Programa Integrado de Arqueologia, Salvamento, Monitoramento e Educação Patrimonial JB-695 - 2013/2017

Arqueologia

 

Visando a obtenção da licença prévia (LP) para a construção de um prédio na Rua Jardim Botânico nº 695, bairro Jardim Botânico no município do Rio de Janeiro, a empresa Globo Comunicações e Participações S.A. solicitou ao Instituto de Arqueologia Brasileira-IAB, a realização do Projeto de Pesquisa Arqueológica, o Monitoramento e a Educação Patrimonial, em atendimento à legislação vigente.

Após as demolições das construções existentes no local como primeiras ações efetivas, as quais foram devidamente acompanhadas por arqueólogo para evitar danos ao possível sítio, a equipe de pesquisadores deu início à etapa de prospecção arqueológica. Diante das fortes evidências de caracterização de sítio arqueológico encontradas, foi planejado e executado o seu resgate em março de 2013. Por razões que nos são alheias e decisão dos empreendedores, as obras foram interrompidas naquele ano e o sítio aterrado novamente.

Posteriormente, já em 2016, portanto após um longo período de paralisação, a empresa acima citada retomou o contato com o IAB para comunicar ter negociado o terreno com a JB 695 Empreendimentos Imobiliários Ltda., ao que passaria, então, a ser ela a atual responsável pela continuidade - ou não – das obras, o que terminou por serem retomadas e realizadas, portanto, as tarefas de monitoramento necessárias, iniciadas em 20 de setembro de 2016 e concluídas a 10 de março de 2017. Em todas as fases do projeto, os resultados ultrapassaram as expectativas em termos de detalhamento de estruturas e de coleta de material cultural significativo.

O Projeto de Educação Patrimonial que acompanha toda e qualquer atividade de arqueologia preventiva, como contrapartida sociocultural às comunidades impactadas por empreendimentos com este perfil do JB 695, foi integrado a este Programa e realizado em duas etapas.

♦ A Área da Lagoa – Crônica de sua Ocupação ♦

 

Período Pré-Histórico

 

Nos mapas antigos da região, ainda no século XVI, não foram marcadas aldeias tribais na área da Lagoa. Não obstante este fato, pelo menos quatro indícios apontam a presença dos indígenas na área lacustre antes da chegada dos europeus. 

O primeiro é o próprio nome dado ao espelho d’água, na verdade uma laguna, desde que havia uma comunicação com o oceano que por muito tempo e em diversas ocasiões ficava bloqueada pelas areias. Segundo Maurício de Almeida (Geografia Histórica  do Rio de Janeiro, 2010) seu primitivo nome era de Camambucaba. Seria depois conhecida como Lagoa de Sacopenapam (nome que vez por outra compartilhava com a praia de Copacabana), além de designativos referentes a seus proprietários coloniais até definir-se o designativo de Rodrigo de Freitas. Nomes indígenas indicando a presença dos mesmos na área. Além disso autores como Bessa & Malheiros (in: Aldeamentos Indígenas no Rio de Janeiro, 1.997) indicam que a aldeia de “Kariané” segundo o cronista francês Jean de Lery que participou da tentativa de colonização da França Antártica de Villegagnon no Século XVI ficaria situada nas proximidades daquela Lagoa.

O segundo indicativo era a existência de um morro na área Oeste da Lagoa, em direção ao Leblon, chamado de “morro do Caboclo”, depois arrasado e cuja terra foi usada para aterrar parte da margem da mesma. No lado contrário, próximo ao atual local onde desemboca o Tunel Rebouças estaria localizado um porto de canoas. Conhecida no período colonial como “Praça da Piaçaba”.

O terceiro diz respeito à tradição que explica ter sido dado o nome de “Morro da Catacumba” à elevação que depois abrigaria a favela de mesmo nome (o Parque da Catacumba atual), pela existência de supostos sepultamentos indígenas no lugar, não pesquisados ou confirmados.

Um sambaqui (monte de conchas) comprova a presença de bandos de coletores, num local pouco propício, nas primeiras elevações do sopé do Corcovado no “Arboreto Rotário

E, embora não se tenha encontrado provas arqueológicas materiais da presença indígena no sítio da Lagoa este fato não impediu ter se criado uma lenda do seu extermínio nas margens da Lagoa....

Tal lenda afirma que o Governador Antonio Salema exterminou os indígenas da área ainda no final do Século XVI distribuindo roupas contaminadas com varíola, no que seria considerado uma guerra bacteriológica. Fato pouco provável até mesmo porque os índios só usavam roupa se obrigados...

Primeiras ocupações históricas 

O uso e a propriedade da terra na América portuguesa obedeciam à uma antiga legislação calcada, em especial, no complexo histórico da reconquista cristã da Península Ibéria, ocupada depois da queda do império romano pelos reinos medievais e, após estes, pelos muçulmanos. Como a partir de pequenos enclaves nos Pirineus, os cristãos deram início à reconquista militar e religiosa do território, constituiu-se o “direito de conquista” princípio que passou para as colônias ibéricas ultramarinas.

Diferentemente da América espanhola onde através do “repartimiento” da terra era o seu uso prolongado (ou posse) pelo agraciado que garantia a propriedade, na América portuguesa a Sesmaria garantia desde logo a propriedade ao beneficiado, que perderia seu direito caso não a usasse.  As concessões sesmariais constituíam direito da Coroa, que atuava através de seus representantes administrativos. No Rio de Janeiro as sesmarias eram doadas pelo Governador. O Senado da Câmara possuía aquele direito sobre as terras não doadas, que podia alugar, ou aforar, para uso de particulares mediante pagamento anual de importâncias que variavam em função do tamanho, qualidade e localização das mesmas.

Notícias dos Séculos XVI-XVII 

Terras & Sítios      

A mais antiga referência que localizamos, em termos de documentos primários é datada de 1594 e registra a doação de uma sesmaria para Martim de Sá e Gonçalo Correia na “Tejuca” (no caso se referindo à Lagoa da Tijuca) para ambos fazerem engenho (Arquivo da Cidade, Códice 3-4-29).           

No século XVII seguem-se diversas concessões, destacando-se (em 1610) aquela dada a Baltazar de Seixas Rabelo que aforou 200 braças de terras na Lagoa ao Senado da Câmara, terras cujos limites confrontavam com o engenho Nossa Senhora da Cabeça, portanto, já existente (Arquivo da Cidade, Códice 2-3-7 F.14).  Em 1667 João Sanches recebera o direito de aforar terras para fazer roça e “pelames” (curtume) cujos fundos se faziam pela Lagoa então chamada “do Fagundes” (antes da sua denominação de “Rodrigo de Freitas”). Mesmo Arquivo Códice 3-1-77   

Na região de Ipanema (“águas ruins”) em 1691 foi vendido um terreno com pouco menos de 400 metros de frente por quase 20 quilômetros de fundos (três léguas) por um preço entre pouco mais de sessenta  a quatrocentos mil réis (variação registrada em diferentes fontes). Arquivo da Cidade (Códice 42-4-89) e Arquivo Nacional (Cartório do Primeiro Ofício, Livro 58).

Ao findar o século, a Viscondessa de Asseca arrendou um pedaço de terras na restinga da Tijuca por 12 anos, sendo que o rendeiro tinha a obrigação de construir uma capela de N. Sra. do Rosário com toda a obra de pedreiro e carpinteiro, ao preço de 50$000 (cinqüenta mil réis). Documento do Arquivo Nacional, Cartório do IV Ofício, Livro 3º. 

Neste mesmo período os documentos começam a se referir à existência de chácaras e sítios (ambos destinados à produção agrícola, mas a primeira localizada em regiões urbanas e o segundo em áreas rurais). Ainda persistia o sistema de “campos abertos” ou “comunais”, sendo que no Brasil os campos abertos chamavam-se “rocios”, onde todos os homens livres possuíam o direito de uso. No Rio de Janeiro o “rocio” mais importante da cidade era o “Campo de Santana”,  mas também a atual “Praça Tiradentes” foi um rocio ao seu tempo.

Figura 01 - Mapa da França Antártica – Localiza as aldeias indígenas ao longo do contorno das margens da Baía de Guanabara (Cópia do Mapa de André de Thevet, desenho dos autores)Figura02 – Mapa de Albernaz de 1666 informando as áreas colonizadas em meados do século XVII. O Norte está situado para a direita, de forma que a região da Lagoa se encontra na parte superior. Pode-se ver a localização da Barra da Tijuca, mais abaixo das Ilhas Tijucas e uma reentrância designada “Agoa” que deve se referir à Lagoa.  
Figura 03 – Mapa da Cidade do Rio de Janeiro, com os topônimos antigos e os principais acidentes geográficos. Everardo Beckheurser.

O interessante é que tais chácaras se alastraram na época para a Tijuca e para a área de Botafogo, até o Leme, já no caminho par a Lagoa e com ela repartiriam o futuro da ocupação.    

Como exemplo, em 1694 foram vendidas terras e benfeitorias de uma chácara no Leme, que incluía uma casa, roça e mais plantas por 95$000. Além desse preço a venda incluiu também sete escravos valendo 370$000. Constam os nomes dos cativos vendidos e até suas doenças (como “boubas”), sendo citado no documento da transação que o proprietário os vendia “da mesma maneira que os tinha com todos os seus achaques mais novos e mais velhos”. Arquivo da Cidade, Códice 42-4-89 F.982 a 985.

Demonstrando a variação nos preços, dispomos dos dados da venda de uma chácara em 1697, “em terras próprias na Praia dos Papagaios”, ou do “Sapateiro” (Botafogo) com benfeitorias, por 30$000 em março daquele ano. Arquivo Nacional, Cartório do I Ofício Livro 61F.78v

Estes documentos registram topônimos alguns completamente esquecidos, como aquela “praia dos papagaios”. A do “sapateiro” é mais conhecida. 

Engenhos

No Século XVII começaram a se instalar na região da Lagoa, os primeiros engenhos de produção de cana de açúcar e seus satélites, os “partidos”. Até medos do século passado, um dos autores que mais se dedicou ao tema foi Vieira Fazenda, no seu livro “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro – Volume V, F.688, sob o título “A Lagoa Rodrigo de Freitas”, de 1943.

Segundo ele o Engenho mais antigo foi instalado pelo Governador Antonio Salema em área próxima da Lagoa sob a denominação de Nossa Senhora da Conceição por ordem régia. A fábrica possuía vasta extensão de terras, tendo sido comprado posteriormente por Diogo de Amorim Soares, passando em seguida Sebastião Fagundes Varela, que inclusive deu nome à Lagoa por uns tempos. Dos herdeiros deste teria passado para Rodrigo de Freitas e Castro, fidalgo da Casa Real em 1748. Permaneceria na família até o século XIX quando por decreto real as terras do engenho e da lagoa foram incorporadas ao terreno para construir a Fábrica de Pólvora e oficinas de fundição de peças de artilharia e canos de espingarda pelo Príncipe Regente D.João.  A desapropriação demorou anos e os antigos proprietários receberam 42:193$430 somente em 1827.

De acordo com ele tais terrenos eram enormes e seriam limitados de São Clemente ao Morro dos Dois Irmãos e do nascente da praia do mar até a Serra da Lagoa, inclusive a própria lagoa e sua pesca privativa, mas as nascentes das vertentes da serra à barra da lagoa. Haveria, portanto, segundo este historiador somente um engenho em toda a área.

Mas existem controvérsias. Segundo outra versão, mais comumente encontrada o engenho se chamaria “Engenho Del Rei”, ou ainda “Nossa Senhora da Conceição” e teria sido fundado pelo mesmo Governador Antonio Salema entre 1575 e 1576 e melhorado por Martim de Sá entre 1603 e 1604. Ficaria situado não muito longe da Lagoa Rodrigo de Freitas ou Sacopenopan. Dele passaria para Diogo de Amorim Soares que deu dote de 20$000 anuais para a Capela de N. Sra da Cabeça.

Ainda existe uma terceira versão, de Felisbelo Freire (1912:339) que atribiu sua fundação a Diogo de Amorim Soares, entre 1596 e 1598 e passado para o genro como dote, Sebastião Fagundes Varella. Seria este realmente o Engenho mandado fundar por El Rei, pois no documento de venda que dele fez ao Varela, cita que o fazia "da mesma maneira por que sua Majestade lhe vendera". 

A pesquisa na documentação cartorial demonstra um quadro diferenciado e muito mais complicado, que não cabe enumerar aqui em detalhes. Podemos, no entanto, mencionar alguns aspectos principais que servem para demonstrar a atração que as terras marginais da Lagoa e os contrafortes da Serra da Carioca exerceram ao longo do período colonial (e que se estenderia até os dias atuais).

Assim, por exemplo, que já em 1594 existia um engenho na área denominado de “Nossa Senhora da Encarnação e Rosário” que fora outrora do Rei e que pertencia a Salvador Fernandes, sua mulher Violante da Rocha e do Diogo de Amorim Soares, segundo documento de venda de casas de propriedade do casal na cidade.  (In: Livro do Tombo dos Bens do Colégio de Jesus no Rio de Janeiro).  O mesmo documento, além disso, informa que a lagoa era denominada pelos indígenas de “Camambucaba”, e que o nome de “Sacopenapam” (que se popularizaria depois) só se aplicava à praia de Copacabana.

Terras situadas na sua vizinhança seriam aforadas em 1606 “no caminho que vai para a Tejuca” até o ano de 1633 a Sebastião Fagundes Varela. Tratava-se do “Sítio das Alagoas” e seriam usadas por ele para plantação e pasto do gado do seu engenho (Arquivo da Cidade, Códice 2.3.7 F.11 e 12).  Seus limites corriam da barra da Lagoa pela costa até o Pão de Açúcar e para o sertão (tudo) o que houvesse. Varela aparece como proprietário do engenho Nossa Senhora da Encarnação, em 1611 tanto aforando mais terras quanto declarando-se proprietário daquele engenho “sito na Lagoa” e alegando precisar de pastos, lenhas e madeiras para sustentá-lo. Pedia então  “uma sorte de terras no cabo da praia grande vindo para a Lagoa, com 400 braças e o sertão que lhe pertencesse”. O mesmo Arquivo e Códice na Folha 27.  

A crônica daquele engenho continua pelo século XVII. Em 1613 seu proprietário acertou contrato com Mateus Antonio, mestre de açúcar  para atuar em “temporadas no seu dito engenho, de 1613 e 1614, (para) por  os Açúcares nesta cidade”, estipulando o preço do Contrato em 64$000 em 1613 e 70$000 em 1614. Seguem-se-lhe as condições contratuais, muito interessantes para os pesquisadores do tema. Arquivo Nacional, Cartório do  I Ofício Livro 28.

Outro documento, este de 1617 confirma que o Engenho do Varela era aquele “que foi de Sua Magestade”. Era o mais antigo da região e isto “não estava prejudicando os pastos de outro engenho que depois se fez”. Faz algumas outras considerações e confirma os custos do aforamento. Documento no Arquivo da Cidade, Códice 2-3-7 Pag.52.    

É possível acompanhar documentalmente a crônica desse engenho ao longo dos séculos XVII ao XIX, incluindo a sua divisão em chácaras e posteriores repartições em lotes com a consequente urbanização e seu arruamento.

