhão. E todos seguiram para um grande penhasco perto da Casa Grande, e lá foram realizados os festejos comemorativos do feito. Muito foi bebido e comido do bom e do melhor. Depois se iniciou o batuque que se prolongou até alta madrugada.

Muito tarde, pai João descera à vargem e voltara com grandes rodilhas de fino e resistente cipó. E ao alvorecer, mandou, de novo, que a escravaria se reunisse. E foi amarrado, braço a braço, pulso a pulso, com cipó - homens, mulheres e crianças. E à frente de todos - pai João se encaminhou para o abismo de fauces hiantes e de mais de cem metros de profundidade. E sem um protesto e até cantando e dançando - todos os escravos a ele se atiraram num protesto mudo e viril! Ninguém escapou.

E a pedra que lá está, no Sahy, ficou conhecida como a "Pedra do Banquete" - esse último banquete macabro e que ainda faz doer a alma da gente, passados tantos anos, só em lembrar ... E desde então, sopra no Sahy um vento furioso, destruindo tudo, revolvendo suas areias e terras, formando dunas como se fossem túmulos sem mortos. Esse vento parece dizer uma oração pelas almas dos sacrificados. 

f.b) Lenda do trem de Ibicuí 

Há muito e muito tempo havia um casal muito apaixonado // Que vivia sempre muito agarrado// A menina resolveu se separar//E o menino não quis aceitar // Com raiva de seu grande amor, ele então louco ficou. //E para ela não namorar mais ninguém//Ele a amarrou na linha do trem ...//Pra se vingar de seu ex-amor//Ela até hoje causa terror//Assustando os moradores de Ibicuí e todos os que passam por ali. //Toda quinta feira//Ela vaga a noite inteira //Procurando aquele que a amarrou.

f.c) lenda da Cachoeira dos Escravos

Segundo a lenda, durante a construção da Estrada Imperial pelos escravos que trabalhavam arduamente, levavam chibatadas que os deixavam ensanguentados, mesmo após um dia de trabalho pesado.

Os escravos banhavam-se na cachoeira - e lavar o sangue de suas feridas, em um lugar que também era usado como parada de descanso, onde os escravos eram avaliados quanto ao vigor físico, e capacidade para continuar a caminhada. Os mais debilitados eram forçados a se jogar do paredão ou empurrados.

Até hoje, principalmente as pessoas mais antigas da localidade, dizem que ao passar pela cachoeira em noite de luar podem se escutar gemidos sofridos e arrastar de correntes na cachoeira. 

Pedra do Banquete - Sahy Linha do trem - Ibicuí Cachoeira dos Escravos Lenda Praia do Sino - Por alunos da Escola Pública

 

f.g) Lenda da Pedra do "Pouso Triste"

Na Estrada do Imperador, atual RJ 149, na subida para a Serra do Piloto existe uma grande pedra a sua margem chamada de Pedra do Pouso Triste. Diz a lenda que este nome surgiu devido a um triste episódio ocorrido com alguns viajantes que por ali passaram. Durante a subida da Serra, eles foram surpreendidos por um grande temporal, e assim, procuraram abrigo da chuva embaixo de uma toca de pedra na beira do caminho. A chuva era tão forfe que deslocou a pedra alguns metros e os infelizes viajantes morreram na hora, esmagados pelo peso da pedra. Dizem que até hoje os seus corpos estão enterrados sob a grande pedra do Pouso Triste. 

f.h) Lenda do Poço Encantado

Diz a lenda, que de tempos em tempos, uma sereia que mora nas águas da praia de Conceição de Jacareí se transforma em uma estrela e surge das águas. Ela sai do mar e desce numa cachoeira em Conceição de Jacareí onde há um grande poço.Quando chega a noite ela aparece sentada na beira do poço enfeitada de jóias e começa a cantar. O homem que a vê é enfeitiçado por seu canto e sua beleza e acaba morrendo afogado na correnteza da cachoeira, mas quando aparecem muitas pessoas ela some sem deixar vestígios.

f.i) Lenda do pé de Jambo

Conta-se que em noite de lua cheia, no dia de sexta-feira, aparece no pé de jambo da rua Fagundes Varela, em Mangaratiba, uma mulher vestida de branco. Há quem diga que já viu a tal senhora e quando tentou se aproximar ela desapareceu.

Comenta-se na cidade que certa noite chuvosa de uma sexta feira, um rapaz vinha da casa de sua namorada e ao chegar perto do pé de Jambo levou um susto ao sentir cair algo sobre seu guarda chuva; acometido pelo medo, pois conhecia a lenda, ele acreditou que o fantasma havia jogado areia nele e disparou em carreira pelas ruas da cidade. Mas para seu espanto ao chegar em casa e fechar o guarda chuva, no lugar de areia encontrou pétalas da mimosa flor de jambo.

f.i) Lenda do engenho do Batatal

Dizem alguns moradores da região do Batatal, em Mangaratiba, que trabalhadores de uma obra resolveram dormir num dos quartos da fazenda onde antigamente funcionava um engenho de fabricação de cachaça. Tarde da noite, ouviram passos e a porta do quarto se abrir. Todos sentiram um arrepio e ao olhar para a porta avistaram uma linda mulher vestida de branco, que se aproximou de um dos rapazes e abaixou para beijá-lo. Ele lembrou que a mãe dizia que se colocasse uma tesoura aberta embaixo do travesseiro as coisas que não eram deste mundo iam embora, e assim o fez. No dia seguinte os rapazes pegaram seus pertences e foram embora para nunca mais voltar. Muitos dizem que é lenda, mas ninguém duvida.

f.d) Lenda do homem da capa preta

Contam os moradores da pequena comunidade de Itacurubitiba que desde os mais antigos até hoje se vê um homem vestido com capa preta rondando as casas dos moradores. Desse homem, o rastro ninguém consegue ver, somente a sua sombra é vista. Os moradores ficam assustados só de falar e juram ter visto o homem assombroso. Dizem que ele vem durante o dia para comer o milho da galinha e roubar as roupas nos varais das lavadeiras. As moças falam assustadas que quando vão à cachoeira, o misterioso homem as seguem. Pelos caminhos da comunidade já não podem andar. O Homem da Capa Preta segue as moças sem parar. Os homens da comunidade, por sua vez, não podem fazer nada, pois todas as vezes que tentam pegá-lo, o homem some misteriosamente.

f.e) Lenda do vento Vieira

Versão 1

Entre agosto e setembro existe um vento forte que os pioneiros chamaram de Vieira, porque segundo a lenda, quando este morador de Muriqui, pouco antes de morrer pediu para ser enterrado nas belas montanhas, e quando morreu os amigos levaram o corpo dentro do caixão para enterrá-Io sem ser nas montanhas; quando iam colocá-lo na sepultura começou a ventar muito forte, e, os amigos com medo, deixaram o caixão e foram para suas casas. No dia seguinte, ao parar o vento, voltaram para acabar o enterro e lá chegando encontraram o caixão vazio.

A partir daquele dia todos acreditaram que o vento havia levado o corpo de "VIEIRA" para as montanhas e como não foi enterrado, volta todos os anos para visitar Muriqui, local que ele muito gostava. 

