Sítio Arqueológico Abrigo do Canavial ou Bela Vista

Prosseguindo a nossa série de publicações levamos hoje ao conhecimento do público especializado o resultado de mais um trabalho de campo efetuado pela Equipe Técnica do I.A.B.

Na impossibilidade de publicarmos mensalmente a síntese das nossas prospecções, por inúmeras dificuldades e obstáculos de ordens várias, tentaremos, doravante, manter um noticiário trimestral, focalizando as nossas pesquisas mais importantes do período, através do nosso Boletim de Arqueologia

O presente texto refere-se ao primeiro trimestre do ano de 1964 e focaliza aspectos da arqueologia de Cantagalo-Cordeiro, no Estado do Rio de Janeiro, zona promissora e mal explorada, campo novo ao qual nos lançamos numa tarefa pioneira.

O texto que se segue foi elaborado pela Equipe que atuou efetivamente no trabalho sob a supervisão de Ondemar F. Dias Jr., e chefiada por Claro C. Rodrigues, tendo como assistente Alexandre M. Mirilli e contando ainda com a participação de Carlos M. Bandeira, encarregado dos levantamentos e desenhos e Alberto H. Botelho, responsável pelo material.

Foi guia de valor inestimável Bento L. Lisboa e contamos ainda com a colaboração de Marco Aurélio, ambos residentes em Cantagalo e profundos conhecedores da região.

 

O Abrigo Funerário do Canavial

 

A Fazenda Bela Vista, em Cordeiro, próspero município Fluminense, pertence à família Lisboa desde meados do século passado e guardava um interessante vestígio indígena. Um dos seus proprietários, o jovem Bento Luiz Lisboa, fazendeiro dedicado, estudante apaixonado de geologia aplicada, descobriu, há dois anos, um abrigo sob rochas contando ossadas humanas e cacos de cerâmica.

Ao iniciar-se o ano corrente (1964) comunicou-nos o fato, prontificando-se a nos guiar até o local. Composta a Equipe de campo para tal trabalho visitamos no transcorrer de março a citada jazida.

O abrigo rochoso está localizado à meia encosta de uma elevação de aproximadamente 500 metros de altura (o Morro do Canavial), distante da sede da Fazenda Bela Vista cerca de 1.500 metros. Encoberto pela mataria o abrigo, que se abre graças à desagregação do gnaisse, mostra-se protegido tanto dos elementos quanto da vista inquiridora, razão pela qual permaneceu desconhecido até o ano de 1962 quando para surpresa dos antigos moradores locais, foi encontrado pelo mencionado Sr. Bento.

O acesso não é difícil exceto pequeno trecho já em chegando do lugar, onde se torna necessário um arriscado lance para contornar uma saliência rochosa. Do sítio descortina-se amplo panorama.

A superfície é pequena, tendo ao todo sete metros de extensão, por quatro de largura, medidas estas muito diminuídas, na realidade, pelas inúmeras saliências e irregularidades do terreno. A plataforma plana se restringe a pouco menos de um retângulo de dois metros por um e meio. A linha de cobertura do abrigo se projeta além da superfície máxima interior, possibilitando, portanto, uma segura proteção. A altura máxima é de cerca de sete metros mas, mesmo junto ao paredão, permite que se trabalhe de pé.

Em direção norte o abrigo se prolonga e se subdivide em pequenas plataformas, todas muito estreitas e despidas de interesse arqueológico.

Seu solo é constituído de argilas provenientes da decomposição das rochas, alguma areia e inúmeros fragmentos desprendidos das paredes e do teto. O processo de esfoliação e desagregação está em pleno andamento.

Na parede norte-sul, à entrada do abrigo, corre uma pequena prateleira, situada a um metro e oitenta centímetros acima do nível da jazida, tendo dois metros de extensão por quarenta centímetros de largura, onde também ocorreram achados.

Os restos ósseos e cerâmicos encontravam-se espalhados por toda a superfície do terreno, alguns semi-enterrados no aluvião outros fragmentados e presos por rochas desagregadas; a maioria se encontrava solta sobre o solo, mas diversos caíram abaixo do abrigo, ao que tudo indica, arrastados juntamente com a argila e fragmentos rochosos.

Para facilitar a coleta, dado a topografia do abrigo, dividimos a área em três setores. A parte central, com pequena superfície plana, denominada “plataforma”; a “brecha” do lado direito, em aclive (entrada local) e a “saída”, à esquerda.

Os ossos estão em bom estado de conservação, secos e claros, provavelmente recentes. Pertencem ao que tudo indica, a três indivíduos diferentes. Um jovem adulto; uma criança e outro de idade difícil de calcular pela inexistência de mandíbula. Talvez pertença a um indivíduo mais velho. A maior parte dos ossos foram retirados pelo proprietário da terra na época da descoberta e remetidos para uma conhecida Instituição que não deu mais notícia sobre os mesmos.

Encontramos pequenos ossos, talvez de um recém-nascido, porém eram poucos e estragados, não bastando para comprovar a ideia.

