PROPEVALE – Técnicas, motivos e cores: análise cronológica e quantitativa em arte rupestre – o sítio Boqueirão Soberbo, Minas Gerais

 

Objetiva-se apresentar aqui os resultados das análises cronológica e quantitativa da arte rupestre no sítio Boqueirão Soberbo, Varzelândia Minas Gerais. Enfatiza-se a necessidade de análises, uma vez que através delas é possível observar a ocorrência temporal de motivos, técnicas, tratamentos e cores.

 

Introdução

 

As pesquisas do Instituto de Arqueologia Brasileira-IAB no município de Varzelândia, Minas Gerais, iniciaram a partir de 1970, no âmbito do Programa de Pesquisas Arqueológicas no Vale do São Francisco – Propevale, sob a coordenação do Dr. Ondemar Dias Jr.. Priorizou-se nelas uma abordagem extensiva da imensa região compreendida pelo vale, através de sondagens e identificação do maior número possível de sítios prospeccionados em áreas preestabelecidas e denominadas Frentes de Pesquisas, abrangendo os principais afluentes de ambas as margens do rio São Francisco.

Os dados acumulados durante as pesquisas no estado de Minas Gerais refletem o desenvolvimento do caráter prioritário que a instituição emprestou às prospecções a partir de 1968, quando se realizaram os primeiros cadastramentos de sítios rupestres na área sul mineira, na bacia do rio Grande e, posteriormente, na região adjacente do Alto São Francisco. Com o desenvolvimento de programas específicos para Minas Gerais como o Propevale, inúmeros outros sítios do gênero foram sendo registrados (Carvalho & Seda, 1982:55).

Até o momento há 45 sítios registrados e pesquisados em Varzelândia, a maior parte localizada em grutas e a maioria dos sítios apresentando arte rupestre e outras evidências arqueológicas. Com tais características destaca-se o sítio Boqueirão Soberbo que, além das pinturas rupestres, apresenta solo arqueológico.

Varzelândia situa-se ao norte de Minas Gerais, formando com outros municípios a área de cadastramento VG (Verde Grande). Em nossas investigações sobre arte rupestre em Varzelândia temos procurado reconhecer e estabelecer uma cronologia para a manifestação, e isso tem sido fundamental para o estudo. Temos ressaltado a importância do enfoque cronológico na arte rupestre, considerando-o essencial para traçar um quadro evolutivo não só desse tipo de arte como de tradições, estilos e fases (Seda 1988:134).

No Brasil, as possibilidades de estabelecimento de cronologias são bastante promissoras – Prous (1980:26) considera o país como privilegiado neste aspecto – e isso nos permite o fornecimento de dados para o estabelecimento de tradições culturais na arte rupestre da região.

O Boqueirão Soberbo aproxima-se da proposta para a Tradição São Francisco, cuja característica é a presença significativa de figuras bi ou policromadas. Os sinais dominam na temática, com formas angulares. Os zoomorfos, presentes em quantidades variáveis, incluem principalmente quadrúpedes, cobras, aves e peixes, todos recebendo tratamento diferente da Planalto (idem). Impressiona, sobretudo, a quase total ausência de veados. Os antropomorfos são mais frequentes do que no Planalto, mas recebem tratamento muito variável, seja em função da região observada, seja, em alguns casos, em função do período cronológico.

É necessário notar que a Tradição é encontrada do Alto São Francisco à Bahia, estendendo-se até a região de Varzelândia.

No entanto, além de vestígios e materiais normalmente encontrados, a característica relevante deste sítio é a presença de expressiva quantidade de restos vegetais alimentares das populações pré-históricas, descobertos em seu abrigo e sua caverna, destacando-se a ocorrência de sabugos, espigas e grãos de milho, em alguns casos, dentro de estruturas organizadas – sítios (Bird, Dias Jr. & Carvalho, 1991).

A camada ocupacional da caverna atingiu a espessura média de 80cm, dividida em três camadas com diferenciações entre si, como coloração, granulometria, compactação, evidências culturais, etc.

O abrigo demonstrou formação diferenciada e mais complexa (op.cit., 1991:19), com suas camadas identificadas, variando sua espessura ocupacional entre 50 e 120cm de profundidade.

