Programa Integrado de Arqueologia, Salvamento, Monitoramento e Educação Patrimonial Inválidos 123

Arqueologia

 

Em outubro de 2012 foi firmado um contrato entre o Instituto de Arqueologia Brasileira - IAB e a Even Rio 16/12 Empreendimentos Imobiliários Ltda, tendo em vista a construção de um edifício comercial em um terreno situado à Rua dos Inválidos, nº 123, centro histórico do Rio de Janeiro, dentro dos limites da APAC da Cruz Vermelha.

A APAC – Área de Proteção do Ambiente Cultural da Cruz Vermelha foi criada pelo Decreto nº 11.883 em 30 de dezembro de 1992, e "autoriza a transformação de uso, estimula o aproveitamento e a conservação de edificações tombadas ou reservadas, e dá outras providências" a espaços localizados nesta região.

Os serviços contratados ao instituto atenderiam, então, à legislação de proteção de patrimônio uma vez que tal edificação implicaria na demolição de um Prédio-Estacionamento ali existente e o fato de que, para consecução das obras pretendidas, o local seria diretamente impactado pela escavação dos alicerces da mesma, incluindo a instalação de uma garagem subterrânea.

Localização do terreno na Rua dos Inválidos – Imagem: Google Earth

Assim sendo, baseadas nos compromissos mútuos assumidos, foram estabelecidas as práticas de execução das tarefas inerentes às pesquisas arqueológicas em empreendimentos de construções civis, segundo as disposições legais em uso.

A metodologia utilizada no Projeto obedeceu a três direcionamentos básicos. Um deles dedicado à pesquisa histórica; o segundo, às atividades de educação patrimonial e o terceiro à arqueologia propriamente dita.

Comprovado seu interesse e avaliada sua historicidade, foram, os documentos, analisados em detalhes e preservados tanto para uso como fontes de informação quanto para servirem de base para as interpretações dos dados.

No caso da arqueologia, a busca por informes históricos torna-se até certo ponto especial, desde que, normalmente, a documentação focaliza assuntos de interesse político, social e econômico, e raras vezes temas que informam sobre detalhes do cotidiano, do “modo de fazer”, da vida comum, etc. Um exemplo desse fato é a falta total de informações históricas sobre o prédio em que se fixou a Tipografia Laemmert em meados do século XIX.

Destaque-se que, tanto para a pesquisa arqueológica quanto para a de educação patrimonial, o trabalho da equipe de historiadores foi de fundamental importância não só para certificar o uso do lugar como centro de atividades tipográficas, como até mesmo apontando o nome e a importância da empresa ali fixada.

Na Educação Patrimonial a preocupação principal da equipe foi a de beneficiar com o conhecimento, que estava se desenvolvendo pela pesquisa arqueológica e histórica, os membros das famílias residentes na área focal dos trabalhos. Entre eles, com destaque, os alunos do Colégio Estadual Souza Aguiar, cuja instituição é contígua ao empreendimento e estabelecida ali há mais de cem anos. Mas as atividades foram igualmente abertas para todos os demais moradores da área e seus vizinhos, assim como para os componentes das equipes de trabalho da obra e do próprio Instituto.

Em seu desenvolvimento as pesquisas arqueológicas propriamente ditas passaram por três fases distintas: a primeira relativa à prospecção extensiva interventiva inicial, (para reconhecimento horizontal do sítio) a seguinte, aos trabalhos de prospecção intensiva (escavações em profundidade para reconhecimento estrutural do sítio) e a última correspondendo às tarefas complementares de monitoramento (acompanhamento da retirada das estruturas e coleta de materiais a elas subjacentes).

Histórico da Ocupação

- Da Região

A pesquisa arqueológica de qualquer terreno situado no centro histórico da cidade do Rio de Janeiro deveria se caracterizar pela possibilidade de contar com uma sólida e variada base de informações históricas. Afinal a cidade, que por tantos séculos figurou primeiro como capital das Capitanias do Sul, depois como sede do Vice-Reino do Brasil, capital do Reino Unido Portugal, Brasil e Algarves, depois sede da monarquia brasileira e primeira capital da República, sempre foi merecedora dos cuidados e vigilância administrativa e burocrática por parte das autoridades. E toda a legislação para ser conhecida e devidamente obedecida, se apoia em farta documentação tornada pública e arquivada em repartições governamentais para isto destinadas. De forma que o acervo documental da cidade é vasto e preservado nos arquivos federais, estaduais e da própria cidade, contando ainda com o apoio dos arquivos da cúria metropolitana e da documentação cartorial.

Apesar deste fato, muitos dos pontos outrora importantes da cidade sofreram tal alteração ou foram de tal forma mutilados que pouco dessa mesma documentação restou. E algumas vezes são de tal ordem que pouco colaboram para com a pesquisa e reconstituição dos espaços ocupacionais cariocas. Isto sem contar que durante o século XVIII o Arquivo da Cidade pegou fogo destruindo ou danificando grande parte da documentação existente até ali. 

No caso do sítio em questão felizmente a situação chega a ser quase inversa. A documentação disponível é suficiente para informar os momentos mais importantes da sua crônica histórica e para tornar possível identificar as fases construtivas e as funções dos prédios ali erguidos ao correr dos séculos. E a pesquisa arqueológica, mesmo em nível extensivo, de prospecção, foi a tal ponto eficiente, que confirmou em grandes linhas a crônica local, aprofundando detalhes e esclarecendo lacunas.  

A cidade do Rio de Janeiro se desenvolveu em um espaço geográfico complexo entre as praias de mar e os morros do maciço da Carioca. Seu povoamento se expandiu a partir do litoral da baía de Guanabara, estendendo-se de forma tentacular pelos vales relativamente apertados entre os morros da sua imponente orografia.

Eram inúmeros também os pequenos cursos d’água passíveis de transbordamento, além do que para os vales entre os morros corriam as enxurradas tropicais de forma que, os alagadiços, os mangues e as pequenas lagoas que pontilhavam o ambiente desde cedo orientaram a ocupação humana. O terreno friável foi passo a passo conquistado com o correr dos anos, fossem drenados, fosse aterrados, com lixo, entulho ou com o solo carreado dos morros.  

Nos seus primeiros séculos de existência o entorno da cidade estava limitado entre a margem direita da Baía da Guanabara e os mangues de São Diogo, nas proximidades da atual Praça da Bandeira. Nas imediações, em especial no vale do Rio Comprido, então chamado “Iguaçu” (rio Grande, na verdade, por ser o maior da área) tinha início as terras dos Jesuítas, onde foram erguidos seus dois engenhos cariocas, o que limitou durante muito tempo a expansão do povoamento em direção ao interior.

Assim o centro urbano propriamente dito, que no tempo da conquista da terra aos indígenas tupinambás e seus aliados franceses se limitava ao estreito entre o oceano (Praia Vermelha) e a enseada de Botafogo, uma vez concluída a conquista pode ser transferido para o morro do Castelo (significando “do Forte”). O medo de novas invasões e dos ataques tamoios aninhou a cidade nas alturas. Somente com a diminuição do poder indígena e o afastamento das pretensões francesas finalmente a cidade desceu para a várzea apertada entre os morros do Castelo, de São Bento, da Conceição e de Santo Antônio. Restava à cidade o vale alagadiço por onde corre hoje a Avenida Presidente Vargas e a “raiz da serra” ao sopé da Carioca, por onde se estendia a estrada do Mata Cavalos, além da comunicação por mar.

Até a segunda metade do século XVIII os limites do centro urbano da cidade (por onde deveria correr um muro de proteção, visto no mapa anexado abaixo, de 1769) não ultrapassavam uma linha aproximadamente reta que ligava o Morro da Conceição ao de Santo Antônio e, dali para o litoral, na altura do atual Passeio Público, onde ficava a “Lagoa do Boqueirão”.

As lagoas e mangues que complicaram ainda mais a fixação humana tenderam a crescer a partir do século XVII com o incremento do clima tropical, quente e extremamente úmido que se estabeleceu, após a tepidez do “pequeno glacial” que vigorara no século da conquista. São famosos os comentários do Marquês de Lavradio, um dos principais Vice-Reis de nossa história (1769-1779), em suas cartas, destacando as tormentas, os raios, os calores, os piolhos e as brotoejas que o martirizavam...

Pois foi ele quem começou o saneamento dos pantanais chamados de “Pedro Dias”, cujas obras foram continuadas pelo Conde de Resende, Vice-Rei entre 1790 e 1801. Foram aterrados e drenados os charcos do entorno do Morro do Senado e abertas ruas a partir daquele ponto, ampliando as possibilidades de habitação, então ainda restritas às chácaras e roças que abasteciam a cidade.

Na planta abaixo se pode ver a localização da “Lagoa do Boqueirão” onde seria aberto o Passeio Público e a “Lagoa do Desterro” entre o morro de Santo Antônio e o do Senado, junto à Estrada do Mata Cavalos, hoje Rua Riachuelo. Tanto a Rua dos Inválidos, então “Rua Nova de São Lourenço” quanto a Rua do Lavradio comunicavam esta estrada ao Campo de Santana e foram abertas em parte desse terreno pantanoso, sem dúvida com muito aterro servindo de base.

Além daquelas duas também foi aberta a Rua do Senado, com este nome porque nela ficava situado o “Senado da Câmara” ou Paço Municipal. A Rua do Resende era conhecida então como Rua dos Arcos, caminho de acesso para aquele aqueduto que era a principal fonte de abastecimento d’água da cidade.

Mapa de 1769 com o “muro da Cidade” que nunca chegou a ser completado. Planta baseada nos mapas de época focalizando os morros do Senado e de Santo Antônio Mapa de 1791 mostrando a existência da Rua dos Inválidos, próxima do Morro do Senado e a Rua do Lavradio, mais próxima do Morro de Santo Antônio.

O Campo de Santana era o “rocio”, terreno de uso comunal, pasto para a criação de animais pelos moradores da cidade, local de reunião e lazer, onde também – geralmente – se fixava o pelourinho para as punições públicas e marco da autoridade régia (do direito de justiça real). Foi em virtude de existir um oratório para a Senhora de Santana, erguido por volta de 1710, que o antigo rocio passou a ser conhecido como Campo de Santana. Já a Rua do Riachuelo, antigo caminho do Mata Cavalos, era assim chamado pelos barrancos e buracos que “muito cansavam os animais”, e que ligava o interior à Lagoa da Sentinela e aos Arcos. Era ele o caminho que os cariocas se utilizavam para atingir o interior da Província. A “Rua Nova de São Lourenço” ou dos Inválidos desde cedo se tornou importante por ligar estes dois pontos.

A rua passou a se chamar “dos Inválidos” pelo fato daquele mesmo Vice-Rei, Conde de Resende ter construído nela um grande prédio em vasto terreno, na esquina da Rua do Senado, destinado a asilar os soldados inválidos. O “Asilo dos Inválidos” acabou por dar nome à rua. Corria o ano de 1794.

