Transcarioca - Projeto para Atualização de Diagnóstico da Transcarioca -

Acordos firmados entre a consultoria Terra Nova Escritório de Projetos Sociais e Ambientais Ltda., e o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) tiveram como finalidade a elaboração da Atualização do Diagnóstico Arqueológico para a Instalação da Transcarioca – Fase 1.

Foram elaboradas as etapas de acordo com o que constava no "Relatório Parcial de levantamento e análise do processo documental do Corredor Viário Transcarioca – Fase  1”.

Em dezembro de 2012 o Instituto de Arqueologia Brasileira-IAB iniciou a análise sobre o processo documental do Corredor Viário Transcarioca– Fase1 junto à Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-IPHAN no Rio de Janeiro, sendo concomitantemente realizada a pesquisa no Banco de Dados do IPHAN para a identificação de sítios arqueológicos localizados nos bairros cortados pelo empreendimento.

Foram encontradas sete fichas de cadastro junto ao IPHAN. Cinco desses sítios estão nos bairros Barra da Tijuca e Jacarepaguá. São eles: Beira da Estrada, Sambaqui do Canal, Sítio da Caveira, Vale do Mosquito e Sítio Triunfo II. De acordo com o banco de dados do IAB este último está localizado, na verdade, em Vassouras-RJ e o IAB, como responsável pelo registro do mesmo, já comunicou ao IPHAN a necessária modificação, a qual já se encontra em andamento no CNSA.

No bairro de Campinho constam como localizados dois sítios: o Casa do Oficial do Antigo Quartel do Exército e Laboratório Pirotécnico Forte do Campinho – ambos estão no mesmo espaço geográfico, sendo o primeiro “sítio” parte integrante do “Forte de Campinho”. Ambos foram registrados em separados por solicitação do IPHAN, porém pesquisados pelo IAB no mesmo contexto.

Além dos sítios identificados na Regional do IPHAN no Rio de Janeiro, também no banco de dados do IAB foram revelados mais dois que, por terem sido registrados em período recuado, podem se encontrar no Arquivo do IPHAN, no Palácio Capanema. São eles: Sítio Araçatiba  e Sítio dos  Milagres, ambos na Barra da Tijuca.

Assim encerrou-se a primeira etapa.

A etapa seguinte consistiu no levantamento e análise do impacto ao patrimônio arqueológico - por meio de caminhamento -, nas áreas em que a obra já havia sido instalada, nas áreas onde não ocorreram atividades de obra, e a situação das áreas indicadas pelo Relatório de Diagnóstico como de interesse histórico e arqueológico.

Esse levantamento visou compor a análise da área do empreendimento, associando-o aos resultados das pesquisas realizadas junto ao banco de dados do IPHAN sobre o andamento do Processo do Corredor Viário Transcarioca – Fase 1, bem como sobre os sítios arqueológicos existentes em sua faixa de domínio.

A área na qual foi identificada a maioria dos sítios relacionados com a área de abrangência do corredor viário encontra-se na faixa litorânea, estando presentes principalmente em forma de sítios arqueológicos do tipo Sambaquis.

Associando o contexto ambiental da região da Barra da Tijuca com sua faixa litorânea, lagoas e mangues aos sítios identificados na área, tornam este trecho potencialmente positivo para o estabelecimento deste tipo de cultura.

Sítios do Período Pré-histórico

 

Sítios deste horizonte cronológico, que cobrem a pré-história regional e a época da conquista europeia, dominam numericamente no conjunto das ocupações registradas arqueologicamente.

Os “Sambaquis” são sítios normalmente pré-cerâmicos, formados por grupos de caçadores-coletores do litoral, que deram preferência ao consumo de animais marinhos, com destaque aos moluscos bivalves e à pesca. Completava sua dieta o consumo de animais terrestres, sobretudo aves e sem dúvida alimentos de origem vegetal. O acervo arqueológico desses sítios é normalmente composto por peças líticas, em especial as lâminas de machado, os batedores (martelos), os moedores, etc. Pontas feitas em secções alongadas de ossos de aves ou em esporões de arraia são também comuns, assim como adornos de vértebras de peixe. O número de esqueletos recolhidos nesses sítios é geralmente escasso, indicando terem sido produzidos por bandos com pequeno número de componentes, explorando um vasto território. Os mortos eram enterrados no próprio sítio. O desgaste dentário observado nestes indivíduos demonstra o tipo de dieta que produzia muito abrasão, provocado, em especial por grãos de areia.

No rol dos sítios cadastrados no IPHAN, consta o registro dos seguintes sambaquis, todos hoje totalmente destruídos.

