Projeto de Diagnóstico Arqueológico Não Interventivo do Corredor Viário - Transbrasil - RJ

Estes são os resultados obtidos no Diagnóstico Arqueológico não Interventivo realizado na Área Diretamente Afetada (ADA) e Área de Influência Direta (AID).  Áreas estas sujeitas aos impactos diretos da implantação e operação do empreendimento. O objetivo do projeto foi avaliar a existência de vestígios arqueológicos passíveis de impacto em decorrência da implantação do referido empreendimento - Corredor Viário Transbrasil - em atendimento à legislação e normas brasileiras referentes ao patrimônio arqueológico e histórico.

Para tanto, efetuou-se um denso trabalho nas fontes bibliográficas, primárias e secundárias, a fim de indicar as ocupações humanas que se fixaram ao longo do tempo nas áreas do empreendimento.

Além da pesquisa bibliográfica, foram realizadas pesquisas nos arquivos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), localizados tanto no Palácio Capanema, quanto na 6ª regional do IPHAN e no Banco de Dados Históricos e Arqueológicos do IAB, na busca de registros arqueológicos referentes às áreas de impacto do referido empreendimento.

Além deste trabalho, realizou-se uma análise dos relatórios de projetos de pesquisa arqueológica desenvolvidos na Área Diretamente Afetada do empreendimento. Esta etapa de trabalho assume grande importância, associando-a ao exaustivo levantamento histórico, visto a possibilidade de contextualizar arqueologicamente os trechos impactados pela obra a partir de pesquisa extensivas desenvolvidas no local.

Em função do resultado obtido, estas áreas serão indicadas para prospecção e caracterização arqueológica com intervenções de subsuperfície no terreno em foco, bem como a necessidade de monitoramento arqueológico nas demais áreas. 


 Importante!

Esta pesquisa histórica foi finalizada no início do ano de 2013.

Em março de 2017, data da sua publicação, parte do empreendimento já foi executada e não temos as informações

das pesquisas arqueológicas realizadas, uma vez que não foram executadas pela equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira - IAB.


 

Definição da área

Localizado no município do Rio de Janeiro, RJ, em área totalmente urbanizada, o Corredor Viário Transbrasil possui próximo a 32 quilômetros de extensão, cruzando, a partir do Aeroporto Santos Dummont, os bairros: Centro, Cidade Nova, Caju, São Cristóvão, Bonsucesso, Manguinhos, Ramos, Penha, Irajá, Coelho Neto a Deodoro.

área cortada pelo empreendimento 

 A Área Diretamente Afetada - ADA do empreendimento atravessará vias como Presidente Antônio Carlos, Primeiro de Março, Presidente Vargas, Francisco Bicalho e Avenida Brasil, estando previstas Obras de Artes Especiais no Aeroporto Santos Dummont (Mergulhão) e viadutos de ligação ao longo do trecho.

Para fins de elaboração deste estudo, as pesquisas mais intensivas compreenderam a ADA do empreendimento, bem como a AID.

Cabe ressaltar que a definição das áreas de influência utilizada para esta pesquisa consiste em:

  • Área Diretamente Afetada (ADA): área do terreno diretamente afetada antropicamente pelas obras necessárias à implantação do empreendimento. No caso deste empreendimento, as vias que serão alteradas para a passagem do Corredor Transbrasil, seus terminais, áreas de canteiro de obras e “bota-fora”;
  • Área de Influência Direta (AID): área do entorno do empreendimento que possa conter vestígios arqueológicos associados ao contexto da ADA;
  • Área de Influência Indireta (AII): corresponde à região geoambiental em que está inserido o empreendimento, bem como os processos culturais que nela se sucederam.

Assim, serão apresentados, a seguir, os resultados dos estudos desenvolvidos no âmbito da pesquisa para elaboração deste Diagnóstico Arqueológico não Interventivo, considerando os dados históricos e arqueológicos.