Pelos mapas anexados abaixo pode ser acompanhado o desenvolvimento ocupacional daquela Rua e vizinhanças.

Comparando o mapa de 1791 ao de 1808 pode ser observado um crescimento em relação às habitações que figuram em ambas as ruas aqui focalizadas. É importante observar que os “prédios” ou áreas habitadas são representados nestes mapas pelo símbolo cartográfico de linhas paralelas e que não deve ser confundido com outro símbolo formado por pequenos quadrados em forma de xadrez. Dessa forma pode-se constatar que na Rua dos Inválidos, em 1791, praticamente não existiam prédios (aparentemente a quadra situada entre as duas ruas era ocupada por uma chácara), enquanto que no lado direito da Rua do Lavradio já existiam alguns prédios. Também não fora aberta (ou não marcada no mapa) a Rua da Relação.

No mapa de 1808 a Rua do Senado aparece já configurada, unindo as duas ruas em foco e também aparecem registrados prédios no lado direito (par) da Rua dos Inválidos. Do lado esquerdo, ímpar, na esquina da Rua da Relação aparece marcado o “Abrigo” e dois outros pequenos pontos do mesmo lado. Já na Rua do Lavradio aparentemente todo o seu lado direito (par) aparece edificado. 

Com a transferência da corte do Príncipe-regente D.João para o Rio de Janeiro em 1808 e o crescimento da capital do império colonial português a cidade conheceu um surto desenvolvimentista, do qual a Rua dos Inválidos não escapou. Assim, o prédio do Asilo acabou doado pelo rei ao seu físico-mor e médico pessoal, Barão de Alvaiaserez, que o transformou em local de intensa vida social. Nela residiram o Visconde de São Lourenço, a Baronesa de Bambuí e o Visconde de Uruguai.

Comparando os mapas de 1843 e o de 1850, portanto relativos à situação local aproximadamente na época em que o terreno pesquisado foi ocupado pela Tipografia Laemmert pode-se constatar o crescimento da ocupação local. No primeiro ainda que de época muito próxima do segundo, enquanto a Rua do Senado aparece completada, não figura a Rua da Relação, já demarcada naquele de 1850. No mapa de 1843, que deve ter sido preparado com bastante antecedência, na Rua dos Inválidos, entre as Ruas do Senado e do Resende, foram configurados somente três prédios do lado ímpar, enquanto no de 1850 (sete anos depois somente) praticamente toda a mesma quadra, do mesmo lado, aparece ocupada, exceto um pequeno trecho entre a Igreja Alemã (Presbiteriana) e a Rua da Relação, que é pela primeira vez claramente cartografada.

É importante ressaltar que esta Igreja era vizinha do terreno onde se fixaria poucos anos depois a Tipografia Laemmert no terreno agora pesquisado. No lugar da Igreja, segundo consta, se ergueu nos anos iniciais do século XX o Colégio Estadual Souza Aguiar.

Também mereceu destaque na carta de 1850 a localização do “Grande Oriente do Brasil” na Rua do Lavradio.

Ao correr do século XIX foram comuns na cidade a instalação de “cortiços” e “casas de cômodos”, habitações populares e, mais uma vez, a Rua dos Inválidos não fugiu às tendências de época. Diversos deles se instalaram, ocupadas pela população hoje chamada de “baixa renda”. Entre elas, como exemplo, as casas de números 2 a 2D, que em conjunto, abrigavam mais de 60 quartos. Neste mesmo correr de casas se instalariam estabelecimentos comerciais, como armazéns de secos e molhados. Ainda hoje esta Rua abriga inúmeras lojas e empresas comerciais, facilmente levantadas nos sites da Internet.

 Mapa de 1808 Mapa de 1843  Mapa de 1850 

Do seu passado mais remoto permanecem os alagamentos nas épocas das grandes chuvas. Ainda que comuns à cidade em seu todo, aquelas áreas edificadas sobre mangues e alagados até hoje são as primeiras a sofrer com as fortes chuvas de verão.

A foto estampada pela Revista Careta, nº 148 de 1911 focaliza justamente um trecho da Rua dos Inválidos após as chuvas intensas daquele ano e nela, sob o título jocoso de “um passeio fluvial pela Rua dos Inválidos” pode-se ver a extensão do alagamento. Este fato, sem dúvida, explica as sequentes camadas de aterro e de elevação contínua do nível dos pisos observada durante as pesquisas arqueológicas. Ainda hoje, no entanto, apesar das obras municipais e providências mais modernas, o alagamento permanece, assim como o nível freático próximo da superfície.

Alagamento na Rua dos Inválidos

 

- Do terreno

O que se conhece a respeito da ocupação do terreno cujas edificações receberiam a numeração ímpar, primeiro 93, depois, no início do século XX, o nº 123, se inicia com a fixação da Tipografia Laemmert ao redor do ano de 1850 no local.

A tipografia Laemmert seria a terceira a se fixar na cidade, após a Imprensa Nacional com a vinda da família real e aquela de Leuzinger e Lombaerts. Segundo os diversos autores consultados, Eduardo e Heinrich Laemmert eram irmãos nascidos na cidade de Baden, na Alemanha, onde aprenderam a arte da impressão e o ofício de livreiro. O primeiro teria inicialmente se fixado em Paris, trabalhando na empresa de Hector Bossange. Quando este se interessou em abrir uma filial no Rio, em sociedade com outro livreiro, J.P.Aillaud, Eduardo foi encarregado de se responsabilizar pela empresa, em nome do seu patrão, ao lado do representante da empresa associada.

A firma se estabeleceu na Rua Gonçalves Dias 88 (Souza&Laemmert) até o ano de 1833, quando o contrato da sociedade expirou. Permanecendo no Rio e tendo casado com a filha de um deputado, Eduardo abriu sua firma própria, a “Livraria Universal”. Trazendo seu irmão Heinrich para esta cidade, fundaram a firma “E.&H.Laemmert mercadores de livros e de música” em 1838, na rua da Quitanda 77.

No ano seguinte começaram a editar uma “Folhinha Universal” com anúncios, utilidades e variedades, que daria origem, cinco anos depois ao “Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro”, o Almanaque Laemmert.

Por documento do Arquivo da Cidade constatamos que em nove de julho de 1842 encaminharam, os Laemmert, ofício à Câmara Municipal informando a transferência da “Typographia Universal” da esquina da Rua do Carmo com a Rua dos Ourives para a Rua do Lavradio, 53.

Dessa forma a informação constante na maioria dos artigos sobre a trajetória dos dois irmãos que colocam a transferência da Tipografia Universal da Rua da Quitanda diretamente para o endereço da Rua do Lavradio precisa ser revista. Antes passou ela pelo endereço da Rua do Carmo.

Posteriormente, antes de 1853, os irmãos Laemmert transfeririam suas oficinas, moderníssimas para a época, para o número 93 da Rua dos Inválidos que já funcionava naquele ano. Naquele lugar, segundo outras notícias, trabalhavam 120 pessoas que chegavam a imprimir 1.000 folhas por dia.  

As pesquisas e textos a respeito dos Laemmert não se aprofundam a ponto de esclarecer alguma coisa sobre o tipo de prédio em que fixaram sua Tipografia Universal na metade do século XIX. Cita-se somente que as instalações eram modernas e permitiam a frequência de mais de 100 pessoas trabalhando. Não há referência ao tipo de construção.

Entre 1880 e 1884 os irmãos faleceram. Os negócios passaram então para Gustavo Masson (genro de Heinrich), Edgon Widmann e Arthur Sauer (também genro de um dos dois irmãos).  Os dois primeiros ficariam com a livraria e Arthur Sauer com a tipografia, fundando nova firma, a “Companhia Typographica do Brazil”, sem, no entanto, mudar de endereço.

Em 1898 seria construído um novo prédio, provavelmente por Arthur Sauer, com três andares e igualmente modernas instalações gráficas.

De acordo com Ernesto Sena, na verdade o prédio seria “reconstruído” com três andares “sendo observadas todas as condições adequadas ao fim comercial a que se destina”. Mais adiante observa o autor, que “naquela tipografia tinha, a livraria, um grande depósito de livros e preciosas coleções de almanaques, folhinhas e obras de valor, que foram completamente destruídas por um violento incêndio no ano passado” (Senna, 1911:84/s). 

Na data do incêndio (1910 ou 1909) “o belo casarão da Rua dos Inválidos” que pegou fogo já pertencia a Augusto Orgaest que pediria licença para construir novos prédios em 1911 (Vide documentos do Arquivo da Cidade). O prédio novo, do qual conhecemos a planta, seria novamente vítima de incêndio em 1921.

Planta do prédio construído por Augusto Orgaest em 1911 (Terceira ocupação) Documento do Arquivo da Cidade em que Augusto Orgaest pedia licença à prefeitura para no prazo de três meses reconstruírem o prédio nº 123, antigo 93, da Rua dos Inválidos. Esclarece que armaria andaime, mas não juntava cadastro “porque aproveita toda a fachada”.  Em 13 de fevereiro de 1911. Documento do mesmo empreendedor, datado de janeiro de 1910 (anterior, portanto ao de cima) em que pedia licença à Prefeitura para construir um “barracão para fins industriais nos fundos do aludido prédio, de acordo com a planta anexa”.

 A nova firma seria vendida a Manoel José da Silva que passou a publicar o almanaque com o nome de “Anuário Geral do Brasil”, nome usado até 1920. Em 1919 a firma passaria para Sergio & Pinto e no ano seguinte para Álvaro Pinto & Cia. Em 1921 para Alexandre Henaut e em 1925 para o Jóquei Clube que restaurou o nome da “Empresa Almanaque Laemmert”. O ultimo número do almanaque foi editado em 1943.

Não sabemos ao certo se a tradição de que também este prédio pegou fogo é verídica, mas aparentemente o prédio que o substituiu em termos de localização, perdurou até sua demolição em 2012. Ele ficava situado à frente de um grande galpão de estacionamento, cujas pilastras e sapatas de sustentação impactaram duramente as estruturas anteriores.

Pela imagem abaixo se pode visualizar que o prédio de 1911 possuía dois andares, enquanto aquele que o substituiu tinha um a mais. As pesquisas arqueológicas apontam para a possibilidade de que grande parte do prédio anterior tenha sido aproveitada pelo do Estacionamento (pelo menos – ao que tudo indica – o térreo).  

Assim, pode-se sumarizar de forma rápida, ter sido o terreno ocupado em quatro momentos diferenciados:

O mais recente é aquele em que foi construído um prédio fronteiro à Rua dos Inválidos, estilo do início do século, de três andares. A partir dos seus fundos, o enorme galpão que funcionava como estacionamento, para o qual foram enterradas mais de sessenta “sapatas”, cujas bases atingiram mais de dois metros de profundidade com quatro metros de superfície, todas de cimento armado com vergalhões de cerca de uma polegada de espessura. Sua intromissão no terreno impactou de forma violenta as estruturas mais antigas; sua existência se estendeu da década de 1940 a 2012. 