O sítio de Araçatiba situava-se próximo ao canal conhecido como rio João Correa no Porto do Machado na estrada para Guaratiba. No que restava dele foram coletados artefatos líticos e pontas ósseas.

O Sambaqui do Canal, hoje situado em zona urbana, foi localizado em 1978 na confluência das ruas Paranhos com Coronel Eurico de Souza Gomes, na Barra da Tijuca. Já então muito destruído, apresentava pequena camada ocupacional de conchas e terra preta, espalhada por grande área em função do trabalho de máquinas de terraplanagem. Pobre em material arqueológico.

O maior sambaqui da área foi denominado “sítio da Beira da Estrada” e, como o nome diz, localizava-se na margem da rodovia Rio-Santos na altura da antiga Fazenda de Marapendi, a cerca de 400 metros do Clube Fazenda Marapendi. Seu assentamento se deu sobre terreno plano entre as elevações locais e a praia de Sernambetiba. Foi totalmente destruído em 1965 ao ser aberta uma estrada, com material espalhado por uma área de cerca de 200 por 40 metros (8.000 m2) e o corte da estrada mostrava uma estratigrafia simples, pouco espessa, com terra preta, conchas e muito carvão. Não foi registrada a existência de água na proximidade. Coletados artefatos líticos (lâminas de machados e batedores).

O sítio da Caveira foi localizado em 1966, nas proximidades do campo de pouso de Jacarepaguá, em um capão de mata antigo na restinga e a 800 metros da rodovia Rio-Santos. Possuía 25 por 30 metros e foi escavado em duas quadras onde foram coletados artefatos ósseos e líticos, em meio à terra preta com restos orgânicos e conchas. Camada arqueológica de 30 centímetros.

Um dos sambaquis de maiores dimensões recebeu a denominação de “Sítio dos Milagres”, localizado em 1965. Situava-se na margem direita do canal das Taxas, na restinga de Itapeva, no final do caminho do Rangel. Sambaqui semicircular com cerca de 60 por 90 metros, muito impactado, mas ainda com camada de 30 a 40 centímetros de espessura, rico em conchas e terra preta. Recolhidos artefatos líticos. 

Período Histórico

 

Somente dois sítios foram registrados exclusivamente vinculados à faixa cronológica da colonização europeia.

O primeiro deles se refere às ruínas existentes na área da antiga Colônia Juliano Moreira, restos do antigo engenho de açúcar que ali funcionou e que foi denominado “Sítio do Mosquito”. Trata-se de um conjunto arquitetônico que deve ter sido impressionante pelas dimensões e pela existência de um aqueduto em arco, que trazia água de uma fonte situada no interior da mata ainda preservada e que servia para mover as rodas do engenho. Este bem é tombado pelo IPHAN e pelo INEPAC. Endereço: Estrada Rodrigues Caldas nº 3.400, Jacarepaguá (Tombamento de 27.08.1990 Proc. E-18/001.178/90)

O segundo trata-se do Sítio Forte do Campinho. O terreno pesquisado é uma área de 84.519,48 m2, no qual foi erguido, no início do século XIX (por volta de 1822 mais exatamente), um forte considerado o mais moderno para a ocasião.  Pretendia-se estabelecer um ponto forte passível de resistir a qualquer exército europeu interessado em combater a independência do país. O forte, construído dentro da mais avançada tecnologia da época, com muralhas de terra, situava-se sobre uma pequena elevação, defendendo a cidade de quem para ela demandava pela estrada Real de Santa Cruz, no local denominado Campinho, área de entroncamento viário de importância. Passado o perigo o forte foi desmobilizado, ali permanecendo uma pequena guarnição até meados do século XIX. Foi então instalada em sua área uma Fábrica de Pólvora e um Laboratório Pirotécnico, onde foi fabricada parte do armamento utilizado na Guerra do Paraguai e realizadas experiências, inclusive com foguetes, novas armas, etc.

No século XX abrigou alguns batalhões diferenciados e até recentemente o 17º Regimento Mecanizado.

O Exército brasileiro desinteressou-se e o terreno foi adquirido pela Firma WTorre Engenharia. Em comum acordo com a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, através da  Secretaria de Patrimônio (SEDREPAHC) foi dividido em parcelas e destinado a diversas funções. Entre elas, a área denominada “02” foi destinada à construção de um shopping ou supermercado e a área 03 à construção de conjuntos residenciais. Nestas áreas foram então procedidas as primeiras pesquisas arqueológicas, organizadas em etapas de trabalho. Posteriormente, com o avanço da pesquisa outras áreas foram anexadas ao Projeto que se desenvolveu durante os anos de 2007 e 2008.