Versão 2

Conta a lenda que um corpo estava sendo velado quando, lá pela madrugada, veio uma ventania tão forte que derrubou o caixão de cima da mesa. O morto, que se chamava Vieira, rolou pelo chão. Duro que nem pedra pesava mais que vivo. Foi uma dificuldade para colocá-Io no caixão. A partir desse dia, apelidaram o vento de "Vieira".

Foto 272: Desenhos feitos por alunos da rede pública sobre a lenda

f.f) Lenda da Praia do Sino

Antigamente, muitos navios atracavam na Ilha de Marambaia para desembarcar escravos, pois a Ilha era uma grande Fazenda de engorda de escravos. O desembarque geralmente era feito em uma praia que hoje é conhecida como Praia do Sino. Os moradores da ilha contam que esta história surgiu porque os navios traziam um enorme sino para que todos ouvissem quando chegava carregamento de novos escravos.

Em frente à igreja existia uma grande plantação, onde trabalhavam os escravos mais velhos. Ao ouvirem o sino tocar os senhores pegavam suas canoas se dirigiam a esta praia para fazer transporte dos escravos recém-chegados. Dos escravos que chegavam muitos morriam nos navios e eram jogados no mar alguns encalhavam na Praia do Sino. Contam os mais velhos que a noite se ouve sinos tocar. Daí o nome de Praia do Sino.

Pedra do Pouso Triste Lenda do Poço Encantado Jambeiro da R. Fagundes Varella Engenho do Batatal

 

Categoria Modo de Fazer

a) Culinária

Uma das formas mais antigas de transmissão de cultura imaterial são as receitas dos quitutes tradicionais de inúmeras localidades. Num primeiro momento as pessoas entrevistadas não se dão conta de que são detentoras de um patrimônio tão especial quanto este - as receitas tradicionais do lugar - algumas passadas por gerações de uma mesma família. 

Os ingredientes e o modo de fazer são os elementos principais de pratos simples ou sofisticados, os quais têm suas receitas transmitidas, muitas das vezes "aos pés do fogão". O que transforma uma receita num item tradicional diz respeito ao que o culinarista traduz em sabor especial como o "seu segredo". Algo de seu que torna aquele quitute tão saboroso e inesquecível, levando aqueles que o provam a desejarem tanto consumi-lo que terminam por aprender a fazê-Io eternizando-o assim para o futuro. A região da pesquisa (Mangaratiba - Rio Claro -RJ) tem um "ar de roça" especialmente quando se fala de Rio Claro e da Serra do Piloto, e é justamente esta peculiaridade que torna os saberes e sabores da culinária locais tão especiais. Os ingredientes geralmente são colhidos no pomar, na horta, no galinheiro ou no curral das casas rurais. Utensílios rudimentares como pilões de madeira, tachos de cobre e colheres de pau são frequentemente utilizados junto aos fogões e fornos a lenha até os dias de hoje. Há quem diga que são estes os responsáveis pelo realce dos sabores, e provando desses quitutes não há como duvidar.

Para esta pesquisa em especial, nossa equipe percorreu o comércio local, feiras e casas de famílias tradicionais da região. E em conversa informal com membros das comunidades resgatou as receitas descritas a seguir através registro em fotos e preenchimento de fichas específicas.

a.a) Receita de Banana Chipe

Um dos produtos mais apreciados da região, facilmente encontrado nas feiras, é oriundo da receita de banana chipe, que pode ser doce ou salgada.

Identificou-se em Mangaratiba várias culinaristas que preparam esta receita, entre elas a senhora Rosa Francisca, moradora do Sahy, que prepara a receita ainda em fogão à lenha no seu sítio e comercializa seus produtos no mercado municipal e na feira de artesanato no centro de Mangaratiba.

Segundo D. Rosa o preparo da receita é bem simples, porém deve-se ficar atento aos detalhes.

Os ingredientes são: bananas d'água verdes, óleo de soja, sal, açúcar e canela.

Modo de preparo:

Cortar as bananas em rodelas bem finas utilizando um cortador de legumes ou faca afiada e coloque em recipiente com água fria para não escurecer;

Colocar o óleo em uma frigideira funda o suficiente para cobrir as fatias de banana.

Aquecer em temperatura alta o óleo deixando ficar bem quente. O ponto exato é obtido quando o óleo começa a formar ondulações na superfície;

Não colocar muitas fatias, pois a temperatura do óleo baixará muito; 

Quando as fatias de bananas ficarem bem bronzeadas, retire-as e coloque-as sobre um papel toalha;

Se for fazer a receita salgada polvilhe o sal, e se for a doce, deve-se colocar um pouco de canela em pó misturada com açúcar e polvilhar (ver foto 278). 

a.b) Receita de Banana Passa

Esta é mais uma receita preparada à base de banana identificada na região de Mangaratiba. As culinaristas utilizam bananas maduras, do tipo d'água ou prata. Trata-se de uma receita muito simples, como nos informou Eliane Francisco, uma das culinaristas que prepara esta receita e comercializa na feira de artesanato de Mangaratiba.

Modo de preparo

Primeiramente deve-se descascar as bananas bem maduras e raspá-Ias no sentido do comprimento com bastante delicadeza;

Depois deve-se colocá-Ias numa forma e levá-las ao forno elétrico durante 12 horas numa temperatura de 60 graus. Após este período esta pronta a receita.

a.c) Doce de banana

Bananada "Tita"

Histórico

Em Mangaratiba - a terra das bananas - existiu no século XIX uma fábrica de doces na fazenda Santa Justina de propriedade de Vitor de Souza Breves, um ex-prefeito municipal descendente do Comendador Breves. Lá era produzida a Bananada "Puríssima" apelidada carinhosamente de "Tita" em homenagem à esposa do dono da fábrica.

A princípio, a receita era preparada em tachos de bronze pelos colonos e funcionários da fazenda Santa Justina e sua modesta produção atendia apenas à demanda local. Porém, com o passar dos anos o produto cruzou fronteiras sendo exportada até para a Inglaterra.

Devido à crescente produção, Victor Breves se viu obrigado ampliar a fábrica com maquinários e a oficializar sua indústria em 1956 como "Indústria de Doces Santa Justina Ltda.". Esta indústria funcionou oficialmente na Fazenda Santa Justina até o ano de 1965 quando foi desativada e a patente da bananada Tita vendida para uma fábrica de doces em Piranema, distrito de Itaguaí.

Atualmente alguns produtores de doces locais dizem utilizar esta receita no fabrico de seus doces, porém os mais antigos consumidores da "Tita" dizem não ser tão parecida com a original. Nossa equipe conseguiu descobrir a receita original que nos foi cedida pelo Sr. Manoel Procópio Firmino, antigo funcionário da fábrica.

Ingredientes

1 cacho de banana nanica bem madura e 1 kg de açúcar.

