Resumo das Atividades de Campo na Fazenda Calundu - Baixada Fluminense

 

Publicado originalmente no Boletim nº 4 - 3º trimestre de 1964 - Ano 2

Apresentação

Estamos apresentando os primeiros resultados de pesquisas realizadas no Estado do Rio de Janeiro, nas terras da Fazenda Calundú no município de Nova Iguaçu, onde se situam os sítios arqueológicos da Baixada, da Fábrica e do Cruzeiro, locais de primitivo povoamento indígena e colonial, com características notáveis, de real interesse quanto ao estabelecimento da datação de um período da transição de tipologia de cerâmica, nas fases indígenas, cabocla e colonial.

P.S: o sítio "da Fábrica" em 2019 (data da atual publicação) encontra-se completamente destruído. Há anos foi revisitado e já não restava nenhum indício de material.

Resumo das Atividades

A Fazenda Calundu, atualmente (1964), situada em terras do Município de Nova Iguaçu, no Estado do Rio, (hoje, 2019 - situada no município de Belford Roxo) compreende glebas de antiga povoação. As sesmarias foram frequentes e produtivas naquele espaço da Baixada Fluminense, próxima à corte, de terras descansadas e fartas.

Daquele tempo áureo quase nada resta. Velhos casarões coloniais dentre os quais se destaca o Palacete, que a tradição liga as aventuras do nosso Primeiro Imperador - ligado ao mar por um canal estreito, feito por mão de obra escrava - tiveram sorte idêntica, demolidos, arrasados, para que em seu lugar moradas simples se levantassem. Loteamentos seguidos povoam atualmente as antigas fazendas, dentro da corrida imobiliária que caracteriza a Baixada após o saneamento.

A Fazenda Jacutinga do Calundu, cujos marcos coloniais ainda se encontram bem visíveis, sofreu parcelamento desde a década de 1930 o que, de certa forma, preservou áreas regulares fora da febre de construções proletárias, abundando pequenas propriedades, sítios e chácaras.

A topografia local é simples. Morros baixos, de cinquenta a sessenta metros de altura, com vegetação secundária, separados por vales regulares e bem mais altos do que a baixada quaternária vizinha. Clima bom, quente no verão e bastante frio no inverno com chuvas regulares e nascentes permanentes, atraiu desde as mais remotas épocas, os grupos humanos.

Nossa equipe de campo prospectou três jazidas no lugar. Tentaremos descrevê-las superficialmente, visto que duas das mesmas merecem prolongada atenção, existindo monografias a respeito. Acreditamos que existam outras e que existiram muito mais que desapareceram com os loteamentos ou que ainda se encontram recobertas e salvaguardadas por uma protetora capa de areia.

A areia que desce dos morros vizinhos rica em cristal de rocha (quartzo) é muito aproveitada para a construção de casas. Por esta razão existem homens que se especializam em retirá-la após as chuvas. Observamos sempre nos locais onde a retirada torna-se sistemática, por um período, para verificar a existência de restos. Este cuidado é geralmente compensador ocorrendo muitas das vezes sítios ricos em cerâmica.

O primeiro que assim descobrimos situado em um amplo vale, com cerca de 200 metros por 50, tinha seu solo arqueológico há aproximadamente um metro de profundidade. Recolhemos então - tarefa que durou mais de dois anos - certa quantidade de fragmentos cerâmicos indígenas. Após o estudo das peças coletadas divulgamos uma monografia no Boletim de História (1), que infelizmente, por vários motivos, saiu mutilada em trechos importantes.

Descrição dos tipos de cerâmica

Observação: pode-se verificar que não ocorreu modificação estrutural no processo de queima e de composição da massa entre os diversos tipos submetidos à análise.

Além do sítio descrito, que denominamos da Baixada, termo realmente impróprio mas consagrado pelo uso, prospectamos ainda dois outros localizados nas proximidades. O primeiro deles está situado há aproximadamente 500 metros ao norte do sítio da Baixada, em outro vale amplo, coberto do mesmo material, sendo sua tonalidade igualmente de areia há pouco tempo retirada para venda. Nesta jazida encontramos cerâmica de duas origens bem distintas.O primeiro tipo, representado por um só caco de bom tamanho (13,5cm x 2,3cm) é uma típica peça indígena, única no gênero por nós conhecida, no local. Trata-se de um fragmento de igaçaba, de borda reta e lábio plano. Sobre o lábio, regularmente espaçadas encontramos depressões digitais bem marcadas. Na face externa, partindo imediatamente do lábio, encontramos traços oblíquos (/) distanciados regularmente entre si (cerca de 15cm) e cortados por outros traços perpendiculares (em 90°), que formam quadriláteros zonários. Distribuídas irregularmente na face externa encontramos inúmeras pequenas depressões, bem marcadas, extremo-digitais (Vide reconstrução desenhada).

