Uma Pesquisa Espeleopaleontológica na Gruta do Vira-e-sai

 

Publicado originalmente no Boletim nº 4 - 3º trimestre de 1964 - Ano 2

(Por Carlos M. Bandeira)

Dentro do complexo geológico que originou a atual configuração física da terra Fluminense, a região hoje pertencente ao município de Cantagalo, no Estado do Rio de Janeiro se apresenta, segundo o Prof. Ch. E. Hartt, como formada por camadas terciárias com depressões cheias de depósitos praianos e conchíferos, tendo sua explicação no movimento da crosta.

No período terciário, muito depois do solevamento das colinas circundantes da baía da Guanabara e quando toda a região estava em nível ligeiramente mais baixo, as argilas se sedimentaram sobre a área, inclusive a região plana vizinha. Depois ocorreu um movimento ascendente muito mais alto do que no presente. Devido à forma da bacia e as numerosas correntes nela desaguando, as argilas foram desnudadas e varridas em grande parte. As camadas de areia depositadas em água rasa enquanto o mar se mantinha somente um pouco mais alto do que o nível atual. Foram então elevados pelo recente levantamento da crosta, solevamento que Hartt acreditou continuar ainda em nossos dias. Destes movimentos geológicos e dos depósitos que então se formaram, originaram-se as camadas contendo fósseis e as cavidades da região do Rio Negro, objeto da atual pesquisa.

Sabedores da existência destes fósseis na área acima mencionada, o Departamento Técnico do I.A.B. providenciou, aproveitando a oportunidade de estar realizando uma pesquisa e prospecção naquele município (vide Boletim de Arqueologia nº 2), o deslocamento da equipe de campo até o Distrito de Euclidelândia, local onde se situa a margem direita do Rio Negro, em uma pequena serra de cerca de 6 km de extensão (alt. max. de 450m), uma série de cavidades calcáreas.

Nesta região, ainda vivendo sob o fastígio das antigas e prósperas fazendas de café, hoje abandonadas, penetrou a Equipe, composta por: Carlos Manes Bandeira na chefia; secundado pelo Dr. Alberto Hélio do Prado Botelho como assistente; Alexandre Martin Mirilii como encarregado do equipamento; Prof. Claro Calazans Rodrigues como assistente de geologia e Prof. Ondemar Ferreira Dias Junior, como supervisor geral.

 Na Região Calcárea do Rio Negro

Seguindo, desde a sede ainda quase colonial do Distrito de Euclidelândia através de uma rústica estrada rasgada nos barrancos de laterito, chegou, a equipe, ao alto da serra, tendo à esquerda o caudal do volumoso Rio Negro, verdadeiro divisor entre a montanha e a planície. Neste local, descortinando-se uma vista de todo aquele escudo rochoso, a cerca de 300m de altitude, um apertado vale foi rasgado pelas forças pelágicas abrindo- se em apertada ferradura terminando em um sumidouro, natural escoadouro das águas.

Neste vale de paredes rochosas a prumo onde o calcário é o elemento dominante, a marca das águas se torna visível denunciada pelas mil e uma pequenas e grandes cavidades e amolgaduras da rocha.

Na Gruta do Vira-e-sai

Ao alcançar aquele objetivo iniciou, a equipe, um minucioso levantamento de toda a área, cartografando e desenhando os aspectos físicos e geográficos ali deparados seguindo-se a localização da gruta, sita na base daquele paredão rochoso, com entrada em forma de triângulo (2,10x1,80m). Seguiu-se a prospecção e sondagem teste, visando obter um testemunho paleontológico e, quiçá, arqueológico, que por ventura, ali pudesse existir.  

No interior da gruta - que tem a forma de um “L” bastante pronunciado terminando em três fendas verticais de mais de 6m de altura - as formações calcáreas se apresentam com características notáveis, com paredes cobertas de “loes” amarelo-esverdeado, dezenas de estalactites formados ou em formação, inclusive um deles, já com o devido contato estabelecido com seu oposto estalagmite, formando uma completa coluna, encimada por verdadeiro “candelabro” calcário. Uma plataforma alinhada ao longo das paredes da gruta marca a linha do primitivo teto, antes que a hidrostática efetue seu trabalho de corrosão. Um exemplo desta força são os fósseis contidos nas camadas calcáreas fixas no teto da gruta, que, descobertas pelo autor, proporcionaram, de um pequeno fragmento destacado vários pequenos fósseis, além de um gastrópode (caramujo) alongado, logo reconhecido como o “Fasciolária Lastroensis”, Maury (idêntico ao encontrado nas Jazidas de Sergipe), espécime representante de nossa fauna, ou melhor, de nossa malacofauna paleontológica, sendo seu estado, bastante mineralizado, tomando uma cor avermelhada ferruginosa.

Em uma parte, 8m de altura do piso, um pequeno verme esbranquiçado foi encontrado incrustado não podendo ser retirado, ficando no local. Muitos outros fragmentos foram também encontrados, todos revelando a existência da primitiva fauna da região.  

No piso da gruta, composto de uma terra avermelhada e de origem aluvional, nada foi possível descobrir-se, salvo alguns fragmentos fósseis.

Foi feito o levantamento da Gruta, sendo desenhada em seus detalhes principais, plantas e cortes. Seguiram-se as fotografias e diapositivos coloridos.

 

Conclusões

Encerrados os trabalhos, recolhidos os fósseis ali encontrados, retornou a Equipe à sede do I.A.B., concluindo serem as cavidades calcáreas do Distrito de Euclidelândia promissoras para uma pesquisa paleontológica, trabalho que propriamente não prescreve as finalidades de nossa Instituição e que deixamos para os interessados no ramo, agora com a certeza de que terão êxito e achados naquela área. De qualquer modo, representou, nosso trabalho, uma contribuição para a ciência levantando mais uma jazida e fornecendo os primeiros subsídios para os que nos quiserem suceder.