Em ordem de antiguidade, o terreno foi ocupado por pelo menos mais um prédio na sua fachada, estilo neoclássico com dois andares. Sua área coincide com o prédio da frente do estacionamento, sugerindo mesmo ter este aproveitado parte da estrutura anterior (no mínimo o piso de ladrilhos hidráulicos). Este prédio, segundo consta, pegaria fogo no início da década de 1940. Seu período de existência ocupa o início do século XX, entre 1911 e a década de 1940.

Este, por sua vez, ergueu-se à frente de outros prédios mais antigos.

Aquele imediatamente anterior, que pode ser denominado como de “ocupação média”, foi construído em 1898 pelos sócios da Tipografia Laemmert, (ou “Companhia Typographica Brazileira”) possuía três andares, segundo relato da época. Alongava-se por todo o terreno e era composto – no mínimo – por duas construções, um no centro do terreno e outro nos fundos (respectivamente “Prédio II” e “Prédio I”). A construção dos fundos aparentemente não se incendiou, mas a do “Prédio II” sofreu duro impacto pelas chamas em 1909/1910. Existiriam, portanto, entre 1898 e 1908/09. Pode ser, no entanto, que o “Prédio I” seja mais recente.

Acontece, no entanto, que a Tipografia Laemmert já estava situada no local desde décadas antes de 1898, ao que tudo indica em prédio sobre o qual foi levantado o “Prédio II”. Provas da sua existência jaziam sob o prédio citado na área do centro do terreno. Seria a ocupação mais antiga do lugar, aquela em que a Tipografia inicialmente se instalou. Para este não localizamos documentação histórica ou documental; somente o fato de que em 1853 já estava funcionando como oficina tipográfica.

Prédio do Estacionamento – Foto de 2012 (quarta ocupação)

 

Arqueologia – Trabalho de Campo

Os trabalhos de abordagem extensiva ou prospecção, desenvolvidos, puseram a descoberto as evidências arquitetônicas de três prédios dispostos em sequência ao longo de cerca de 90% do terreno.

As estruturas prediais localizadas foram identificadas como “Prédio I”, o mais recuado, próximo ao fim do lote e como “Prédio III” o mais próximo da rua. O “Prédio II”, que se configuraria como o mais importante, ocupava a porção central do terreno.

Tais evidências encontravam-se, todas elas, sob a espessa camada de cimento (em alguns pontos em forma de lajes de cimento armado, isto é, com introdução de vergalhões) que formaram o piso do prédio de estacionamento existente até o ano de 2012 e demolido pelo empreendedor.

Inicialmente é necessário destacar que a equipe do IAB não presenciou a demolição do prédio III, mas monitorou o transporte de todo o entulho resultante e também a retirada do(s) piso(s) por máquina apropriada. Após a retirada do entulho foi praticado o rescaldo, efetivada a topografia e a setorização.

Planta de localização dos prédios identificados pela prospecção retirada do entulho Retirada do Piso de Cimento

 Prédio I

O prédio I localizava-se nos fundos do terreno e se estendia por 25 metros de comprimento por 19.5 de largura.

A planta resultante da abordagem extensiva demonstrou a existência de três complexos arquitetônicos ligados (Prédio principal, pátio e anexo).

O prédio principal era de construção robusta com profundos alicerces de pedra e vestígios de paredes espessas de pedra e tijolos maciços. A estrutura possuía três entradas demarcadas por soleiras de pedra, lajes espessas.

Este prédio havia sido cortado por duas redes de manilhas de esgoto, profundamente enterradas, uma delas, inclusive, tendo seccionado a soleira de pedra dos fundos e se estendia por todo o comprimento do terreno. Outra rede se alongava junto ao muro do Colégio.

Surpreendentemente foram raros os achados de material sob o piso original do prédio. Na parte principal do “Prédio I” o piso – relativamente fino - foi desenhado com linhas incisas formando quadrados inclinados (sugerindo losângulos). 

Parede dos Fundos do Prédio I. Vê-se uma soleira e um alicerce cortados pela rede de esgoto citada abaixo, mais um pedaço de piso, com marca de base de máquina e parte da estratigrafia. Detalhe do aterro estratificado sobre o qual foi colocado o piso de cimento do Prédio I principal. Entulho variado, com material diverso, mas pobre em restos arqueológicos. Composição da planta das duas soleiras terminais do Prédio I principal, vendo-se em destaque foto do alicerce (de pedra e tijolo) da parede de pedra que forma o ângulo direito da planta

O “Prédio I Principal” era, na verdade, constituído de um único cômodo alongado, no qual não se localizou evidência de divisão interna. Este cômodo extenso possuía quatro portas com soleira de pedra, três delas com um trilho de ferro para porta de correr.

Ainda neste prédio restavam evidências de que nele foram instalados dois conjuntos de maquinarias. Tais conjuntos são indicados pela existência de escavações alongadas no solo de cimento, que, sem dúvida constituíam as suas bases de fixação.  

Sua estratigrafia é de construções, evidentemente que também se referindo a ocupações. Mas o que se pode inferir do estudo da sua composição é que o Prédio I Principal foi erigido sobre terreno que, caso tenha presenciado uma ocupação anterior, foi ela descartada ou limpa quando da sua construção. 

A observação da estratigrafia permitiu fossem localizados pontos que indicam a possibilidade de que algumas partes do mesmo tenham sofrido a ação de incêndios localizados. Ou, também é possível, se tratem somente de restos de depósitos de carvões descartados provenientes de forjas ou fornos utilizados nas oficinas locais vinculadas ao trabalho da tipografia. De qualquer forma é importante considerar que mesmo não caracterizando incêndios de grande monta, como aqueles que trataremos adiante, presentes no “Prédio II”, sem dúvida registram o uso do fogo seja para fins industriais, domésticos ou simplesmente ocasionais.

Foi registrada uma ocorrência comum ao “Prédio II” adiante abordado, mas rara no ”Prédio I”, em suas dependências. Trata-se de uma viga de madeira queimada, aparentemente tombada sobre o piso e sobre um bloco de metal, em cima da qual foi colocado o entulho da ultima ocupação. Muito provavelmente seja um dos raros testemunhos do incêndio que destruiu as instalações na década de 1940, conforme a crônica histórica local. Este fato fornece uma pista a mais para a localização cronológica e funcional do Prédio I Principal.

Vista do corte efetuado para passagem da manilha de cerâmica, secionando a soleira 01 em primeiro plano. Vê-se também a laje de pedra riscada, o piso de cimento, a caixa de tijolos e os dois conjuntos de marcas de base de máquinas. Detalhe dos pinos e inserções de metal da laje de pedra Barrote de madeira caído sobre bloco de ferro acima do piso do prédio

Foi registrada a existência de camadas não muito densas de carvão no meio do entulho ou aterro onde foi erigido o prédio em questão. Sugerem que carvões, que podem ter sido originados do incêndio que destruiu o “Prédio II”, foram espalhados de mistura com o aterro do terreno dos fundos onde seria ereto o “Prédio I”. Fica o registro para a discussão interpretativa tecida bem mais à frente.

Conclusão       

Os dados levantados pela pesquisa permitiram configurar a hipótese de que o Prédio I Principal abrigou um conjunto de instalações que confirmam a crônica histórica local que aponta ter existido naquele endereço uma indústria tipográfica.

Tratava-se de uma construção robusta, sem divisões internas e com quatro portas largas, assentadas sobre soleiras de pedra e possuindo trilhos de metal no interior para suporte de portas de correr. Dessas portas duas se encontravam nas extremidades do prédio, uma dianteira e uma traseira e duas na sua parede lateral direita. Tais entradas permitiam uma ampla circulação e o acesso fácil a conjuntos de instalações, possivelmente máquinas ou mobiliários pesados que fossem indispensáveis para o funcionamento de uma oficina do porte daquela indicada pela crônica histórica.

Caixas de metal e argamassa, assim como uma grande laje de pedra sem dúvida desempenharam papel funcional complementar e reforçam a hipótese acima.

Em relação a que período da mesma crônica pertence, pode-se adiantar neste ponto do texto que os dados arqueológicos parecem apontar para sua vinculação com o último momento de existência da indústria tipográfica que ali funcionou, conforme será detalhado mais adiante.

Estratigrafia da parte terminal do prédio existente sob a laje de pedra com inserções de metal.  Vê-se também parte do entulho recente que jazia sob o piso do estacionamento e sobre o piso do prédio. Estratigrafia do solo sob a soleira 03, com uma camada de carvão de mistura com argila marrom-avermelhada, sobre outra de argila creme-amarelada, ambas bastante plásticas. Outras evidências de carvão na estratigrafia do Prédio I principal

 Prédio II

O Prédio II apresentava como sua principal característica ter sido o mais complexo de todo o conjunto pesquisado. Ele estava situado entre o Prédio I, visto anteriormente e localizado no extremo distal do terreno (fundos) e o Prédio III, tratado adiante, que se situava na frente do terreno (na sua extremidade próxima).

Foi também o único no qual foram encontradas evidências de ter sido reconstruído sobre um prédio mais antigo, dos quais restavam fundações e piso, assim como poucas evidências de divisões internas. Desta forma a planta atual revelada pelas prospecções resulta de estruturas mais antigas e mais recentes, aliás, confirmando a crônica histórica que indica terem existido pelo menos dois (ou três) prédios ocupados pela Tipografia Laemmert naquele endereço. Foi também o único em que ficaram claramente gravados os sinais do incêndio histórico que o destruiu.

Detalhe da área considerada como o Intervalo dos Fundos separando os Prédios I e II – Localização da instalação D e sua proximidade tanto com aquelas já examinadas, quanto com a “F” e com a Área sem pesquisa. Alguns dos pontos principais do Prédio II, em ambas as Areas (Fechada e Aberta) em que foram registradas marcas de incêndio.

O que se pode afirmar com certeza, baseados nos dados produzidos pela prospecção do Prédio II Inferior é que se tratou de uma obra sólida erigida sobre terreno de base friável, reforçada por aterro limpo. Ou seja, as camadas de solo colocadas sobre a superfície do terreno para solidificá-lo foram constituídas por material de origem diversa, entre eles alguns poucos restos de construções, estes de reduzidas dimensões, portanto selecionados. A eles foram acrescentados sedimentos argilosos ou areno-argilosos, provavelmente oriundos dos morros vizinhos (possivelmente Santo Antonio e Senado) e lixo caseiro descartado, em especial cacos de vasilhame cerâmico e grande cópia de garrafas de vidro e stoneware. Peças de metal completam o acervo.

É importante ressaltar que a grande maioria é composta de material datado dos anos finais do século XVIII e segunda metade do XIX, o que nos leva a concluir ter sido o prédio finalizado, pouco antes da sua ocupação pela tipografia Laemmert, ao redor de 1853.