Modo de fazer

Primeiramente as bananas devem ser descascadas e moídas. Depois as bananas são colocadas em um tacho de ferro, ou em uma panela baixa e larga, e cozidas em fogo a temperatura baixa. Deve-se mexer a massa de vez em quando, enquanto estiver soltando água. Quando começar a dourar deve-se mexer sempre para não grudar no fundo da panela e não queimar, usando sempre fogo baixo.Assim que a banana ficar completamente enegrecida, comece a colocar o açúcar aos poucos e continue mexendo. Quando estiver no ponto de corte, coloque manteiga em um tabuleiro e despeje a massa da bananada. Deixe esfriar por completo, corte os quadrados e enrole em papel celofane. (ver foto 280)

*Observação: A banana nanica é a mais indicada por possuir maior quantidade de água, evitando que o doce se queime antes do tempo exigido para o seu preparo. 

a.d) Peixe com banana

Histórico

Esta receita tipicamente caiçara é uma das mais badaladas na região de Mangaratiba. Entretanto não a encontramos no cardápio de nenhum restaurante pesquisado por nossa equipe. A justificativa para a ausência é que, essa mistura única em sua especificidade, vem sendo passada por gerações de famílias da região da Costa Verde, tornando-se bastante fácil de fazer, não sendo portanto "nada especial" para se por num cardápio de restaurante.

Os ingredientes principais de sua "fórmula" estão por todo o lado nesta cidade litorânea que foi desde sempre uma grande produtora de banana - Bananeiras na Serra. A Senhora Cecilia Raimundo nasceu na Ilha Grande e veio para Mangaratiba ainda jovem. Ela não é especialista em culinária e mesmo assim nos ensinou e preparou esta receita que registramos em fotos e fichas específicas. Dona Cecília conta que aprendeu esta receita com sua mãe há mais de 40 anos e sua mãe aprendeu com sua avó.

Ingredientes

  • Peixe bom para ensopar (dourado, corvina, garoupa etc.)
  • Banana d'água ou nanica (verdolenga ou de vez);
  • Azeite de oliva;
  • Temperos: alho, limão, cebola, cebolinha, tomate, pimentão, salsa, coentro.

Modo de fazer:

Primeiramente se limpa o peixe e corta-se em postas, depois se deve temperar com sal e limão. Descascar as bananas sob a água e reservá-las em água para não escurecer. Numa panela, dourar o alho com azeite e acrescentar todos os temperos aos poucos, deixando aferventar com um pouco de água. Quando o molho já estiver fervido colocam-se os pedaços do peixe. Quando começar levantar nova fervura, acrescente as bananas. Deixe cozinhar por mais alguns minutos e desligue o fogo.

Banana chipe Banana passa antiga embalagem bananada D. Cecília - Peixe com banana

 

a.e) Cocada de Muriqui

Histórico

Segundo a história oral, a receita da Cocada de Muriqui começou a ser feita pelo Senhor Walter Drumond, no ano de 1980. Inicialmente era vendida pelas ruas de Muriqui num carro de passeio antigo conhecido como "Vemaguete". Assim que começou a ser produzida já caiu no agrado da população e visitantes de Muriqui. A cocada também era comercializada em tabuleiros colocados sobre cavaletes e dentro de vitrines de madeira bem artesanal em pontos estratégicos do distrito. Por volta de 1995, o Senhor Walter foi embora de Muriqui e seu ex-empregado Jorge Conrado continuou a produzir esta receita e a vender esta cocada, principalmente à margem da Rodovia Rio-Santos.

Devido ao sabor da cocada e ao movimento intenso desta rodovia em finais de semana, a "Cocada de Muriqui" começou a ficar famosa e passou a ser fabricada com a mesma receita e vendida em vários lugares do Rio de Janeiro, sempre mantendo o mesmo nome. 

Atualmente, esta cocada representa uma fonte de renda importante para dezenas de famílias locais que as comercializam em barraquinhas à margem da rodovia Rio-Santos e pelas ruas de Muriqui.

Receita da Cocada de Muriqui (cedida por Jorge Conrado)

Ingredientes

  • Coco (ralado)
  • Leite condensado
  • Açúcar

Modo de fazer

Cocada branca

O primeiro passo é ralar o coco fresco e cozinhar com açúcar. Após alguns minutos acrescenta-se o leite condensado, mexendo sempre para não grudar até chegar ao ponto de consistência. Para fazer as cocadas com sabores, são adicionados sucos e pedaços de frutas durante o preparo.

Cocada preta

Para esta receita o culinarista aproveita as sobras (não vendidas) das cocadas e as cozinha novamente acrescentando um pouco de coco fresco até ficar escura.

Cocada de Muriqui Cocada na Rodovia Ingredientes da cocada

 

Celebrações

Esta categoria de patrimônio imaterial está representada nesta pesquisa sobretudo pelas festas das Igrejas Católicas. Porém, encontros para celebrar os aniversários das cidades e eventos voltados para a promoção de encontros culturais nos distritos mais distantes da sede também estão registrados. É importante destacar que estão salientados apenas os itens mais significativos para a população pesquisada, pois ainda existem diversas outras celebrações menos tradicionais, ou de menor vulto que acontecem atualmente por toda a área da pesquisa.

a) Festa de Nossa Senhora da Guia

A tradicional Festa de Nossa Senhora da Guia acontece em Mangaratiba no primeiro distrito entre os dias 7 e 11 de setembro. O evento é realizado na Praça Sebastião Queiroz, no centro da cidade. Tem em sua programação, a partir do dia 7, as missas tradicionais, o tradicional almoço comunitário e a procissão marítima saindo da igreja matriz. No dia 8, dia da padroeira, a alvorada festiva abre as comemorações às 5h, as missas acontecem às 10h e 18h e às 21h a paróquia realiza um leilão. À meia noite acontece a tradicional queima de fogos em homenagem à santa animando toda a comunidade. Complementando a celebração acontecem shows para todos os públicos, além de barracas de comidas e bebidas típicas. A realização e a organização são da Prefeitura de Mangaratiba e da Paróquia de Nossa Senhora da Guia.

b) Celebração a São João Marcos

Carismático Evangelista de Cristo, judeu de uma tribo de Levi, inicialmente João depois tomou um nome romano, criador do gênero literário Evangelho como autor, o segundo dos evangelhos sinóticos e considerado fundador da igreja do Egito e da cidade italiana de Veneza. A principal fonte de informações sobre sua vida está no livro Atos dos Apóstolos. Filho de Maria de Jerusalém e primo de Barnabé, não pertenceu ao grupo dos doze apóstolos originais. Foi convertido à fé cristã depois da morte de Jesus e batizado pelo próprio Pedro, que costumava frequentar a casa de seus pais, juntamente com Maria mãe de Jesus e outros cristãos primitivos.

No distrito da Serra do Piloto em Mangaratiba residem muitas pessoas oriundas ou descendentes de moradores da antiga cidade de São João Marcos, destruída em 1939. Esta tinha como padroeiro o Santo que lhe deu o nome, e a antiga imagem da igreja - que foi demolida -, veio para a Serra do Piloto trazida por moradores. No alto da Serra, na localidade denominada Bela Vista, foi construída uma nova igreja para homenagear o Santo. A tradição das celebrações também perdurou por anos. Na comunidade estas acontecem no dia 27 de setembro na Bela Vista, porém já foram celebradas na igreja da comunidade do Rubião, ambas localizadas na Serra do Piloto. Esta data lembra a destruição da cidade de São João Marcos, porém a celebração ao Santo já aconteceu na data oficial do calendário católico no mês de março em outras ocasiões.

Anteriormente, além das missas, aconteciam procissão e quermesses que movimentavam o pequeno lugarejo no alto da Serra. Atualmente a festa não possui o mesmo brilho, mas as missas em homenagem ao Santo continuam a acontecer.

c) Celebração a Nossa Senhora de Aparecida

A celebração a Nossa Senhora Aparecida aconteceu por muitos anos no Bairro Bela Vista na Serra do Piloto, na igreja dedicada a São João Marcos. Porém, atualmente, a data comemorativa não recebe mais festejos organizados pela paróquia. Segundo informações houve um desentendimento entre os administradores antigos da igreja e os atuais.