Contrastando com esta cerâmica indígena ocorre grande quantidade de louça, porcelana e cerâmica grosseira colonial. Chamam a atenção inúmeras peças de porcelana importada de países europeus, inclusive holandesa e inglesa (Vide marcas relacionadas). Policromas e de fino acabamento contrastam berrantemente com a cerâmica local. Desta se destaca uma peça avermelhada, com locomotivas em alto relevo e rostos femininos frontais, igualmente em relevo. Encontramos também no local um indício que permitiu datar a jazida: Uma moeda de vinte réis, datada de 1865, com a efígie de D. Pedro II. Lamentamos não haver qualquer conexão entre os tipos de cerâmicas tão diferentes, pois só coletamos o que encontramos à superfície e/ou parcialmente enterrado. A tradição local diz ter ali existido um “presídio” que desapareceu já em nossa época. É de se notar que não encontramos vestígios de grandes construções, exceto raros tijolões maciços.

A terceira jazida pesquisada, denominada “do Cruzeiro”, pela proximidade do lugar que futuramente levantar-se-á a capela local, dista da primeira trezentos metros em direção oeste. Da mesma forma que as anteriores, foi revelada pelos tiradores de areia e se trata de um sítio onde ocorre a cerâmica típica e uma cerâmica com características peculiares, cabocla.

Esta terceira jazida é riquíssima. De uma calcárea exuberante, continuamente enriquecida com acréscimos provocados pelas chuvas. Pudemos selecionar distintamente a cerâmica colonial da cabocla e preparar uma monografia aprofundada, que sairá brevemente em um dos números do nosso Boletim.

Também submetemos amostras da cerâmica da jazida Cruzeiro ao teste de conteúdo de carbono. Para três exemplares lisos, as cotas respectivas, foram:

Peças: 13-10,9%; 15-16,4% e 16-10%

Um exemplar estriado, peça 14 deu a cota de 2,4%.

Observação: esperávamos, por se tratar de amostras caboclas, que o índice baixasse o que, de forma global, não ocorreu. Só a peça 14 deu um índice mais baixo. Será necessária nova série de análises, na qual serão incluídas peças coloniais, (que deverão ter cota nula ou muito baixa de carbonização – é o que se pode esperar).

Temos ainda a anotar que o lugar é rico em cerâmica e pobre em outros restos. Na jazida da Baixada encontramos um percutor, um almofariz e um só "quebra-coco” (com duas depressões faciais). Na jazida do Cruzeiro,  ocorreu um machado bifacial, com encabamento no talão (posto a descoberto por um enorme aguaceiro em fevereiro deste ano); um quebra-coco circular e um fragmento de machado.

Conhecemos, distante um quilômetro, restos de um arrasado sambaqui de ostreas. Dois machados bifaciais estreitos foram encontrados, há tempos, por terceiros, num barranco próximo. Para finalizar, conto também com um bonito machado bifacial, todo polido, de encabamento central, descoberto há oito anos ao ser aberto um alicerce num local da vizinhança. São dados isolados, que só servem para comprovar a existência de um povoamento indígena.

A tarefa de correlacionar as jazidas, pelo menos a da Baixada com a do Cruzeiro continua, embora ainda não tenhamos alcançado nosso intento.

Este é o resumo das nossas atividades neste recanto da Baixada Fluminense. Nada de conclusivo mas, mais uma tentativa e uma colaboração para o delineamento geral e correto dos grupos indígenas que outrora habitaram o território vizinho da Guanabara.

De positivo fica o fato de termos localizado três jazidas distanciadas cronologicamente. A jazida da Baixada deve ser a mais antiga com restos puramente indígenas, provavelmente tupi-gurani.

A jazida do Cruzeiro com sua cerâmica colonial e cabocla demonstra uma fase de transição, muito provavelmente relacionada a grupos indígenas do inicio do povoamento colonial; e finalmente a jazida número 2, como representante do povoamento do fim do século passado, as vésperas da fase de decadência da Baixada (que se dá com a libertação dos escravos). O único vestígio indígena deste último local serve para demonstrar que também ali (próximo a um córrego permanente) houve povoamento, ou pelo menos vestígios, indígenas.

Nada há de conclusivo, estamos ainda na fase de elaboração de programa e estabelecimento de uma tese geral sobre a qual possamos trabalhar.