Recomendamos também a consulta ao trabalho do pesquisador Maurício de Almeida Abreu, (in Geografia Histórica do Rio de Janeiro – 1502-1700, I:252).

Haveria um terceiro engenho, cuja crônica se confunde com aquele denominado de Nossa Senhora da Conceição (que analisamos inicialmente segundo as três versões baseadas em interpretações de autores diferenciados). Trata-se do Engenho Nossa Senhora da Cabeça ou dos Sás (e depois, Engenho d’água do Visconde de Asseca)

Pela falta de exatidão dos documentos cartoriais e em função da mudança de toponímias ao longo do tempo, nem sempre é fácil ou até possível, estabelecer fronteiras entre engenhos.

No caso do Engenho Nossa Senhora da Cabeça tem sido considerada sua existência na área da Lagoa Rodrigo de Freitas (localização já posta em dúvida por alguns autores).  Por outro lado, a tendência tradicional foi a de se creditar como pertencente ao engenho a ereção da Capela de Nossa Senhora da Cabeça, que teria, inclusive dado nome ao mesmo.    

Podemos agrupar os argumentos que indicam a existência de um Engenho com este nome na Lagoa e pertencente à família Sá:

Em 1606 um ourives chamado Manoel Pinto pediu aforamento de terras à Câmara, citando que elas deveriam acabar nos limites com o Engenho de Martim de Sá da Lagoa no caminho daquele engenho para a cidade. Arquivo da Cidade, Códice. 2-3-7 F.17.

Em um documento que historia as Freguesias do Rio de Janeiro do Arquivo do IHGB consta, em relação à fundação da Igreja de N.Sra da Cabeça que teria sido: “Martim de Sá, Capitão Governador que foi dessa Capitania (quem) instituiu uma Capela por invocação N.Sra da Cabeça, com licença do Administrador Mateus da Costa Aborim”, no ano de 1613 (Lata 57, Pacote 03).

Seria este engenho que confrontaria com o Engenho Nossa Senhora do Rosário no citado documento de 1617 visto anteriormente. Documento no Arquivo da Cidade, Códice 2-3-7 Pag.52.    

Frei Agostinho de Santa Maria, no “Santuário Mariano” (Edição de 2007: 195, título XXX:Livro III) divulga outra versão. Segundo os seus dados o  santuário ou casa de Nossa Senhora teria sido fundada por “hum Rodrigo da Veiga, porque este era senhor daquele engenho e ele por devoção que tinha a nossa Senhora lhe dedicou esta ermida”. Por sua morte o engenho foi comprado por Salvador Correa, passando depois para seu neto, Visconde de Asseca. A data do livro é 1723.

Embora não se tenha encontrado documentação confirmando a assertiva do frei ela deve existir, desde que ele era geralmente bem informado. A versão mais comum é a de Felisbelo Freire (1912:338/s) que comenta ter sido o engenho fundando por Miguel Aires Maldonado e deste passando para Martim de Sá em 1603. Aceita ele a idéia de que o nome do engenho se deve à fundação da Capela por Martim de Sá em data posterior.

Figura 04 – Foto de panfleto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com a sede do engenho que seria depois denominado de Nossa Senhora da Conceição. Construção atribuída ao século XVI (1576) Figura 05 – Vista da Lagoa, com a Capela de N. Sra da Cabeça, 1816. Autores: Charits, Othon & Clarac, Jean Baptiste Figura 06 – Vista da mesma chácara por Jean Baptiste Debret Figura 07 – Capela de Nossa Senhora da Cabeça, hoje no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

No mesmo ano (1603) um documento do Arquivo Nacional confirma a propriedade do Maldonado. Consta do dote para casar sua filha com Francisco Cabral (de Mello) tendo sido incluída uma fazenda na “Tejuca” e uma quinta com escravos, incluindo uma "india velha", mais terras em Angra dos Reis até Parati. Naquela escritura completa constam dados muito interessantes, sua filha sendo incluída na dotação. Fica-se sem saber ao certo se a inclusão da filha no dote ao lado de outros “objetos” era simples ingenuidade dos dotadores, uso de época ou alívio por terem encontrado alguém para se casar com ela! (Arquivo Nacional Cartório do I Of. Livro 28 F.23).

Segundo Rudge (1985:43/s) o engenho Nossa Senhora da Cabeça teria sido fundado em 1590, pelos irmãos Gonçalo e Martim de Sá e doado para o pai, Salvador Correa de Sá. Com a morte deste, as terras seriam divididas, entre seus filhos, cabendo a Gonçalo o Engenho do Camorim em Jacarepaguá e a Martim de Sá o da Tijuca. A este é atribuída a fundação de três capelas de Nossa Senhora da Cabeça: uma na Matriz de São Sebastião (do Castelo), outra no engenho da Lagoa e a terceira em seu próprio engenho (da Tijuca), antes de 1633. Seu filho o Gal. Salvador Correa de Sá herdou o engenho e deste para o Morgado que instituiu para seu filho João Correa de Sá. Segue-se a crônica até 1703 na família.

De acordo com Paulo Basto Cesar (in “Capela de Nossa Senhora da Cabeça: pequena jóia do patrimônio cultural do Rio de Janeiro”, 2004: pag.05) Martim de Sá como governador da cidade (1623 a 1632) não só adquiriu terras por arrendamento na baixada de Jacarepaguá, como ali fundou um (outro) “Engenho de N. Senhora da Cabeça”, citando ser esta uma “hipótese que o registro fundiário não registra”. 

Monsenhor Pizarro em suas Memórias Históricas do Rio de Janeiro (Ed.1946, Volume II, nota 155) confirma ter sido a Capela fundada por Martim de Sá, que em seu testamento deixou renda anual para manutenção da Capela em 1633 (sem citar qual das três).   

Pesquisas mais recentes colocam em dúvida tanto o ano de fundação da Capela, quanto quem seria o responsável pela ereção da mesma. Basto Cesar em seu trabalho de 2004 cita uma pesquisa de Carlos Eduardo Barata que argumenta que a construção não poderia ser anterior a 1616 (op.cit:02). Além disso, que se situava em terras da sesmaria real do Engenho Del Rei, à meia encosta da Serra da Carioca e nas margens de um riacho que recebeu o mesmo nome.  Teria sido o segundo proprietário daquele engenho Sebastião Fagundes Varela que a mandou construir por saber ser aquela a devoção do Governador Martim de Sá. Como já vimos a ele também é atribuída a fundação da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa. Assim sendo, tal Capela não estaria vinculada a um segundo engenho e sim ao Engenho Nossa Senhora da Conceição, já estudado. 

Outro posicionamento é proposto pelo autor do texto disponibilizado na Internet, também documentado, no qual defende que Martim de Sá tanto ergueu onde está hoje a rua Faro, “um aqueduto de alvenaria cujas ruínas ainda existem” como também a Capela em questão. Ao que tudo indica “pretendia  Martim de Sá ali fundar um engenho de cana .... mas parece que algum tempo depois desinteressou-se por ele e o vendeu ao Varela” (pag.50)    

Em síntese, pois, no estado atual da questão, só se pode ter certeza da existência da Capela e que ela foi fundada nas primeiras décadas do século XVII. Mas permanecem dúvidas a que engenho estaria vinculada.

Outro Engenho também aparece na documentação cartorial.  Trata-se do  Engenho Santo Antonio ou Nossa Senhora do Rosário.

A crônica sobre a existência de um terceiro engenho na área da Lagoa é bastante confusa até meados do século XVII. Os documentos disponíveis permitem algumas conclusões, mas nem sempre seguras quanto às relações, ou seja, se são referentes a uma única fábrica ou se tratam de experiências diversas e isoladas. Aceitamos a hipótese de que se trata de uma (ou mais) fábrica diferenciada pelo fato de que a documentação cita transações entre pessoas também diferentes daquelas bem definidas como relacionadas aos engenhos anteriormente abordados.     

A primeira referência sobre pedidos de terras no lado atlântico da Lagoa é aquela de 1606, quando Manoel Pinto, ourives, pediu aforamento ao senado da Câmara 250 braças de terras e parte de um ribeiro onde acabava a medição do engenho de Martim de Sá na Lagoa. Explica que as terras aforadas situavam-se no caminho daquele engenho para a Cidade ao longo da dita lagoa. Arquivo da Cidade, Códice. 2-3-7 F.17. Documento que confirma a existência do Engenho de Martim de Sá em 1606.

Dez anos depois (1616) Francisco Caldas pediu terras á Câmara, para crescimento das plantações e pastos do engenho que ali estabelecera. Justificava seu pedido argumentando que possuía terras em "perpétuo fateozim” e que lhe sendo conveniente “fazer partidos de cana com alguns lavradores para mantimento do dito engenho pedia prorrogação para sua segurança na hora de fazer os contratos e eram coisas antigas, já dadas a Martim de Sá e Antonio Pacheco Calheiros". (Idem  F.47).

Este Antonio Pacheco Calheiros segundo Felisbelo Freire era pobre e vivia em uma cabana próxima ao Pão de Açúcar, logo não deve ter sido senhor de engenho, mas pode ter aumentado suas posses com terras. Mas existem outros documentos que parecem apontar para existência de mais um engenho fundado ou conhecido por este personagem. 

Assim, no ano de 1610 o “pobre” Antonio Pacheco Calheiros arrendava 600 braças de terra na Lagoa com 300 braças no caminho da Tijuca da base da Lagoa até a Gávea, por 120 réis o foro, para corte e repartição do (seu?) engenho “até a dita Gávia” entre terras de Diogo de Amorim e André Leão. Arquivo da Cidade, Códice 2-3-7 F.19.  Posteriormente pediria mais terras “entre o engenho até onde acaba a Lagoa para o mar”(Arquivo da Cidade, Códice 2-3-7 F.31, 43 e 44).

Em 1614 um engenho em Sacopenapã foi destruído pelos fiscais da Câmara, por irregular. Francisco Gomes comprara terras e benfeitorias a Antonio de Almeida dois anos antes e ali instalara um engenho "dos que agora se costumam de três paus de fazer açúcar”. Solicitava ao Senado da Câmara uso da terra “na dita sua fazenda pacificamente pagando foros na forma devida de seu arrendamento”, quando ali “foram os oficiais da Câmara ... e lhe derrubaram o dito engenho”. Pior ainda, lhe impuseram uma multa “de seis cruzados” e lhe proibiram refazer a fábrica e a usar, etc. Mas ele não desistiu, pediu uma nova concessão que o Senado da Câmara acabou concordando, pelo ágio de 2% das arrobas do açúcar que o engenho produzisse a cada ano. (Idem: Fs.72 e 79).

Um detalhe interessante desta escritura é a referência ao “engenho de três paus”. Tratava-se de uma inovação trazida do Vice-Reinado do Peru. As moendas desse engenho possuíam três roletes verticais para moer a cana, ao invés de duas horizontais como até então se usava e permitiam maior rendimento na extração do caldo da cana. Foi uma importante contribuição para a produção açucareira do país, trazida pelos comerciantes fluminenses denominados de “peruleiros” que se aproveitavam do fato das colônias ibéricas estarem sob administração de uma só coroa.  Não temos, no entanto, mais notícias dele. 

Em 1633 o engenho de Santo Antonio é citado pelo seu proprietário Francisco de Caldas, quando passou a Francisco Marequire “umas benfeitorias de cana de açúcar” no seu engenho da Lagoa. Arquivo da Cidade, Códice 42-3-55 F.84v. Em 1635 o mesmo Francisco de Marequire vendeu um partido de canas no mesmo engenho. Arquivo da Cidade Códice 42-3-55 (Doc.344 pag. orig.39).

Outra informação parece indicar a existência de um engenho diferenciado, em 1679, quando foi efetivada a venda das benfeitorias de um partido de canas que fez Fernão de Souza Medonho ao Capitão João Batista Jordão no Engenho da Praia deste mesmo Capitão, com casas de vivenda, senzalas e árvores de espinho. Arquivo Nacional, Cartório do I Ofício Livro 54 F.125

Um mapa de autoria de Maurício de Almeida publicado no trabalho citado localiza três Engenhos na Lagoa no Século XVII dois na sua margem interna (Nossa Senhora da Cabeça e Engenho a Lagoa e um na sua margem externa ou da restinga, de Sebastião Fagundes Varela).

Conclusão - Engenhos

Apesar das confusas questões colocadas pela documentação e suas interpretações, podemos concluir que pelo menos três engenhos prosperaram no entorno da Lagoa que viria a se chamar “Rodrigo de Freitas”. Com o parcelamento das propriedades iniciado no século XVIII e seu aceleramento no século seguinte, a região foi sendo cada vez mais povoada e conheceria uma história de valorização cada vez mais sensível. Em torno dela ou nos caminhos que a alcançavam se organizariam bairros que se tornariam famosos com o correr do tempo, desde Botafogo, a própria Lagoa, a Gávea e, sobretudo, Copacabana, Ipanema e Leblon.  

Do passado colonial as pesquisas arqueológicas ainda revelam muito pouco. Daí a importância das escavações desenvolvidas em função do acordo com a Rede globo na Rua Jardim Botânico e também das prospecções realizadas no entorno.

As pesquisas anteriores documentadas são escassas. Mas ao compararmos as descobertas agora efetivadas com os poucos dados disponíveis para as pesquisas anteriores será de nosso interesse efetuar o levantamento o mais completo possível desses dados e estabelecer as suas possíveis relações com o material agora – e por nós – exumados.

Os Caminhos de Acesso aos Engenhos da Lagoa

Deve-se destacar que alguns dos mais importantes bairros da cidade do Rio de Janeiro resultaram tanto da sua localização à beira dos caminhos que alcançavam as principais propriedades produtivas do período colonial (os Engenhos) quanto do processo de parcelamento de suas terras nos séculos XIX/XX. Entre estes, o bairro da Lagoa.

Vieira Fazenda explica que o primitivo caminho para alcançá-la se fazia contornando-se o “morro do Secretário”, ou “caminho do Pasmão”, atual Rua da Passagem, dali à rua Berquó (atual General Polidoro). Com o uso, a parte final desta via ficou inutilizada com o passar do tempo, e as pessoas passaram a se valer do caminho de São Clemente, cruzando a propriedade do Padre Dr. Clemente Martins de Mattos. 

Vieira Fazenda relata como curiosidade o fato de que na beira da lagoa havia uma “Pedra Santa”, inclinada em direção ao caminho e que o príncipe D. João tinha medo de passar por baixo dela.

Assim, para contorná-la o Rei pegava antes uma galeota na “praia da Piaçaba” (o porto já citado) e, por via marítima, chegava à Fábrica de Pólvora e depois ao Jardim Botânico. 

Este quadro de 1850 provavelmente represente esta pedra que se lançava sobre a Lagoa. Somos mesmo tentados a pensar se não seria de um barco igual ao da imagem que se valia o rei. Também devem se referir a mesma rocha os desenhos de Henry Buttler (Figura10, de 1835) e de C. Dunlop de 1825 (Figura 11). Sem dúvida este acidente geográfico marcou durante muito tempo a topografia local e se constituiu ponto de referência e de interesse até mesmo para os artistas que o registraram, ainda que da mesma não tenha restado nem sequer lembrança do local.