Uma moeda do século XVIII, do reinado de D.José I, foi encontrada junto ao sedimento retirado quando da abertura do manilhamento de cerâmica do Estacionamento.  Ela é contemporânea da abertura da Rua dos Inválidos e dos aterros sofridos pelo local e talvez fizesse parte do espólio da antiga chácara da família Paes Leme que ocupava a área durante aquele século.

Não foi possível determinar com exatidão se alguma das instalações de base para maquinário remontava à ocupação antiga, como é viável supor-se. Mas o fato de não ter sido encontrado material cultural nem evidências tipográficas sobre o piso de “pé de moleque” do Prédio II Inferior, indica ter sido sua superfície limpa (e qualquer máquina ou base removida) quando das obras das reformas de 1898. Assim, ao nosso ver, as máquinas que permaneceram “in situ” não se caracterizaram por traços diferenciais em relação à qualquer nova máquina porventura instalada então. Logo, não há como arqueologicamente reconhecer diferenciações entre umas e outras.   

A coleta de material deixou clara tal evidência, desde que todo o material tipográfico recolhido no Prédio II foi acima do seu piso de cimento, relativo à ocupação mais recente, ou “Superior”. A ele se juntaram raros testemunhos da vida cotidiana das oficinas, completados por elementos relacionados ao comércio tipográfico (como garrafas stoneware de tinta) ou de atacado (como os vidros do elixir vendidos pelos Laemmert).

Em contrapartida, se tais evidências faltaram nos níveis relacionados ao Prédio Inferior, nele abundaram os restos relativos à vida cotidiana da cidade que compunham a tralha doméstica de mistura nas camadas de aterro abaixo do piso de “pé de moleque”.      

Sendo assim, tanto o acervo arqueológico recolhido, com suas diferenciações culturais e cronológicas, quanto as estruturas exumadas apontam para dois períodos de ocupação do Prédio II, confirmando os dados da crônica histórica do local.

De um modo geral, os dados disponíveis indicam que as instalações iniciais da Oficina Tipográfica se expandiram e provavelmente se tornaram mais complexas. Os reforços estruturais (como praticamente a duplicação das bases de colunas no período mais recente) observados nas plantas, comparativamente mais complexos no Prédio II Superior, sem dúvida indicam ou comprovam a afirmativa de Ernesto Sena quando menciona a existência do prédio de três andares da reforma de 1898.

Suas características, assim como o material exumado, indicam claramente a existência de atividades tipográficas, reforçam ter ali se fixado uma das mais importantes atividades daquele ramo, presentes no passado do Rio de Janeiro.

A Área do Anexo pode ser entendida como local onde foram erigidos dois prédios complementares, uma base de tijolo maciço capaz de suportar um peso considerável e uma caixa de tijolos que abrigou – certamente – uma bomba hidráulica.

Tais construções podem ser caracterizadas pelo fato de serem confeccionadas com tijolos maciços, sem alicerces ou baldrames de pedra, como todas as demais até aqui examinadas. São também pequenas e isoladas, ainda que pela proximidade, sem dúvida, se prestaram a exercer funções relacionadas entre si. As paredes têm em comum, com a evidência das demais, a sua robustez e, até certo ponto, comparativamente, são as paredes melhor preservadas entre aquelas examinadas.

Ao que tudo indica tais construções estavam diretamente ligadas àquelas do Prédio II, Área Fechada, embora localizadas em uma nesga ao ar livre do terreno situada entre os limites daquele prédio e a construção vizinha (o “Casarão”). Destacam-se também das demais áreas já estudadas por terem sido originalmente cercadas por calçamento de tijolos maciços, piso depois recoberto com cimento.

Em direção ao fundo do terreno, onde foi erigido o Prédio I tais construções não foram encontradas, de forma que se um dia existiram foram destruídas quando da construção daquele Prédio. Em direção à frente do terreno, todo o trecho correspondente ao Prédio II, Área Aberta adiante estudada, esta nesga não pode ser pesquisada em profundidade por dois motivos:

O primeiro por terem sido ali localizados os contêineres de venda do empreendedor e também pelo fato de que a maior parte da área foi seriamente impactada pela localização de uma grande cisterna. A parte fronteira do terreno, por seu lado, foi  toda ocupada pelo Prédio III à frente estudado. 

De uma maneira geral, portanto, o Anexo corresponde somente ao Prédio II, Área Coberta, razão pela qual, enfatizando sua proximidade e relacionamento,  foi descrita antes da Área Aberta.

A Área Aberta ainda que possa ser separada da Área Fechada tal procedimento só se justifica em termos de descrição. Na verdade as duas se complementam e certamente, também o Anexo e o Intervalo da Frente compõem todas estas partes um todo operacional integrado.

Em uma parte específica deste texto será efetivada uma avaliação interpretativa geral sobre o Prédio II e, depois, da integração dos três prédios que compunham o sítio Arqueológico da Rua dos Inválidos 123.

Antes porém, tendo em vista os detalhes que foram surgindo ao longo da prospecção, alguns dos quais já expostos inicialmente até aqui, é conveniente, para melhor compreensão da Oficina Tipográfica que se configurou ao longo das atividades de arqueologia, comentar sobre os indícios que surgiram a respeito de uma ocupação mais antiga do lugar.

Alguns dados desde o início dos trabalhos apontavam para a existência de uma construção mais antiga que existiu no mesmo local do Prédio II, aliás confirmando os dados da crônica histórica, fato que se caracterizou ao longo dos trabalhos. Esta construção se configurou de forma suficientemente clara para merecer destaque e abordagem especificada, o que será feito a partir deste ponto.

Vista da área do “Intervalo dos Fundos” com o desnível do piso entre os prédio I e II. As laterais do terreno se encontravam ainda recoberta por entulho.  As três sapatas estabelecidas na “Área C” e as demais evidências em seu entorno. Observe-se as evidências de incêndio no entorno da “Evidência 2”.    Vista geral da localização da “Evidência 4”, com as suas ocorrências situadas na “Área E”.

 Descrição individualizada – Prédio II Antigo

À medida que a pesquisa no terreno avançou foi se tornando cada vez mais claro que o Prédio II ocupava o lugar de uma construção anterior. Como será visto mais à frente, tal fato também se evidenciou em relação ao Prédio III, ainda que sobre bases diferentes.

A crônica histórica a respeito da Tipografia Laemmert se refere ao fato de que a Oficina foi inicialmente, por volta de 1853, instalada naquele endereço, tendo funcionado em prédio próprio até 1898, ou pouco antes. Naquela data seus proprietários construíram um novo prédio, que segundo Sena (1913) “era um belo sobrado de três andares.” Este teria pegado fogo em 1910/11. Depois um terceiro prédio foi levantado pelos sucessores dos Irmãos Laemmert, abrigando a Companhia Tipográfica Brasileira que, por sua vez incendiou-se em 1940. Daí em diante não funcionou mais tipografia alguma no endereço, tendo sido substituída por um galpão de Estacionamento, antecedido por um prédio na fachada que – ao nosso ver – por sua vez ocupou o lugar daquele incendiado em 1940/41.

Apesar da exatidão cronológica do histórico local, e de contarmos com a planta do prédio que existiu com certeza entre 1911/12 a 1940/41 (e que se reduz à parte fronteiriça, ou fachada, ao longo da Rua dos Inválidos) não restaram outras plantas ou indicações a respeito da localização e características dos prédios da famosa Oficina.

Quando da pesquisa no Prédio II – como já comentamos – acumularam-se as evidências de que aquele local foi testemunha de pelo menos duas ocupações. A última vinculada à Tipografia seria a própria construção que vimos estudando. Nossa hipótese se baseou no fato de que sob a espessa camada de entulho e dos pisos de cimento armado do Estacionamento surgiu o complexo de evidências que discutimos até aqui.

Não é fantasiar ou distorcer os fatos entender que sob o piso do Estacionamento aquela espessa camada de aterro tenha sido proveniente do material que restou após o incêndio do início do século. Poderia ser também, sem dúvida, restos do prédio de 1911, que pegou fogo em 1940/41. Mas, para este restou a planta registrada na Prefeitura do então Distrito Federal e que o localiza exclusivamente na área do Prédio III do sítio arqueológico.

Reforça a hipótese de que as instalações até aqui estudadas tenham pertencido ao Prédio da Oficina Laemmert o material arqueológico recuperado e, se restassem dúvidas, frascos de um tipo de elixir que era vendido pelos mesmos irmãos, uma espécie de panacéia para todos os males. Complementa esta ocorrência centenas de outros artefatos do período correspondente à existência daquela tipografia, entre os anos iniciais da segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX.

E merece ser mais uma vez mencionado, que todo o material foi recolhido nas camadas de entulho com claras evidências de incêndio que serviram de aterro e suporte do piso de cimento armado do Estacionamento.

O que se pode concluir é que o prédio de 1898 foi completamente destruído na primeira década do século passado, a tal ponto que o rescaldo se limitou à retirada das máquinas que porventura escaparam do incêndio, permanecendo “in situ” milhares de tipos, plaquetas, clichés e instalações diversas. Ressalte-se, no entanto, que os únicos artefatos encontrados abaixo do nível do piso de cimento foram aqueles que lotaram as fossas, covas e caixas entulhadas com material calcinado ou carbonizado. Todo o restante foi recolhido sobre o piso do Prédio II e abaixo da camada de sedimentos, em especial nos locais em que as evidências de incêndio foram mais fortes.

Com a conclusão das prospecções foi possivel delimitar a área ocupada pelo prédio mais antigo (“Inferior” por se encontrar em nível mais profundo), aquele que foi provavelmente derrubado total ou parcialmente no final do século XIX e sobre o qual se ergueu o novo prédio das Oficinas em 1898.

Detalhes observados na tipologia das colunas permitiram delimitar sua extensão. Outros elementos contidos no sistema construtivo indicaram o quanto foi reaproveitado, ou melhor – mantido – do “Antigo” ou “Inferior” para o “Novo” ou “Superior”, em especial soleiras, colunas de sustentação e o traçado geral. Destacou-se, em especial, o fato de que, aparentemente, todo o piso original do prédio antigo foi mantido como contrapiso na nova construção. Sobre ele, como regra geral, somente se colocou um piso de cimento, ou aquelas mantas de piche (macadame ou similar). Surpreende o fato de não ter sido registrado um único trecho de piso ou assoalho de melhor qualidade, possivelmente reservado para os andares superiores (se é verdade o testemunho dos autores contemporâneos).

E ficou também confirmado o fato de que se tratou de uma reconstrução, talvez ampliação e não de uma destruição do que já existia. A superfície do prédio Inferior foi limpa, nada restando da sua ocupação, em claro contraste com a superficie do “Novo” devastada pelo incêndio e recheada de artefatos. Material da demolição, acreditamos que sobretudo os tijolos das paredes tenham fornecido o material para elevação do nível do piso “Superior”, conforme já vimos.