Em síntese, pois, pode-se observar que a maioria dos sítios foi localizada na área litorânea. Antes, porém, de tirar conclusões apressadas sobre os padrões de ocupação local, deve-se entender o seguinte: apesar deste fato, não se deve entender que ocorreu uma preferência ocupacional entre os grupos humanos diferenciados de ocupar mais a faixa costeira. Na verdade foram as pesquisas arqueológicas que se concentraram na faixa litorânea, desde que se sabe ter sido esta área profundamente ocupada por todo o período histórico posterior. É bem possível, em função das novas pesquisas, que este quadro se altere com a descoberta de novos pontos de interesse arqueológico.

Levantamento de Campo

 

Para o levantamento de campo procedeu-se um estudo exaustivo de toda a informação disponível sobre a área. Como referências foram utilizadas as coordenadas das estações, (à época, a serem construídas), indicadas nos mapas disponibilizados pela Terra Nova Escritório de Projetos Sociais e Ambientais Ltda. Assim, cada trecho foi prospeccionado, percorrendo-se cerca de 30 km de extensão do Corredor Viário, bem como as áreas nas quais foram implantados os canteiros de obras, sendo registrados os pontos de interesse contendo informações sobre as características do trecho, coordenadas e estágio da obra.

Avenida Ayrton Senna, trecho com obras no canteiro central. Ao fundo vê-se a retirada de sedimento no limite entre o canteiro e a via já existente. Vista dos pilares onde foi construída a ponte sobre a lagoa de Jacarepaguá Implantação dos canteiros pré-moldados 2 e 3.

Todo o traçado do corredor viário se encontra em área urbanizada, e foi realizada a observação de cada trecho atentando-se também ao Decreto Municipal 20.048/2001, que protege os imóveis construídos até 1937, promulgado na Cidade do Rio de Janeiro, bem como a criação de Áreas de Proteção do Ambiente Cultural – APACs que reconhece o valor histórico e arqueológico destes bens, buscando protegê-los de eventuais destruições.

Nossa metodologia obedeceu ainda os preceitos concernentes à arqueologia urbana, compreendendo a cidade como artefato e fato histórico capaz de contribuir com a articulação entre o passado e o presente das cidades.

O levantamento de campo contemplou 53 pontos.

Todo o trecho correspondente ao corredor viário foi percorrido, permitindo identificar que das dez áreas indicadas como de interesse histórico e arqueológico, três foram alvos de demolição total (Pontos 382, 383 e 384); um a fachada foi alterada (381); e, nas demais (377, 378, 379, 380, 385 e 387), não havia tido nenhum tipo de interferência até o momento deste levantamento.

Todos os pontos indicados como de interesse histórico e arqueológico pelo Relatório de vistoria e diagnóstico do Corredor Viário Transcarioca, com exceção do ponto 387 (Santuário Mariano de Nossa Senhora da Penha) estão relacionados com construções com características arquitetônicas vinculadas à década de 20 do século passado.

Especificamente, as áreas relacionadas na forma de pontos de interesse histórico e arqueológico podem contribuir não só com o reconhecimento da existência de bens valiosos do ponto de vista arquitetônico, assim como, e talvez principalmente, com o conhecimento das diversas esferas da vida social referentes àquele período histórico.

Em uma sociedade que transitava entre um mundo monárquico, escravista, e onde a nobreza decaída ainda procurava enquadrar-se socialmente na nova dinâmica republicana e ‘livre’, as conformações sociais expressavam-se cotidianamente, deixando impressos no que era usado, descartado, edificado e escrito, suas  crenças, escolhas e significações.

Ainda que nem todas as expressões culturais sejam manifestadas materialmente, a materialidade das mesmas pode ser, em alguns aspectos, tangenciada, auxiliando a compor o complexo mosaico das sociedades humanas. O reconhecimento destes aspectos pode ser abordado desde o reconhecimento da necessidade de autoconhecimento e reconhecimento de um povo ou de uma nação, até a utilização deste para valorização de seu presente.

Por este motivo, foram incluídos dois outros pontos como de interesse. O primeiro está diretamente relacionado ao contexto apresentado acima, localizado entre os pontos 378 e 379. Como descrito acima, trata-se de sobrado geminado, seguindo o mesmo padrão arquitetônico dos demais.

O segundo refere-se ao dito “Castelinho da Penha”. Ainda que seu período de construção não esteja enquadrado no período histórico abarcado pelo decreto 20.048/2001, a população local reconhece este espaço como seu lugar de memória, devendo, de alguma forma, ser preservado.