Contextualização Etno-histórica e Arqueológica

“Porque são os artefatos mais complexos criados pelas comunidades humanas, paulatinamente retocados por sucessivos tempos e experiências, que lhes foram acrescentando novas expressões materiais, novas funcionalidades e novos significados, as cidades constituem um dos mais poderosos arquivos de memória da sociedade contemporânea. De fato, na cidade o passado está sempre presente, deixando-se perceber e viver nos espaços e arquiteturas que representam...” (Martins e Ribeiro, 2009/2010; pág. 151).

Devido sua extensão, optou-se por dividir a área abrangida pelo empreendimento em trechos a partir de contextos histórico/arqueológicos. Assim sendo, será apresentada a análise de quatro trechos:

Centro – Trecho 1 – do Aeroporto Santo Dummont à Candelária;

Centro – Trecho 2 – da Candelária à Avenida Francisco Bicalho;

Trecho 3 – da Francisco Bicalho à Penha.

Trecho 4 – da Penha a Deodoro.

Assim, serão apresentados, a seguir, os resultados das pesquisas desenvolvidas na área do empreendimento.

Centro – Trecho 1- Aeroporto Santos Dummont/Presidente Antônio Carlos à Candelária

Contexto Etno-histórico

O Rio de Janeiro é uma cidade cuja ocupação inicia-se desde antes da chegada dos europeus. Apesar de haver registros de cronistas quinhentistas que apontam a existência de habitantes endógenos, não foram identificados no banco de dados do IPHAN cadastros de sítios que remetam aos primeiros anos da presença europeia. Deste período estão registrados os embates pela conquista do território carioca, envolvendo portugueses, franceses e nativos.

Estabelecida a empresa colonial após a conquista portuguesa, o layout urbanístico da região, com a chegada da Corte Portuguesa, sofreu sérias modificações, transformando o Rio de Janeiro em Capital do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves.

Mais do que mudanças meramente arquitetônicas ou infraestruturais, desenvolviam-se novos panoramas sociais e culturais. A cidade modificava-se no decorrer dos séculos, deixando impressas as marcas do tempo em conjuntos arquitetônicos, edifícios, fontes escritas ou arqueológicas.

Mapa da Cidade do Rio de Janeiro em 1858. Denominava-se como “Guia e Plano da Cidade do Rio de Janeiro”, publicado por A.M.M.Mc. Kinney & Roberto Leeder (surdos-mudos)  e faz parte do “Álbum Cartográfico do Rio de Janeiro” (séculos XVIII e XIX) organizado por Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha, publicado pela Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1971. Planta Google atual (2013) com o traçado da cidade no século XIX, segundo o mapa ao lado. Refere-se à planta da cidade do ano de 1858 e ao mesmo trecho da cidade nos dias atuais, sobre a qual foram colocados os limites da planta anterior em uma linha branca tracejada.  Nesta imagem também foram demarcados alguns dos pontos de referência principais, em especial dois deles antigos e ainda existentes, um ao Sul, a Igreja de Santa Luzia e outro, ao Norte, o Convento de São Bento. Foram também aproximadamente delimitados os morros de Santo Antônio e o do Castelo, além do Passeio Público, que não foi movido do seu local anterior

Observações pertinentes:

A linha do litoral antigo na área Sul, segundo o mapa de 1858, passava junto aos limites do Passeio Público e dali à Igreja de Santa Luzia aos pés do morro do Castelo. Em continuação, atingia a Ponta do Calabouço (onde hoje se ergue aproximadamente o Museu Histórico Nacional) e seguia em direção ao Largo do Paço[1].