Observou-se que as camadas superiores correspondem a um povoamento de horticultores, devido à presença de cerâmica (pouca), cestaria e preservação de vegetais. Nas camadas inferiores há testemunhos de longa ocupação de caçadores-coletores, encontrando-se nelas lítico lascado e material ósseo trabalhado.

Quanto ao material arqueobotânico foram coletados 28 amostras de milho, a maioria representada por sabugos pequenos, em um horizonte cronológico que varia entre 1300 e 4950 AP. Os sabugos maiores pertencem a um período mais recente (idem:20).

 

Localização e meio ambiente

 

O sítio Boqueirão Soberbo situa-se ao norte do estado de Minas Gerais, especificamente no município de Varzelândia, distrito de Campo Redondo. Banhada pelo Verde Grande, a região está inserida na Frente VI do Propevale e apresenta-se colinar na maior parte, com mata higrófila acompanhando as formações rochosas dos vales, com cerrados e vegetação crassa próxima ao topo dos platôs rochosos (Menezes e Silva, 1985:9) e com formações calcárias nas quais diversas grutas e abrigos contêm vestígios arqueológicos.

A cidade Varzelândia encontra-se no alto da serra do Sabonetal (chapada divisora de águas do São Francisco e Verde Grande) a mais de 700m de altitude. Está inserida no chamado Polígono das Secas, em consequência da irregularidade das precipitações. Estas, contudo, variam entre 1.800 e 1.200mm anuais. A temperatura média fica entre 22º e 24ºC com a mínima entre 17º e 19ºC e a máxima entre 30º e 32ºC. O clima é AW de Koppen, com chuvas de verão. (Dias Jr. Seda & Bello, 1988:76).

Os terrenos são principalmente sedimentos antigos, primários e secundários. Apresenta formação da Série Bambuí, com relevo cárstico. Possui afloramentos sucessivos de rocha calcária, com formação de blocos variados. As diaclases e os corredores de dimensões variadas são comuns.

Bastante característicos em Varzelândia são os chamados boqueirões: canhões, na maior parte estreitos, abertos nos paredões calcários por rios que hoje estão reduzidos a córregos, que só têm água durante as chuvas e que se intercruzam, pois os pequenos terminam nos médios e os cortes, por sua vez, nos maiores, formando-se assim verdadeiros “labirintos de vales” (idem:77). É, portanto, em um desses boqueirões que se localiza o sítio Boqueirão Soberbo, objeto do nosso estudo.

No local deste sítio, o vale ou boqueirão é cortado por um riacho intermitente, que lhe dá o nome, acompanhando as formações rochosas. No boqueirão há mata higrófila e vegetação crassa (Menezes e Silva, op. Cit.:6).

Toda a região de Varzelândia é ainda bem pouco devastada e podemos encontrar um bom número de animais selvagens. Nota-se na região a interferência humana, que se faz sentir pelo corte de muitas árvores apara a utilização na marcenaria e na alimentação. Nos sítios à beira da estrada é comum o cultivo da terra com milho, mandioca, feijão e algodão.

A região oferece abrigo na vegetação ainda bastante preservada e especialmente pelas extensas formações calcárias. As numerosas lapas e falhas da rocha, que outrora serviram a grupos pré-históricos, como se vê pelas pinturas impressas e outros vestígios, atualmente são utilizados pela fauna local. Por outro lado, a existência de frutos silvestres adquire importância ecológica na medida em que garantem a subsistência dessa fauna, principalmente de aves e mamíferos.

É evidente a utilização e conhecimento da flores pela população local. Numerosas espécies têm aplicação medicinal e ainda hoje há curadores que dependem das informações populares. Assim, parece-nos razoável pensar que muitas dessas plantas tenham sido utilizadas também pelos povos primitivos outrora existentes na região (idem:9).

O Sítio Boqueirão Soberbo

 

Trata-se de uma lapa relativamente ampla, com duas áreas principais, denominadas abrigo e caverna, que tem uma entrada orientada em sentido N/S, o que a faz bem iluminada. Além destas áreas principais existem outras denominadas nichos I e II, pequenas cavidades na parede sem sedimento arqueológico. As escavações sistemáticas revelaram uma ocupação contínua do sítio em um horizonte situado entre ± 9185 e ± 1325 anos AP, registrada pela forma de fragmentos cerâmicos, líticos ósseos, malacológicos, como também restos alimentares e vegetais (inclusive sabugo de milho em um horizonte de ± 8000 anos AP) enterramentos, estruturas diversas e arte rupestre.

