Paraty Mirim - Prospecção Interventiva - 2014

 

Projeto de Prospecção Arqueológica Interventiva em terreno onde será construída a sede da Reserva Ecológica Estadual da Juatinga em Paraty-Mirim - RJ

 

Em 2011 o IAB realizou o Projeto de Avaliação do Potencial Arqueológico (vistoria não interventiva) neste terreno e arredores recomendando, mesmo sem ocorrência de materiais arqueológicos em superfície nesta etapa da pesquisa, sua liberação com o necessário acompanhamento (ou monitoramento) das obras quando da construção da sede prevista, entendendo ser importante se obter todos os dados históricos secundários, cartográficos e registros de sítios pesquisados no entorno que dessem suporte a nossa recomendação. Após a realização das pesquisas não interventivas e o relatório final com o nosso parecer, no entanto, o Iphan determinou que fosse organizado um “Projeto de prospecções arqueológicas, pois conforme pesquisas anteriormente realizadas na área, trata-se dos fundos do quintal do Sítio Arqueológico de Paraty-Mirim”.

 

Assim em 2014 a nossa equipe dirigiu-se à área para sua execução.

Inicialmente verificou-se que a maior parte a ser pesquisada encontrava-se plantada com coqueiros e um bom número de palmeiras, sobretudo ao longo da estrada; que o terreno assentava-se em solo arenoso, friável, com variação local de umidade. Que na parte da frente e do lado oposto da estrada estendia-se o que parece ter sido o curso antigo do rio, com vegetação de mangue, alguma restinga e áreas alagadas. Em direção ao litoral, na área ocupada pelo Sr. Jesus Pinto as características permaneciam idênticas. Na parte de trás do terreno a cota começava a se elevar, atingindo boa altitude em morro florestado, já incluído na Reserva Ecológica. E, no lado contrário ao litoral (Oeste) ainda subsistiam restos de mangue, embora parte dele estivesse plantada de capim forrageiro.

Durante as pesquisas a abordagem de campo foi efetivada por dois tipos de trabalho os quais foram executados de forma concomitante. Uma abordagem extensiva, com sondagens e uma intensiva, além das sondagens efetivadas dentro das trincheiras.

Nas proximidades da estrada, que originalmente cortava terreno palustre e que agora constitui o lado da frente do terreno em pauta e não os fundos ou o quintal do Engenho do Paraty Mirim, como sugerido anteriormente e servindo como base de fixação da faixa de rodagem, foram construídos lateralmente canais de esgotamento. Para “cobrir” a estrada aterros e sedimentos foram trazidos de outros locais. Mesmo assim, no entanto, nenhuma evidência aflorou então à superfície.

Determinado trecho da estrada, justamente sobre o manilhamento duplo que cruza por baixo da estrada, recebeu um caminhão de aterros retirados dos desmoronamentos das casas arruinadas do sitio arqueológico do Engenho do Paraty Mirim. Tal aterro foi lançado sobre uma cratera provocada por erosão pluvial intensa o que explicaria a relativa abundância desse material na linha “1” nas proximidades do Setor aberto mais próximo à Estrada.

Constata-se também que, a distribuição de restos de entulho e lixo em geral por grande parte do terreno se deve ao seu constante trânsito, em especial pelo fato de que existem em seu interior algumas residências. Para a comunicação dessas casas foi estabelecida uma estrada interna, bastante utilizada e é viável que a distribuição de entulho por toda a área resulte do pouco cuidado dos moradores, desde que – pelo menos na atualidade, conforme pudemos presenciar durante os trabalhos de campo – existe um sistema ativo de coleta de lixo.

Some-se a tudo isto o fato de existir um canal (utilizado inclusive para demarcar os limites do terreno destinado às obras) e que – segundo os moradores locais – foi aberto para escoamento das águas pluviais. Segundo eles em momentos de grandes chuvas, a área pantanosa represada entre a elevação colinar e a estrada transborda e inunda o terreno vizinho. Nota-se que aquele canal deságua paralelo à Estrada segue junto à mesma por um bom pedaço, até o ponto onde cruza a estrada, em duas grandes manilhas.