N. Sra. da Guia São João Marcos N. Sra. Aparecida

 d) Festa de Nossa Senhora das Graças

Muriqui é um dos maiores distritos em população do município de Mangaratiba. Apesar de ser considerado um balneário existem muitos moradores fixos e estes participam das atividades cotidianas com bastante frequência. 

Uma das celebrações identificadas na região foi a festa em homenagem a Nossa Senhora das Graças, padroeira de Muriqui, que acontece no distrito há mais de 66 anos no dia 27 de novembro. Como as demais celebrações católicas locais, tem em sua programação as tradicionais missas e a procissão pelas ruas do bairro. A organização é da paróquia local. 

e) Celebração a Nossa Senhora da Conceição

No distrito de Conceição de Jacareí, localizado na divisa com Angra dos Reis acontece a tradicional celebração a Nossa Senhora da Conceição. Esta celebração é realizada no dia 08 de dezembro, uma tradição de mais 124 anos na pequena capela localizada na praia de Conceição do Jacareí.

Missas e procissão fazem parte da programação que conta ainda com alvorada e barracas de comidas nas laterais da igreja. No ano de 2011 a missa foi realizada pelo padre Camilo e teve participação de membros do centro de cultura afro-brasileiro numa demonstração de respeito à diversidade cultural da comunidade.

f) Festa de Nossa Senhora de Santana

O Distrito de Itacuruçá possui uma das mais antigas igrejas da região. Esta foi erigida em homenagem à Senhora Santana no ano de 1840, logo após a construção do Cruzeiro de pedra localizado a sua frente pelos índios tupiniquins, local onde hoje está a praça principal do distrito. Esta celebração acontece em Itacuruçá no dia 26 de junho, tendo em sua programação as missas, a procissão e a quermesse no entorno da praça. A organização da celebração está a cargo da paróquia local.

Igreja N. Sra. das Graças N. Sra. da Conceição N. Sra. de Santana

 g) Celebração a Oxum

Famosa por suas cachoeiras, Conceição de Jacareí atrai muitos seguidores do culto africano aos Orixás. Em pesquisa local, a equipe do IAB identificou e registrou a celebração em homenagem ao orixá Oxum, do Candomblé nagô, no sincretismo religioso brasileiro representado por Nossa Senhora da Conceição. Esta celebração é realizada há três anos pelo Centro de Cultura Afro Brasileiro de Conceição de Jacareí concebido há mais de 20 anos pelo babalorixá Pai Nelson Juçunã. Nesta ocasião acontece a procissão pelas ruas do distrito, o culto em frente à capela de Nossa Senhora da Conceição com a participação do padre da paróquia e ainda a entrega do arco de oferendas na praia em frente à igreja.

Esta celebração é prestigiada por pessoas oriundas de vários lugares que vêm especialmente para a ocasião. Como tem o apoio e participação da Igreja Católica esta celebração torna-se ecumênica reunindo fiéis de várias religiões, algo bastante incomum nas redondezas.

Um dos momentos mais marcantes da celebração é quando o padre e o babalorixá entram juntos na igreja para saudar a Virgem da Conceição. Diante da imagem, cada um faz sua reverência e depois discursam sobre a irmandade entre os povos.

Em 2012 a participação do coral afro brasileiro formado por membros do Centro de Cultura Afro Brasileiro de Conceição de Jacareí cantou músicas católicas e cânticos mitológicos do candomblé na mais perfeita harmonia.

Celebração a Oxum Celebração a Oxum Celebração a Oxum

 h) Festa de São Pedro

A celebração a São Pedro acontece no dia 29 de julho no Distrito de Itacuruçá, na divisa com o município de Itaguaí. Como parte da programação são realizadas as missas e a procissão de barcos pela baía. Neste distrito existe uma das mais antigas colônias de pescadores, a Z11 e a participação destes é frequente durante a celebração. Além dos moradores muitos turistas prestigiam a festa.

i) Festa do peão de Mangaratiba/Aniversário da Cidade

Esta festa acontece no mês de setembro durante cinco dias e comemora o aniversário da cidade. Trata-se de um dos maiores eventos regionais. Em 2012 foi a sua 23° edição. Realizada no parque de exposições de Mangaratiba localizado na estrada de acesso a Serra do Piloto, ou seja, a RJ-149, a Estrada Imperial. Nesta festa acontecem exposições de produtores locais, mostras culturais, rodeios e shows para o público em geral com artistas locais e nacionais com acesso gratuito.

Festa do peão boiadeiro Festa do peão boiadeiro

 

Município de Rio Claro

Em continuidade às atividades de pesquisa do projeto de Levantamento do Patrimônio Imaterial da área indiretamente impactada pela Rodovia RJ 149, a equipe seguiu para o município de Rio Claro. Em visita à Casa de Cultura, localizada em frente à praça principal, a equipe entrevistou o Sr. Ronaldo Lupi, Secretário Municipal de Cultura. Nesta oportunidade, ele relatou os principais itens de nossa pesquisa.

O município tem várias festividades no calendário anual, sendo a mais importante a festa de aniversário do município, atualmente associada à festa do peão boiadeiro, prática comum nas cidades da região para atrair o público, através de atrações musicais de sucesso no momento.

As celebrações aos Santos católicos acontecem por todos os distritos, com as tradicionais quermesses e procissões.

Não foram identificadas formas de expressões de grande vulto praticadas atualmente como: danças, lendas e artes. Foi identificado um grupo de contação de histórias em forma de dramatização, porém muito incipiente, iniciado por idealização do atual secretário de cultura; e a existência de uma Folia de Reis no distrito de Lídice.

No artesanato também não há itens tradicionais ou expressivos que possam ser alvo de pesquisa. Foi identificada a atividade de pintura em tecido, realizada pelo Grupo da Terceira Idade, exposta na Casa de Cultura.

Na culinária foram identificadas receitas de doces, porém pratos salgados não tiveram expressividade. A culinária local é comum na região, geralmente a base de feijão, arroz, carne e frango.

A pesquisa prosseguiu junto à Secretaria de Turismo e Eventos, onde a senhora Márcia Cardoso, assessora, forneceu dados a respeito das festas que acontecem na cidade.

 

Distrito de Rio Claro Praça Central -Rio Claro Casa de Cultura - Rio Claro

 

Como resultado, esta pesquisa obteve os seguintes itens:

Celebrações

  • Festa em homenagem a Nossa Senhora da Piedade (padroeira) - acontece no mês de setembro no Primeiro Distrito, Rio Claro;
  • Celebração a Santo Antônio - acontece no distrito de Lídice no mês de junho;
  • Festa do aniversário da cidade e festa do peão - realizada em maio;
  • Semana do Varella - esta comemoração em homenagem ao mais ilustre filho do município, o escritor Fagundes Varella, o homenageia com apresentações de Teatro e orquestra na Casa de Cultura;
  • Festa da União - acontece no distrito de Passa Três;
  • Festival sertanejo - acontece no distrito do Macundu, no mês de novembro.