As pinturas ocupam três áreas distintas – abrigo, caverna e nichos; no entanto mantêm diferenças entre si. A caverna tem 16 X 18m e está a cerca de 3 metros de altura e, em relação ao córrego, situa-se numa área mais alta que o abrigo, ainda que à mesma distância. Nela, as pinturas estão espaçadas, são de 12 painéis, ainda que alguns deles constituídos por uma só figura.

O abrigo tem aproximadamente 8X6cm apresentando uma cornija alta e boa ventilação. As figuras estão mais agrupadas, com menor tamanho (entre 15 e 10cm, sendo que algumas com menos de 5cm) e mais naturalistas. Observamos que alguns conjuntos podem representar cenas, como danças, animal em armadilha etc. Identificaram-se em sete painéis.

Nos nichos, há figuras menores (entre 10 e 5cm), com predomínio da cor vermelha e de figuras cheias. Encontram-se também agrupados em pequenos painéis e os antropomorfos aparecem menor quantidade.

Análise quantitativa

 

Foram analisadas 277 figuras, somando-se as representações dos três ambientes, distribuídos dos seguintes modos: 168 no abrigo, 75 nos nichos e 84 na caverna. Todas as figuras nos três ambientes receberam tratamento esquemático e, de modo geral, predominam com motivo geométrico, técnica, silhueta e cor vermelha. Apresentaremos a seguir uma síntese das informações obtidas através da análise quantitativa (Diniz, 1991:30-1).         

Considerando os percentuais obtidos em relação ao total de figuras dos três ambientes, os geométricos constituem o motivo mais representado do sítio, perfazendo cerca de 40% acompanhados pelos não figurativos em segundo, antropomorfos em terceiro, zoomorfos, e, finalmente, os astronômicos. Com relação às técnicas, prevalecem as representações em silhueta – a técnica linear situa-se em percentual pouco inferior, seguida das figuras em linear-cheio. A cor predominante em todo o sítio é a vermelha, cuja porcentagem ultrapassa 60%. As demais cores aparecem em ocorrências muito menores.

Isoladamente, no exame dos percentuais de cada ambiente, prevalece em todos a representação de figuras geométricas. Em ocorrência menor estão os não-figurativos. No abrigo e nichos os antropomorfos apresentam-se em número bem aproximado em ambos, vindo a seguir os zoomorfos e, finalmente, com menor ocorrência, os astronômicos. Na caverna, ao contrário, os zoomorfos sucedem os não-figurativos, ao passo que os antropomorfos e astronômicos têm o mesmo número de representações. As representações de fitomorfos constituem motivos exclusivos dos nichos, ao passo que os biomorfos e as impressões palmares aparecem somente no abrigo.

Considerando a utilização das técnicas, cada ambiente apresenta características distintas. Enquanto na caverna a técnica linear predomina absoluta, nos nichos prevalece a silhueta; no abrigo, ambas as técnicas – linear e silhueta – apresentam ocorrências bastante semelhantes em termos percentuais. Ainda, com relação às técnicas, a linear-cheio foi a que apresentou a menor ocorrência e a moldada foi registrada em ocorrência mínima, e exclusivamente no abrigo.

A análise das cores também aponta para diferenciações entre os três ambientes, ainda que predomine o vermelho nas representações. Cabe ressaltar que o abrigo apresenta grande combinação de cores, algumas delas não aparecendo nos outros ambientes do sítio. Na caverna, as representações em preto que sucedem as em vermelho são também numerosas, seguidas pelas figuras em amarelo. A combinação amarelo-vermelho não ocorreram no ambiente. No abrigo, ao contrário, depois do vermelho, a combinação vermelho-amarelo foi a mais utilizada, porém com frequência bem inferior, seguindo-se então o preto e o amarelo. Aparecem também com frequência menor o branco e a combinação amarelo-vermelho, além de combinações de cores exclusivas deste ambiente. A predominância da cor vermelha nas figuras do nicho situa-se em percentuais bem maiores que os dos outros dois ambientes. As demais representações aparecem em amarelo, amarelo-vermelho, vermelho-amarelo e branco. Ressalta-se, neste último ambiente, a ausência a utilização do preto na elaboração das pinturas.