Aspecto do desmonte do morro do Castelo, nas proximidades dos Arcos da Carioca (Arquivo  Iconográfico do I.A.B.). Aspectos do “cais da Glória” nas proximidades da área do “obelisco” quando das escavações do Metrô, então parcialmente monitoradas por equipes do I.A.B. Aspectos do “cais da Glória” nas proximidades da área do “obelisco” quando das escavações do Metrô, então parcialmente monitoradas por equipes do I.A.B. Torre do Mercado Municipal (Praça XV) antes da sua demolição – 1934 (Arquivo Iconográfico do IAB).
Convento dos Carmelitas e Igreja de São José, trecho da rua Primeiro de Março (antiga rua Direita) ainda existente, no início do século XX. Ponta do Calabouço Ponta do Calabouço e Arsenal da Marinha (prédio do Museu Histórico Nacional atualmente). Foto mais antiga da Igreja de Santa Luzia, sem casas do lado do mar. Mesma área com a rua aberta e casas do lado da Baía de Guanabara. Ali se instalaram diversas “casas de banho de mar”.

 


 
 [1]Esta área foi impactada quando das obras da linha 01 do Metropolitano do Rio de Janeiro e parcialmente acompanhada pelo Instituto de Arqueologia Brasileira em ação conjunta com a então Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Guanabara, sucedida pelo atual Arquivo da Cidade. Foram localizados, então, remanescentes do cais ou muralha de contenção que se estendia das proximidades da Igreja de Santa Luzia até a Glória. Sabe-se que é do início do século XX a construção da Rua de Santa Luzia, aberta sobre o cais então criado, entre 1904 e 1909 (Arquivo Noronha Santos).

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Pode-se, portanto concluir que:

Primeiro: toda a área do aeroporto Santos Dumont resultou do aterro do Morro do Castelo, sendo mar da baía no século dezenove. Território conquistado ao mar.

Segundo: As avenidas que se sucedem em direção ao mar, incluindo a  Presidente Wilson, etc. ocupam também áreas do mesmo aterro (que se alongou, por exemplo, em direção também à Praça Paris).

Já a Avenida Presidente Antônio Carlos e outras vias que seguem para o Norte, foram estabelecidas sobre terrenos antes ocupados pelo Morro do Castelo, onde foi aberta a esplanada do mesmo nome, onde foram situados os ministérios quando o Rio de Janeiro era a capital federal.

Logo:

Avenida Perimetral corre aproximadamente sobre a linha antiga do litoral (no século XIX), desde que em época mais recuada, sem dúvida, era ocupada pelas águas da Guanabara, cujo litoral encostava-se ao Convento dos Carmelitas (século XVI).

Na área do aeroporto Santos Dumont, qualquer pesquisa arqueológica só deve revelar material do aterro do Castelo. Na Avenida Antônio Carlos, parte dela era ocupada pelo próprio morro, depois da Igreja de Santa Luzia e antes dela, também pelo litoral da baía. Somente depois de ultrapassada a antiga Ladeira da Misericórdia é que devem surgir vestígios de importância.

No mapa abaixo destacamos este trecho em especial:

Mapa de 1831, destacando o traçado da antiga rua Direita, hoje Primeiro de Março e a ladeira da Misericórdia, entre a ponta do Calabouço e a área onde seria aberta a Av. Presidente Vargas.

A Rua Primeiro de Março foi a principal Rua da cidade do Rio de Janeiro no período colonial, de forma que todo o trabalho ali desenvolvido deve ser executado com muita cautela, para preservação da própria história da cidade. O trecho que vai da Ponta do Calabouço até as proximidades da Ladeira da Misericórdia foi muito impactado com o passar do tempo, sendo que podem restar evidências na parte traseira do Museu Histórico Nacional. Na frente do Museu, antiga “Casa do Trem”, onde também se ergueu um Forte (São Tiago) e o Calabouço, o terreno foi aterrado e sobre ele passa hoje a Perimetral. Dali até a Praça XV praticamente não restam prédios antigos que se concentrem entre aquela Praça, antigo Largo do Paço e a Presidente Vargas.