 Foto - legenda:  Figura 10 - figura 11

Figura 08 – Rua São Clemente em 1819 (Chamberlain). Figura 09 – Robert Streafield (1850) Figuras 10 e 11

Também desapareceu o topônimo “praia da piaçaba” que, conforme já comentamos, marcava o local de um antigo porto de acesso à uma hipotética aldeia indígena da área. Esta designação (“piaçaba” ou “piaçava”) era comum na época da conquista, sempre indicando o porto, fluvial, lacustre ou marítimo, de uma aldeia indígena.  Deste topônimo existe material iconográfico, sendo de interesse registrar que o lugar preservou seu nome na Praça que nos anos 60´s do século passado foi alargado para acesso ao Túnel Rebouças.

Figura 12 (Chácara da Bica e Praia da Piaçaba em 1892 - Marc Ferrez)  Figura 13 (Praia da Piaçaba em 1940 onde se daria a abertura do túnel Rebouças, fotografada por Aristógeno Malta). Figura 14 - Foto de Marc Ferrez, “Forte da Piaçaba”, em 1899 no final da Rua de São Clemente (“Garganta do Humaitá”). Ao fundo, a Pedra da Gávea.

Esta documentação é de todo interessante porque remete a outras considerações, que embora nos afastem provisoriamente dos caminhos de acesso, merecem alguns comentários.

O primeiro se refere ao forte, localizado num ponto estratégico de acesso à Lagoa, onde hoje se situa o largo do Humaitá e embora atualmente se denomine como um “largo” outrora foi considerado uma “garganta”, ponto mais viável de ser fortificado e que Marc Ferrez documentou fotograficamente para nós (Fig.14). 

Naquele ponto, portanto, existiam passagens fortificadas para dificultar o acesso à cidade, por qualquer invasor. Isto explica o documento de 31 de agosto de 1841 pelo qual o Senado da Câmara pedia autorização ao ministério do Império para cortar as muralhas dos fortes que existiam no caminho a fim de alargar-se a estrada que ia ao Jardim Botânico. Na época o local estava tão estreito que não dava passagem a duas seges juntas  Pode-se considerar que na época da foto a passagem já havia sido alargada (Nota 01).

Segundo o que nos informa Niememeyer de Lavôr (1983: pag.67) aquele forte também se chamava de “São Clemente” e mereceu, inclusive, que fosse desenhado um dos seus arcos, ainda no século XIX, reproduzido abaixo  (Nota 02).  

 

Na próxima imagem, ainda que o trecho retratado provavelmente não seja o local do forte, é interessante visualizarmos uma “sege” próxima a um portão, talvez o mesmo da própria chácara do padre Martins de Matos. Este veículo era normalmente conduzido por um cavaleiro montado em um dos animais e constituía um meio de locomoção urbano muito usado (uma espécie de taxi da época).

Figura 16–O corcovado visto de São clemente em 1836, segundo desenho de Augusto Earle. Mais uma vez pode-se discernir ao fundo a Pedra da Gávea e mais próximo o Corcovado, tema que também atraiu muitos artistas.

 

Este quadro de Karl Robert (Barão de Planitz) de 1834 registra a área onde se localizava o “Forte de São Clemente” destacando-se a monocromia em sépia. Por outro lado aparentemente não focaliza qualquer acidente que se aproxime de uma garganta fortificada.

Figura 17 – 1834 – Barão de Planitz – Forte de São Clemente

O segundo comentário  se refere à própria praia e à “ilha” que outrora existiu na área e que abrigou tanto uma chácara quanto um solar que fez história pela sua excentricidade, hoje praticamente esquecido.

Trata-se do “Solar Monjope”, construído em 1928 por José Mariano Carneiro da Cunha. Construção eclética, misturando estilos e influências, mas basicamente neo-colonial, foi também demolido na década de setenta do século findo, em local de uma das mais antigas chácaras da região, a “chácara de Bica”.  Na época surgiu polêmica pelo fato do arquiteto Lucio Costa não ter apoiado a indicação para seu tombamento federal, apesar de recomendá-lo em âmbito estadual.

Figura 18 Figura 19

 Naquele lugar, no trecho litorâneo da Lagoa, um promontório avançava pelas águas e era então denominado de “Pedras do Pinto”.  A crônica da área remonta à época em que se estabeleceu uma chácara pertencente à família Pinto Monteiro, nas primeiras décadas do século XIX. Inicialmente foi registrada como número 61, como propriedade arrendada à Fazenda Nacional e por volta de 1838 recebeu a denominação de sítio 61 e posteriormente de chácara 03. Vendida na mesma década para Benedito Antonio Duarte, da escritura consta que possuía casa, terreno e arvoredos. Este a venderia em 1853 ao comendador Carvalho Ribeiro (Francisco Antônio). Este ao se casar com uma filha da grande proprietária local (que deu seu nome à rua) Dona Castorina, mandou erguer um vistoso palacete. (Nota 03).

Foi no lugar deste palacete que José Mariano Carneiro da Cunha ergueu o Solar Monjope. As terras das chácaras foram loteadas ao longo do século XX, abertas inúmeras novas vias, em especial as transversais, no sentido serra/lagoa. Numa delas, a Rua Sucupira, veio a residir um dos maiores caricaturistas brasileiros “J.Carlos” (José Carlos de Brito e Cunha). Sua casa ficava na esquina da rua Sucupira com a Jardim Botânico e em sua homenagem, a primeira passou a denominar-se Rua J.Carlos. (Nota 04).

 

Figura 20

De acordo com a legenda que acompanha aquela foto, cuja fonte é a mesma da nota 04, a ponta arborizada que avança do litoral para o interior da lagoa no lado direito da imagem é o lugar onde seria erigido o Solar Monjope.  E, nela aparentemente figure, também, do lado esquerdo a “Pedra Santa”.   Talvez seja imaginação demais, mas até parece que as duas figuras femininas que se encontram na base da pedra, praticavam algum tipo de “calundu” ou cerimônia do candomblé. Mas provavelmente seja só um logro da nossa imaginação.

Voltando às Vias de Acesso:  

Uma das perspectivas a respeito do acesso à área nos é fornecida por um site do governo do Rio de Janeiro  que  simplifica bastante o complexo viário (Nota 05). Segundo ele o acesso inicial era feito por canoas e por um “precário caminho” que corria pelo sopé do morro do Corcovado e alcançava o rio Cabeça. Esta via era conhecida como Rua do Oliveira. Segundo fonte complementar este nome se referia a uma dona de venda do local e não à família Oliveira Castro de dona Castorina da Chácara dos Macacos (Nota 06). O mais antigo aterro da área teria sido providenciado pelo Comendador Carvalho, dono da nossa conhecida Chácara da Bica. Depois de calçado este caminho seria transformado na Rua Jardim Botânico, onde em 1871 chegariam os bondes de tração animal.

As ilustrações abaixo, embora algo mais recentes nos mostram um trecho daquela rua em frente ao Jardim botânico, com um bonde (elétrico) à distância.

Figura 21 - foto de Marc Ferrez, 1880 Figura 22 - desenho colorido de Eduardo Camões (2000).

Brasil Gerson (2000: 282/s) narra, com mais detalhes, que o mais antigo caminho pela região teria sido aquele fundado pelo Governador Salema, que saía da cidade já no morro do Castelo e cruzando uma ponte sobre o rio da Carioca (hoje na praça José de Alencar) se dirigia para a área da Lagoa, onde fundaria um engenho em nome do Rei. Era o Caminho Velho. Este caminho era cortado por mais dois rios. Um chamado “Banana Podre”, que corre por detrás das atuais ruas Marques de Olinda e São Clemente e o outro chamado “Berquó”, cortando mais de uma vez o traçado da atual rua General Polidoro. 

Fala ainda em outros caminhos, algo confusos: O segundo seria o “Caminho Novo”, pela atual rua Marques de Abrantes.  A eles se somaria o “Caminho da Praia” e o do “Berquó” (ou General Polidoro).

Ele relata que a região do Botafogo pertencia à antiga Fazenda do padre  Clemente Martins de Mattos que se estendia do litoral “até quase a Lagoa Rodrigo de Freitas” e que durante muito tempo era uma área rural. As chácaras foram se desmembrando desta antiga propriedade. Mas antes do padre, outros já haviam se aventurado pela área, em especial por Antonio Francisco Velho, mordomo da Confraria de São Sebastião, ainda na época da conquista e mesmo antes da fundação da cidade no morro do Castelo. Ele foi sucedido em sua empreitada pelo “lugar-tenente do Governador” Antonio Salema, João de Souza Pereira Botafogo (bem mais tarde seus descendentes seriam os últimos senhores do Engenho da Rainha em Inhaúma). Assim, a “Enseada de Francisco Velho” passaria a ser conhecida como a “Enseada de Botafogo”. E, vale registrar também, que o primitivo nome da praia foi “do Sapateiro”, situada após a “Praia do Flamengo” porque ali morara um holandês.

Depois do Clemente Pereira a chácara passaria para o vigário geral Dr. Antonio Rodrigues de Miranda. Sabemos também que o Dr. Clemente, além de religioso e advogado, foi um dos que experimentou plantar e beneficiar anil em sua propriedade, com relativo êxito, mas sem continuidade (Vide nota 07).

Segundo Gerson, uma olaria e duas grandes chácaras foram desmembradas da Fazenda do Vigário Geral. A Olaria no rumo de Copacabana e as chácaras denominadas “do Outeiro” e “do Matias, ou do Pasmado”. Os proprietários da Olaria teriam sido os primeiros a se interessar em modernizar a região.

Um documento de arrendamento de uma Olaria na Praia de Botafogo de 1720, celebrado entre dois particulares, menciona a existência de uma vivenda de sobrado de pedra e cal; que situava-se em terras próprias, tinha nove bois e um carro de serviço e que o “comprador” podia cortar lenhas nas  terras (Nota 08).

Importante o fato de que Gerson afirma que a Igreja de S. João Batista da Lagoa (pag. 283) foi sediada na Rua Nova de São Joaquim, ou Voluntários da Pátria. Ali passou a sediar a matriz da Paróquia criada em 1809 e até então assentada na “Capela de N.Sra da Conceição” do engenho do mesmo nome na Lagoa (Lagoa I).

Ainda segundo o mesmo autor aquela fábrica  agregaria outros engenhos e mais terras, que se estenderia da piaçava (porto) da Lagoa, à Rua Marques de São Vicente até o mar, entre a igrejinha de Copacabana e a Avenida Niemeyer.

Complementando a informação, consta no site do governo do estado já discutido, que em direção à Lagoa, além botafogo, as chácaras se multiplicavam (aliás como comentamos no texto inicial). A da Bica pertenceu a Jerônimo Ferreira Braga e a de N.Sra da Cabeça a Luiz Faro, sendo que a mais importante, segundo ele, foi aquela de propriedade do comendador Antonio Martins Lage.

Esta propriedade passaria para Henrique Lage, ocupando amplo terreno, onde foi erguido palacete em estilo inglês, cercado de jardins e plantações ornamentais segundo projeto do paisagista Tindale. Após uma longa disputa legal, a Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico da Guanabara, por total empenho do seu diretor, prof. Marcelo Ipanema, conseguiu o tombamento do prédio e dos terrenos no governo Carlos Lacerda em 1965. Ali ficou sediada a Escola de Artes Visuais em amplo parque que atinge a encosta do Corcovado. Valeu a briga! Pois ao invés de termos no local mais um dos grandes e luxuosos edifícios da Zona Sul, privilégio de alguns poucos particulares, dispomos hoje de um amplo parque de uso público.

Figura 23 Figura 24

As gravuras acima são de autoria de Nicolau Facchinetti do ano de 1879.

Ambas retratam chácaras e certamente a de número 24 é a de N.Sra da Cabeça, com sua igrejinha à meia encosta das montanhas da Carioca e a lagoa a pequena distância. A outra foi identificada pelo artista como a “Quinta do Callao”, que encontraremos mais adiante.

Os dois quadros abaixo focalizam, ambos, a “Chácara da Cabeça” com cerca de dez anos de diferença. O primeiro de 1816 e o segundo de 1825. Aquele tendo como foco a capelinha e este a residência, de forma que ambos em conjunto transmitem uma boa idéia e imagem daquela propriedade (Ver também iconografia, Thomas Ender, figura catálogo 03).

Figura 25 – 1816 – Charits & Clarac Figura 26 – J.B.Debret

Na Chácara da Cabeça, a Capelinha fundada por Martins de Sá foi restaurada em 1856. Até aquela fase era ela atingida por uma via que partia da rua D.Castorina e não da Rua Jardim Botânico. Na chácara da Cabeça se encontra hoje (ainda?) a Casa Maternal Melo Matos.

A Fábrica de Pólvora

Com a vinda da família real para o Brasil e a ocupação francesa da Península Ibérica criou-se o temor de um ataque da frota napoleônica ao Brasil, medo em parte diminuído pela presença britânica. O soberano, no entanto, procurou preparar-se para qualquer emergência, reforçando o material bélico disponível e uma das primeiras providências foi a de instalar uma fábrica de pólvora na sede do Reino. Ao procurar D.João um local apropriado para instalar aquela fábrica, foi a várzea da Lagoa que agradou aos assessores. Era sua proprietária a filha do Rodrigo de Freitas, D. Maria Leonor, moradora em Lisboa e que alugara o engenho ao Capitão Domingos de Miranda por 800$000 ao ano. Somavam-se ao aluguel seis arrobas de açúcar postas em sua porta naquela cidade, mais as obrigações normais de um contrato e a conservação da Capela de N. Sra da Cabeça (op.cit: 306).       

Teria sido o estabelecimento daquela fábrica e, posteriormente do Jardim Botânico que se deu maior desenvolvimento à ocupação da região.

O decreto de criação da fábrica de Pólvora foi datado de 13 de julho de 1808 e nele era justificada a escolha do local por ser o “lugar mais próprio para esses grandes estabelecimentos”.  Previa a instalação de uma fábrica para fundição, forneação e perfuração de peças de artilharia e também o ressarcimento pelas desapropriações necessárias. Da mesma data é o decreto que tomava posse das terras do engenho. Segundo a fonte consultada (vide nota 02) aquela fábrica funcionou até 1826, quando foi transferida para a “Fábrica da Estrela”, em Inhomirim (Nota 09).

Como foram encontradas resistências por parte dos moradores da área, em 1811 foi baixado novo Decreto nomeando os principais moradores e lavradores da área. Nele são citados o Coronel José Joaquim de Lima e Silva (na vargem do Rio Branco) antigo partideiro do engenho da Lagoa; o lavrador Francisco Soares, grande proprietário; o lavrador João Valladão, senhor da área por onde passava o caminho de acesso e o lavrador João Guedes. Seguia-lhes a chácara de Dona Catharina Daurique, necessária para moradia dos empregados da fábrica; mais algumas pequenas chácaras e se previa a aquisição de terrenos propícios para nelas serem alocados trabalhadores. Estas ficavam situadas nas proximidades dos laboratórios da pólvora. Também se previa a aquisição de terrenos para estabelecimento da fábrica de canos de espingarda, segundo os planos do presidente e diretor da fábrica, tenente general Carlos Antonio Napion.