Culinária

  • Receita de doce de leite caseiro
  • Receita de doce de abóbora caseiro
Grupo de Contação de histórias I. de N. Sra. da Piedade I. de Santo Antônio

 

A partir desta listagem selecionou-se categorias de patrimônio imaterial para aprofundamento da pesquisa, assim, segue abaixo a pesquisa dividida por categorias.

Categoria Lugares Históricos

Uma das primeiras ações executadas consistiu no registro fotográfico e no levantamento histórico dos lugares anteriormente identificados como importantes historicamente pelos moradores da região.

Estes itens entrarão nesta pesquisa em categoria especialmente criada com esta finalidade - "Lugares Históricos" e não com o conceito utilizado pelo INRC do IPHAN denominada Lugares, definidos por este órgão como locais de práticas culturais.

Tal escolha baseia-se no fato de que os locais apresentados a seguir não se enquadram nesta categoria, mas integram a memória coletiva, sendo considerados "lugares de memória".

a) Fazenda da Grama

Dentre as várias fazendas que pertenceram a Joaquim José de Souza Breves, era a Fazenda da Grama, a sua preferida e seu domicílio. Conhecida como a Capital do seu 'império': "O Reino da Marambaia".

Segundo Agripino Grieco, era um enorme solar cercado de jardins, terreiros de café e trilhas. Ainda conforme Grieco, o prédio em estilo colonial, era uma antologia viva de gosto arquitetônico e estatuetas, azulejos, trabalhos em talhas; móveis raros competiam com os relevos da cantaria da fachada. Com pomares fartos e jardins magníficos, o prédio era composto de vastos salões, aposentos e varandas. As professoras que educavam as sinhazinhas eram francesas que vinham de Paris.

Assim foi a Fazenda da Grama. A sede principal da administração de inúmeras outras fazendas. Foi um centro de atividade até 1889, ano de falecimento de seu proprietário. No entanto, o que resta hoje em dia é uma fração reduzida do solar, equivalente a uma de suas alas.

Foi ainda seu proprietário, Joaquim José de Souza Breves, Guarda de Honra do Príncipe D. Pedro I na viagem a São Paulo e esteve no Ipiranga, presenciando, assim, a Independência do Brasil. 

b) Fazenda de Santo Antônio da Olaria

Localizada próximo ao Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos.

Na época da seca, quando a represa está em baixa, é possível visitar as ruínas da fazenda que ainda guarda alguns vestígios do seu luxo arquitetõnico. A Fazenda Olaria era cópia do Palácio de Podestá de Bréscia. Foi construída por um arquiteto vindo da Itália. Os salões eram todos de teto estucado, saguão trabalhado em mármore de Carrara, assoalho de madeira e ampla escadaria. Nesta fazenda hospedou-se D. Pedro I em 1822, no segundo dia de viagem do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, na qual culminaria com o "Grito do Ipiranga". 

c) Igreja São Joaquim da Grama

Também construída por Joaquim José de Souza Breves, em 1886. Está localizada num outeiro, a mais ou menos 1 km da sede da fazenda da Grama. A igreja foi construída em virtude das crenças religiosas e para servir de jazigo da família. (ver foto 311) O templo é uma ampla e sólida construção de alvenaria com duas altas torres, coro, nave e sacristias. O altar mar é consagrado ao padroeiro, São Joaquim. Nas paredes da nave principal encontram-se as catacumbas.

O Comendador Breves e sua esposa foram sepultados na Capela da fazenda. Mas em 1962 foram transladados para o Cemitério de Barra do Piraí. Embora o comendador Breves tenha incluído a Igreja no seu testamento, infelizmente esta se encontra em ruínas, esperando seu fim, levando junto testemunhos de uma era do apogeu, não só do município de São João Marcos, como do Vale do Paraíba.

d) São João Marcos

São João Marcos foi fundada em 1737 e teve seu auge no ciclo do café. Em 1939, dois anos após completar 200 anos, São João Marcos foi tombada pelo antigo SPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). As construções da cidade eram em estilo colonial, todas feitas de pedra, desde o prédio da prefeitura até a igreja matriz.

Pouco depois, entretanto, o governo Getúlio Vargas, na época com poderes ditatoriais, decidiu 'destombá-la', para facilitar os planos da Light de expansão do Ribeirão das Lages. As terras foram desapropriadas. Dois anos depois, a cidade já não existia mais.

Os antigos moradores da cidade foram obrigados a procurar novos locais para moradias e seguiram para a atual Rio Claro, Mangaratiba entre outros municípios vizinhos. Muito se fala da cultura deste lugar, de suas celebrações, suas festas e a cultura das artes com o funcionamento do teatro Tibiriçá.

Hoje deste lugar de memória restam apenas lembranças dos antigos moradores e as ruínas transformadas em Parque Arqueológico e Ambiental pelo Instituto Light. 

e) Casa de Cultura de Rio Claro

Através da Lei provincial nº 481 de 19/05/1849, Rio claro adquiriu o status de Vila. De acordo com esta Lei, a instalação de vila só ocorreria quando fosse construída a Casa da Câmara. E assim foi construído o prédio que sediava a câmara em 1850. Tempos depois funcionou a Prefeitura, a Biblioteca e atualmente abriga a Casa da Cultura, com o propósito de uma usina de atividades artísticas culturais, como oficinas, exposições, palestras, saraus e demais atividades culturais. Assim este lugar que além de ser importante historicamente é utilizado para disseminação da cultura local. 

Faz. da Grama - um dos prédios Antiga Faz. S. A. da Olaria Ig. S. Joaquim da Grama Antigo C. Urb. de S.J. Marcos

 

Categoria Formas de expressão

a) Lendas

As manifestações literárias, cênicas, plásticas e lúdicas, englobando as lendas regionais fazem parte dessa categoria. Assim, serão apresentadas, as lendas identificadas nos municípios de Rio Claro.

Entre as várias definições de lendas encontramos a de que sejam histórias fantasiosas e sensacionalistas baseadas em fatos reais e transmitidas de forma oral que sempre acabam com o tempo sendo distorcidas. São contadas por pessoas e transmitidas através dos tempos. Caracterizam-se por misturar fatos reais e históricos com acontecimentos que são frutos da fantasia procurando dar explicação a acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais.

a.a) Lenda das Alminhas

Dizem alguns moradores da Serra do Piloto que num lugarejo chamado Bela Vista morriam muitas crianças. Dizem que neste local existe até hoje um antigo cemitério onde eram enterradas as crianças. Este lugar ficou conhecido como Alminhas por causa dessas misteriosas mortes. Diz a lenda que durante a noite os viajantes que por ali passam escutam choro de criança vindo da escuridão.

Categoria Modo de Fazer

a) Culinária

Como já citado anteriormente, a culinária é uma das formas mais antigas de transmissão de cultura imaterial; são as receitas dos quitutes tradicionais de inúmeras localidades. Num primeiro momento as pessoas entrevistadas não se dão conta de que são detentoras de um patrimônio tão especial quanto este - as receitas tradicionais do lugar - algumas passadas por gerações de uma mesma família.

Os ingredientes e o modo de fazer são os elementos principais de pratos simples ou sofisticados, os quais têm suas receitas transmitidas, muitas das vezes "aos pés do fogão". O que transforma uma receita num item tradicional diz respeito ao que o culinarista traduz em sabor especial como o "seu segredo". Algo de seu que torna aquele quitute tão saboroso e inesquecível, levando aqueles que o provam a desejarem tanto consumi-lo que terminam por aprender a fazê-to eternizando-o assim para o futuro.