Outro aspecto referente ao levantamento realizado trata-se da implantação, à época,  dos canteiros de obras. Três deles mereceriam particular atenção: o canteiro localizado em Campinho; o localizado na estrada Arroio Pavuna; e o localizado na Avenida Ayrton Senna – área onde foi construída a ponte sobre a lagoa de Jacarepaguá.

: Aterro localizado nas imediações do Canteiro Arroio Pavuna. No detalhe, conchas possivelmente advindas da dragagem do local. Sobrados geminados, localizados na Rua Cândido Benício, 4173. No detalhe, a fachada do prédio indica a data de construção: 1924. Castelinho da Penha. Foto do site: suburbios do rio

 

A localização do canteiro de Campinho, adjacente ao sítio arqueológico Forte do Campinho, torna esta área com alto potencial arqueológico.

Os demais, por estarem localizados em um contexto ambiental, como indicado no levantamento junto aos sítios no IPHAN, de ocorrência de sítios arqueológicos do tipo sambaquis, também podem ser consideradas como áreas de interesse arqueológico.

O desenvolvimento das obras causou danos, como indicado acima, em três dos dez pontos relacionados como de interesse histórico e arqueológico.

Os demais, bem como aqueles indicados no levantamento atual, não sofreram intervenções de obras, permitindo que fossem realizadas atividades de caracterização em suas áreas, devendo abranger estudos arquitetônicos, históricos e arqueológicos.

A partir dos resultados desta pesquisa, ações de Educação Patrimonial voltadas para o resgate e valorização do patrimônio dos bairros abrangidos pelo empreendimento, auxiliariam na manutenção da memória e no conhecimento do passado da região, utilizando a figura de agentes multiplicadores, bem como publicações voltadas para o público leigo da região.

Outra ação pertinente referiu-se ao canteiro localizado na Estrada Arroio Pavuna. Apesar de ser uma área alvo de atividades de aterro desde períodos anteriores à instalação do canteiro, atividades de prospecção deveriam ter sido desenvolvidas no local para verificar a existência de sítios arqueológicos, visto haver uma grande área ainda livre, situada na parte interna do canteiro, área de responsabilidade da empreiteira Andrade Gutiérrez.

Para finalizar ratificamos a recomendação contida no Relatório de vistoria e diagnóstico do Corredor Viário Transcarioca, especificamente sobre a necessidade de monitoramento arqueológico nas áreas onde houvesse revolvimento  de solo, visto haver um grande trecho não impactado pelas obras.

Considerações finais

 

É uma das características das sociedades humanas manifestarem materialmente seus pensamentos e ações no mundo que as cercam, imprimindo suas ideias de forma peculiar nos objetos que produz, visando àqueles fins básicos. Assim,  cada objeto ou artefato produzido espelha um mundo de ideias compartilhadas e que tem por fim dinamizar uma das potencialidades naturais do homem. Cada um deles, do mais remoto passado à era atual, significa a potencialização de um dos atributos humanos. Do machado de pedra lascada que dinamizou a força de seu braço, ao avião a jato, que multiplicou por milhares de vezes sua capacidade de deslocamento no espaço, desde o tempo em que a sua única possibilidade era de fazê-lo a pé, assim o é.  Desta forma, cada elemento descartado, perdido, deixado in situ de forma proposital, ou ocasional, representa um momento fossilizado no tempo, que contém a soma de pensamentos e ações que lhes deram origem.

Como – felizmente para a História – cada sociedade, em cada tempo, materializa tais objetos de forma peculiar, torna-se possível (decodificando tais atributos, utilizando metodologia específica) penetrar de alguma forma no mundo, espaço-temporal, a que pertencia. Assim, mesmo uma atividade relativamente simples, como a de monitorar, vigiar e preservar bens e patrimônios já demarcados e conhecidos pode tornar-se igualmente complexa, pelo reconhecimento desses marcos do passado, despercebidos até então. Com isso, a realização deste Diagnóstico tem sua importância acentuada, visto a possibilidade de  preservação de memórias construídas ao longo do tempo para as gerações futuras.

 

Equipe Técnica

 

Coordenador Geral e Historiador – Arqueólogo Dr. Ondemar Dias Júnior

Gerente de Projetos – Arqueóloga Prof.ª Especialista Jandira Neto

Responsável pela logística – Arqueóloga Especialista Elizabeth Christina

Responsável pelo campo – Marcelle Mandarino

Auxiliares Técnicos – Paloma Santana e Alex Souza