No conjunto da fábrica de pólvora se incluía o prédio do antigo engenho de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa. Este prédio abaixo ilustrado é tido como construído em 1576 (sem dúvida é mais recente), foi restaurado em 1992 e nele instalado o Centro de Visitantes do Jardim Botânico.

Ali foi estabelecida a residência do tenente general Napion.  Também fazia parte do conjunto a Fábrica de Pólvora, propriamente dita, restando dela muros de pedra e a portada de arco abatido, encimado pelo coroa portuguesa. Ali se misturava o salitre importado, o carvão e o enxofre nas proporções certas para produção da pólvora.

Figura 27
Figura 28 Figura 29 - Casa dos Pilões

A Casa dos Pilões era o local onde se moía o carvão. Serviu, a seu tempo, de residência para o naturalista João Kuhlmann e hoje abriga o Museu que o homenageia. A elas se somavam as instalações da Casa do Salitre, agora desaparecida, onde se guardava o salitre importado. Ficava situada no trecho da atual Rua Major Vaz. Nela se instalaria o Asilo Agrícola, em 1867. Este Asilo seria transferido em 1874 para a antiga Fazenda do Macaco, de dona Castorina e dez anos depois seria inaugurado novo prédio no mesmo local.

Segundo as fontes consultadas, a Casa do Salitre ficava situada na Rua Jardim Botânico, número 42. Seria destruída para a abertura da já citada Rua Major Vaz na primeira década do século XX.   

E o Jardim Botânico

A criação do Horto se fez na mesma época da fábrica de pólvora, inicialmente um Jardim de Aclimatação de plantas, próximo ao prédio do antigo engenho. Seria em seguida transformado em Real Horto e depois em Real Jardim Botânico. Entre as plantas preservadas e as exóticas, transplantadas, figurou o chá oriundo da China.  

É interessante destacar que embora não tenha dado certo tal plantio – pelo menos nas medidas esperadas –, a migração de chineses para o Rio de Janeiro constituiu a primeira leva de colonos estrangeiros (claro que sem contar os portugueses) trazidos para a agricultura no Brasil. Eles se espalhariam pela cidade (onde até o século XX se podia encontrar casas de ópio) e pelo recôncavo da cidade, onde – inclusive – constituíram família (nota 10).

Figura 30 – Chineses plantando chá no Jardim Botânico (publicado em 1835). J.M.Rugendas Figura 31. 1840. De Bertichen, Pieter Godfred

Nesta conhecida estampa de Rugendas pode-se ver as atividades do plantio com a lagoa ao fundo. Aparentemente poucos eram na verdade os que conheciam o plantio de chá entre os chineses. A maioria preferia fumar ópio e consta que gostavam de fazê-lo no alto da Tijuca, onde estavam acantonados. Como naquele local permaneciam acocorados e quietos, “apreciando a paisagem”, o povo começou a chamar o lugar de “Vista chinesa” nome sacramentado em 1906 pelo Prefeito Carlos Sampaio que ali construiu um quiosque que existe até hoje. Segundo nossa fonte, teria sido a primeira “boca de fumo” da cidade... (Nota 11

Nesta outra visão, posterior, de Bertichen ficou preservado o hábito da visita ao Jardim que se transformou em um dos locais preferidos da sociedade carioca.

Também se tornou conhecido (e bastante divulgado), o plantio de palmeiras exóticas, incluindo as “reais” e depois “imperiais” que se tornaram características do Jardim e que ornariam doravante as aléias de acesso às residências e mansões da aristocracia fluminense.

A crônica a respeito da origem dessas palmeiras é também interessante. Segundo consta, teria sido o militar Luiz de Abreu Vieira que ficara prisioneiro das tropas francesas após ter naufragado seu navio nas proximidades de Goa. Uma vez libertado pelos ingleses na Ilha Maurícia, veio para o Brasil, trazendo uma série de sementes e mudas, incluindo desde frutas como a “Lechia”, a especiarias, como a noz moscada e o cravo da Índia. Entre outras, as palmeiras, a primeira ser plantada pelo soberano. A elas se somaram outras plantas exóticas oriundas da dominação portuguesa de Caiena.

foto de Juan Gutierrez de 1892 foto de Juan Gutierrez de 1892

As fotos acima retratam as aléias de palmeiras “imperiais” do Jardim Botânico. Mas seu emprego também se alastrou pelas casas senhoriais do interior fluminense em especial pelos palacetes dos subúrbios e do recôncavo da Guanabara. 

Figuras 34 e 35 – ruínas de Fazenda em 1940, em Piedade do Iguaçu.

Horto Botânico

Em terras do entorno do Jardim Botânico uma comunidade numerosa se fixou em função da localização de vilas operárias estabelecidas pelas fábricas que se desenvolveram na área da Lagoa a partir das décadas finais do século XIX e iniciais do século seguinte. A elas dedicaremos atenção adiante.

O fato é que tal comunidade resistiu a todas as tentativas de remoção após o término da operação das indústrias e hoje se organizou a ponto de estabelecer um Museu do Horto, produzindo uma quantidade considerável de sites na Internet, efetivando passeios turísticos e visitas guiadas às imediações. Em resultado vêm tornando conhecidas as belezas naturais do lugar e também as ruínas que permaneceram das antigas chácaras que ocuparam a região.

De acordo com o “Laudo de Vistoria dos Bens Imóveis Tombados pelo IPHAN”, referente ao Jardim Botânico, nos quais se inclui o Horto, seu estado de conservação é bom, em grande parte devido à presença da já citada comunidade que zela por sua existência. Historiando a evolução do horto, explica que existiam 59 chácaras no terreno do antigo engenho de N.Sra da Conceição, desapropriado para instalação do Jardim Botânico. Uma delas, a chácara dos Macacos, já nossa conhecida, era então de propriedade do Sr. Manuel Rocha Vieira. Ela seria adquirida pelo padre Domingos Porto que foi comprando terras e construções vizinhas e aumentando sua propriedade, nela incluindo a Casa do Salitre, tornando-a a maior de toda a área.

Objetivando melhorar o abastecimento d’água para a cidade, aproveitando o manancial do rio dos Macacos que a atravessa,  o governo do Império a desapropriou em 1872, aumentando também a área do Jardim Botânico. Na sua sede seria instalado em 1884 o Asilo Agrícola e com a república, correndo sua desmobilização, foi passada ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Seguem-se mudanças administrativas, como a efetivação do Horto como unidade autônoma em 1911 e sua junção ao Jardim Botânico em 1942, condição em que foi tombado.

O “Solar da Imperatriz”

O prédio da Chácara ou Fazenda, sede do Horto, é hoje conhecido como “Solar da Imperatriz”, mas não deve ser confundida com outra propriedade homônima (Fazenda dos Macacos), presenteada pelo nosso primeiro imperador à sua segunda esposa em 1829 e que se localizava na vila Isabel. A do Horto teria sido fundada em 1750 e foi nela que se instalou o Abrigo citado em 1884; a sede do Museu florestal em 1909 e um Laboratório de Botânica em 1927. Foi finalmente tombada em 1973, recebendo, então, esta denominação oficial e abrigando a sede do Horto (Nota 12).

 Solar da Imperatriz – vista atual  Solar da Imperatriz – vista atual

Nas fotos atuais acima se pode avaliar as características da construção e observar-se os resultados das intervenções que, sem dúvida, sofreu ao longo dos anos, em especial as “modernizações” sobre o prédio do século XVIII. Aceitando-se como base de raciocínio, no entanto, a época atribuída à sua fundação em 1750.   

Ruínas de Uma Casa Grande e Senzala

Dentro do terreno do Horto os moradores locais descobriram há tempos restos de estruturas antigas, algumas delas incorporadas às residências modernas, em especial no “morro das Margaridas”. 

Segundo a fonte adiante consultada, a pesquisa foi efetivada pelos moradores locais, com a ajuda de uma profissional identificada, Profa. Denise Pini Rosalém da Fonseca arquiteta e doutora em História pela USP. Segundo o relato trata-se de uma estrutura em forma de “U” com um corredor (de “pau a pique” segundo relatos de moradores antigos) que unia duas construções. Ambas deviam ser esmeradas, com paredes espessas em taipa de pilão, das quais restam evidências. No fundo do quintal, ou terreiro, os restos preservados provavelmente estivessem relacionados a “criadouros de animais domésticos”. A casa principal teria uma escadaria e varanda com a fachada voltada para frente da Ladeira das Margaridas e era edificada sobre uma elevação de terreno. Numa das fachadas sobreviventes foram registrados marcas de janelas e um porão “que não mais existe”.  Outras partes da construção também estariam em nível mais elevado do que o da rua. O texto explica também que “no complexo arquitetônico do Morro das Margaridas observamos construções adjacentes que podem ter abrigado antigas senzalas”. Faltam os dados relativos às dimensões.

A autora do texto conclui que “juntando as informações não foi difícil deduzir que tínhamos no acervo do Museu do Horto um exemplar típico de Casa Grande de engenho colonial de açúcar” (Laura Oliveri, historiadora).

A associação ao velho engenho Nossa Senhora da Conceição, expressa no início do texto, não é descabida, ainda que colida com a afirmação sempre repetida de que esta sede, construída em 1576, se encontra de pé até hoje no Jardim Botânico, usada como centro de visitantes (Vide foto atual, catálogo 06) e Nota 13.

De qualquer forma existem, portanto, duas velhas casas senhoriais no interior da área do Jardim Botânico, ambas associadas pelos pesquisadores à sede de engenhos, “casas grandes” que resistiram bem ou mal ao passar dos séculos. A elas se somam as construções residenciais das chácaras que os substituíram. Restos relacionados às senzalas também são mostrados aos interessados em visitas guiadas, tudo em conjunto colaborando para manter viva e atuante a tradição local.

A “Chácara do Algodão”

Segundo os dados disponíveis, ainda nos terrenos do Jardim Botânico se localizavam outras chácaras de importância para a crônica da ocupação local. Entre elas a chamada “Chácara do Algodão”, cujo nome seria originado do plantio de algodoeiros na área, atividade compartilhada por algumas delas. Não encontramos, ainda, efetiva documentação que comprove esta assertiva, em especial pelas dificuldades impostas sempre pela coroa portuguesa para a existência de fiação e tecelagem no Brasil colonial. Somente panos grosseiros podiam ser aqui produzidos, roupas de escravos em manufaturas domésticas.

Ainda em 1785 é conhecida a ordem régia de D.Maria I de proibir a existência de teares no país. Sem dúvida que esta ordem só existiu pelo fato deles efetivamente estarem em uso na colônia, logo não se discute sua existência. O que se pode colocar é a dificuldade para existência de um mercado interno que incentivasse a produção e o beneficiamento do algodão, a ponto de termos chácaras desenvolvendo seu plantio de alguma forma lucrativa. A não ser, evidentemente, nos últimos anos do século XVIII e a primeira década do século seguinte, no máximo num período inferior a vinte anos, tendo por base a desapropriação régia para implantação de fábrica de pólvora em1808.

Bom isto, agora, realmente não importa. O que vale considerar é que uma das chácaras locais assim se denominava e que nela se instalaria justamente uma fábrica de tecidos, conforme abordaremos mais à frente. Esta primeira fábrica, aparentemente pouco funcionou. Somente anos mais tarde se instalaria na área outra fábrica, logo seguida de uma concorrente, que trariam, estas sim, conseqüências até certo ponto inesperadas para o padrão de vida local, alterando as características agrícolas predominantes até então, com o predomínio de uma ocupação esparsa, grandes e largas propriedades e baixa densidade demográfica. Tudo isto se alteraria até mesmo de forma radical, trazendo em seu bojo novas modalidades de comportamento e de organização social. Era a revolução industrial (tardia) que se fazia anunciar.

Fábrica de Tecidos

Um aspecto, no entanto, relativo à uma fábrica de tecidos mandada fazer pelo príncipe regente em ocasião próxima da fábrica de pólvora tem sido pouco estudado, ou senão, pelo menos, muito pouco difundido. Tal fábrica estabelecida em data incerta mereceu da Junta de Comércio (Agricultura, Fábricas e Navegação) um aviso régio pelo qual eram expostas ao Príncipe Regente D. Pedro razões para que fosse posta a venda ou “em promoção a uma sociedade”.  O texto claramente se refere à “Fabrica de Fiação estabelecida no sítio da Lagoa Rodrigo de Freitas e a chácara onde ela se situa”. 

Entre os argumentos foram numeradas as despesas da fábrica assumidas pela Junta e que poderiam ser direcionadas para outros fins mais urgentes, em abril de 1821.

Em setembro do mesmo ano foram inventariados os bens da mesma fábrica, interessantes para qualquer pesquisador que se dedique ao tema, incluindo os valores de cada item, prédios, despesas e demais bens.

Não se pode relacionar com segurança as ruínas estudadas acima a esta manufatura, mas sem dúvida esta pesquisa pode merecer estudo aprofundado no futuro por qualquer interessado se é que já não o foi, sem chegar ao nosso conhecimento (nota 14).

Mas em síntese, ao longo do tempo, enquanto o bairro e a cidade cresciam à sua volta o Jardim Botânico perpetuou-se com um local de lazer, de encantamento e também de pesquisas cientificas, constituindo-se marco importante e caracterizador da cidade maravilhosa.

A fonte da Saudade

Mudando agora o enfoque: Tratemos um pouco daquela fonte que ocupou também espaço no imaginário local: a “Fonte da Saudade”.

Segundo a opinião de alguns autores, naquele local teria ficado situado também um dos pequenos engenhos periféricos já analisados por nós.

Não há, no entanto, qualquer certeza, por exemplo, que aquela petição de Francisco Gomes de 1614 (depois negada pela Câmara cujos representantes derrubaram seu engenho) dissesse respeito ao lugar, como insinua Melo Morais (Nota 15).  Já o engenho de Francisco Caldas, conforme já vimos, pode ter se localizado nas vizinhanças, em especial pela proximidade maior do litoral.

Como também já discorremos, na área fora estabelecida pelo menos uma bateria do Forte de São Clemente, na atual rua Bogari, mandado erguer em 1786 pelo Vice-Rei D. Luiz de Vasconcelos e sob a responsabilidade do engenheiro Jean Jacques Funck.  Paredões do antigo forte teriam subsistido até recentemente, destruídos para construções modernas. 

Haveria ali uma fonte de água, descoberta ou utilizada após a perda de importância da fortificação e li passaram a se reunir lavadeiras portuguesas que serviam aos poderosos do lugar e que cantavam seus fados, saudosas de “sua santa terrinha distante”.  Em lembrança delas a fonte passaria a se chamar “da Saudade”.

Delas conhecemos desenhos ainda do inicio do século XIX e fotos ao longo do tempo, das quais selecionamos algumas.

Figura 38 - Fonte da Saudade – Lagoa Rodrigo de Freitas – Maria Grahan - 1820´s Figura 39 - Lagoa Rodrigo de Freitas com a Fonte da Saudade em 1890 - Ferrez, Marc Figura 40 - Fonte da Saudade, em 1871  Autor: Camões, Eduardo 


O crescimento urbano

Segundo dados do Arquivo Noronha Santos, hoje integrante do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, na Lagoa em 1909 existiam 3.954 prédios com uma população de 36.054 habitantes e 507 casas comerciais.