A região da pesquisa (Mangaratiba - Rio Claro -RJ) tem um "ar de roça" especialmente quando se fala de Rio Claro e da Serra do Piloto, e é justamente esta peculiaridade que torna os saberes e sabores da culinária locais tão especiais. Os ingredientes geralmente são colhidos no pomar, na horta, no galinheiro ou no curral das casas rurais. Utensílios rudimentares como pilões de madeira, tachos de cobre e colheres de pau são frequentemente utilizados junto aos fogões e fornos a lenha até os dias de hoje. Há quem diga que são estes os responsáveis pelo realce dos sabores, e provando desses quitutes não há como duvidar.

Para esta pesquisa em especial, nossa equipe percorreu o comércio local, feiras e casas de famílias tradicionais da região. E em conversa informal com membros das comunidades, resgatou as receitas descritas a seguir através registro em fotos e preenchimento de fichas específicas.

a.a) Goiabada cascão

Histórico

Há mais de 30 anos Maria Helia Ferreira Alves, conhecida como Dona Leninha, prepara este doce a partir de uma antiga receita de família que já se tornou tradicional na região. Os turistas que chegam à cidade e ficam sabendo da goiabada, a procuram para saborear e levar consigo peças inteiras. Atualmente toda sua família está envolvida com esse trabalho. O genro, a filha e os netos colhem a fruta e a ajudam na preparação. Este doce é consumido em grande quantidade na cidade de Rio Claro, principalmente na Semana Santa.

Ingredientes

Goiaba, água e açúcar

Modo de fazer

A goiaba é lavada, cortada e suas sementes são retiradas. Logo após este processo é colocada no tacho para cozinhar com um pouco de água até ficar com uma consistência totalmente pastosa. A partir deste ponto acrescenta-se o açúcar e deve-se mexer. O ponto para retirar é de acordo com o tipo de doce a fazer, mais mole ou mais consistente, alguns culinaristas acertam o ponto de um modo bem rudimentar, ou seja, levando uma prova do doce ao contato com a pele do braço, e se não grudar é porque chegou ao ponto. Depois de pronta a goiabada é colocada em formas e posteriormente (quando fria) desenformada e embalada em filme plástico. Com as sementes da goiaba a culinarista prepara uma geleia utilizando o mesmo procedimento do doce. 

a.b) Paçoca de amendoim feita no Pilão

Histórico

Em Rio Claro - RJ uma das receitas mais apreciadas durante a Semana Santa é a paçoca de amendoim. Geralmente é servida como sobremesa acompanhando outros doces como a goiabada, doce de banana, ou pura. Também é comum servi-la acompanhando o café. No Distrito de Passa Três, em Rio Claro, a equipe identificou entre outras a culinarista Juracy Silva que prepara a paçoca para servir em casa e também comercializar. Bastante procurado pela vizinhança e por pessoas de outras localidades este doce se tornou conhecido em vários pontos do município de Rio Claro, tais como os de Lídice, (onde também se faz esta receita) e de Rio Claro e na RJ-149 nas proximidades de São João Marcos onde também é fabricada em pilão de madeira.

Ingredientes

Amendoim, açúcar, sal e farinha de mandioca

Modo de fazer

Primeiramente deve-se torrar o amendoim e limpá-Io para tirar toda a casca. Depois o amendoim é triturado no pilão ou no processador para formar a massa. Logo depois se junta a massa do amendoim, a farinha e o açúcar, levando-os ao pilão. Esta mistura deve ser socada no pilão até ficar bem homogênea. Para acertar o sabor coloca-se uma pitada de sal para quebrar o doce. Em algumas receitas a farinha de mandioca é substituída pelo fubá de milho. (ver foto 318)

a.c) Queijo minas da roça

Histórico

Nas proximidades de Rio Claro, na margem da estrada RJ-149 observa-se uma placa com informação de venda de queijo. Ao parar no local a equipe do IAB localizou o produtor rural Senhor João Batista Fontes que produz queijo a mais de oito anos no local, quando aprendeu a fazê-lo com o antigo proprietário da fazenda local e sua esposa. Em conversa com nossa equipe ele mostrou como fazer o "queijo minas" de um modo artesanal, comum na região da Costa Verde. O modo de fazer queijo minas já foi registrado pelo IPHAN na região da Serra da Canastra e do Serro em Minas Gerais, mas esta receita também é comum na região Serrana Fluminense e interior do Estado do Rio de Janeiro. Em cada lugar existe um pequeno diferencial no modo do preparo que torna os sabores diferentes e inconfundíveis. No caso desta receita o diferencial fica por conta da colocação em geladeira após o preparo para a cura e não em prateleiras ou sobre o fogão a lenha como em outras regiões.

Ingredientes

Leite de vaca fresco, sal fino e coalho (produto a base de uma enzima retirada do estômago de ruminantes). 

Modo de preparo

O leite é retirado das vacas ainda de madrugada e colocado num recipiente onde é adicionado o coalho (para acelerar a fermentação). Para cada 50 litros de leite são usadas duas tampinhas de coalho (equivalente a duas colheres de sopa) mexe-se com colher de madeira e deixa-se descansar por uma hora para pegar consistência.

Depois desse tempo a massa já consistente é mexida deixando-se por mais 30 minutos até a massa abaixar e o soro ficar na superfície.

Depois que todo o soro é retirado é acrescentado sal fino à massa e, esta, colocada em formas de plástico com pequenos furos para facilitar a saída do soro restante por duas horas. Depois deste tempo o queijo é virado e deixado por mais duas horas no local.

Após esse processo o queijo é desenformado, colocado em bandejas e levado à geladeira. Doze horas depois já está pronto e é embalado em sacos plásticos, continuando na geladeira até o consumo.

Segundo o senhor João o sal é colocado de acordo com o gosto, podendo o queijo ficar mais salgado ou com pouco sal. 

a.d) Feijoada tradicional

Histórico:

A feijoada é uma das receitas mais brasileiras, atualmente conhecida no mundo todo através dos turistas que visitam o Brasil. Difere das receitas de Portugal que utilizam outros ingredientes e tipos de feijão. Tem sua origem popularmente referenciada ao período da escravatura, onde era feita pelas escravas com o aproveitamento das sobras da carne suína que era servida aos senhores acrescida de feijão preto. No entanto, alguns historiadores afirmam que os escravos consumiam nas senzalas era apenas o feijão com farinha e que os salgados de porco já eram, na época, consumidos na Europa pelos mais abastados. Podemos verificar esta assertiva nos dizeres de Câmara Cascudo quando diz: "O feijão com carne, água e sal é apenas feijão. Feijão ralo de pobre. Feijão todo-dia. Há distância entre a feijoada e feijão. Aquela subentende o cortejo das carnes, legumes, hortaliças."

Essa combinação só ocorre no século XIX longe das senzalas. O que se sabe de concreto é que as referências mais antigas à feijoada não têm nenhuma relação com escravos ou senzalas, mas sim a restaurantes frequentados pela elite escravocrata urbana.

Com o passar do tempo este prato foi recebendo novos ingredientes e se tornando mais sofisticado ao ponto de ser servido de bares simples a famosos restaurantes. Porém há quem diga que a melhor feijoada contém os ingredientes originais, como orelha e pé de porco.