Assim sendo a estratigrafia do Prédio IINovo” ou “Superior” é extraordinariamente simples, reduzida ao entulho do incêndio ou do desmoronamento das paredes sinistradas sobre o piso de cimento e seu contrapiso. Somem-se os vazios dos fossos, caixas ou outras concavidades quaisquer preenchidas com os entulhos do incêndio e nunca retirados (felizmente para a arqueologia...). Todo o material exumado se refere às atividades típicas de uma produtiva oficina tipográfica, com pequena variável comercial.

Em contrapartida, a estratigrafia do Prédio II “Antigo” é rica e complexa, pelo fato de que ele foi erigido em terreno aterrado com farto e variado material geológico e cultural, testemunhos da evolução ambiental e social da área.

Análise da composição estratigráfica considerada no sentido do comprimento do Corte, ou seja segundo sua deposição no sentido N/S. Norte para direita da foto. Camadas segundo sua deposição abaixo do piso de pedra, então já retirado  O Corte nº 2 (D-3) em processo de limpeza Estratigrafia da parede Oeste do Corte D3

 Prédio III

Aspectos Gerais

O Prédio III é o mais simples de ser descrito e o melhor documentado em termos históricos. É para ele que possuímos imagens de duas das suas fachadas e até mesmo uma planta de 1911.

Começando por estas últimas:

Comparando a fachada do prédio de 1911 com aquele demolido em 2012 devemos começar lembrando que – segundo a crônica histórica – o primeiro pegou fogo em 1941. Ele mesmo fora erguido sobre o local de outro, reformado em 1898 e destruído por incêndio em 1910/11. A fachada do prédio do proprietário Orgaest, de 1911, apresenta dois andares e oito janelas. O de 2012, que - ao que tudo indica - seria o mesmo construído após o incêndio de 1941, tem um pavimento e uma janela a mais. Além disso, desapareceram as janelas do térreo, sendo substituídas por vitrines amplas.  

Mas pelo menos a porta de entrada principal permaneceu no lugar.  

Em relação à planta do espaço ocupado, sem dúvida a semelhança é bem maior.

Bem, os dados disponibilizados pela pesquisa permitem construir a hipótese de que o local do Prédio III tanto foi ocupado por construções erigidas a partir daquele cuja planta é de 1911, quanto pelo prédio mais antigo, já estudado (Prédio II). Isto porque a parede da frente se assemelha a todas àquelas já estudadas em relação aos outros prédios do complexo ocupacional da Rua dos Inválidos 123.

Uma vantagem para a construção hipotética do “Prédio III” é a sua parede preservada em conjunto com o prédio vizinho, algo que falta para todos os demais do mesmo sítio.

Ainda que ela claramente se refira a um prédio de três pavimentos (térreo, primeiro e segundo andar) foram preservadas aquelas características já discutidas que apontam para um reaproveitamento da estrutura do prédio de 1911, construído somente com dois andares. De qualquer forma a preservação da estrutura demonstra um padrão construtivo robusto e no qual foram empregados sistemas diferenciados, tendo sido usada, predominantemente, a técnica do canjicado. Ela foi reforçada com o uso de pedras de mão (num trecho, usadas sozinhas em cerca de 4 m² de parede) e também de lajes de cantaria (formando uma espécie de nicho).

Jardim decorativo do “stand” de venda Detalhes do sistema construtivo preservado Área do Prédio III depois de retirado o Jardim

Retornando à parede da fachada, as características que restaram dos alicerces mais o aproximam daqueles dos demais prédios do que o afastam. Mas, de qualquer maneira, embora esta hipótese seja viável, não foram encontradas as paredes de ligação laterais que teriam unido o Prédio II ao Prédio III. Pelo contrário, o espaço entre ambos é aquele em que o piso antigo tipo “pé de moleque” ficou melhor conservado, em que pesem todas as agressões sofridas, sobretudo em função das sapatas e das instalações de gás ou similar.

Também foi o Prédio III aquele em que o seu piso foi melhor preservado. Na verdade seus dois pisos de ladrilho hidráulico, tão solidamente colados um no outro que não se conseguiu recuperar exemplar do piso inferior com a face externa exposta, de tão coladas todas elas no contra piso superior. Pode-se, no entanto, retirar exemplares do seu próprio contrapiso, revelando a sua marca comum a outros ladrilhos mais esparsos do mesmo sítio.

Desta forma pode-se reconstituir a planta do andar térreo do Prédio III e comparando-a com aquela do Projeto de 1911 concluirmos que – apesar das mudanças posteriores – vemos hoje, basicamente, o que foi construído então. Destaque-se a preservação da laje da soleira, que atravessou todo o século XX, chegando até hoje e ainda em condições de ser usada.

Quanto ao terreno em si, os cortes estratigráficos abertos puderam informar que abaixo do piso hidráulico ficou preservado o piso geral de todo o complexo ocupacional, que pode recuar – pelo menos – a mais antiga ocupação documentada, anterior a 1853.

Não foi encontrada, no entanto, estrutura ocupacional anterior ao Prédio III (a não ser que sua parede da fachada tenha sido reaproveitada do Prédio II, conforme já comentamos). Pelo contrário, a pesquisa revelou a deposição de camadas sucessivas de entulho, ou de aterro, formando bolsões horizontalizados em certos trechos ou em forma de cova em outro.

O piso de ladrilhos hidráulicos após a limpeza. Vista geral e em detalhe. Na seta a placa de metal. À direita o piso ampliado. Nos limites internos do piso térreo do Prédio III, o contra-piso de ladrilho hidráulico se assenta diretamente sobre o calçamento antigo exposto na foto no entorno de uma sapata do estacionamento Vista da superposição de pisos do Prédio III

Não tendo sido praticada escavação intensiva, os dados ficam restritos a pontos específicos, mas são suficientes para demonstrar que não se trata de camadas ocupacionais ou de habitações anteriores ao complexo de todo o sítio. As razões que nos levam a defender esta hipótese podem ser aqui resumidas;

Primeiro porque faltam estruturas urbanas, nos níveis mais baixos;

Segundo porque não ocupam extensões maiores, em especial no Prédio em questão, onde se concentram em uma área específica;

Terceiro porque foi detectado um bolsão de restos de obras, como tijolos e argamassa, ao lado do depósito de camadas horizontais já mencionadas;

Quarto porque, inclusive, as duas categorias não se misturam. Nas ditas camadas, assim como em outros locais, são peças cotidianas variadas, constituindo o que seria uma lixeira ou um aterro limpo.

Quinto porque, afinal, os dados históricos apontam para o fato de que a área onde se assentou o sítio era desde cedo paludosa, tendo sido aterrada em mais de uma ocasião, desde a abertura da rua.

E, como conclusão geral, podemos adiantar que aparentemente localizamos material significativo, transportado para o sítio isolado ou em conjunto e oriundo das mais antigas chácaras locais. Entre elas se destacando a que pertenceu à família Paes Leme, de tanta importância para a economia e para a história da viação fluminense com seu Caminho Novo para as Minas.

A pesquisa da arqueologia histórica apresenta uma grande vantagem em nível de interpretação; ou seja, algumas vezes (nem sempre, é verdade) pode-se conhecer a crônica ocupacional do local pesquisado. No caso presente, até mesmo os momentos de grandeza e de decadência pelo qual passou ao longo do tempo, sua importância para a área em que se fixou, os acidentes que o acometeram e as mudanças no rumo dos seus ocupantes, econômicas e até mesmo sociais.

No caso da Rua dos Inválidos 123 (ex-93) nada se conhecia de antemão, até mesmo por falta de interesse maior por parte dos empreendedores que sabiam ter ali se desenvolvido somente um grande estacionamento. Sabia-se também ter tido na vizinhança uma Igreja Alemã e que seu vizinho do lado direito é um casarão preservado. Destacava-se também o fato de que a história da abertura da Rua e dos fatos que lhe nomearam eram bem conhecidos, de forma que uma noção prévia da sua importância já se delineava, mas sem mais detalhes significativos, em especial quanto ao terreno em si.

Assim, quando as primeiras notícias vindas da pesquisa histórica chegaram, identificando o local como aquele em que no passado se estabeleceram os irmãos Laemmert, as atenções se desdobraram e se passou a buscar indícios que comprovassem a assertiva. E eles vieram....

A partir dessa pista inicial a pesquisa documental prosseguiu agora melhor orientada, estendendo-se aos documentos secundários, onde se destacaram as notícias fornecidas por Ernesto Sena, sem dúvida testemunha de época do incêndio que destruiu o prédio erguido pelos empresários em 1898 e que dá uma brevíssima descrição das oficinas sinistradas.

Notícias outras, de mais fontes, na verdade, pouco mais contribuíram para reforçar o conhecimento, mas o acervo resgatado, as características estruturais, as marcas preservadas e, sobretudo as instalações exumadas, tudo colaborou para que cumprido o prazo previsto para a prospecção se configurasse o quadro descrito acima. Sem dúvida, laborou-se num dos mais importantes locais que bem representa o movimento intelectual e social que permitiu à cidade do Rio de Janeiro ocupar o lugar de destaque que hoje possui no panorama cultural do nosso país.       

Surpreendemo-nos com a ausência de documentos iconográficos focalizando alguma imagem das Oficinas Tipográficas, ou mesmo das livrarias Laemmert e de sua sucessora a “Companhia Tipográfica Brasileira”, pois apesar de consultarmos uma já ampla série de publicações a isto dedicadas, nada foi até o momento obtido.

À guisa de comparação, divulgamos abaixo o que foi possível obter, não relativo às Oficinas de Tipografia, mas sim a uma outra, sua vizinha, da mesma época da “Companhia Tipográfica Brasileira”, no início do século XX.

No vizinho, Colégio Estadual Souza Aguiar funcionou, durante certo tempo, uma Oficina didática de Marcenaria e atividades afins, onde os alunos aprendiam um ofício. Esta oficina foi posteriormente demolida e pelas fotos pode-se concluir que ocupava um prédio antigo, localizado onde hoje está a sua quadra de basquete. Interessa-nos a organização predial interna, pois ainda que a maquinaria ilustrada fosse diferente, é muito possível, pelos detalhes das colunas, do sistema de instalação e pelos padrões de iluminação e armazenamento adotado, que houvesse similaridades entre esta e aquela que foi objeto das nossas pesquisas durante o ano de 2013. Estas fotografias foram cedidas pela direção do Colégio a quem, de público, agradecemos.

