O Sistema Espeleológico do Vale do Elefante

Publicado originalmente no Boletim  de  Arqueologia Nº 3 - 2º Trimestre de 1964 - Ano 2 - do Instituto de Arqueologia Brasileira -IAB

 

  • O Sistema Espeleológico do Vale do Elefante
  • Esboço Histórico do Vale do Elefante
  • A Cerâmica Cabocla do Vale do Elefante

 

O Sistema Espeleológico do Vale do Elefante

               * Carlos M. Bandeira

 

Representa o Vale do Elefante uma larga brecha geológica aberta no flanco leste do maciço da Tijuca, formada nas eras primitivas pelo rolar contínuo do Rio Perdido (que foi de considerável volume em tempos mais recuados), que devastou e erodiu grossas camadas rochosas, acabando por depositar todo o seu produto na planície aluvial, hoje ocupada pela urbe carioca.

Neste arrastar e devastar incessante formaram-se naquele Vale numerosas cavidades que, localizadas por larga extensão vieram a compor o que convencionamos chamar de “O Sistema Espeleológico do Vale do Elefante”.

Este sistema, estabelecido no complexo gnáissico, componente principal das rochas locais possui, no entanto, características notáveis, com cavidades de regulares dimensões, algumas das quais, podendo ser classificadas como verdadeiras cavernas, como no caso da “Gruta do Itará” ou da “Toca dos Morcegos”, ambas comportando espaçosas salas e galerias.

A exploração deste sistema remonta ao ano de 1958 quando o autor, com uma equipe de espeleólogos da então Sociedade Brasileira de Espeleologia, iniciou o levantamento daquelas cavidades (2). Nesta ocasião foram descobertas as grutas “do Cristal”, “Elefante”, “do Itará”, “dos Deuses”, “do José Maria”, “da Lage”, “do Acampamento” e a “Toca dos Morcegos”, depois estudadas pelo autor no Departamento Técnico, após seu ingresso no IAB.

Estando as referidas cavidades situadas nas rochas gnáissicas (graníticas), a ação principal formadora das mesmas é a erosão fluvial do rio Perdido seguida da erosão pluvial da chuva e química, conjugadas a deslocamentos e afundamentos do solo aluvional. A não existência do calcário restringiu, até certo ponto, as dimensões daquelas cavidades em sua maioria apresentando uma morfologia de faces boleadas e de conjuntos de rochas superpostas. Além das grutas acima mencionadas mais de uma dezena de “abrigos” estão distribuídos por toda a extensão do Vale, a maioria constituindo-se de “boulders” e “matações” atingidos pela erosão em suas partes inferiores e bases; muitas vezes as cavidades se produziam através de veios minerais de pouca resistência (mica-xisto), dando formas estranhas àqueles abrigos.

Nos estudos efetuados pelo IAB pudemos observar em alguns casos a ação da erosão em forma de esfoliação vertical, soltando-se verdadeiras “folhas” e “lâminas” de rocha, das paredes das grutas (Gruta dos Deuses, Abrigo do IAB, etc.), passando tais fragmentações a fazer parte do piso das cavidades, constituindo-se em uma nova camada húmica. Encontramos também nas grutas situadas mais próximas ao leito do rio Perdido, um piso composto de terra de aluvião, areia, seixos rolados e variados fragmentos de rochas inclusive fragmentos de telhas coloniais.

A Espeleoflora é quase inexistente salvo alguns cogumelos e liquenáceas (fungões e criptogamas). A Espeleomalacofauna é composta do conhecido caramujo Strophocheilus e do Hélix, além de algumas outras espécies não classificadas. A Espeleofauna resume-se em alguns pequenos lagartos (Iguanos Lacertilos), roedores e o sempre presente morcego (Quirópteros), estes em maior escala embora sejam, até certo ponto, recentes na região conforme atesta a reduzida camada de guano existente naquelas cavidades.

Concluindo, podemos afirmar que as diversas cavidades, quer abrigos, quer cavernas ou mesmo grutas, que fazem parte do sistema do Vale do Elefante (ou Grajaú), constitui-se um interessante campo para o estudo e a pesquisa espeleológica, além de oferecer excelente possibilidade ao estudo da arqueologia, quer histórica, quer pré- histórica, como veremos a seguir.

 

 Esboço Histórico do Vale do Elefante

 

O estudo do Vale denominado “do Elefante” foi uma das metas do IAB desde o início das atividades técnicas de campo resultando no presente trabalho fundamentado em estudos e pesquisas os quais passamos a registrar.

O Vale do Elefante, assim denominado por estar situado nas vertentes do Morro do mesmo nome na área norte da Floresta da Tijuca, sendo mais um desfiladeiro formado pelo Rio Perdido também denominado (abaixo da represa) Rio Andaraí ou Joana.