Em Rio Claro, na comunidade de Rio das Pedras, em um antigo quilombo, esta receita tradicional foi registrada, onde é preparada, entre outras, pela Senhora Terezinha Leite para celebrar os encontros familiares.

Ingredientes

Feijão preto, carne seca, lingüiça, toucinho defumado, pé e orelha de porco, toucinho de barriga, costela de porco, lingüiça calabresa, alho, sal, cebola e óleo.

Modo de fazer 

Inicia-se o preparo da receita colocando os salgados de molho durante um dia e meio, depois se lava com água quente.

Cozinha-se primeiramente o pé e a orelha de porco em uma panela a parte. Depois que o pé e a orelha estiverem quase cozidos, acrescenta-se a costela e cozinham-se mais um pouco.

Em outra panela, cozinha-se o feijão.

o restante dos salgados deve ser frito e retirado o excesso de gordura. Quando o feijão estiver quase cozido, se junta a este o restante dos salgados que foram fritos e o pé, a orelha a costela.

Finalmente acrescentam-se os temperos refogados e deixa-se acabar de cozinhar. (ver foto 321

Goiabada Paçoca de amendoim Queijo minas Feijoada tradicional

 

Categoria Celebrações

Esta categoria de patrimônio imaterial está representada nesta pesquisa, sobretudo, pelas festas das Igrejas Católicas. Porém, encontros para celebrar os aniversários das cidades e eventos voltados para a promoção de encontros culturais nos distritos mais distantes da sede também estão registrados. É importante destacar que foram salientados aqui apenas os itens mais significativos para a população pesquisada, pois ainda existem diversas outras celebrações menos tradicionais, ou de menor vulto que acontecem atualmente por toda a área da pesquisa.

a) Festa da Paz em Lídice

A Festa da Paz, como é conhecida, é realizada em Lídice, distrito de Rio Claro, no início do mês de junho. O nome deste distrito está relacionado à tragédia ocorrida na Tchecoslováquia, durante a 2a Guerra Mundial, em junho de 1942, onde a aldeia de Lídice foi totalmente destruída pelas tropas nazistas. Este acontecimento gerou a Campanha Lídice Renascerá, onde os países da aliança contra o Reich dariam o nome da cidade sacrificada a uma rua, praça ou cidade, em seus países. No Brasil o lugar escolhido foi um dos distritos de Rio Claro/RJ, que anteriormente se chamava Parado.

A Festa da Paz de 2012 foi sua XXI edição. Aconteceu na Praça Padre Ezequiel, no Centro de Lídice, com apresentações musicais de grupos de renome nacional e regional, além de apresentação de fanfarras escolares e Banda Juvenil das escolas públicas, grupos de dança e capoeira e gincana cultural. Esta festividade conta sempre com a participação de representantes da República Theca durante sua realização. 

b) Festa da União em Passa Três

A Festa da União surgiu em 1996, durante uma Festa Julina organizada pelos jovens da comunidade. Após esta, tiveram a ideia de criar uma festa anual com o intuito de movimentar o pequeno distrito, uma vez que Lídice tinha a Festa da Paz e Rio Claro a Festa do Peão Boiadeiro. Normalmente é realizada no mês de setembro, em clima de animação, tranqüilidade e harmonia. Conta com parque de diversões, barracas com comidas e bebidas típicas e apresentação de grupos com músicos regionais.

Com o passar do tempo mais moradores aderiram à ideia, se reuniram e a batizaram de Festa da União. Anteriormente entre os anos de 1996 e 1999 nesta aconteciam jogos e gincanas interdistritais. No ano de 2000, foi realizada pela Associação de Moradores e Amigos de Passa Três e desde 2001 vem sendo organizada pela Prefeitura municipal de Rio Claro e atualmente faz parte do calendário de eventos do município.

c) Festival Sertanejo no Macundu

Macundu é um dos distritos de Rio Claro e está localizado nas proximidades da Serra do Piloto. Com poucas casas no seu núcleo urbano apresenta um clima bucólico e acolhedor. O nome dado ao distrito refere-se, segundo historiadores e moradores locais, à língua falada pelos seus primeiros habitantes africanos. O Festival Sertanejo teve início no ano de 2009 visando fortalecer as características rurais do município e fomentar o turismo pela região rural. Em sua programação conta com apresentação de sanfoneiros, banda de forró e grupos sertanejos da região. É realizado no mês de agosto, no núcleo urbano do distrito de Macundu. Durante o festival, além dos shows, a comunidade conta ainda com barracas de comidas típicas da roça e brinquedos para as crianças.

Festa da Paz Festa da União Festival Sertanejo no Macundu

 

e) Exposição Agropecuária e Festa do Peão Boiadeiro de Rio Claro

Com a primeira realização em 1985, o festejo foi criado para proporcionar momentos de lazer e negócios aos moradores de Rio Claro e adjacências. Hoje o evento ocorre anualmente, próximo à data de aniversário da cidade, em 19 de maio. As festividades têm em sua abertura o desfile cívico municipal. Este conta com diversas atrações: parque de diversões, barracas de alimentação e bebidas, exposição dos produtores rurais do município, hipismo, torneio leiteiro, exposição agropecuária, artesanatos, sanfoneiros e rodeio com show de artistas de renome nacional e regional. 

d) Celebração da Paixão de Cristo

Em várias cidades do Brasil a semana santa é celebrada com encenações da paixão e morte de Cristo por atores profissionais ou amadores, que antes de tudo têm como objetivo principal sensibilizar os católicos sobre esta passagem bíblica. No município de Rio Claro-RJ na sexta-feira santa acontecem duas apresentações. Uma é realizada no distrito sede de Rio Claro e a outra no Distrito de Passa Três.

Em Passa Três

Apresentado há 29 anos consecutivos pelo Grupo Teatral de Passa Três na lateral da igreja de Nossa Senhora da Conceição, este espetáculo é uma encenação religiosa, baseada em história bíblica e contada de forma atualizada nos contextos e fatos de nosso dia a dia. Apresenta cenas desde o nascimento, passando pela vida e dores de Cristo, com seus milagres e peregrinações até sua prisão, condenação, morte e ressurreição. À cada ano o grupo foca o espetáculo em um tema específico, muitas vezes o mesmo tema escolhido pela CNBB para a Campanha da Fraternidade.

O elenco é formado por mais de 50 pessoas, atores da comunidade, entre crianças, jovens e adultos e o figurino é bastante caprichado. No ano de 2012 a encenação apresentou o Tema Trabalho Infantil e a Discriminação Social. Esta celebração é o maior evento artístico cultural amador da região.

Em Rio Claro

Em Rio Claro esta celebração acontece desde 1998. Tem início no campo velho de futebol e percorre as ruas da cidade até o local do calvário na praça central. A ideia inicial de realizar a encenação foi de dois jovens que participavam do Grupo Jovem da Igreja Católica de Rio Claro e é apresentada até hoje com a participação de aproximadamente 70 pessoas, num espetáculo que envolve toda a comunidade.