É válido também observar que predomina no total do material coletado, aquele de origem recente, que pode se associar seja a aterros localizados, seja à deposição de lixo doméstico, perfazendo quase 70% de todo o acervo e deve ser destacado que foram encontrados até os níveis estratigráficos mais baixos de ocorrência.

O material de origem natural, sejam os ossos de animais terrestres ou marinhos, não indicam qualquer peculiaridade especial, a não ser comprovando seu consumo pelos habitantes atuais. Destaque-se a ocorrência de algum carvão disseminado pelo terreno. Este comprova o que foi afirmado pelo seu posseiro, que ele mesmo tirou a mata e saneou o mangue local, roçou e destocou o mesmo (e, sem dúvida, praticou queimada, como de costume) para o plantio do coqueiral.

Por outro lado constatou-se também uma ocorrência de interesse. É que coqueiros há muito mortos e cujos troncos jazem soterrados, pela falta de oxigênio ficam calcinados, e, a princípio, pareciam indicar antigas fogueiras. Com o avanço das escavações pode-se visualizar que eram apenas antigos “esqueletos” de velhos coqueiros pelo terreno.

Considere-se, ademais que, segundo os informes, este terreno vem sendo lavrado há mais de 40 anos não só com plantações de coqueiros e palmeiras, como também constantemente capinado e roçado (como aconteceu durante os trabalhos de campo).   

Finalmente o material que pode ser considerado “arqueológico” jaz esparso pelo terreno, ele também ocupando os níveis superiores das escavações. São, no entanto, raros, isolados, sem associação a qualquer estrutura e resultam muito provavelmente da ação natural de rolamento, ou antrópica.

Parte desse material sem dúvida é oriunda dos aterros praticados no terreno, que, segundo consta, era parcialmente ocupado pelo mangue que ainda viceja nos seus limites, aterros que podem ter sua origem (assim como aconteceu com aquele da estrada) em áreas mais próximas do Parque Arqueológico de Paraty-Mirim.

Não deve ser descartada, ainda, a possibilidade de serem peças ou fragmentos levados pelos moradores daquele mesmo local, ou de outros ainda encobertos pelas matas, e ali deixados ou atirados fora.

Como pode ser observado em nenhum caso se trata de material de importância maior. Todo ele é constituído de fragmentos comuns, restos de elementos arquitetônicos, como lajotas ou tijolos maciços, cacos de telha de goiva e restos de louça colonial e neo-brasileira, além de algum pouco lítico e metal.

Seu conjunto é constituído por peças tão esparsas que não se tornam significativas a nosso ver para determinar a existência de um sítio arqueológico no local. 

Em nenhuma das 556 sondagens foi encontrada evidência de material arqueológico ou histórico, confirmando nossas observações quando da abordagem Não Interventiva de superfície relatada na primeira atuação.

O parco material recente ou de entulho que apareceu nas sondagens está descrito na lista inventário.

Após examinarmos os fracos resultados adiante estudados, parece certo afirmar não restar mais dúvidas de que naquele terreno não foi confirmada a presença de qualquer sítio arqueológico, em que pese sua proximidade com o parque das ruínas.

 

Equipe:

Coordenador Científico – Ondemar Ferreira Dias Junior

Gerente do Projeto - Josefa Jandira Neto Ferreira Dias

Coordenadores de Campo - Ondemar Ferreira Dias Júnior

                                              Josefa Jandira Neto Ferreira Dias

Coordenador Administrativo – Cida Gomes

Técnico em Arqueologia - José Neto

Auxiliares Técnicos - Maria Solidade Neto

                                      Antonia Neto

Auxiliares de Campo – contratados no local