Sua formação geológica, na Era Arqueozoica, tem o gnaisse facoidal como principal elemento, o feldspato potássico, o quartzo e o quartzito, a biotita e a granada, com o predomínio da silimanita. Já nas Eras Proterosoicas e Paleosoicas, surgiram os diques de sub-silica efusiva do magma gabrico, com seus fendilhamentos cheios de basalto ou diabásio, de onde chegamos à formação atual.

Toda esta área hoje jaz sob uma densa cobertura vegetal sob a qual repousa uma parcela da história do Estado da Guanabara. São vestígios do lavor do colonizador luso e do braço escravo, os primeiros impulsionadores do progresso da mui leal e nobre cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No final da atual Rua Marianópolis, no bairro do Grajaú, situa-se a entrada do Vale que, caminho calçado por pedras irregulares, leva as várias ruínas coloniais entre as quais a da antiga casa grande de fazenda, a qual  - tida como tendo pertencido ao Barão Bom Retiro - é um marco vivo daquele passado de lutas. As paredes que ainda estão de pé, o pátio e o chafariz, além dos vários cômodos que ainda restam, cobrem uma área de mais de 800m². À esquerda, uma antiga represa atesta o aproveitamento das águas do rio Perdido. A 300m de distância deste local outras ruínas de “casa grande” jaz abandonada.

Da entrada do Vale corre um caminho rumo ao alto da Serra ora pelas encostas, ora junto ao leito do rio, tendo alguns trechos calçados com pedras desiguais, outros com barreira e muros de arrimo; será, talvez, o mais antigo caminho colonial existente na Guanabara, ainda preservado da destruição pelo avanço da urbe, o que não ocorreu com os antigos caminhos do Mateus e dos Três Rios, ora inteiramente irreconhecíveis. Ao que consta, este seria o famoso “caminho dos franceses” rota pela qual teria sido invadida a nossa cidade na época da colonização merecendo, inclusive, já na garganta do Andaraí no local denominado “Fortaleza”, a instalação, em 1775, de três baterias artilhadas.

Em outro trecho do Vale podem ser vistas obras toscas de hidráulica (no rio Perdido), assim como as ruínas de uma estranha fundição com seu forno de pedra, ainda em pé, em forma de domo e centenas de telhas canal, juncando o piso; o que talvez venha a confirmar o registro constante nos “Anais da Cidade”, da antiga e próspera mineração de metais e pedras preciosas na região.

No interior do Vale vários abrigos de pedra foram utilizados pelos escravos e colonos, sendo farta a coleta de cerâmica e artefatos coloniais ou caboclos.

Quando no início do século XVII toda a área do Vale era desnuda de florestas, salvo nas margens do rio onde se formavam alguns capões e árvores de porte regular. Um grande capinzal cobria quase todas as encostas onduladamente. Veio então o ciclo do café e todas aquelas terras sofreram uma transformação sendo nelas plantados milhares de pés da preciosa rubiácea, pés que ainda hoje podem ser vistos, espalhados  por toda aquela extensão. Em quatro de janeiro de mil oitocentos e sessenta e dois, os escravos do Major Acher começaram o reflorestamento da Floresta da Tijuca estendendo o mesmo até as terras do Vale, então já de há muito abandonado quanto à produção de café, formando-se então a floresta que hoje cobre toda aquela área, da qual se destaca a Arariba, a Canela, o Cedro-Rosa, o Pau-Brasil, o Jacarandá-tan, o Jequitibá, o Bicuiba, etc.

As aves ali ainda existentes, pois a área pertence ao Ministério da Agricultura como floresta protetora, são a Jacuí, a Rola, o Bem-te-vi, o Sabiá, a Araponga, o Gaturamo (Euphone Nigricollis) e a Maitaca (Pionus Maximiliani).

Com este quadro esboçamos para o conhecimento geral, uma área que bem pode ser classificada como esquecida dos cronistas, mas que, dentro em breve, ainda poderá ser um celeiro de novas informações relativas à história de nossa cidade.

* Carlos M. Bandeira é especialista em Espeleologia, tendo realizado extensas pesquisas e estudado dezenas de cavidades, principalmente no Estado da Guanabara. É membro do Conselho Técnico Científico da Sociedade Brasileira de Espeleologia, onde exerceu os cargos de Secretário Geral, Diretor do Patrimônio e Chefe da Equipe de Pesquisas. Foi Diretor da Divisão Técnica de Espeleologia do C. E. Light, onde lecionou a matéria em curso especializado. Presentemente exerce o cargo de Assistente Técnico de Espeleologia no Conselho Técnico do IAB, além de chefe de Equipe.