Num momento mais remoto, conforme já citado, no século XVI todo o seu lado da Baía era praia, sendo que esta se estendia para o interior até a porta do Convento do Carmo. Segundo consta, não foi aterro e sim um recuo do mar que abriu espaço para aquela praça. Mas é possível que também continuados pequenos aterros tenham contribuído para o recuo da linha costeira, que permitiu a ocupação do lado praiano da rua.

Contexto Arqueológico

Uma observação muito comum se faz a respeito do limite entre a História e a Arqueologia Histórica e/ou Urbana. Ambas as ciências possuem métodos e técnicas que as tornam individuais. Não se nega a cooperação mútua - necessária e desejável. Porém, cabe à Arqueologia a responsabilidade de lidar com as expressões humanas em seu contexto sistêmico reproduzido, a posteriori, materialmente.

Nem todas as expressões humanas são palpáveis. Reconhece-se que ideologias, religiões, rituais culturais, podem não produzir vestígios materiais. Mas, ainda assim, as escolhas humanas e, em certa medida, a vida humana podem ser tangenciadas através da Cultura Material. Cada período histórico será, desta forma, marcado por manifestações que caracterizarão o espaço sociocultural com registros a serem lidos e interpretados de acordo com sua natureza.

A partir deste pressuposto, apesar de o Rio de Janeiro possuir uma vasta rede de fontes iconográficas, cartográficas e estudos históricos, do ponto de vista arqueológico, a Escavação de sua área urbana ainda é incipiente. Cabe, então, à Ciência Arqueológica, a partir da identificação e caracterização das unidades estratigráficas construtivas e sedimentares, acrescentar novos conhecimentos sobre a morfologia urbana.

A promulgação do Decreto 22872, de 07 de maio de 2003, que cria a obrigatoriedade da pesquisa arqueológica nas obras de intervenção urbanísticas e/ou topográficas; e do mesmo Decreto criando a carta arqueológica do Município do Rio de Janeiro, para garantir a preservação dos sítios já  cadastrados e a proteção das áreas de potencial arqueológico, permitiram a expansão do âmbito das pesquisas desenvolvidas. Obras de pequeno porte permitem a criação, a longo prazo, de um novo horizonte arqueológico, favorecendo o estudo da cidade em seu contexto geral.

Na maioria dos casos, apenas intervenções públicas de larga escala geram as condições necessárias para o avanço mais extensivos das pesquisas na área, devido a sua amplitude. Assim sendo, o corredor Viário Transbrasil, por seu caráter linear, permitirá um maior horizonte analítico, tanto cronologicamente, quanto espacialmente.

Neste contexto, foram desenvolvidas no trecho da Praça XV até a Candelária diversas intervenções arqueológicas, tais como:

1 – A mais antiga, provavelmente, tenha sido aquela que cuidou da recuperação do prédio do Paço da Cidade e estudou a praça fronteira. Sob a responsabilidade da arqueóloga Regina Coeli Pinheiro, do IPHAN;

2 – Na mesma época, a pesquisa em trecho do antigo cais e do chafariz que abastecia d’água o porto, sob a direção da arqueóloga Tânia Lima;

3 – Em seguida, ainda na década dos anos 90 do século passado, o monitoramento dos trabalhos de modernização da Praça, pela arqueóloga Eliana Carvalho, sem possibilidades, no entanto, do acompanhamento técnico necessário;

4 – Já no século XXI os trabalhos de restauração da antiga Sé do Rio de Janeiro, a Igreja de N. Sra. do Carmo, com a criação de museu de sítio, sob a responsabilidade do IAB (arqueólogos Ondemar Dias e Jandira Neto).

5 – Sob a responsabilidade da arqueóloga Guadalupe Nascimento a pesquisa arqueológica no subsolo do prédio do TRE;

6 – O IAB também efetivou pesquisas arqueológicas nos arredores da Farmácia Granado, para a Algar-Telecom;

7 – Sem que saibamos o responsável, foram também conduzidos trabalhos de monitoramento e resgate na construção de uma garagem subterrânea nas proximidades do que restou da antiga ladeira da Misericórdia.