Antes disso, no entanto, e durante grande parte do século XIX a ocupação do entorno da Lagoa era esparsa, fosse pelo tipo de economia dominante (engenhos e seus satélites, os partidos, e as chácaras que  os sucederam), fosse pelas péssimas condições de salubridade do lugar. A população de maior poder aquisitivo dava preferência aos bairros mais próximos da cidade e melhor aquinhoados, como Botafogo e Glória.

Alguns fatores contribuíram para o crescimento urbano de toda esta região, a partir de então.

Primeiro deles: As Comunicações.

Os meios de transporte da época ainda eram os carros de bois, para serviços pesados, o cavalo para uso pessoal, o coche para os ricos e as caleches e seges, de uso comum.

Figuras 41  o carro de boi Figura 42 - a caleche Figura 43 - a sege

Mas à medida que se desenvolviam as atividades militares e depois cientificas no Jardim Botânico, com o início das perspectivas de lazer daquele parque e a mão de obra necessária para seu funcionamento,  começaram os empreendimentos que redundaram em melhorias graduais para o lugar. Inicialmente, e desde 1837, um francês, de nome Jean Lecoq, instalou uma linha de “Ônibus” (carroças fechadas com assentos para algumas pessoas), puxadas a cavalo na cidade, que atendia também a viagens extraordinárias até o Jardim, via Botafogo. Mais tarde este seria o ponto inicial da última linha deste tipo de transporte, em 1868, que chegava até a atual Praça Santos Dumont.

Em 1865 uma companhia de “Gôndolas” menores e mais rápidas do que os “Onibus” fora criada atendendo o mesmo itinerário e em 1854 uma linha de “Diligências” ligava o centro comercial da cidade ao Jardim Botânico.

Imagem Catálogos 44 - A gôndola fluminense Imagem Catálogo 45 - uma diligência da Estrada União Indústria

Dois anos depois foi dada a concessão para exploração de uma linha de Bonde, passada para o empreendedor Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de Mauá que também a transferiu  em 1868 ao engenheiro norte-americano Charles Greenough, que, enfim, estabeleceu a Companhia “Botanical Garden Rail Road”. Seria ela nacionalizada em 1883 e funcionou até 1963, quando foi extinta no governo Carlos Lacerda.

Figura 46 - Bonde Bonde burros - o último que circulou no Rio de Janeiro rural já no século XX

Esta linha de bonde favoreceu a ocupação do lugar e se constitui num dos elementos de base para o seu desenvolvimento.

As melhorias Sanitárias

O segundo elemento que contribuiu para o mesmo fim pode ser considerado a gradual higienização do lugar. De fato se fazia muito pouco, a não ser esporádicas limpezas por conta da prefeitura da cidade. Além de tudo o trabalho era empírico sem pesquisas maiores ou investimentos de vulto. Os primeiros estudos foram desenvolvidos em 1880 pelo Barão de Tefé que pretendia remover as águas por meio de bombas acionadas por moinhos de vento, mas em nada resultaram de positivo suas pretensões. Em 1896 um passo mais sério foi dado com a criação – por parte da Prefeitura do Distrito Federal – da “Companhia de Melhoramentos da Lagoa e Botafogo”, sem que nada de mais positivo fosse realmente feito.    

Existem documentos referentes a aterros localizados nas primeiras décadas do século XX, fotografados por Malta. Mas seria somente a partir de 1920-22, durante o governo do Prefeito Carlos Sampaio, que foram então realizadas obras de saneamento, com a execução de diversos aterros nas margens, canalização dos rios, ressecamento dos alagados e de áreas pantanosas. Foi também retificado o canal de ligação com o oceano, o Jardim de Alá e foram criadas duas ilhas artificiais para regularização das correntes (Caiçaras e Piraquê). Segundo a fonte principal dessas  informações, a lagoa passou a ter água salobra “já que antes era doce” (Nota 16).

Os aterros de 22 atenderam também às perspectivas de renovação da cidade, objetivando as exposições comemorativas do centenário da independência e a Exposição Internacional. Nesta época a Avenida Epitácio Pessoa circundava toda a Lagoa, que há poucos anos antes ainda atingia as proximidades do Largo do Humaitá até a Marques de São Vicente.

Figura 48 - Autoria de Augusto Malta, retratando os aterros em 1910 e 1919, a segunda na área da curva do Calombo. Figura 49 - Autoria de Augusto Malta, retratando os aterros em 1910 e 1919, a segunda na área da curva do Calombo.

 

Figura 50 -  Autoria de Augusto Malta, fixando os trabalhos da década de 20. Figura 51 -  Autoria de Augusto Malta, fixando os trabalhos da década de 20.

Segundo os dados disponíveis em diversas fontes, o espelho d’água atual seria de não mais de dois terços do original, antes dos aterros. Teriam sido aterrados 1.350.800 m2, com mais de 5 milhões de metros cúbicos de terra.

Figura 52 - Augusto Malta, focalizando os aterros dos anos 1920´s. Figura 53 - Augusto Malta, focalizando os aterros dos anos 1920´s.

Com  a urbanização e higienização sucederam-se os loteamentos das antigas chácaras, com a abertura de novas ruas, a construção de novas residências de alto gabarito e, finalmente, a ereção de prédios de luxo por toda a orla. Mas, paralelamente também se instalava no novo bairro e nova paróquia (a da Lagoa, em 1936, de Santa Maria Margarida) uma série de favelas, das quais algumas ficaram famosas no Rio de Janeiro.    

Atualmente se considera que a área recuperada atinge 204.000m2. E desde 25.04.1953 Portaria da Prefeitura proíbe novos aterros na Lagoa (D.O.U. daquela data, Pag.1, Seção 2). Por seu lado, o Conselho do Patrimônio Histórico da Cidade tombou em 1988 o espelho d’água da Lagoa. Será que deram-se por terminadas as alterações da paisagem?

Figuras 54 e 55 - Aterros e transformações da superfície da Lagoa Rodrigo de Freitas, e no seu entorno, em 132 anos (entre 1877 e 2009)


O Jóquei Clube

Merece destaque nesta crônica a instalação, nas margens da Lagoa, do Jóquei clube Brasileiro, também conhecido como hipódromo da Gávea.

A diversão (e as apostas) em torno das corridas de cavalo, livres ou atrelados, é muito antiga, remontando ao Império romano (se é que não é anterior e nela se podem incluir jogos na Grécia). Passou para a península Ibérica e de lá para o Brasil, ainda que de forma não organizada. O fato é que já se tem registro de corridas obedecendo a algumas regras desde 1810, quando ingleses (sempre eles) efetivaram aquela que é considerada a primeira corrida carioca, na praia do Botafogo. Ao correr do século o esporte ganhou em realce, merecendo crônicas e reportagens, caindo no gosto do público, a ponto de se tornar o primeiro em popularidade, seguido pelo remo, algo mais tarde e finalmente pelo futebol, que iria conquistar a primazia somente no século passado.

Sabe-se da existência também de alguns prados populares, bem ou mal preparados em diversos pontos da Côrte, inclusive nas proximidades da Fábrica da Estrela ao pé da serra de Petrópolis, mais o “Prado Fluminense” e o “Prado Guarani” em são Cristovão. Mas os mais conhecidos e “mais nobres”, no entanto, foram dois deles em especial.

Provavelmente, entre os mais importantes, o mais antigo fosse o “Turfe Club”. Sua origem remonta a 1849 e se localizava “entre o Benfica e são Francisco Xavier” (Lili Machado, 2012, site). Como não atraiu o público desejado, a diretoria organizada para criá-lo decidiu substituí-lo por outro, denominado “Jóquei Clube Fluminense” que teve a duração de três anos. Também este foi substituído anos depois (por volta de 1885, embora as datas variem entre os pesquisadores) pelo Derby Club, situado nas proximidades da Vila Isabel (Maracanã hoje). (Vide Nota 17)

Depois da sua junção com o Jóquei Club e o abandono do prado, na área foram construídos o Estádio Mário Filho (Maracanã) e parte da UERJ. O prédio antigo continua até hoje de pé, tendo abrigado repartições do Governo Federal no século passado.

Figura 56 -  Derby Club em dia de festas, 1911 Figura 57 -  Derby Club em dia de festas, 1911 Figura 58 - Vista das pistas do Derby Club, anos 20´s
Figura 59 - Vista das pistas do Derby Club, anos 20´s Figura 60 - Derby Club ainda em dia de festa. Anos 10´s. Figura 61 -Derby Club ainda em dia de festa. Anos 10´s.

O outro Hipódromo, Jockey Club Brasileiro foi fundado na mesma época, por volta de 1868 e tinha seu campo de corridas no Engenho Novo, ou na estação da Central, de São Francisco Xavier, no “Prado Fluminense” (as informações variam).  Desde 1919 havia a pretensão de mudá-lo para local mais adequado e espaçoso, pretensão realizada pela troca dos seus terrenos por um trecho da Lagoa Rodrigo de Freitas em processo de aterro, em frente ao Jardim Botânico. Esta área recebera entulho procedente do desmonte do Morro do Castelo.                    

Figuras 62 e 63 – Os aterros para o Joquei Club. A primeira figura com as palmeiras do Jardim botânico e chaminé da Fábrica Corcovado fumegando no fundo. A segunda com as Obras do Hipódromo, entre 1930 e 1932.

Figuras 64 e 65, de 1929/30 a Lagoa já com o hipódromo da gávea instalado.

Foi por encomenda de Lineu de Paula Machado, seu presidente, que os arquitetos Luiz Lefevre e André Raimbert planejaram as plantas no novo hipódromo. Em 1932 já com as obras em andamento este se fundiu ao Derby Club. Em agosto de 1933 foi realizado o primeiro Grande Prêmio Brasil, com a vitória do famoso tordilho “Mossoró”. Ao mesmo tempo foi instituída loteria de apostas nos padrões europeus, o Sweepstake, uma das grandes atrações do Jóquei Clube Brasileiro até hoje. Fontes principais, entre outras (Vide Nota 18):

A Industrialização e suas Conseqüências – As Fábricas da Lagoa

A primeira dessas fábricas, além daquela já nossa conhecida que deu origem ao Jardim Botânico, foi a Fábrica de Pólvora, que, afinal, teve curta duração. Conta a lenda que explodiu em 1831 e foi transferida para o interior, para a raiz da serra (nosso “piedmonte”), ficando conhecida como fábrica da Estrela.

A segunda, também já analisada rapidamente por nós, instalada na “Chácara do Algodão” seria de tecelagem e, igualmente, foi relativamente efêmera. Em 1822 ficou registrada no Tribunal da Junta do Comércio uma portaria mandando escolher entre os 16 cativos empregados na “Fábrica de Fiação e Tecidos de Algodão e Malha” da Lagoa Rodrigo de Freitas dois deles para limpar e conservar a casa e a fábrica “até que sejam vendidas” (Nota 19).    

Naquelas áreas entre os finais do século XIX e primeiras décadas do século XX criaram-se indústrias, como a fábrica de Tecidos Corcovado, em antiga chácara próxima a chácara do Lage, pioneira em fornecer acomodações de creches para os empregados e a fábrica de chapéus de Braga Costa. Já existia desde alguns anos antes a fábrica Carioca no começo da estrada D.Castorina e a fábrica São Félix, no início da Rua Marques de São Vicente. Estas fábricas funcionaram com potentes atratores de mão de obra e conseqüentemente para a fixação de inúmeras favelas na área.

Das mais modernas e duradouras (já estariam consideradas na segunda fase brasileira da “revolução industrial”) a primeira foi “Fábrica de Tecidos Corcovado”, fundada em 1889 pelo industrial José da Cruz, construída nos terrenos da antiga “Chácara ou quinta de João Calhau”. Foi pioneira em construir acomodações, casas e creches para os empregados. Situava-se no Caminho (e depois Rua) Jardim Botânico aos pés do Corcovado.

A segunda, estabelecida no ano seguinte, 1890, foi a “Fábrica de Fiação e Tecelagem Carioca”, esta bastante documentada pelos sites do Museu do Horto, que ocupa o mesmo espaço. Esta fábrica foi posteriormente encampada pela “Fábrica de Tecidos América Fabril”, em 1920 e funcionou até a década dos anos 50´s, quando foi fechada. Os antigos empregados, no entanto, recusaram-se a deixar suas residências, e as demais instalações, que permanecem ocupadas pelos seus descendentes até hoje. É que na área existiam dois conjuntos residenciais, um deles ocupado pelos operários da América Fabril-Carioca e a “Vila Sauer” ligada à Companhia de Saneamento que funcionava desde 1889 e que foi também incorporada à Fábrica. A primeira possuía 132 casas e a segunda 89, abrigando portanto, cerca de 220 famílias.

 

Figura 66 - Quinta do Calhau pintada por Nicolau Fraccinetti em 1879 Figura 67 - Figura 66. Quinta do Calhau pintada por Nicolau Fraccinetti em 1879 Figura 68 - Fábrica de Tecidos Carioca em data desconhecida.

Em relação à Fábrica de chapéus Costa Braga poucas informações pudemos obter. A fábrica foi fundada em 1869 por Manuel Marques Costa e Braga Junior e ficava situada na Rua Humaitá 129. Tinha depósito e escritório na Rua Buenos Aires 118 e sua Diretoria na Praça da República 62.  No Almanaque Mercantil digitalizado pela Biblioteca Nacional a Fábrica de Chapéus Mangueira aparece como sua sucessora em 1925 (Nota 20).

Ao iniciar-se o século XX com as obras de reurbanização da cidade do Rio de Janeiro, em especial com o desmonte do morro do Castelo e a abertura da Avenida Central, hoje Rio Branco, uma série de moradias populares e antigas foi destruída. Criou-se um contingente de desabrigados que se deslocou fosse para os subúrbios servidos pela rede ferroviária, ou para os morros da cidade e periferia, fosse para as áreas desocupadas no entorno da Lagoa. A eles se juntaram os antigos escravos libertos no final do século e toda uma população que encontrou na área emprego, moradia e lugar para armar barracos. Esta mão de obra supria as necessidades desta indústria têxtil. Com sua desmobilização na década de 60 do século passado grande parte desses funcionários engrossou o número dos desabrigados e dos novos contingentes de moradores da área. 

Em conseqüência surgiram os aglomerados de habitações populares (hoje denominadas de “baixa renda”). Conta a tradição que a primeira delas, no morro da Favela (uma planta com pequenas favas) foi formada pelos soldados que lutaram contra Antonio Conselheiro no Arraial de Canudos, onde aquela planta abundava, para os quais as promessas oficiais não foram cumpridas. O fato é que aquelas acomodações aparentemente precárias, aos poucos substituíram as casas de cômodos, ou habitações coletivas da cidade (uma delas famosa, a “Cabeça de Porco” deu nome às demais). E o nome da primeira “favela” se popularizou para todas as demais.

Entre as favelas da Cidade do Rio de Janeiro, pela beleza do lugar e pela concentração de moradores, se destacaram aquelas situadas na Lagoa Rodrigo de Freitas e vizinhanças.      

Favelas

Duas favelas foram importantíssimas na região da Lagoa. A praia do Pinto, no lado da restinga que separa a Lagoa do mar e a da Catacumba, nas fraldas da montanha da orla lacustre. Ambas desaparecidas em meados dos anos novecentos e que embora possua cada uma sua história peculiar, são similares em sua gênese e no seu destino.