A participação de jovens é grande, demonstrando a perpetuação da cultura, geração após geração.

e) Celebração a Nossa Senhora da Piedade

Esta celebração ocorre entre os dias 14 e 20 de setembro desde o ano de 1830, quando foi criada a Capela de Nossa Senhora da Piedade no distrito de Rio Claro na Praça Fagundes Varela, no centro da cidade. Nesta ocasião toda a comunidade se une para render homenagens à padroeira da cidade, organizando grandiosa procissão, missas, almoço, shows, bingos, brinquedos e diversas barracas, o que alegra desde os mais jovens até os idosos.

Entre o público estão moradores da cidade e de cidades vizinhas que prestigiam esta que é uma das mais antigas celebrações da região. 

f) Retiro Espiritual no Sertão dos Hortelãs

Em Rio Claro acontece desde 1998, no período do carnaval, o retiro espiritual, na capela de Nossa Senhora Aparecida localizada na comunidade do Sertão dos Hortelãs. A cada ano é escolhido um tema diferente voltado para a família, mas sempre baseado nas histórias bíblicas. Para os participantes de todas as idades é um momento para a reflexão e celebração à vida, à paz e à família.

O encontro reúne aproximadamente 400 pessoas, de toda a região do Vale do Paraíba, bem como de outras cidades e estados, envolvendo crianças, jovens e adultos em clima litúrgico e em contato direto com a natureza.

O local onde é realizado o encontro apresentou melhorias com o passar dos anos e hoje conta com uma grande capela, dormitórios e cozinha, destinados a qualquer pessoa que se interesse em fugir da agitação do carnaval.

g) Semana Cultural Fagundes Varella

No mês de outubro Rio Claro celebra a memória de um dos seus filhos mais ilustres, o poeta Fagundes Varella. A festa acontece na praça de mesmo nome no centro da cidade e na Casa de Cultura. Sua programação conta com exposições artísticas, sarau literário, oficina de contação de histórias, apresentações teatrais, roda de capoeira e shows.

Este evento movimenta a cidade, que durante uma semana tem várias atividades para participar e prestigiar. 

Festa do peão - Rio Claro Paixão de Cristo Missa N.S. Piedade S. C. Fagundes Varela - 2011

 

Municípios de Mangaratiba e de Rio Claro

Durante o levantamento do patrimônio imaterial, identificou-se que este ultrapassa limites geográficos atuais. Constatou-se patrimônio imaterial que passam pelos dois municípios, Mangaratiba e Rio Claro, conforme descrito abaixo.

Categoria Formas de Expressão

a) Cavalgadas

As cavalgadas são formas de expressão que ocorrem por todo o Brasil, elas podem ser de cunho religioso (quando ocorrem em festas católicas), ecológico (com roteiros voltados para o ambiente natural) ou cultural (quando remontam os hábitos dos antigos tropeiros) e, ainda acontecem durante as festas agropecuárias do interior do Brasil. Os cavaleiros apresentam frequentemente um estilo característico, visto através de sua indumentária e seu modo de vida.

Na região da pesquisa acontecem algumas destas manifestações. Em Mangaratiba, um grupo de amigos se reúne em várias épocas do ano para desbravar os antigos caminhos da Serra do Piloto com destino a Rio Claro.

Na estrada RJ 149, área objeto da pesquisa, identificou-se uma cavalgada oriunda do município de Nova Iguaçu, denominada "Cavaleiros do Asfalto", que já há 12 anos se reune para seguir com destino à festa de aniversário da Cidade de Rio Claro. Composta por cerca de 25 membros eles pousam em fazendas da região durante os dois dias que levam para cruzar o percurso.

O trajeto passa pelos municípios de Seropédica (Piranema) e Itaguaí (Raiz da Serra) e Serra do Piloto, até chegar a seu destino. Carros de passeio e caminhonetes dão apoio à comitiva que é composta por pessoas de todas as idades. 

Cavalgada na Estrada Imperial Cavalgada na altura do Mirante Cavaleiros no asfalto

 

Categoria dos Ofícios

a) Ofício de Vaqueiro

Vaqueiro é um termo que designa pessoa responsável por cuidar de um rebanho de gado, de modo análogo à concepção americana do cowboy. No Brasil o vaqueiro faz uso de indumentária própria feita de couro, composta por Perneira (calça), Gibão (Jaqueta), Chapéu, Luvas e Botas.

O Vaqueiro pode cuidar do seu próprio rebanho, porém o mais comum, é que o mesmo seja empregado de uma fazenda onde vive como "morador". O mesmo tem como pagamento do seu trabalho um salário específico ou "tirar a sorte" na produção, onde, de forma previamente acertada com o fazendeiro, um percentual dos filhotes que nascerem, serão propriedade do vaqueiro; por exemplo: a cada quatro filhotes um é propriedade do vaqueiro, podendo este, criar, vender trocar ou fazer qualquer outro negócio com a sua produção. A cada ano o gado é separado, contado e tirado o que cabe para uma das partes. Este evento é conhecido popularmente como "Festa de apartação".

Uma das características do Vaqueiro é que, além de ser um homem muito trabalhador, também tem que ser um homem destemido na luta com os animais. Muitas vezes, para arrebanhar o gado, é necessário amarrar a rês desgarrada ou prender algum dos animais que estejam postos à venda, sendo necessário para isto, a "pega do boi" utilizando apenas o cavalo e usando a indumentária acima citada. Da "pega de boi" é que se originou o esporte vaqueijada ou vaquejada, onde hoje, não só os vaqueiros propriamente ditos, como também vaqueiros esportistas o praticam em arenas apropriadas.

Na região da pesquisa, mais precisamente na Serra do Piloto e no Macundu nos municípios de Mangaratiba e Rio Claro respectivamente, existem muitos homens que exercem este ofício. É comum na passagem pela RJ-149 cruzarmos com rebanhos sob o comando destes. Geralmente este oficio é passado de pai para filho ou parentes próximos ainda na infância, pois devido a sua moradia destacada da cidade as crianças auxiliam na lida na fazenda e iniciam o ofício através de brincadeiras, o que terminam por "tomar gosto" com o passar do tempo.

Em conversa com vaqueiros da região descobrimos que a tarefa mais difícil deste ofício é tirar o leite das vacas, pois deve ser realizada ainda pela madrugada, sob
qualquer condição de tempo dia após dia.

Na região da pesquisa, que apresenta relevo acidentado com muitos morros, observa-se o difícil acesso que estes vaqueiros enfrentam, mas a agilidade na montaria faz com que consigam remanejar os rebanhos e cuidar na lida diária, com fornecimento de sal e cuidados especiais quando necessário.

Este ofício é um dos mais antigos do Brasil e extremamente necessário, porém ao tomar o café da manhã ou saborear um churrasco no almoço quase ninguém se dá conta da difícil tarefa que precedeu este momento. 

Criação de gado - Rio Claro Vaqueiros - (Bebedouro da barreira ao fundo)

 

Considerações

A equipe identificou uma maior quantidade de itens no município de Mangaratiba, que tem uma população maior do que a de Rio Claro, porém a Serra do Piloto, atual Distrito de Mangaratiba, apresentou itens bastante significativos por isso convêm lembrar que muitos dos moradores deste distrito são oriundos de São João Marcos, município que deu origem ao atual Rio Claro.

Torna-se importante destacar que a pesquisa se deu mais efetivamente nas comunidades ao entorno da Estrada RJ-149, porém também foram pesquisadas algumas comunidades mais distantes da via, com a finalidade de levantar o maior número de itens possíveis.