  1. Sítio: Praça XV (ocorrência 1 – cemitério; 2a e 2b – Estrutura de Canalização

Localização: Praça XV, nas ruas Primeiro de Março, Praça XV, Mercado, Rua Alfredo Agache, Centro.

Tipo de sítio: Ocorrência 1: Cemitério, possivelmente do século XVII;

                       Ocorrência 2a: parte da antiga estrutura de canalização pertencente a rua do Cano (século XVIII);

                       Ocorrência 2b: parte da antiga galeria de águas, século XIX/XX.

Vestígios: Ocorrência 1: restos ósseos humanos em desarticulação;

                 Ocorrência 2a/2b: cerâmica neobrasileira e colonial, louça e porcelana, vidro, metal, restos conchífero, de ósseo animal e amostras vegetais.

Responsável: Eliana Teixeira de Carvalho, DGPC.

  1. Sítio: Igreja Nossa Senhora do Carmo da “Antiga Sé”

Descrição sumária: sítio histórico (Complexo religioso) de grande relevância para os estudos arqueológicos, tendo proporcionado informações pré-históricas que cobrem o período de conquista da cidade e alcançando o período de conquista da cidade e alcança os dias atuais.

Ocupa cerca de 60% do quarteirão delimitado pela rua Sete de Setembro, rua do Carmo, Beco dos Barbeiros e rua Primeiro de Março. Os demais 40% são ocupados pela Igreja da Ordem Terceira e por prédio comercial da Rua do Carmo.

Ano da Pesquisa: 2007

Responsável  - Ondemar Dias & Jandira Neto

Instituto de Arqueologia Brasileira

  1. Sítio: Paço Imperial – Casa da Moeda

Localização: Praça XV de Novembro, Rio de Janeiro.

Tipo de Sítio: Histórico urbano

Material: Material ósseo, malacológico, cerâmico, metálico.

  1. 4.    Sítio:Casa do Trem

Localização: Museu Histórico – Praça Marechal Ancora.

Ano do Registro: 1984

  1. Sítio: Antigo Cais da Praça XV

Descrição do sítio:Cais de pedras, projetado por J. Funck, século XVIII, face ao chafariz, intacto em grande parte.

Ano Registro:1984

  1. Sítio: Antigo Cais da Praça XV – Cais da Avenida Beira- Mar

Localização: Entre o Obelisco e a Estátua do Marechal Deodoro da Fonseca – Centro – Rio de Janeiro

Descrição Sumária: Antigo Cais da Avenida Beira Mar, encontrado durante as escavações do metro. Área que acusa aterro posterior.

Ano de Registro: 1973.

Responsável: Ondemar Dias

Instituto de Arqueologia Brasileira

Estado de conservação no período da pesquisa: destruído

Além desses sítios arqueológicos pesquisados na área, constam diversos bens tombados, entre eles alguns aqui detalhados (dos quais foram sumarizados os dados constantes nos Arquivos do IPHAN) .  

A inserção na faixa intermediária da Área de Proteção do Ambiente Cultural – APAC Corredor Cultural (Dec. Municipal 506/1984), bem como a existência de sítios arqueológicos pesquisados e registrados na AID do Trecho 1, permitem indicar o potencial arqueológico da área.

Em azul, Área diretamente Afetada pelo Corredor Viário Transbrasil. As áreas sombreadas em branco representam parte da APAC Corredor Cultural.

Localizada na Avenida Primeiro de Março a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé do Rio de Janeiro foi pesquisada pelo Instituto de Arqueologia Brasileira, no ano de 2007, no âmbito das comemorações do bicentenário da chegada da chegada da família real no Brasil, foi desenvolvido o Programa de Restauração e Revitalização da Igreja, incluindo o Projeto de Salvamento Arqueológico.