A Favela da Praia do Pinto  

Talvez a mais famosa delas, ocupando um vasto território foi aquela denominada de “Praia do Pinto”

Figura 69 - Favela da Praia do Pinto (sem data) Figura 70 - Favela da Praia do Pinto - (1938)
Figura 71 – Barracos na Favela da Praia do Pinto, em 1922  Figura 72 – Barracos na Favela da Praia do Pinto, em 1922

A sua localização na “praia do Pinto’ remete ao seu antigo proprietário, e pode ser visualizada no número 13 do Mapa de 1809, de número 08 na cartografia Histórica que acompanha este trabalho (Anexo 02). Tratava-se, na verdade de um conjunto de três favelas, que ocuparam terrenos baixos e aterrados com material de um dos primeiros desmontes da região, do morro do Caboclo. A primeira, que deu nome ao conjunto começou a ser estabelecida na década de 20 (vide foto Malta catálogo 89) e outras duas estabelecidas nos anos 40´s. Sua gênese se prende inicialmente às obras de saneamento do centro urbano e depois tanto ao crescimento da cidade quanto a migração interna, sobretudo de viajantes do interior da Região Sudeste (em especial Minas Gerais) e do Nordeste.

Se os primeiros barracos ocuparam as áreas mais secas e elevadas, à medida que a favela crescia se expandiu para os terrenos de solo pantanoso e em total confusão, casa apertando casa, vielas estreitas dificultando o acesso e para as quais faltavam os serviços básicos de higiene e abastecimento. Tristes condições habitacionais, eternizadas pelas desigualdades sociais e má distribuição de renda, pioradas pelo estigma a que são reduzidos os seus habitantes, muitas vezes responsabilizados pelas autoridades pela situação em que se encontram.

 

Figuras 73 e 74 – A primeira com a vista em 1938 e a segunda pouco antes do incêndio, observando-se as diferenças no crescimento da ocupação ao fundo. Na primeira, um descampado. Na segunda uma muralha de edifícios. E também se pode notar o adensamento dos barracos.

Já havia na ocasião pressões para a desmobilização da Favela, até que em 1956 um grande incêndio devastou todo o conjunto, tendo sido bem documentado pelas reportagens de época.

Figuras 75 a 80 – Incêndio na Praia do Pinto em 1956 e Catálogo 98, o dia seguinte com a retirada e desmonte de alguns barracos.

Durante o Governo Negrão de Lima esta favela, assim como outras, foi desocupada e no seu lugar construídos os prédios da Cruzada São Sebastião, que abrigou muito deles. A maioria, no entanto, foi removida para a Cidade de Deus, a Cidade Alta e a Vila Kennedy.

As fotos abaixo, do Arquivo Nacional, focalizam a área da favela removida e a maquete dos prédios projetados para ocuparem o espaço então desimpedido. 

Figura 81 e 82 – “A praia do Pinto no presente e no futuro”. Sem data.

 

Favela do Morro da Catacumba

 

Diferentemente da anterior as populações que ali erguerem suas casas preferiram subir a encosta do morro. Segundo a lenda, o nome “catacumba” surgiu em função da descoberta de antigas tumbas indígenas, fato sem comprovação arqueológica. Conglomerado habitacional denso que chegou a contar com mais de 10.000 moradores. Também segundo a fonte consultada, naquele local existia uma chácara, cuja proprietária, a Baronesa de Rodrigo de Freitas teria cedido o local para moradia dos seus cativos, após a libertação de 1888. Caso real, seria a mais antiga da região. Mas, segundo a mesma fonte, foi somente em 1925, quando o Estado dividiu o morro em 32 lotes que os primeiros barracos foram erguidos. O crescimento se daria na década dos anos 40´s, sendo o local desde cedo cobiçado pelo seu valor imobiliário, em especial pela vista de lá descortinada.

Não havia água potável nas casas e sim bicas que atendiam aos moradores. No governo Carlos Lacerda teve início o desmantelamento da favela, com a remoção dos moradores para os mesmos conjuntos habitacionais aos quais destinaram os habitantes da Praia do Pinto. Em 1970 o Governador Negrão de Lima criou um parque na área da favela, batizado de “Parque Carlos Lacerda”, hoje centro de visitação e local de lazer (Nota 21).

Nas fotos a seguir algumas da muitas imagens desta favela que deixou sua marca entre os habitantes cariocas.

Figura 83 Figura 84 Figura 85 Figura 86

Comparação: Figuras 83 e 84 - A Favela em 1925 e na década dos anos 50´s - Figuras  85 e 86 – A favela em 1950 e 1955

Figura 87 Figura 88

 Figuras 87 e 88, em 1969 e hoje.

Figuras 89, 90 e 91 - Birosca, Barracos e Ônibus elétrico da Catacumba em 1969

E, para finalizar, uma foto típica e evocativa das favelas cariocas, a “lata d’água na cabeça” para a qual até se fez marchinhas de carnaval

 Figura 92 - “Lata dágua na cabeça, La vai Maria...”, em 1954. 

Favela Macedo Sobrinho

 

Esta favela se situava no Humaitá, na parte baixa e encosta do morro onde se localizou um dia o Forte da Piaçaba.

Figura 93 – Favela Macedo sobrinho

Ela ocupava uma boa parte do Morro da Saudade e se dividia em três setores, um na rua Macedo sobrinho em direção a Rua Pinheiro Guimarães até o Largo do IBAM e outro ramo descendo pela rua Humaitá, com seu ponto mais alto na rua Casoarina.

Não se tem notícias claras sobre sua gênese, mas aparentemente era mais recente do que as até agora analisadas. Foi desmobilizada na mesma ocasião das outras duas e no final dos anos 80´s no seu lugar foi criado o Parque Municipal de Preservação do morro da Saudade, agora ameaçado pela expansão da Favela da Mangueira, que se estende do Morro dos Cabritos em sua direção (Nota 22)

1937 2017

Figuras 94 e 95 – Morro dos Cabritos em 1937 e hoje

Favela da Draga

Tratava-se de uma expansão da Favela da Praia do Pinto que se estabeleceu sobre uma ponta de terra que adentrava a Lagoa e resultado da dragagem do canal do Jardim de Alá. Sem abastecimento d’água, com esgotos a céu aberto e com cães, galinhas e urubus dividindo o espaço com os moradores. Foi igualmente destruída juntamente com a Praia do Pinto.

Figuras 96 e 97 – Favela da Draga - anos 60´s

Favela da Hípica ou do Largo da Memória

Esta favela espremida entre a Lagoa, praticamente dentro da terra pantanosa e as ruas habitadas pela classe média nas proximidades da hípica também não tem sua origem claramente definida, mas sem dúvida, igual ao movimento que deu origem às demais da região.

Teve como fator diferencial o fato de que as autoridades municipais tendo deslocado adredemente seus moradores para habitações da rua Marques de São Vicente, puseram fogo na favela em dia marcado de maio de 1942. O próprio Prefeito Henrique Dodsworth e contingentes do Corpo de bombeiros atearam fogo em diversos pontos da mesma, de forma que o incêndio controlado se alastrou por quase um quilômetro, consumindo centenas de barracões. O fato noticiado com antecedência foi testemunhado “por altas autoridades civis e militares, jornalistas e grande massa popular”. A favela do Largo da Memória foi-se assim embora ... não ficou na memória exatamente (Nota 23).

Figura 98 - A favela da Hípica ou do Largo da Memória – Anos 40´s.

A Favela da Rua Marquês de São Vicente

Aos habitantes deslocados da Favela do Largo da Memória foram entregues apartamentos no Conjunto Habitacional Proletário da rua Marques de São Vicente, nas proximidades da PUC-RJ. Muitos deles, no entanto acamparam nas suas imediações, esperando a conclusão dos demais apartamentos do conjunto. Várias famílias se abrigaram em barracões e a eles se juntaram muitos outros pretendentes, de diversas origens, incluindo pessoas a quem políticos  haviam prometido vagas nos novos conjuntos.

A foto abaixo é de 1970 e preserva a imagem da favela ao lado daquele conjunto habitacional, conhecido como “Minhocão” (Nota 24).

 Figura 99 – Favela do Minhocão (Marquês de São Vicente) ou PUC, em 1970

O “Trampolim do Diabo”

Ainda que não diretamente ligadas à crônica histórica da Lagoa, as corridas de automóveis (então chamadas “baratinhas”) do circuito da Gávea fazem parte dos acontecimentos da região e merecem, pelo menos, citação neste estudo.

Tais corridas começaram em 1933 e perduraram até 1954, ainda que sofrendo interrupções por causas diversas. O circuito se alongava por perto de 11 km. e começava na Rua Marques de São Vicente, seguia pela Bartolomeu Mitre, Visconde de Albuquerque, Avenida Niemeyer, Estrada da Gávea (Rocinha) e retornava pela Marques de São Vicente. Os pisos variavam, do asfalto ao paralelepípedo, cimento e terra batida, com curvas e lombadas perigosas que invocaram a figura de um trampolim diabólico, daí seu nome popular. Oficialmente era o “Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro”, do Automóvel Clube do Brasil.

Para completar a corrida, em média, eram dadas vinte voltas, num total superior a 223 quilômetros e durava em média mais de três horas. O primeiro vencedor foi Manuel de Teffé, pilotando um Alfa Romeu. Tornaram-se famosos os pilotos Carlos Pintacuda, italiano e vencedor em 37 e 38 e o brasileiro Chico Landi, vencedor em 1941, 47 e 48. Durante muito tempo, “Pintacuda” era sinônimo de corredor arrojado.

O fato deste esporte tornar-se popular no Brasil em grande parte se deve às “corridas da Gávea”, que – inclusive – ajudaram a impulsionar os talentos brasileiros. O primeiro carro de corridas construído no país foi planejado e executado por João Geraldo Woerdenbag, em oficina situada no centro da cidade do Rio de Janeiro, com chassis próprios e motor Studebaker. Foi vencedor da III Corrida Internacional da Gávea em 1940, pilotado por Rubens Abrunhosa.        

Figuras 100 e 101– Corrida da Gávea – ao fundo a Lagoa Rodrigo de Freitas 1935 e subida da Avenida Niemeyer, sem data.

 

Figuras 102 e 103 - Manuel de Teffé em seu Alfa Romeo, vencedor da Primeira Corrida, em 1933 e o primeiro carro de corridas brasileiro – 1933-39.

As corridas no “Trampolim do Diabo” se foram. O gosto por elas, no entanto, permanece vivo até hoje, ainda que as principais, de fórmula 1, não ocorram mais no Rio, apesar do circuito de Jacarepaguá (Nota 25).

A Pesca

Ao pesquisar na Internet descobrimos algo que nos surpreendeu, que é a existência de uma “Colônia de Pesca” na Lagoa Rodrigo de Freitas. Embora saibamos que historicamente e durante muitas décadas esta foi uma atividade cotidiana dos moradores locais.

É que também a algumas décadas, um dos problemas que a Lagoa sofre se deve, em especial, à falta de oxigenação das suas águas, em função, sobretudo, da poluição, o que provoca a mortandade de grande quantidade de peixes.

Figura 104 - Atual – Perpetua uma das mortandades de peixe (sobretudo “sovelhas”) e as algas flutuantes indicadoras da poluição e da baixa oxigenação da águas.

O fato é que ao longo do tempo, a pesca se constituiu em atividade econômica importante para os moradores das suas margens.

Figura 105 – Mapa Google atual

Vieira Fazenda, por exemplo, cita que conforme antiga memória (1788), de autoria de Balthazar da Silva Lisboa, a lagoa tinha dois terços de légua de comprido, por uma de largo e era muito piscosa. Em termos métricos, mediria então cerca de 4.400 por 6.600 metros.

Conclui dizendo que o fundo da lagoa era composto de algas e lodo e que constituía um local insalubre por todo o período colonial ficando o lugar sujeito “a emanações da pior espécie” (1943:688). Depois de mencionar suas dimensões, aquele autor completava “tem muito pescado: e sua pesca é particular”. No século XX é que as soluções para o problema foram (parcial mente) encontradas (Nota 26).     

Segundo o texto tratando da Reunião do Senado da Câmara com o Ouvidor Dr. Damião D’Aguiar, de 1640, ficou decidido proibir a residência de pescadores e a pesca na Lagoa Rodrigues de Freitas, tendo como multa a perda da rede e trinta dias de cadeia (Nota 27. Folha 98). 

Em abril de 1646 outra reunião com o Ouvidor Damião D’Aguiar proibiu a pesca fora da barra nos meses de junho e julho, “porque são os meses em que os peixes vem de fora desovar no esteo desta baia e rios dela”, com multa de 50 cruzados e 30 dias “de enxovia” (Idem: F.115).     

Em 1721 foi ali vendida uma “fábrica de pesca” com duas barcas, remos, fateixas (âncoras), cabos, duas redes, um casa de vivenda “mais pequena” e uma comprida, Casa de Companhia e algumas outras redes e arrastão por 660$000 (Nota 28).

No final do século XVIII no Governo do Conde de Rezende, no “Livro de Registros de Bens e Cargas de Navios” consta o Extrato do Rendimento dos Dízimos pagos na Cidade. Na folha 276, figura, entre muitos outros itens de importância que atingiam a casa de 72:742$200, e em último lugar da lista, a importância de 64$000 relativa à pesca na Lagoa Rodrigo de Freitas (0.087% do total). Era sem dúvida pouco, mas muito mais do que hoje.... (Nota 29)

Mais notícias sobre pesca podem ser obtidas na nota 27. Afinal, a pesca não desapareceu, apesar dos pesares.

Conclusão

A Lagoa Rodrigo de Freitas é um dos ícones da cidade do Rio de Janeiro. Ainda que não se possa afirmar com toda a segurança, pela falta de descobertas mais complexas no campo da arqueologia pré-histórica que sua ocupação remonta a épocas muito recuadas, sem dúvida sua localização e características ambientais permitem supor ter sido sempre um local de grandes atrativos para a fixação do homem.

Quanto ao período coberto pelos documentos escritos, sabe-se que apesar de se encontrar suficientemente distante do centro urbano colonial, para ser durante muito tempo considerada como um “arrabalde” desde cedo foi procurada pelos colonos, interessados em explorar sua potencialidade natural. Mais de um Engenho laborou em suas terras, sendo importante considerar que mesmo que o modelo carioca de engenho de açúcar tenha sido normalmente mais modesto que aqueles do nordeste, esta fábrica representava a maior unidade produtora daqueles tempos exigindo emprego de capital, numa época em que o mesmo rareava, em especial traduzido no investimento em maquinários, instalações e mão de obra cativa.

Pois, mesmo assim, pudemos acompanhar não somente as tentativas nem sempre bem sucedidas de implantá-los na região, como a crônica de pelo menos três deles que fizeram história. O mais importante acabou por pertencer àquele que deu nome ao lugar. E se Rodrigo de Freitas foi o último, antes dele pelo menos outros dois proprietários haviam dado seu nome à Lagoa (o Fagundes e o ).