Interior da Oficina – Observar o sistema de colunas de metal e o madeiramento de sustentação do teto Tipo de coluna de metal, a base de cimento em que se encaixam (semelhantes àquelas de pedra do sítio arqueológico) e uma canaleta muito parecida a que foi registrada no Anexo do Prédio II. Piso cimentado Sistema de aeração, de condução de energia (canos no chão), a  coluna de metal, a divisão do espaço e a localização das máquinas. Piso cimentado Destaque para o sistema de iluminação natural, inserção das mesas de trabalho e aeração lateral com persianas. Coluna com fiação elétrica e fusível
Colunas, aqui de cimento, as máquinas, as prateleiras (escaninhos) encostadas nas paredes e a quantidade de pessoas (alunos e professores, no caso) trabalhando. Máquinas de tração aérea no fundo Sistema de colocação do maquinário no piso e o sistema de cobertura (telhado) do prédio. Piso cimentado Sistema de mesas de trabalho e escaninho. Aeração por persianas na parede, em ponto elevado. Aparentemente a posição das mesmas era para o ar quente sair do recinto, desde que elas se encontram viradas para dentro do mesmo Mesas de trabalho sobre piso hidráulico.
Oficina sendo demolida. A direita da foto o muro do prédio onde funcionou a Oficina Tipográfica (sítio arqueológico) Outro momento da demolição Prédio já desocupado

Ainda que se trate de uma oficina destinada à outra atividade, além de tudo de caráter didático (e, por isso mesmo devendo ser a mais fiel possível em relação ao aprendizado), sem dúvida a sua organização geral e aspectos básicos de funcionamento deveriam ser próximos aos que existiam no terreno vizinho. Mesmo que com todas as cautelas, pode servir para dar uma ideia de como seria aquela organizada.

Pontos de semelhança podem ser vistos, tais como o padrão das colunas de metal, ou de cimento com suas bases reforçadas; o piso hidráulico, a canaleta e até mesmo a inserção do maquinário pesado em sólidas bases de fixação.

E enquanto não se localizam evidências iconográficas seguras, ainda que com muita frustração, pode-se espelhar alguma coisa do que pode ter sido, com o que foi de fato a oficina do lado, cuja contemporaneidade serve pelo menos como indicador razoável. Afinal, cada época desenvolve seus próprios sistemas adaptativos, que se expandem e acabam sancionados pelo uso, até surgirem novos comportamentos ou novas descobertas que alteram e cambiam tais adaptações. Sempre resta, no entanto, uma parcela tão repetida e aceita que acaba se perpetuando na tradição. Veja-se o caso do velho teclado das máquinas de escrever perpetuado nos atuais sistemas de computação (entre outros).

*     *     *     *     *     *

A hipótese que se formou durante o trabalho de campo, enriquecida com os dados provenientes dos documentos primários e das demais consultas ao acervo bibliográfico e iconográfico, aponta para uma crônica que pode ser assim resumida:

Quando os irmãos Laemmert transferiram suas oficinas tipográficas para o endereço da Rua dos Inválidos nº 93 (hoje 123) ocuparam uma casa recentemente construída. Indica tal evento o fato de que o acervo arqueológico retirado abaixo do piso mais antigo ocupa um espaço de tempo relativamente exíguo, que se estende das décadas finais do século XVIII a meados do século seguinte. A construção em que alojaram suas oficinas em 1853 foi, portanto, construída no máximo uma década antes, se é que não foram eles os construtores. O piso do tipo “pé de moleque” aparentemente indicaria uma antiguidade maior, não fosse a já considerada situação cronológica do aterro sobre o qual foi estabelecido.

Por que se considera ter sido a estratigrafia, sobre o qual foi levantada a construção mais antiga, um aterro e não resultante de camadas sucessivas de habitação?

Primeiro porque a crônica histórica tem por bem demarcada a fase e os motivos pelos quais foi aberta a Rua dos Inválidos no final dos anos setecentos em terras alagadiças de chácaras locais, cuja localização se fazia por motivos salutares nas elevações vizinhas;

Segundo porque se a elevação do nível do terreno resultasse de anos de ocupações sucessivas o “pacote estratigráfico cultural” seria muito mais diversificado e, sem dúvida muito menos rico de vestígios. Em compensação teriam restado evidências arquitetônicas de tais ocupações. E deve-se lembrar que, mesmo adiantado o século XIX os mapas da época não registram casas ao longo da rua, nem mesmo àquela onde se estabeleceria a Oficina (vide mapas de 1843 e 1850 já referidos e publicados no início do texto).

Aparentemente o piso antigo de “pé de moleque” não era muito adaptado para o uso cotidiano de um estabelecimento do tipo, mas não ficou registrada “in situ” qualquer alteração do mesmo no momento mais antigo do seu funcionamento.

O fato é que ao ser construído novo prédio sobre o antigo (o que historicamente ocorreu em 1898) foi ele aproveitado como contrapiso sobre o qual foi colocado piso de cimento, reforçado, ou elevado de nível, em muitos locais com a adição de camadas de telhas ou de tijolos.

Segundo a hipótese que foi se delineando com o andamento dos trabalhos, a casa antiga, ou o Prédio II Inferior, foi totalmente limpa de quaisquer conteúdos quando da ereção do prédio novo e não é impossível que o piso porventura existente sobre o “pé de moleque” antigo tenha sido então removido. Das paredes anteriores ficou a ideia de que seus tijolos tenham sido reaproveitados como reforço de contrapiso do novo ou para alçar áreas do “Anexo” do Prédio II.   

E agora chegamos a uma questão crucial. Segundo o mesmo autor Ernesto Sena, o prédio construído pelos sucessores dos irmãos Laemmert em 1898 possuía três andares. Infelizmente não o descreve nem o localiza. Vimos então trabalhando com a hipótese de tal prédio se estender por todo o terreno, ocupando a área do “Prédio III” e do “Prédio II Superior”.

Mas considerando as características estruturais exumadas é também possível propor que o prédio citado de três andares tenha se reduzido à área posteriormente ocupada pelo Prédio III, isto é, na Frente do terreno. Ali, depois do incêndio que destruiu este último em 1941 (e para o qual temos a planta do seu interior e a fachada) foi ereto o prédio do estacionamento, com um andar a mais. Sendo assim, nossa hipótese é que na fachada da rua quatro prédios se sucederam (conforme sugerem documentos  e fotos publicadas no início desse histórico):

Primeiro o da casa antiga na qual se situou inicialmente a Oficina em 1853. Para este não existem notícias se era térreo ou de sobrado;

Segundo, aquele ereto pela Companhia Tipográfica Brasileira em 1898 pelos sucessores dos irmãos Laemmert. Um sobrado de três andares, segundo o autor citado. Este pegaria fogo em 1909/1910.

Em 1911 o proprietário Oargest (cuja planta foi registrada na Prefeitura) construiu novo prédio, um sobrado com térreo e um andar. É bem possível, segundo indicam os dados arqueológicos, que parte do prédio anterior, incendiado - pelo menos suas bases - tenha sido aproveitada pela nova construção.  Este prédio pegaria fogo em 1941;

Depois, não se sabe a data, novo prédio seria erigido, provavelmente aproveitando o que sobrou do anterior - a história se repetindo - só que este, que subsistiu até 2012 possuía um andar a mais. Na sua parte posterior, um grande galpão onde funcionou um estacionamento.

E aqui se coloca a perspectiva nova da hipótese. Sabemos, através de documento, que o mesmo proprietário que pediu licença para construir o prédio de 1911, no ano anterior havia pedido licença para construir um galpão na parte dos fundos do terreno. Acreditamos que este seja aquele que denominamos arqueologicamente como “Prédio III”.   

Baseamos esta hipótese no fato de que naquela área do terreno não subsistiram evidências do Prédio II Inferior, nem mesmo o piso “pé de moleque” e também nos dados da estratigrafia que indicam ter sido ele construído sobre terreno original. Também restaram poucos vestígios de incêndio e nenhum resto tipográfico, exceto as marcas de base de maquinários que confirmam ter funcionado como uma complexa oficina. Assim, se o Prédio II Superior se estendia até àquela área dos fundos do terreno, seus restos foram totalmente removidos. Portanto, a nosso ver, a cada dia mais se configura como certa esta perspectiva, de que o Prédio I é contemporâneo do Prédio III. Isto é, ereto em 1911 e só parcialmente atingido pelo incêndio que destruiu aquele em 1941. 

Outra ideia que se configura, a partir dos dados exumados, das características arquitetônicas encontradas e das possibilidades construtivas, é a de que a área principal das oficinas do Prédio II tenha sido, na verdade um grande galpão. A notícia dada por Sena a respeito do prédio de três andares seria relativa à construção da frente do terreno. Assim, em outras palavras, o estilo construtivo do Estacionamento, demolido em 2012, com um prédio de três andares na frente e um grande galpão que se estendia até os fundos do terreno, teria sido uma repetição do que existia nos tempos de funcionamento da Companhia Tipográfica Brasileira, durante a vida dos irmãos Laemmert e depois, com seus sucessores. De fato, correspondendo esta hipótese à realidade, fica mais fácil e mais simples de se interpretar as características enunciadas pelos dados arqueológicos.

Sobre a área das Oficinas, tanto no Prédio II Superior, quanto no seu antecessor, o Prédio II Antigo, teria sido construído, pois, não o prédio de três andares e sim um grande galpão abrigando o maquinário e demais instalações. O prédio citado estaria limitado à área onde depois seria erigido o Prédio III e o seu sucessor, o sobrado do Estacionamento.

Em síntese, pois:

Primeira ocupação – Prédio construído nas décadas iniciais do século XIX, onde em 1853 os irmãos Laemmert fixaram sua oficina tipográfica. Tal prédio se assentou em terreno recentemente subtraído à área alagadiça, aterrada com entulho predominantemente limpo, com restos de tralha urbana. Calçado com piso tipo “pé de moleque” se estendia até a frente da rua aberta há poucas décadas. Embora o tipo de alicerces preservados indique construção sólida não se tem como saber se era de um único pavimento ou de sobrado. Ao ser instalada a oficina é provável que já, e desde então, fosse construído um galpão.  Uma alternativa é que os próprios irmãos tenham construído o prédio e as instalações ou somente estas últimas.

Segunda ocupação – Prédio de 1892 – Segundo o mesmo autor, em 1898 os sucessores dos irmãos Laemmert reformaram as instalações de uma moderna oficina e o prédio de três andares, que se incendiou em 1909/10. As marcas da reconstrução das oficinas já foram discutidas, constatando-se sua ampliação, mas praticamente sem mudanças na planta básica. É perfeitamente possível que o galpão das oficinas tenha sido reforçado. Provavelmente tenha sido utilizado o gás como combustível para o acionamento das máquinas, o que poderia ter sido a causa da violência do incêndio.

Terceira ocupação – Prédio de 1911 – O sucessor proprietário da Companhia Tipográfica Brasileira constrói novo prédio (um sobrado) na frente do terreno, para o qual dispomos da planta. É possível que no ano anterior tenha construído um sólido galpão onde localizamos o Prédio I e que ali tenha instalado suas máquinas.

Quarta ocupação – Prédio de 1941 a 2012 – Com o incêndio do prédio anterior os novos proprietários construíram um novo na fachada da rua, com três andares, (do qual já foi exposta uma fotografia) e um grande galpão na parte dos fundos onde estabeleceram o Estacionamento.  Este prédio, de três andares (e o galpão) foi demolido em 2012 pelos novos proprietários para um empreendimento imobiliário que resultou nas pesquisas de salvamento agora concluídas.

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A seguir o que foi revelado na etapa de Monitoramento frente às questões que permaneceram em aberto.