O cruzamento dos dados (motivos, técnicas e cores) foi essencial para aprofundarmos a análise e a comparação das características dos três ambientes. Cabe ressaltar o cruzamento técnica x motivo, que reitera as diferenças entre os três ambientes.Contrastando técnica e motivo, na técnica linear todos os ambientes apresentaram as mesmas características, predominando as geométricas seguidas do não-figurativos. Na silhueta, os ambientes diferem: na caverna predominam os zoomorfos, acompanhados pelos não-figurativos; no abrigo, estes últimos predominam, sendo que os zoomorfos apresentam ocorrência também considerável; nos nichos são os antropomorfos que prevalecem, seguidos pelos não-figurativos. A representação da técnica linear-cheio associada aos motivos revelou igualmente diferenças entre os ambientes: na caverna ocorre predominância absoluta dos geométricos, que também predominam no abrigo, mas não de maneira absoluta. Os nichos geométricos e astronômicos se igualam na ocorrência desta técnica.

Cronologia das sinalações

 

As pinturas estão distribuídas nos três ambientes do sítio, porém há diferenças de um para o outro ambiente. Na caverna, estão distribuídas em 12 painéis, algumas apresentando uma única figura. As representações têm tamanho que variam entre 30 e 10cm e tendem mais para a estilização.

No abrigo, as figuras estão mais concentradas, representadas de forma mais naturalista, algumas compondo cenas em tamanho menor – de 15 a 5cm.

Os nichos têm figuras menores que as do abrigo, variando de 10 a 15cm, com prevalência das cheias, vermelhas e zoomorfas, agrupadas em pequenos painéis.

O sítio apresenta, ainda no abrigo, algumas poucas gravações bem pequenas, sob a forma de sulcos produzidos por polimento. Seda (1989) observa que estes sulcos a princípio foram confundidos com marcas de afiadores, pois aparentemente não constituem um desenho.

Com base na análise dos painéis maiores do sítio – 1 e 2 do abrigo – foi possível observar um mínimo de quatro momentos distintos na elaboração das pinturas, cada qual associado a uma dada técnica de execução, cor, etc. (Seda, op.cit.:68).

O Momento I ou Antigo constitui-se de figuras pequenas, executadas pela técnica da silhueta, nas cores vermelho e amarelo, as quais lembram antropomorfas.

O Momento II ou Primeiro Intermediário caracteriza-se pela utilização da técnica linear-cheio em vermelho-amarelo ou amarelo-vermelho. São figuras maiores que, aparentemente representam zoomorfos, geométricos, situados sobre as figuras do Momento I.

Ao Momento III ou Segundo Intermediário estão associadas às figuras semelhantes as do momento anterior, porém com execução em silhueta e em vermelho, e um pouco maiores, situadas sobre o Momento II.

No Momento IV ou Recente encontram-se as figuras brancas, também em silhueta, que lembram vagamente antropomorfos e aparecem tanto sobre figuras do terceiro Momento como do segundo.

Algumas delas ainda apresentam situação duvidosa, pois não foi possível enquadrá-las, com certeza, em algum dos momentos ou determinar se constituem um novo momento. As figuras em preto (antropomorfos e bastonetes) aparecem sobre uma figura do terceiro Momento e sobre um geométrico associado ao primeiro; com relação aos círculos e semicírculos em vermelho, um deles está sob uma figura do Momento II, o que resultou em associá-los, a princípio, ao primeiro Momento. Os bastonetes sobre a impressão palmar do Momento II também estão em situação duvidosa.

Uma figura branca do quarto Momento, à esquerda do painel, possivelmente teria se descascado e se tornado incompleta, não cobrindo totalmente o zoomorfo do Momento II. Neste caso, portanto, não é possível afirmar se os traços pretos sobre este zoomorfo foram feitos antes ou depois da execução da pintura branca. No painel 6 do abrigo, por outro lado, encontra-se uma figura geométrica (gradeado), em preto, elaborada por técnica linear, sobre um grande antropomorfo (cerca de 40 cm), em linear-cheio, vermelho-amarelo. A figura antropomorfa relaciona-se claramente às representações do Momento II, enquanto o gradeado enquadra-se entre as que ainda se acham em situação duvidosa. A princípio, entretanto, convém observar que tal superposição – geométrico preto sobre figura naturalista em vermelho-amarelo – é bastante semelhante a outra encontrada no painel 2 do abrigo. Ainda que de forma duvidosa, podemos considerar a priori, que as figuras em preto foram executadas entre os Momentos III e IV.