Coletamos raros fragmentos de crânios, alguns ossos longos e duas mandíbulas, através das quais identificamos os dois primeiros indivíduos descritos.

A cerâmica foi toda ela recolhida e empacotada de acordo com a procedência. Parece, no entanto, que houve contínua mistura, ocasionada por agentes naturais e visitantes posteriores à descoberta.

Coletamos cerca de quarenta quilos de cacos, alguns de bom tamanho, mas a maioria facilmente degradável. Calculamos em três o número das urnas ali depositadas, embora seja possível a existência de mais uma.

Encontramos dois fundos perfeitos, arredondados, emborcados, ligeiramente soterrados, em mistura com ossos e outros fragmentos. A posição do achado indica que as urnas não foram enterradas e sim depositadas nas superfícies, onde se fracionaram. A existência da prateleira na entrada -parede norte-sul - contendo alguns ossos e cacos permitiu a hipótese de que ali tenham sido depositadas, inicialmente, as urnas de onde tombaram. Esta é, porém, somente uma hipótese.

As bordas são sempre ligeiramente extrovertidas. Um das urnas trazia uma pequena elevação sub-labial.

O trabalho de reconstrução está em andamento, sendo que foi possível reconstituir uma delas, quase inteira. As peças estão tão fracas que não suportam mais o peso da peça colada, ocasionando novas rupturas. O tipo de urna é globular comum, sem decoração alguma, exceto no bulbo sub-labial de uma delas.

Não descobrimos nenhum resto de ocupação no abrigo, nem mesmo vestígios de fogueiras. Parece certo tratar-se de um abrigo tipicamente e exclusivamente funerário.

Encontramos ainda, perfeitamente conservado, restos de embiras (cipó Imbé) enlaçados com ossos, que possivelmente amarraram. Este cipó, liana preta e espinhosa, conserva toda a sua rigidez e dureza. Também folhas secas rasgadas, estavam de permeio com os cacos e os ossos.

Acreditamos que se trata de enterramentos secundários, quer pela localização do abrigo (para onde seria difícil carregar os corpos com carne); quer pelas dimensões das urnas que não os comportavam e mesmo pela existência de cipós amarrando os ossos e as palhas, que possivelmente forravam os fundos das peças.

Nossa equipe de campo efetuou todo o levantamento que acompanha esta notificação. Não foi necessário escavar; deslocamos somente algumas pedras para retirar os cacos, porém procuramos guardar o aspecto global do sítio. Não encontramos nenhuma outra espécie de cerâmica, nem mesmo um só lítico, ou qualquer vestígio de acompanhamento funerário.

Os enterramentos são, ao que parece, recentes. Devem pertencer aos remanescentes das tribos que, ainda no século XVIII, percorriam a região. Tanto os Puris, resultando da mistura dos indígenas expulsos da baixada e da orla marítima pela colonização, quanto os Coroados que por ali passaram. Também na região de Cantagalo-Cordeiro, em plena serra Fluminense, eram encontrados os Coropós (produto da mestiçagem entre Coroados e Goitacazes) do grupo Gê, o que talvez explique a rusticidade da cerâmica.

Toda a região que engloba os municípios do Norte Fluminense, sobretudo os dois citados, só foi colonizada efetivamente - e suas selvas devastadas - quando o café começou a subir a serra e os colonizadores, largando a baixada e a Costa, se dedicaram à nova economia.

Os vestígios encontrados devem ser da época em que “tombados aqueles gigantes vegetais, logo as lavouras sujeitarão o solo virgem, promissor da fartura das colheitas. Sobre aquela gleba em que ainda as tabas se espalhavam, as grandes casas senhoriais iriam difundir a civilização." (Alberto R. Lamego – “O HOMEM E A SERRA” pág. 94, IBGE – Rio 1964- 2ª Edição).

A cerâmica de Cordeiro, anteriormente mencionada no texto, apresenta certas particularidades interessantes. Muito rústica provavelmente ligada a povos que dominavam mal esta técnica, representa, no entanto, importante vestígio para a interpretação da arqueologia da região serrana fluminense.

Dela ainda não pudemos determinar a Cota de Carbono, que, pela simples observação visual, aparenta ser bastante alta.

A maior parte dos fragmentos, cerca de trinta quilos de cacos, permaneceram em Cordeiro, aguardando eventual condução até a nossa sede. Efetuamos a análise em ¼ do material coletado estando, portanto, sujeita à revisão futura quanto as linhas gerais aqui traçadas.

Pudemos determinar a existência, bem marcada, de duas urnas com técnica de queima diferente, e três urnas, pela existência de três tipos diferentes de bordas. No texto nos referimos a quatro tipos de bordas, mas, como não efetuamos a reconstituição da igaçaba a quem elas se referem, pode dar-se o caso, provável, de dois destes tipos representarem somente variante de uma mesma peça, fato notado em outros detalhes do acabamento.

Um único fragmento de peça de outro tipo foi levantado, constituindo-se exceção, não sendo mencionado no texto anterior.

Ficha de Registro de Sítio - Iphan