Considerações finais após o Monitoramento

O monitoramento arqueológico realizado neste projeto se fez de modo mais acurado do que de costume em obras similares justamente pela importância do achado original: restos de uma tipografia, exemplo único pesquisado no Brasil alicerçado por farta documentação histórica e presença de material cultural arqueológico abundante em profundidades superiores a três metros. Considerada uma decisão acertada pela equipe na medida em que o acompanhamento do cronograma das obras (monitoramento) nos deu a oportunidade de poder coletar as grandes bases de pedras aparelhadas para instalação de máquinas a vapor e a gás, típicas da tecnologia de uma época: a da Revolução Industrial.

A chegada de equipamentos de grande porte vindos da Europa no século XIX veio consolidar também no Brasil esses avanços, sendo a Typografia Universal (Typografia Laemmert) um dos melhores exemplos dessa importação, hoje comprovados arqueologicamente pela pesquisa do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB).

Melhor do que isso, no entanto, foi a possibilidade que nos foi dada de vislumbrar os vestígios de um possível resto de sambaqui jazendo sob suas ruínas bem ali no centro histórico da cidade do Rio de Janeiro.

Esta fase da pesquisa revelou dados complementares ao trabalho de resgate anterior e referente à Tipografia Universal dos Irmãos Laemmert, destacando-se, sobretudo, a possível identificação de uma ocupação anterior à mesma.

Os dados obtidos durante todo o processo permitiram identificar com maior precisão áreas cotidianas de uso da tipografia tais como: cozinha, sala das máquinas e mesmo o depósito dos tinteiros. Revelou, também, lixeiras com descarte de grande quantidade de garrafas de vidro e materiais diversos.

O acervo recolhido durante o monitoramento e comparando os dados com aqueles das escavações pode-se observar bases de interesse e constatar a importância da execução de um monitoramento sistemático em uma obra de tal vulto.

Inicialmente permanecendo a análise restrita aos níveis estratigráficos relativos à ocupação da tipografia Laemmert, destaca-se que naquela fase foram recolhidas mais de 2.500 peças arqueológicas no Prédio I. Na fase do monitoramento tal acervo enriqueceu-se com mais cerca de 2.500 fragmentos, ou seja, quase duplicando a coleção. No prédio II, o principal, a diferença foi maior. Na etapa da prospecção foram ali recolhidas mais de 2.600 peças, enquanto que nesta fase foram encontradas próximo a 3.000, ou seja, quase 12% a mais de peças. Em relação ao Prédio III, o mais recente do ponto de vista histórico, foram coletados na prospecção cerca de 4.000 peças e durante o monitoramento cerca de 300 delas, próximo a 7,0% a mais. Estas novas adições se constituem em um reforço considerável para o melhor conhecimento daquela manufatura e, sem dúvida enriquecerão os dados de análise.

Porém, mais significativa foi a contribuição do monitoramento quanto aos momentos anteriores à fixação daquela oficina tipográfica no local. A pesquisa foi aprofundada no espaço e também no tempo, permitindo entender-se que abaixo da época da fixação dos Irmãos Laemmert não ocorreu de fato uma ocupação do terreno em termos permanentes. Não obstante foi recolhido material malacológico, ósseo, lítico e algum vegetal, (mais de 900 peças). Também aqui o material foi coletado de acordo com a localização dos três prédios e demonstrou a existência de um horizonte de eventos até então insuspeitado, conforme adiante descrito.

A observação obtida pela equipe em campo durante as escavações das fundações novas permitiu mapear os níveis acima citados de ocorrência de material, predominantemente malacológico de mistura com sedimentos arenosos e também a caracterização dos perfis estratigráficos da parede norte e sul do terreno, representadas pelas paredes do casarão e do colégio.

Tomando-se por base os níveis de profundidade onde começa e termina a camada rica em conchas, pode-se concluir que a base do terreno era mais profunda nos fundos da propriedade (direção NO) e a parte mais elevada na frente do mesmo (SE).

Foi também possível determinar uma inclinação do terreno do Sul para o Norte, ou seja, do limite com o Casarão ao limite do Colégio.

Constatou-se que pode ser considerada como camada base e que se estende por todo o terreno, aquela capa acima citada, composta, sobretudo por material conchífero, sobre a qual se sobrepuseram camadas deposicionais. Estas oriundas de aterros e de ocupações. E, pode-se observar que o solo assim constituído descia sensivelmente em direção NO. Esta camada conchífera repousava sobre uma base argilosa, onde foram abertos cortes estratigráficos e recolhidos líticos não trabalhados.

Escavação da área do poço do elevador Material malacológico evidenciado durante a escavação dos pilares 42 e 43 Fragmentos de ósseo animal e malacológico coletado durante escavação do poço do elevador

Esta camada considerada agora como a primeira que se estendeu sobre o solo original e que por ser composta predominantemente de restos conchíferos indica, no mínimo, um aspecto insuspeitado do ambiente antigo, apresentou espessura variada em toda sua extensão. Esta variação ocorre tanto no sentido longitudinal do terreno quanto no transversal.

Considerando inicialmente a parede que corre junto ao casarão, (perfil “Sul”) foi possível constatar que no terço inicial em direção à frente do terreno, tal camada jaz a cinco metros de profundidade, tem igual espessura (local onde alcança a maior delas), atingindo a argila base aos dez metros de profundidade. Aproximadamente em 2/3 da extensão do terreno, ela se inicia a oito metros e meio de profundidade (formando um bolsão) e tem dois metros de espessura, chegando, portanto, aos 10.5 m. de profundidade onde encontra a argila base. Nos fundos do mesmo terreno jaz a cerca de oito metros de profundidade e alcança a espessura de dois metros. Sua base, portanto mantém-se a cerca de dez metros abaixo do solo do antigo piso da garagem.

Na parede contrária apresenta, conforme já descrito, um desnível de maior profundidade. No terço inicial (frente do terreno) jaz a quatro metros; no segundo terço a seis e nos fundos a oito metros.  Sua espessura nos dois terços iniciais é de dois metros e nos fundos de quatro metros. Sua base descansa sobre a argila de base respectivamente a seis, oito e 12 metros, da frente para os fundos.

A origem dessa camada de conchas é provavelmente natural, testemunhando um antigo nível marinho, ao que parece lagunar. Em que pese sua estrutura, muito distanciada do padrão de deposição horizontal dominante em superfícies do tipo, não foram encontrados artefatos claramente manufaturados que apontem uma origem cultural ou artificial. Ocorreram, sim, alguns poucos grãos de carvão e ossos de pequenas dimensões, além de inúmeros blocos e seixos também pequenos. As análises já procedidas não confirmam sua origem cultural de forma clara, ainda que a existência de um pequeno afiador testemunhe o contrário. Mas é ainda uma peça isolada, constituindo uma exceção, aparentemente para confirmar a regra. Pode ser que com o prolongamento das análises laboratoriais outras evidências possam contrariar a visão inicial de que se trata somente de um depósito natural de conchas.

Mas, de qualquer forma, destaca-se o fato de que não havia noticias a respeito de algo semelhante naquele ponto do centro urbano carioca, sem dúvida de importância para os geocientistas.  

Enfim, a pesquisa não termina aqui, o que terminou foi o monitoramento arqueológico do empreendimento. Todo o material arqueológico se encontra nos laboratórios do IAB sendo pesquisado e num futuro próximo, após a conclusão dos estudos poderão confirmar (ou não) as observações e as considerações feitas durante o monitoramento.

Marcação de cortes testes nos fundos do terreno Corte teste 1 - Escavação do nível 20/40 cm em hemi-setor Corte teste 2 - escavação do nível 20/40 cm

 

Origens das conchas na base do terreno da Rua dos Inválidos 123.

Procurando explicações

Procurando entender as razões pelas quais se pode explicar a existência de conchas que formam a primeira camada assentada sobre o solo de base da área pesquisada na Rua dos Inválidos 123, devemos começar estudando as mudanças ambientais pelas quais passou a Baía de Guanabara.

Mudanças ligadas às alterações geoambientais e, sobretudo, resultantes das alterações no nível do Atlântico. 

A cidade do Rio de Janeiro se desenvolveu na margem direita da Baía de Guanabara, ultrapassando sua barra no Oceano Atlântico até grande parte do seu interior, englobando diversas ilhas grandes (como a Ilha do Governador) até pequenas (Ilha fiscal, por exemplo). Muitas delas desapareceram pelo avanço da cidade com os aterros sucessivos ao longo dos tempos.

Na figura 01 está localizado o ponto onde se procedeu a pesquisa na rua dos Inválidos, em área de vale situado entre morros, hoje por sua vez também desaparecidos, como o do Senado e o de Santo Antonio do qual resta somente o topo com o seu convento histórico.

A evolução ambiental da área pode explicar a existência de restos malacológicos naquele ponto da pesquisa hoje tão distante da linha da costa. É que o nível dos Oceanos variou ao longo dos milênios e aquela área tanto foi inundada quanto se situou em nível mais alto em relação à Baía.

Há cerca de 15.000 anos passados o nível do mar baixou cerca de 120 metros,  a ponto da região da Baía ter se constituído num longo rio que penetrava aproximadamente por 100 quilômetros pelo território hoje ocupado pelo Atlântico, desaguando numa distante praia hoje a cerca de 100 metros de profundidade. Entre 10.000 a 8.000 anos antes do Presente, o nível do Oceano se elevou, mas ainda permaneceu cerca de 50 metros abaixo cima do atual.

A área onde se localizou o sítio fazia parte desse terreno enxuto, formado por sedimentos de origens diversas, ainda que, segundo os geomorfólogos o processo de erosão permanecesse basicamente provocado por condições físicas. Entre elas, por exemplo, pelo aquecimento e o resfriamento súbito, atacando as rochas e as fragmentando, ou pelo natural processo de sedimentação produzido pela cobertura vegetal. Na época, tal cobertura vegetal era diferente daquela de hoje, e ainda adaptada a clima mais temperado do que o atual.

Alguns poucos milênios depois o clima da terra sofreu mudança considerável, com o aumento da temperatura global, derretimento das calotas polares, avanço do cerrado e das florestas substituindo as savanas e elevação gradual do nível dos mares.

A figura permite uma visão geral do contorno atual da Baía de Guanabara (em vermelho), em relação à extensa área que então conformava toda a bacia da Baía, cujas águas (em azul) penetravam pelos terrenos hoje enxutos. 

Neste detalhamento da figura 03, referente à área pesquisada pode-se observar que de uma maneira geral o local ou foi encoberto pelas águas entre 8.000 e 4.000 antes do presente ou se localizou próximo a uma área que o foi em algum momento. Este fato explica a existência do acúmulo de conchas no local, fosse em virtude de uma sedimentação natural, fosse em função do seu aproveitamento pelo homem.

Situação atual  Situação ao redor de 8000 anos passados   Situação ao redor de 4000 anos passados  Detalhamento da figura anterior  

Características da Camada de Conchas

Em seguida podemos estudar as características desse mesmo acúmulo tanto em relação à sua extensão quanto à espessura, profundidade e tipologia da sedimentação.