Conquanto nos painéis do abrigo abundem superposições nos demais ambientes, de modo geral, são bastante raras. Na caverna (painel 2), uma figura geométrica executada pela técnica linear e em cor vermelha aparece sobre um zoomorfo, também em linear, amarelo – ambas as figuras com grandes dimensões (cerca de 30 cm). Ambas também em situação duvidosa, ainda que a figura geométrica apresente características das que compõem o primeiro Momento.

Nos nichos, no primeiro (I), os painéis 2A e 6 também apresentam superposições de representações: o primeiro, com duas figuras zoomorfas, em vermelho e silhueta, sobre figura antropomorfa, amarela, também em silhueta; no segundo, um antropomorfo amarelo, em silhueta, está sobre outro antropomorfo também em silhueta, porém em vermelho. As figuras que estão por baixo têm dimensões mais reduzidas (cerca de 10cm) do que as que se sobrepõem a elas. Possivelmente, ambos os casos, estejamos diante de representações do primeiro Momento, menores (antropomorfas em silhueta, amarelos) as quais são superpostas parcialmente por figuras maiores do Momento III (antropomorfas e zoomorfas em silhueta, vermelhos).

Considerações finais

 

Dentre os enfoques da arte rupestre, talvez o cronológico seja o mais significativo para a análise, já que influencia os demais. Sem ele estaríamos considerando toda uma gama de manifestações rupestres como uma única e igual manifestação cultural. Entretanto, as culturas apresentam variações em função da sua expansão espacial através dos tempos, modificando ou absorvendo características, as quais expressam mudanças culturais. Desse modo, a arte rupestre representa um dos vestígios da evolução mental do homem pré-histórico, assim como da preservação e transmissão de suas ideias. (Seda, 1988:166).

O estabelecimento de uma cronologia para a arte rupestre deve obedecer a alguns critérios, dentre eles o de que seus elementos devem ser considerados em conjunto e não separadamente. Por isso, não nos baseamos num único elemento, mas num conjunto de evidências que nos pudesse conduzir até a cronologia, destacando-se, no caso de Varzelândia as superposições juntamente com as diferenças estilísticas. É possível extrapolar os dados para outros sítios, já que figuras e situações repetem-se de sítio para sítio.

É importante, ainda, a correlação da análise quantitativa com a cronológica, através da qual se observam as predominâncias dentro de cada momento e também a sua modificação ao longo da ocupação do sítio.

A presença de quatro momentos na arte rupestre do sítio Soberbo, levando-se em consideração semelhanças e diferenças, demonstra possivelmente a existência de uma única tradição que apresentou variações ao longo da ocupação da gruta. Pode-se concluir, portanto, que o sítio foi um local visitado e utilizado durante toda a pré-história local, ou, pelo menos, durante o desenvolvimento de sua arte rupestre. Além disso, pode-se considerar a hipótese de que o Boqueirão constituísse um possível centro visitado por todas as populações locais, as quais se sucederam na região, com o objetivo de executar atividades diversas, dentre elas, a arte rupestre (Seda, 1989:69).

Infelizmente, no caso deste sítio, ainda não foi possível precisar a época exata em que cada momento aparece, pois os vestígios presentes nas camadas arqueológicas não permitiram uma correlação com as sinalações. Entretanto, podemos supor que as diferenças entre tais momentos estejam relacionadas a ocupações diferentes, reveladas na escavação, onde habitaram primeiramente populações de caçadores-coletores, sucedidas mais tarde por horticultores.

Uma questão que deve ser considerada é de que como duas ocupações com características tão distintas, uma pré-cerâmica e outra cerâmica, explícitas nos vestígios arqueológicos, não se expressem na sua arte rupestre de maneira tão diferente, já que essa arte apresentou poucas variações no decorrer da ocupação do sítio. Comentando a longa duração de arte rupestre, Leroi-Gourhan observa que “na vida das sociedades, os modelos de armas mudam com muita frequência, as instituições algumas vezes, enquanto as instituições religiosas permanecem imutáveis durante milênios” (Apud Leakey, 1981:169).