Notas e Bibliografia

Everardo Backheuser – “A Faixa Litorânea do Brasil Meridional”.

Anuário de Estatística da Cidade do Rio de Janeiro – Vol. V – 1923 – 1924.

O Rio Antigo, de Luiz Edmundo.

Anais da Cidade do Rio de Janeiro, 1942.

Revista “Excursionismo”, “Ruínas do Vale do Elefante”, por C. M. Bandeira – Nº32 – Setembro – Outubro – ano de 1960.

O Diário de Notícias – As Ruínas do Vale do Elefante – por C. M. Bandeira – 7/6/1959.

Publicações do autor:

Revelando Segredos da Natureza – Diário de Notícias de 26/01/1958, Rio de Janeiro.

Estudando a Espeleologia – Diário de Notícias, 2/2/1958, Rio de Janeiro.

Explorando Cavernas na Guanabara – Diário de Notícias de 19/6/1958, Rio de Janeiro.

A Gruta do Cristal – Diário de Notícias de 7/6/1959, Rio de Janeiro.

Grutas e Cavernas da Guanabara – Revista “Excursionismo”, nº: 28 – Janeiro – Fevereiro de 1960, Rio de Janeiro.

Relação Estatística das Grutas da Guanabara – Revista “Excursionismo”, Nº 34, Janeiro – Fevereiro de 1961, Rio de Janeiro.

Estatística Espeleológica – boletim de Janeiro de 1961, da Sociedade Brasileira de Espeleologia, Rio de Janeiro.

 

A Cerâmica Cabocla do Vale do Elefante

 Ondemar Dias

Pesquisando em diversas e contínuas prospecções o sistema espeleológico, descoberto pelo nosso companheiro Carlos Manes Bandeira no Vale do Elefante e no Maciço da Tijuca, logramos descobrir alguns sítios com evidências de ocupação etno- históricas. Além dos trabalhos em cataria tipicamente coloniais levantamos um grande número de grutas, abrigos e aglomerados rochosos. Em algumas dessas grutas anteriormente descritas localizamos restos de cerâmica coloniais e caboclas que descrevemos suscintamente.

A “Gruta do Cristal”; o “Abrigo do IAB” e a “Gruta dos deuses” foram os fornecedores dessa cacaria rústica. Chamamos a atenção dos leitores para o fato que estas denominações, dadas exclusivamente pelos excursionistas, vão sendo consagradas pelo uso, razão de as conservarmos aqui.

  • Gruta dos Deuses - Essa gruta que se apresenta com boa superfície plana protegida, foi prospectada superficialmente em mais de uma ocasião. Nunca efetuamos escavações, daí a pobreza do material. Nº de amostras estudadas – 6 Tipo liso – 5 Tipo Estriado - 1.
  • Gruta do Cristal - Foi o primeiro local pesquisado pelo IAB, em abril e maio de 1961. Realizaram-se algumas escavações pouco profundas naquele período. A gruta é mais um abrigo situado em plano elevado, com estreita e longa plataforma, dotado de solo pouco profundo. Sob a mesma localiza-se a Gruta do Elefante, ainda não prospectada. Número de Amostras estudadas – 42. Todos os exemplares coletados são estriados.
  • Abrigo do IAB - O abrigo, assim batizado pela nossa equipe de campo, possuía pequeno solo poeirento e muito pobre. Dali retiramos oito fragmentos de cerâmica lisa, semelhante àquela anteriormente descrita. A sua cerâmica colonial é idêntica à encontrada na Gruta do Cristal. No Abrigo do IAB encontramos um cachimbo fragmentado, tosco, com vestígios de pintura negra, tipicamente colonial.

 

Cerâmica Colonial

A cerâmica colonial encontrada em associação com a cabocla não demonstra grande importância para o estudo do comparativo que viemos a realizar em locais do Estado do Rio, como Calundu e Valonguinho.

Destacamos a encontrada na Gruta do Cristal. Desta sobressai uma panela colonial, vidrada de verde, internamente munida de falsa alça, tendo 25 cm de boca. É idêntica à cabocla encontrada e já descrita, na Gruta dos Deuses. Este paralelismo é interessante, pois a segunda deve ser nada mais nada menos que uma imitação executada pelo caboclo, partindo de um modelo mais evoluído, colonial.

Concluindo podemos adiantar que nossos trabalhos estão em andamento no local. Não se trata de sítios ricos, mas servem para clarear um pouco nossos conhecimentos a respeito do povoamento inicial do nosso Estado.

Cerâmica - Vale do Elefante Cachimbo colonial - Vale do Elefante

 

Ficha de Registro de Sítio- atualizada -Iphan