Se a população era escassa ao longo de todo o período colonial, com a elevação do país à condição de capital do império português, seu destino ficou selado como lugar de fundamental importância para a cidade e para todo o reino. Pois ali se instalou a fábrica de pólvora, o Jardim Botânico, a primeira fábrica de algodão, ali se tentou produzir o chá, o primeiro esforço real de aclimatar plantas exóticas de importância comercial neste país e ali se fixaram os primeiros colonos não europeus possivelmente em toda a América Latina. Os quase esquecidos “chins”. As fábricas que vieram a seguir, as chácaras que se instalaram nas terras retalhadas dos engenhos, as tentativas de saneamento, tudo em conjunto contribuiu para uma mudança significativa de rumo, tornando-a um centro cada vez mais povoado e mais procurado por gente de todas as situações financeiras.

Até hoje a diversidade populacional do nosso país está bem representada na sociedade da Lagoa, da Rocinha, do Leblon, dos Morros que a rodeiam, de Copacabana...

As mudanças impostas na segunda metade do século XX tornaram-na ainda mais atraente, fosse pela melhoria parcial dos processos de higienização, fosse pela abertura e calçamento de todas as vias que servem ao bairro. Se grande massa da população foi afastada de forma até mesmo radical, algumas medidas como os conjuntos habitacionais preservaram algo desse passado proletário em suas margens. Por outro lado, se  já não correm as “baratinhas” no “trampolim do diabo”, o hipódromo do Jóquei Clube se torna a cada dia mais atrativo, mantendo viva uma tradição mais do que centenária desta cidade.

Em resumo, pois, a Lagoa é uma síntese da nossa cidade, com seu passado complexo, seu presente vibrante e seu futuro pleno de novas perspectivas.

Notas e Bibliografia

 

01 - Fonte: Histórico da VI  RA – Lagoa. Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico da Guanabara – ETP, 1965.

O Forte da Piaçaba foi mandado erguer em 1786 pelo Vice-Rei Dom Luiz de Vasconcelos e suas fortificações se espalhavam até a “Praia da Saudade”, com artilharia no alto do morro da atual Rua Bugari. A favela mais tarde estabelecida no Morro da Saudade acabou por destruir o que restava das fortificações, mas ainda na década de 60 do século passado restavam algumas poucas evidências que foram arrasadas em 1984 para a construção de um CIEP. Fonte: HTTP://www.rioquepassou.com.br  

02 - Também foi chamado de Forte de São Clemente e uma das suas arcadas mereceu desenho reproduzido no texto: João Conrado Niemeyer de Lavor, João Conrado, 1983, “Historiografia do Jardim Botânico do Rio de Janeiro no Contexto da Fazenda Real da Lagoa Rodrigo de Freitas e seus Desdobramentos” Rodriguésia, RJ – Ano XXXV, nº 57 F.67

03 - Esta Dona Castorina (Castorina de Oliveira Castro) viúva do português Antonio de Oliveira Castro era senhora da Chácara dos Macacos, na estrada do mesmo nome, que depois levou seu nome, em 1871, situada atrás do Jardim Botânico. Dados extensos sobre esta família (Oliveira Castro) podem ser encontrados no site do Museu de Emigração e das Comunidades, de Portugal. http://www.museu-emigrantes.org/seminario-comunicacao-ana-pessoa-htm 

04 – Vide: Bandeira, Júlio e Machado, Paulo, 2008 – “Solar de Monjope”,  editora Reler, 168 páginas, 2008.

Ver também o texto “Da Bica à J. Carlos – para Henrique” por Rio de Janeiro: Onde morava meu antepassado. Site: http://www.faceboock.com/note.php?note  

05 - http://portalgeo.rio.rj.gov.br

06 – Vide site: http://www.comellephilatelist.com. A fonte de informação deste site deve ter sido o livro: Brasil Gerson, 2000 – “História das Ruas do Rio de Janeiro”, V. Edição, pags. 282/s)

07 - Dias Júnior, Ondemar F. - 2003 – “Remanescentes Histórico-arqueológicos da Cultura do Anil na Cidade do Rio de Janeiro”.  Revista do IHGB, a164, nº 419, abril, junho. Pp.9/58, Rio de Janeiro.

08 - Arquivo Nacional, Cartório do  IV Ofício Livro 7 F.128

09 – O Alvará de 1808 que autorizava a existência de fábricas e manufaturas no Brasil, em contrário à proibição de D.Maria I, se encontra digitalizado e comentado pelo Arquivo Nacional. Vide site: http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/egi/egilua.exe/sys/start.htm?infoid . Conjunto documental: Real Erário, Avisos e Portarias. Notação: Códice 57.vol.01. Datas-limite: 1808-1809. Título do Fundo: Real Erário. Código do fundo: 7W

10 – Vide artigo de Ondemar Dias, 1996 – “Os Chineses em Jacutinga”. América Latina e Europa Centro-Oriental. Pub. UERJ Vol.1  pp.99/112. Rio de Janeiro. Em anexo incluímos a crônica de Jandira Neto, publicada no seu livro em co-autoria com este autor, focalizando a história do “Castelo (que nunca foi) da Marquesa de Santos, ou crônica de uma olaria que deu certo” a respeito de um desses personagens (2011, Wak Editora, RJ).   

11 – Vide Site: http://www.pdf4free.com. 

12 – Vide Site: http://WWW.museudohorto.org.br/localidade?id=1113.

13 -  Vide Site: http://www.museudohorto.org.br/Casa_Grande_e_Senzala?id=1097

14 - Vide site: http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/egi/egilua.exe/sys/start.htm?infoid Conjunto documental: Junta do Comércio, Fábricas. Notação: Caixa 424, pct.02. Datas-limite: 1813-1824. Título do Fundo: Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. Código do fundo: 7X.

15 – Melo Moraes, 1879 – “Crônica Geral e Minuciosa do Império do Brasil”, Rio de Janeiro

16 - PDF Creator – PDF4Free v2.0 e http://www.pedf4free.com – pag.62.

17 - Site:http://aviladenoelumbairromusical.wordpress.com/2012/03/31/o-turfe=club/

18 - Site: http://derbyclubatualmaracanan - Site: http://saudadesdorio.o.clone-terra-fotolog.525 - Site: http://www.jcbinforma.com.br.historia - Site: http://oriodeantigamente.blogspot.com.br.2011.derby.club.html

19 – Vide Site: http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/egi/egilua.exe/sys/start.htm?infoid - Registro de Portarias do Tribunal da Junta do Comércio. Notação: códices 215, Vol.01. Datas-limite – 1811-1839. Título do Fundo: Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. Código do Fundo: 7X 

20 – Vide Site. http://memoria.bn.br/docreader/Weblindex/W1Pagina/313394/93802  

21 - Vide Sites: http://lagoaaventuras,com.br/parque-da-catacumba http://favelatemmemoria.com.br/publique

22- Vide Site: http://www.rioquepassou.com.br

23- Site:http://spiritosanto.wordpress.com/2010/04/22/memória-de-favela

24- Site: http://spiritosanto.wordpress.com/2010/04/22/memoria-de-favela/

25 - Vide Sites: http://rio-curioso.com.br/2007/11/trampolim-do-diabo.html http://www.obvio.ind.br/Autodromos%20do%20%Rio%20%de%20%Janeiro%20-%20as%

26 – Vieira Fazenda – 1943 - “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro”, V.5, “A Lagoa Rodrigo de Freitas”, 688/s. R.I.H.G.B – Tomo 95, vol.149, 2ª Edição.

27 – Códice do Arquivo da Cidade.“O Rio de Janeiro no Século XVII” - PDF – Diretoria Geral do Patrimônio, Estatística e Arquivo OR 335 – Coleção Oliveira Reis. Oficinas Gráficas do Jornal do Brasil

28 - Arquivo Nacional, Cartório IV Ofício, Livro 6 F.168.

29 - Arquivo Nacional - Códice 68 Volume 15.

Nota 10 – Crônica  

O China            

    Nan veio para o Brasil,  junto com as preciosas  mudas de  "Théa bohea" importadas da província chinesa de Fu-kien, em 1813 .

    Há horas Nan estava sentado embaixo do pequeno pé de maricá, encolhido dentro daquelas roupas molhadas com a forte febre a lhe consumir o ânimo, e não sabia mais se sonhava ou só se lembrava... Seu corpo doente resvalou no solo e sua mente para o passado:

     _ Mãe! Pai! o tio Chiang... ele está aqui!...

    AH! o farfalhar das saias da mãe, e aquele cheiro doce no ar... o campo de arroz maduro cor de ouro... o sorriso feliz do pai e o burburinho de vozes dos  irmãos eram mudras e mantras da infância longínqua.

    A boca fina encimada pelo bigodinho ralo retorceu-se num espasmo febril...

     _”O Senhor Buda atingiu a iluminação, pelos próprios esforços em buscar a sabedoria dentro de si mesmo!” dizia o pai enfático, enquanto esperavam o jantar, ao que o tio aquiescia com um balançar de cabeça.

    Mas foi diante das tigelas fumegantes de arroz, do molho carregado de "too-fu", que a conversa e o destino de Nan mudaram de rumo:

    _”Soube que vão levar o nosso chá para ser plantado, em um novo reino da América do Sul, e que vão precisar dos nossos rapazes para cultivá-lo por lá!”, comentou entusiasmado o tio Chiang.

    Naquele  instante Nan decidiu seu futuro, e em duas semanas, após aprender tudo que podia sobre o plantio de chá, e apesar dos rogos da família, embarcou na galera Sarah e saiu do Oriente para sempre.

    _”Vou para o Brasil plantar chá, e ficar rico! Ou, pelo menos, me esforçar, como o senhor Buda”...

    Entardecia, a roupa há muito já lhe secara no corpo alto e magro, sua cara outrora cor de manga madura, agora parecia com a amarelidão da cera dos círios. Entorpecido pela febre, Nan mergulhou mais uma vez no que lhe parecia um delicioso sonho e continuou ali deitado...

    _”Tem um gosto acre de terra!”, dizia o Conde de Linhares admirando os verdes arbustos de chá no Jardim botânico. E tentando disfarçar seu descontentamento:  _”Mas se continuarmos com os cuidados, certamente atingirá as qualidades do da China!”.

    Ano após anos, a realidade:  a experiência não estava sendo bem sucedida e os parcos ganhos já não davam para Nan assegurar sua sobrevivência. Ouvira falar que nos arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro havia terra boa e que não era  difícil arranjar emprego nos engenhos...

    _ “Por favor! é aqui a praia dos Mineiros?”

    O barco deslizava nas águas límpidas da baía de Guanabara ...

    _ “Você é um china?”

    Nan olhou e viu pela primeira vez Carmen Rosa. Tomado de sobressalto pela fisionomia mongólica até pensou que ela era uma chinesa, mas o olhar brejeiro da moça, meio índia,  desfez logo o engano.

    Titubeante respondeu polidamente: _” Sim! Sim! sou chinês!”

    E voltando para ela seus olhos apertados, numa cara despelada e emoldurada por um chapéu chinês lhe retribuiu o sorriso... 

    O barco entrou na foz do rio Jaguaré e Nan acabou dando com os costados na Freguesia do Pilar onde logo arranjou emprego de carregador do porto e para aumentar os parcos ganhos, fazia fogos que vendia em todas as freguesias e engenhos da vizinhança.

    Inconsciente jazia na terra úmida e seus gemidos, cada vez mais fracos, só eram respondidos pelo criquilar dos grilos que já se avizinhavam na noite  fria...

   _ “AH! Carmen Rosa!  quer casar-se comigo?”, perguntou-lhe um dia:

   _ “Mas você é um china, pra casar tem que ser batizado!”...

   _ “Batizado?” _ Naquele momento deu-se conta do quão pouco sabia da cultura daquela gente, e tomado dessa nova consciência, decidiu tornar-se um membro dessa comunidade que, após tantos anos, era agora a sua pátria. Constituiria  uma família com Carmen Rosa...

    Arrumou uma linda casinha e a enfeitou com lanternas coloridas e um sino da Felicidade com inscrições chinesas pendurado na janela, com uma imagem de Buda na pequena saleta de entrada, completando o arranjo.  Vestiu seu melhor traje e dirigiu-se a Igreja do Pilar para se batizar.

    O bispo Caetano Coutinho estava de visita na freguesia de N. S. do Pilar e realizaria ele mesmo os batizados naquela semana. Nan chegou cedo e já tinha escolhido seu nome de batismo, Jõao Francisco.

    _ “Quantas são as pessoas da Santíssima Trindade "seu" Nan”?

    Estupefato Nan balbuciou... _”Não sei...”

    _ “Quem foi o homem feito Deus que nos salvou de nossos pecados "seu" Nan?

    Atordoado diante da descoberta de que já havia sido salvo por alguém que ele nem conhecia, Nan caiu em mutismo e dali se afastou sem o sacramento. 

    Carmen Rosa não mais quis saber dele.

    O tempo passou e Nan tornou-se um china solitário.  Naquela manhã amanheceu com febre, mas tinha que levar uns fogos para as festas juninas no engenho do Calundu... andava descalço pela Estrada da Conceição  quando veio a chuva, suas calças no meio das canelas encharcadas de lama, contrastavam com larga blusa branca e o chapéu de bicos... sentiu-se muito mal e resolveu parar um pouco... abrigou-se embaixo do pequeno pé de Maricá na beira do riacho...

    A estrela matutina já despontava  quando a febre aumentou, e entre espasmos Nam teve o seu último sonho... Buda sentado ao pé da sacopema do sicômoro ou seria uma figueira?  O delírio da febre tomou conta de sua mente, e o pequeno pé de Maricá com suas lindas flores brancas cresceu e cresceu; uma imensa sacopema de poderosas raízes formavam braços que o embalavam; o vento nas folhas eram cânticos da infância e as flores, lotus de luz... Nan estava morrendo em graça e nem tinha aprendido nada do credo! 

    Morreu cismado. Como pôde viver quase trinta anos no Brasil e não tornar-se um brasileiro?

     Em seu ultimo suspiro murmurou... _ “Ficarei por aqui mesmo!”

     Dizem que é comum ver-se  nos dias de hoje, um china rondando próximo a um pé de maricá que existe, à beira de uma vala negra e à margem da Estrada Sarapuí. 

Os fatos:

A primeira fonte é o Relatório do bispo Caetano Coutinho, que cita o fato de não ter podido batizar um chinês durante sua visitação à Igreja de Nossa Senhora do Pilar em 1831, porque este não sabia rezar o credo.

A outra é baseada em mais uma daquelas lendas orais que a cada dia desaparecem da memória do povo da Baixada, e que merecem ser resgatadas e registradas. (Por Jandira Neto).

♦ Arqueologia ♦

 

A Pesquisa Arqueológica

O Sítio Arqueológico JB 695 está inserido em uma malha urbana densamente povoada entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Maciço da Tijuca. Localiza-se em uma área plana e aterrada, seguramente em tempos anteriores, para diversos usos.

O trabalho desenvolvido no terreno, antes ocupado por três edificações, teve por referência o número 695 da Rua Jardim Botânico e revelou aspectos de interesse a respeito da sua ocupação ao longo do tempo.

 A pesquisa arqueológica evidenciou que o terreno pesquisado foi ocupado em momentos diferenciados do passado e por construções igualmente distintas. Em relação ao espaço ocupado pôde-se distinguir a existência de três conjuntos edificados.