Através do estudo da diacronia na região, percebe-se que a diferenciação cronológica se faz não pela mudança de tipos ou temas, mas sobretudo pela mudança no predomínio das cores e das técnicas de execução (Seda & Jundi, 1991). Em Varzelândia, provavelmente, estamos diante de uma tradição com seus diferentes momentos (Seda, op. Cit.:69).

Convém esclarecer ainda, que tais observações sobre cronologia não são conclusivas, visto que são baseadas, principalmente, nas superposições. O estabelecimento de cronologia com base em um único elemento é bastante arriscado e, portanto, torna-se primordial procurar outras evidências que confirmem estas observações, o que tencionamos fazer em breve.

Se estas observações forem confirmadas, bem como a sequência proposta, tornar-se-á possível enquadrar outros sítios da região dentro de horizontes cronológicos, especialmente em se tratando de sítios que não possuem sedimento arqueológico e que dentre os localizados são a maioria, constituindo a arte rupestre a única evidência de ocupação humana. Por outro lado, naqueles em que houver possibilidade de escavação, as datas obtidas poderão auxiliar na associação dos “momentos” registrados.

 

Autores:

Paulo Seda – Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB; Departamento de Arqueologia e Ciências Ambientais, Universidade Estácio de Sá – UNESA; Departamento de História, Programa de Estudos de Pré-história Brasileira, Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.

Denise Chamum – Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB; bolsista CNPq

Kátia Diniz – Instituto de Arqueologia Brasileira; bolsista CNPq

 

Bibliografia

 

CARVALHO, Eliana & SEDA, Paulo. Os sítios com sinalações pesquisados pelo IAB: um guia para cadastramento. Boletim do Instituto de Arqueologia Brasileira. Rio de Janeiro, IAB, 9: 23-67, 1988.

CHAMUN, Denise. Análise quantitativa da arte rupestre da Lapa do Mutambal (MG-VG-65). Monografia de Bacharelado em Arqueologia. Rio de Janeiro, UNESA, 1993 (man.).

DIAS Jr., Ondemar. Um método de classificação para arte rupestre. Boletim do Instituto de Arqueologia Brasileira. Rio de Janeiro, IAB, 8:55-67, 1979.

DIAS Jr., Ondemar; Seda, Paulo & BELLO, Mônica T. Escavações arqueológicas no norte de Minas Gerais, Varzelândia. O sítio Zé Preto (MG-VG-27). Revista de Arqueologia. São Paulo, Sociedade de Arqueologia Brasileira, 5:75-89, 1988.

DINIZ, Kátia. Técnicas, motivos e cores: análise quantitativa em arte rupestre – O sítio Boqueirão Soberbo, Minas Gerais. Monografia de Bacharelado em Arqueologia. Rio de Janeiro, UNESA, 1991 (man.).

LEAKEY R; DIAS Jr., Ondemar & CARVALHO, Eliana. Subsídios para a arqueobotânica no Brasil: o milho antigo em cavernas de Minas Gerais, Brasil. Revista de Arqueologia. São Paulo, Sociedade de Arqueologia Brasileira, 6:14-31, 1991.

MENEZES, Mariângela e SILVA, Jane Garcia da. Levantamento botânico o município de Varzelândia, MG.  Relatório Interno do Programa de Pesquisas Grutas Mineiras. Rio de Janeiro, Instituto de Arqueologia Brasileira, 1985(man.).

PROUS, André. A datação das obras rupestres pré-históricas: o exemplo de Minas Gerais. In: Catálogo da exposição pré-história brasileira. Aspectos da arte parietal. Belo Horizonte, UFMG, p. 22-26, 1980.

SEDA, Paulo. Artistas da pedra: pinturas e gravações da pré-história. Dissertação de Mestrado em História. Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ, 1988 (man.).

_________Estudo de cronologia em el arte rupestre de Minas Gerais, Brasil: el sítio Boqueirão Soberbo. Boletin de la Sociedad de Investigación de Arte Rupestre de Bolivia. La Paz, SIARB, 4: 64-75, 1989.

SEDA, Paulo & JUNDI, Andréa. As gravações da Lapa João Branco (MG-VG-26) e sua filiação cultural. Revista do CEPA.  Santa Cruz do Sul, FISGS, (17) 20:65-78, 1990.