Vamos aos seguintes dados, que se revelam de importância:

Inclinação das camadas: foi possível concluir que o solo argiloso de base do terreno em toda a sua extensão longitudinal era mais profundo nos fundos da propriedade (direção NE) e mais elevado na frente do mesmo (SO). Além disso, tal nível argiloso de base também se revelou inclinado no sentido transversal, mais alto a SE e mais baixo a NO. 

A capa de material conchífero que se também estende por todo o terreno, acompanha a mesma inclinação, mais no sentido longitudinal do que ao contrário.

Esta camada conchífera repousa sobre aquele solo de base, composto de argila (e onde foram abertos cortes estratigráficos e recolhidos líticos não trabalhados).

Esta camada de conchas tem também como característica possuir espessuras variadas em toda sua extensão. Esta variação ocorre tanto no sentido longitudinal do terreno quanto no transversal.

As medidas de profundidade se referem ao nível original de cimento correspondente ao piso do prédio da garagem que foi demolida para construção do prédio atual.

Considerando inicialmente a parede que corre junto ao casarão, (que se desenvolve em direção SO/NE) no seu terço inicial (correspondente à frente do terreno), jaz a 5 metros de profundidade e, nesse ponto atinge 5 metros de acúmulo de sedimentos com conchas, local que constitui sua maior espessura.

Aproximadamente nos 2/3 da extensão do terreno, ela só tem início a 8.5 metros de profundidade, onde forma um bolsão, mas sua espessura diminui para 2 metros, alcançando, portanto, a profundidade de 10.5 metros.

Daí em diante, até os fundos do terreno, embora apresente variações, mantém-se sem maiores alterações quanto à profundidade e à espessura. Sua base, portanto mantém-se a cerca de 10 metros abaixo do solo do antigo piso da garagem.  

Na parede do lado oposto da largura do terreno, mas no mesmo sentido, o desnível é maior.

No terço inicial (frente do terreno) jaz a 4 metros; no segundo terço a 6 e nos fundos a 8 metros.  Sua espessura nos dois terços iniciais é de 2 metros e nos fundos de 4 metros. Sua base descansa sobre a argila de base respectivamente a 6, 8 e 12 metros, da frente para os fundos.

Suas origens

Quanto à questão que se impõe discutir, é ela de origem natural, resultando da deposição de camadas sucessivas de conchas e sedimentos em função de agentes ambientais somente?

Ou resultaria da ação humana, sendo transportada para o local fosse como alimento, fosse para constituição de uma base habitável constituindo um sítio arqueológico tipo sambaqui?

A primeira hipótese soa mais viável, pelo fato de não terem sido encontradas evidências culturais seguras, tais como artefatos de pedra, restos de alimentação, fogueiras ou enterramentos. Algumas reduzidas evidências foram recolhidas, sem que garantam resolver a questão ou provem a presença humana antiga, tais como poucos restos de carvão, madeira e um seixo com sinais de uso. Conjunto de tão pequena significância que distam muito daquilo que os especialistas vêm considerando constituir um sambaqui, considerado pelos mesmos como um local construído propositalmente para sepultamento, com marcantes peças culturais.

Contra a perspectiva natural se colocam duas evidências correlacionadas:

A primeira é a mistura de sedimentos argilosos que acompanham as curvas do solo de base, formando níveis diferenciados. Os assim chamados concheiros naturais ou também terraços marinhos se caracterizam pela deposição horizontal das camadas, que mesmo preenchendo bolsões do terreno, ou circundando elevações do mesmo, mantém-se com tais conformações pela ação natural das águas que as impulsionam. A horizontalidade é sua marca fundamental.

A segunda, como decorrência da primeira, reside no fato da sua inclinação acompanhando, ainda com espessura diferenciadas, o nível da base argilosa, inclinada para o Nordeste. Camadas de deposição natural se acumulam gradualmente, preenchendo depressões e contornando elevações, conforme destacamos acima, mas mantendo níveis de superfície horizontal.       

Em suma

Devemos considerar que a camada conchifera registrada somente surgiu em níveis muito inferiores a aqueles que registravam as ocupações históricas (sobretudo de aterro) que serviram de base para a ereção dos prédios onde se estabeleceu a tipografia Laemmert em meados do século XIX.  Entre elas e sua superfície ocorreu uma larga faixa de solo sem sinais de ocupação.

No momento em que foi constatada sua presença a sua pesquisa foi naturalmente tolhida fosse pela sistemática da escavação da obra, fosse pelas condições do terreno, influências e limitações causadas pela falta de iluminação, elevação e inundação do lençol freático, etc. Em suma, tal soma de dificuldades, sobretudo os impactos desde há muito causados nas profundidades do solo, pelas colunas, pilares e sapatas que semeavam toda a espessura do terreno, cuja retirada, inclusive, foi que permitiu a constatação da existência do concheiro.

Apesar de todas as dificuldades deve-se de um lado à sistemática presença do arqueólogo encarregado do monitoramento, sua boa relação com os empreiteiros e representantes do empreendedor, a descoberta de tal evidência de importância.

Por outro lado, não fosse a necessidade da obra atual retirar aquela considerável soma de tubos de concreto (de tipos e configurações diferenciadas)  solidamente enterrados no solo, provavelmente tal camada teria passado despercebida.

Desse fato permanecem de importância duas recomendações:

A primeira é que qualquer obra naquela área em particular e nas suas vizinhanças de uma maneira geral, deve ser monitorada e acompanhada até os níveis mais profundos a serem alcançados. Mesmo muito abaixo da ultima camada ou nível de construção histórica .

A segunda é que somente com a continuidade da pesquisa em obras da vizinhança se poderá acompanhar toda a extensão daquele importante vestígio e talvez um dia melhor entendê-lo e esclarecer sua origens.

Estratigrafia da parede do lado direito do terreno, vizinha com o Casarão. Estratigrafia da parede do lado esquerdo do terreno, vizinha do Colégio

 

Créditos:

Amador, Elmo

1997 – Baía de Guanabara e Ecossistemas Periféricos: homem e Natureza

Reproarte, Rio de Janeiro

Pinheiro, Eliana Canedo

2005 – Baía da Guanabara – Biografia de uma Paisagem

Andréa Jackobsson Estúdio Editorial, Rio de Janeiro

Proposição de Preservação

Levando em consideração a importância do lugar, das instalações ali exumadas, como testemunhas de uma das primeiras e mais importantes atividades tipográficas em território nacional, de fundamental importância para o desenvolvimento cultural da nação e também a raridade da preservação de estruturas de tal magnitude, propusemos como de bom alvitre que o IPHAN e os proprietários considerassem:

A possibilidade da preservação de um trecho da antiga estrutura em especial onde se localizava o conjunto mais importante exumado da Oficina do Prédio II Superior, ou outro qualquer da mesma importância a critério do órgão fiscalizador. Tal preservação não deveria constituir motivo de prejuízo para os proprietários nem para os investidores e deveria ser equacionada e efetivada em comum acordo entre as partes. Uma vez aceita a proposta, no que nos compete, estaríamos à disposição para fornecer os dados informativos necessários para delimitação da área, assim como para orientar tal iniciativa em campo e fora dele, durante a fase do monitoramento.  

Uma vez concretizado tal evento, à altura da importância cultural que aquele sítio desenvolveu no passado, seria este um motivo de orgulho para nossa cidade, de engrandecimento para todos os participantes e, sem dúvida, de valorização do bem para os proprietários.

*     *     *     *     *     *

Nossa proposta de preservação de trecho da antiga estrutura tendo sido rejeitada pelos empreendedores propusemos como desdobramento dos procedimentos de educação patrimonial o resgate das pedras aparelhadas para assentamentos de maquinários da typografia e outras peças grandes para a Instalação de um Eco Museu na sede própria do IAB em Belford Roxo, cujo projeto propôs a exposição e reconstituição de bases de assentamento das antigas máquinas da tipografia exumada, com padrões correspondentes a instalações de máquinas a vapor e a gás instalado no Brasil quando da chegada desse tipo de equipamentos oriundos da revolução industrial europeia.  O material coletado foi selecionado, exposto em área protegida especialmente construída para este fim.

Após a chegada do material no IAB a equipe de Educação Patrimonial sob a coordenação dos arqueólogos. Ondemar Dias e Jandira Neto fizeram a conclusão da montagem da exposição.

 

Como proposta de continuidade das ações socioeducativas ainda foi solicitado pela comunidade/C.E. Souza Aguiar fosse mantida no local uma placa ou algo equivalente que mantivesse viva a memória da typografia. O projeto foi desenvolvido pelo IAB, aprovado pelo IPHAN e pela Even Empreendimentos Imobiliários e agregado à construção do edifício.  Em galeria lateral do prédio foram construídos nichos contendo banners que contam a história do local, do procedimento arqueológico e dos artefatos encontrados.

Clique aqui para conhecer o trabalho de educação patrimonial que foi realizado pelo IAB no Colégio que fica ao lado do empreendimento e a exposição com as estruturas da tipografia.

Rio de Janeiro, outubro de 2015

Os autores

Equipes do Programa Coordenação:

Arqueólogos Responsáveis Científicos pelo Programa - Ondemar Ferreira Dias Junior (Ondemar Dias) e Josefa Jandira Neto Ferreira Dias (Jandira Neto)

Responsáveis pelo Gerenciamento do Programa - Arqueóloga e Educadora Patrimonial - Jandira Neto

Responsável pela Coordenação do Departamento de Pesquisa e Administração - Arqueóloga Junior - Iraci Gomes Torres (Cida Gomes)

Equipe Técnica da pesquisa de campo

Ondemar Dias e Jandira Neto - Arqueólogos- Coordenação de Campo

Rhuam Carlos Souza - Arqueólogo pleno de campo

Equipe de Historiadores

Ondemar Dias;

Cintia Raymundo;

Equipe de Educação Patrimonial – Eco museu IAB e Banners na galeria

Jandira Neto - Coordenadora - Arqueóloga Especialista, Educadora Patrimonial.

Jair Santos – Museóloogo

Cleide Martins – Museóloga

Rhuam Carlos – Arqueólogo pleno

Ondemar Ferreira Dias Junior – Arqueólogo Coordenador

 

Equipe Técnica de Laboratório

Graziela Francisco - Técnica em Arqueologia de laboratório

Cláudio Barbosa – auxiliar técnico de laboratório

André Kepler - Pesquisador Curumim

 

Equipe de Divulgação

Diego Kobylinski de Lacerda – Auxiliar de estúdio III

Antonia Neto - Auxiliar de Estúdio III

Letícia Sampaio - Comunicadora Social e Auxiliar Técnico de Educação Patrimonial;

William Cruz - Designer Gráfico, Fotografias e Auxiliar Técnico de Educação Patrimonial;

Rodrigo Rubens - Programador de Jogos Virtuais e Auxiliar de Estúdio;