O conjunto I, localizado no lado esquerdo do terreno, paralelo à Rua Saturnino de Brito, apresentou poucos fragmentos e mostrou material arqueológico muito superficial.

O conjunto II, mais extenso e situado no centro do terreno, e o conjunto III, o menor deles, localizado no lado direito da área, próximo ao limite das construções prediais existentes atualmente, apenas variaram o perfil estratigráfico na deposição do material, já que estes são compostos por camadas de aterro com profundidade mínima de 1,40 metros e máxima de 2,60 metros.

O sedimento abaixo da última camada descrita é de composição argilo-arenosa com uma camada superior tipo tabatinga e abaixo uma camada de argila alaranjada densa e úmida. Mesmo com a proximidade ao Rio dos Macacos e a Lagoa Rodrigo de Freitas o lençol freático surgiu após a escavação ultrapassar os cinco metros de profundidade.

 As conclusões alcançadas mostram, como resultado da análise em laboratório, que os conjuntos II e III, na verdade, são do mesmo período cronológico em relação às construções, porém com funções diferenciadas, já que no conjunto II as características do material e as estruturas  indicam ser este indicativo de moradia. No conjunto III, parecia haver apenas uma construção na frente da Rua Jardim Botânico, a qual poderia ser uma área de comércio de apenas um cômodo. Os materiais arqueológicos encontrados nesse conjunto foram em grande quantidade e diversificados. Na área dos fundos não havia construções, sugerindo ser essa um depósito de descarte de garrafas de vidro, de stoneware, tinteiros e de fragmentos cerâmicos.

A robustez dos alicerces (e também baldrames) encontrados demonstra que as edificações locais foram erigidas sobre bases fortes e duradouras, espelhando prédios resistentes, condizentes com uma população dotada de bons recursos financeiros. Ainda que nas proximidades tenham sido estabelecidas as primeiras casas populares da cidade, em especial na área do Jardim Botânico, para abrigar uma população carente de posses, aquelas aqui exumadas aparentemente serviram de habitação para pessoas da classe média urbana.

É possível que se tratasse de residências de pessoas ou funcionários ligados à administração das inúmeras fábricas que ali foram estabelecidas, ou que atuaram de alguma maneira vinculados a este período industrial.

Mais tarde, tais habitações, muito provavelmente, foram transformadas em prédios comerciais como aqueles ali registrados em meados do século passado, ou, já no século atual, como a Academia de Ginástica, que se estabelecia no terreno (objeto das pesquisas) e que foi demolida no início do processo de execução das obras. Outras residências também permaneceram inseridas no terreno, como a do número 36 da Rua Saturnino de Brito (que foi demolida), cujas estruturas localizadas provavelmente remetam a um período mais antigo por apresentarem vestígios de construção em adobe com um acabamento de (reboco) de cimento com cal e concha triturada, demonstrando ainda que tanto faria frente para a Rua Jardim Botânico quanto para a Rua Saturnino de Brito, caracterizando assim uma área de comércio voltada para as duas ruas; tanto estas, quanto no seu entorno, como o restaurante vizinho, também localizado em antiga casa de família, e que até então permanece ativo. É importante considerar que não foram encontrados alicerces anteriores na área da residência. Foi possível, no entanto, constatar-se evidências de uma demolição de prédio mais antigo no local. Foram, ademais recolhidos artefatos culturais no seu subsolo, em especial garrafas de “stoneware”.

Destaque-se que os resultados obtidos para o final dessa pesquisa foram frutos de comprometimento metodológico nas três fases da pesquisa. A aplicação do método de escavação por setorização e a fidelidade na aplicação do trabalho com níveis artificiais escavados facilitaram uma análise capaz de alcançar os objetivos; que o material cultural recolhido em toda a escavação demonstra ter sido a área ocupada a partir do século XIX, pois apesar da antiguidade assegurada do povoamento da Lagoa Rodrigo de Freitas, não foram recolhidos objetos ou artefatos mais antigos, nem registradas estruturas anteriores.

Deve-se também por destaque que só foi possível tal volume de trabalho, cobrindo tal extensão e alcançando tal profundidade, por ousarmos trabalhar nos valendo de maquinário adaptado às necessidades da pesquisa. Para tanto contamos com o apoio dos empreendedores que entenderam o alcance das nossas solicitações e, graças a todos os esforços em conjunto, os fins foram atingidos até mesmo superando quaisquer expectativas.

No monitoramento não foi diferente, pois não se tratou de um simples acompanhamento de escavação, mas sim de uma coleta sistemática dos artefatos por zona de atuação.

O trabalho desenvolvido nesta etapa buscou trazer à luz alguns questionamentos levantados desde as fases anteriores.

Toda a metodologia aplicada visou caracterizar a dispersão espacial do material no terreno, fosse por frente e fundos de cada um. Lamentavelmente não podíamos determinar as profundidades das coletas, mesmo assim, a observação do arqueólogo Rhuam Carlos Souza tomou o cuidado de, em alguns trechos dentro de cada conjunto, determinar a profundidade aproximada das coletas.

Esperamos assim, termos sido capazes de elucidar alguns dos mistérios das complexas estruturas históricas ali naquele sítio arqueológico. Vejamos como e porque chegamos a estas conclusões:

O material do sítio Arqueológico JB 695 data de pelo menos dois períodos cronológicos.

Aqui buscamos responder a questão de quantas ocupações tinham no terreno, além de datar os períodos cronológicos através da análise do material arqueológico coletado durante as etapas da pesquisa.

Para a obtenção de tal resultado foi feita a análise comparativa baseando-se na interpretação dos dados através da cultura material recuperada por conjuntos arquitetônicos, caracterizados na etapa de resgate arqueológico do sítio. A subdivisão deste encontrou três conjuntos denominados conjunto I, II e III, sendo o primeiro paralelo a Rua Saturnino de Brito, o conjunto II no meio do terreno e o III no lado direito do terreno junto à parede do Banco do Brasil. Desta forma, foram divididos os três momentos da pesquisa arqueológica em prospecção, resgate e monitoramento para análise do material.

A análise inicial se deu por meio da observação horizontal do sítio com a caracterização dos vestígios arqueológicos por conjunto, ou seja, o momento de cada etapa da pesquisa arqueológica (prospecção, resgate e monitoramento).

 A Interpretação dos Dados

As análises foram feitas tomando-se por base as Etapas da Pesquisa, cada conjunto pesquisado e o material cultural encontrado em cada um e estes, por sua vez, estudados segundo sua classe, categoria e recorte temporal.

A. Etapa da Prospecção
 
 

Na etapa de Prospecção foi observada a diferença percentual de todo material coletado. Foram recuperados próximo de 3.000 artefatos durante a abertura de 17 cortes-testes distribuídos nos três conjuntos: Galpões, academia e residência existentes na propriedade.

Os resultados obtidos através da análise do material foram os seguintes: na área do conjunto I, foram coletados artefatos culturais, representados por cerâmica, louça, vidro, metal, ósseo, telha, stoneware e lítico. O conjunto II apresentou artefatos representados por cerâmica, louça, vidro, metal, ósseo, telha, stoneware, lítico, azulejo. Já na área do conjunto III a coleta foi de artefatos representados por cerâmica, louça, vidro, metal, ósseo, telha, stoneware, lítico, azulejo, malacológico, tijolo maciço.

Os quase 3.000 artefatos ficaram distribuídos em 18% no conjunto I, 15% no conjunto II e para o conjunto III, com a maior predominância na coleta, com 67%.

Neste momento já temos a visão inicial da distribuição espacial do material no terreno. A partir de então as análises de laboratório se desdobram em nova etapa que é a categorização do material arqueológico por conjunto. Este é o momento que estaremos observando quais materiais estarão de acordo com suas características históricas, indicando cronologicamente o sítio em comparação com os seus conjuntos.

Para isto foram analisados os materiais de acordo com suas características individuais, representados por cerâmica dos tipos neobrasileira e colonial louças decoradas, fragmentos de vidro (fundo ou gargalo), que possam representar um quantitativo mínimo, garrafas e tinteiros de stoneware e até mesmo fragmentos de ósseo animal que mostre hábitos alimentares.

O conjunto III nos mostrou uma predominância de cultura material com artefatos do tipo willow e Shell edge. Estes materiais apresentam características parecidas no que diz respeito à fabricação, pois, estão com processos de fabricação entre de meados do século XIX.

O conjunto II estava muito antropizado com construções de concreto armado apoiadas em cima das estruturas antigas, além de instalações de esgoto com manilhas de cerâmica. O material arqueológico tem a característica parecida do conjunto descrito acima, porém com outros vestígios de ocupações do século XX representados por tijolos maciços, telhas francesas fragmentadas.

No terceiro conjunto que teve a menor das áreas de estruturas de pedras construídas, por outro lado, apresentou o maior volume de material arqueológico diversificado. Neste, o material apresenta características de meados do século XIX. Há uma grande quantidade de fragmentos de vidro – não coletados – com outros materiais que mostram bem a característica, como tinteiros de stoneware com o bico na ponta.

B.  Etapa do Resgate

 

Nesta etapa a coleta de material arqueológico aproximou-se de 5.000 artefatos, distribuídos em 36 cortes estratigráficos por todo o sítio. No conjunto I foram recuperados fragmentos representando 60% do total do terreno. No trecho do conjunto II foram 16% com a menor proporção e no terceiro conjunto foram recuperados 16%.

O conjunto I apresenta grande variedade na cultura material no que se refere à decoração da louça e das garrafas de stoneware inteiras recuperadas. Observa-se a presença de willow, Shell edge, Borrão, porcelana chinesa e garrafas de licor Wynard Fockink (destilaria de Amsterdã, Holanda, fundada em 1679) fabricadas no Brasil a partir de 1850 até os tempos atuais. Estes materiais apresentam uma grande concentração na área frontal do conjunto, mais próximo a Rua Jardim Botânico. Dentre eles as garrafas de grés inteiras encontravam-se organizadas lado a lado na escavação arqueológica. Neste conjunto também havia uma grande quantidade de fragmentos de vidro que não foram contabilizados aqui nesta análise, pois não nos traria uma quantidade correta devido a suas características parecidas.

O conjunto II apresentava maior impacto conforme dito anteriormente, porém a ocorrência de material estava nos fundos do terreno. O material estava localizado/distribuído nos cômodos escavados nesta etapa e estão representados a partir da segunda metade do século XIX e início do século XX. Estão divididos entre metal (cravos e chapas), e outros do século XX como fragmentos de telha francesa e tijolos maciços.

A distribuição deste nos conjuntos, com predominâncias de louça decorada, cerâmica colonial e vidros (fundo), este último nos mostra uma população mínima de garrafas.

 

C. Etapa do Monitoramento

Nesta etapa, o material arqueológico foi coletado respeitando-se os conjuntos arquitetônicos entre frente e fundos. Desta forma, foi observada a distribuição espacial do material pelo terreno, evidenciando-se, comparativamente, a resposta para as ocupações históricas anteriores.

Foram     coletados    aproximadamente 2.000 artefatos nesta etapa e distribuídos percentualmente em: 3% no conjunto I e 26% no conjunto II. O conjunto III equivaleu a 71% do total do material coletado.

Os materiais coletados foram representados por cerâmica, louça, vidro, metal, stoneware, uma garrafa inteira e um tinteiro, material ósseo, lítico, malacológico, piso hidráulico, telha colonial, tijolo e vegetal (rolha de garrafa de cortiça).

No conjunto I, poucos foram os dados levados em consideração. Foram recuperados menos de cinquenta artefatos que não nos trouxeram substrato seguro para análise.

No conjunto II, a predominância do material é do século XIX com louça decorada tipo Shell edge, Borrão, Willow e um fragmento de faiança portuguesa. A análise laboratorial evidenciou pouco material do século XX.

No conjunto III, houve acentuado aumento do material arqueológico e mais de 70% do material encontrado nesta etapa, foi recuperado nesta área. Estes foram caracterizados como oriundos da segunda metade do século XIX. Nas análises observamos a diversificação de louça decorada com tipo willow, Shell edge, Borrão e um fragmento de faiança portuguesa.

Os materiais do século XX estavam em bolsões indicando descarte em áreas de combustão e com telhas francesas e cacos de vidros planos.

 

D. Laboratório - Análise comparativa das etapas da Pesquisa Arqueológica

No laboratório, as análises mais amplas dispuseram todos os dados permitindo uma maior compreensão de todos os conjuntos edificados e de sua relevância ocupacional para o conhecimento da Cidade do Rio de Janeiro.

As análises laboratoriais revelaram a quantidade de material coletado nas três etapas da pesquisa arqueológica. Uma coleção com mais de 8.000 artefatos, distribuídos percentualmente em: 39% no conjunto I, 18% no conjunto II, e, por fim, 43% no conjunto III.

 

Conclusão

 

O material do sítio arqueológico JB 695, data de pelo menos dois períodos cronológicos bem marcados. O primeiro corresponde a segunda metade do século XIX, com material presente nos três conjuntos arquitetônicos e o segundo mostraram materiais do século XX, também presentes nos três conjuntos, porém com diferenças na predominância de cada categoria e para cada área.

Na evidenciação do conjunto I, o destaque ficou para as estruturas arquitetônicas.

No conjunto II, destaca-se o grande volume de material cultural do tipo louça decorada.

No conjunto III, a presença de frascos diversos em vidro (de perfumes, produtos de beleza, tinteiros, medicamentos), assim como garrafas de stoneware, sugerem ser este uma edificação comercial.

Os resultados se tornaram satisfatórios para responder os questionamentos a respeito de quantas ocupações tinham no terreno e quais os períodos históricos.♦

Equipe:

Coordenação:

Responsável pelo Programa - Arqueólogo Dr. Ondemar Dias Junior

Gerente de Projetos - Arqueóloga Especialista Prof.ª Jandira Neto

Contadoria – Arqueóloga Especialista Cida Gomes

Equipe Técnica da pesquisa de campo

Coordenador Geral e Historiador – Dr. Ondemar Dias Junior

Gerente de Projetos – Arqueóloga Especialista Prof.ª Jandira Neto

Responsável pela Execução de Campo - Arqueólogo Pesquisador Pleno Divino de Oliveira

Arqueólogo Junior - Antonio Carlos Souza

Auxiliar Técnico - Geovani Dionísio

Auxiliares de campo – Claudio Barbosa, Clemilson Barbosa, Jose Carlos, Jaime Freitas, Marcio Oliveira, Roberto dos Santos, Leandro Vinicius, Michel da Conceição, Joseph Leandro, Anderson da Silva.

Arqueólogo em campo responsável pela Fase de Monitoramento:

Rhuam Carlos Souza 

Equipe Técnica de Laboratório

Técnico de laboratório III – Leandro Correa

Técnico em Arqueologia de laboratório – Paloma Santana

Auxiliar de laboratório I – Rodrigo Faria

Equipe de Historiadores

Prof. Dr. Ondemar Dias

Prof.ª Cintia Ray

Equipe de Estúdio/Divulgação

Letícia Sampaio – Comunicadora Social e Auxiliar Técnico de Educação Patrimonial

William Cruz - Designer/ fotografias e Auxiliar Técnico de Educação Patrimonial

Diego Lacerda - Assistente de Marketing

Rodrigo Rubens – Auxiliar de estúdio

Antônia Neto - Auxiliar de Estúdio