Durante a pesquisa foram escavadas diferentes áreas da Igreja, descobrindo-se diferentes vestígios de edificações que indicam a continuidade e longevidade da ocupação na área: a “capela vermelha”, provavelmente datada do Séc. XVI ou XVII, sendo erigida sobre areia, com vestígios de mangue no local; estruturas de escadaria, provavelmente posterior à “capela vermelha”; além de estruturas de outros três períodos, Século XVIII, Século XIX e do Século XX.

Em área localizada ao lado da Capela, na Rua Senhor dos Passos, encontrou-se um trecho de uma paliçada – que era utilizada para defesa contra invasões (Séc. XVI). Ao lado dela foi encontrada uma fogueira e uma ferramenta rudimentar (machadinha). Ainda nessa área foram encontradas bases de três colunas toscanas e trechos com piso de lajota avermelhada, provavelmente pertencente ao Séc. XVIII, sugerindo fazer parte de um pátio localizado entre a Igreja e o mosteiro dos carmelitas. Devido à importância dos achados arqueológicos, foi criado dentro da Igreja, o Museu de sítio arqueológico da Antiga Sé, deixando parte dos locais escavados aberto à visitação.

Centro – Trecho 2 - Candelária/Presidente Vargas/Francisco Bicalho

A área do Trecho 2 abrange a via  Presidente Vargas, desde a Candelária até o entroncamento da Avenida Francisco Bicalho com a Avenida Brasil. (ver imagem 8)

Estão previstas para este trecho, alterações na Avenida Presidente Vargas, com a diminuição de seus canteiros centrais, tamponamento do Canal do Mangue, bem como adaptação da Avenida Francisco Bicalho para recebimento do corredor viário.

Trecho 02 da Candelária ao Entroncamento da Av. Francisco Bicalho com Av. Brasil.

Contexto Etno-histórico

Abaixo reproduzimos mapas antigos com a área em questão para acompanhar rapidamente sua evolução ocupacional.

Mapa de 1760

Por esta planta do século XVIII pode-se verificar que a ocupação do centro da cidade para o interior ainda pouco ultrapassava o Campo de Santana. A área dos mangues é demarcada com a proximidade do morro de São Diogo. Ainda dominam as chácaras na região dos baixios. A dificuldade de a cidade penetrar em direção ao vale interior da Serra da Carioca (Tijuca) se deve à barreira formada pelas terras dos Jesuítas, acima do Rio Comprido (sua margem esquerda) onde possuíam os engenhos “Novo” e “Velho”. Na época do mapa, havia poucos anos que os jesuítas foram expulsos e suas terras começavam a ser ocupadas por meeiros e foreiros da Cidade (Senado da Câmara).

Mapa de 1791

Alguns anos depois, apesar da existência dos extensos manguezais, o centro da cidade avançou em direção ao poente, ocupando gradualmente o vale formado entre a serra da Carioca, os morros do litoral da Baía de Guanabara ao norte. Aparece demarcada um caminho nesta direção, cortando o manguezal de São Diogo e parecia até que o traçado da Avenida Presidente Vargas já estava pré-configurado. A denominação do lugar se deve ao nome de um antigo proprietário da região que possuía uma chácara e uma capela em homenagem ao Santo. O morro de São Diogo era uma pedreira que deixou seu nome nas crônicas da Cidade e trabalhar ali era sinônimo de sacrifício e dureza. “Quebrar pedras em São Diogo” era um objetivo que a ninguém atraía. 

É válido registrar que nas primeiras décadas da cidade, ao terminar o século XVI e iniciar o XVII, e ainda durante algum tempo, foram inúmeras as tentativas de se fixarem engenhos neste vale. A qualidade da terra, no entanto, não permitiu o sucesso das iniciativas, ainda que fossem organizadas algumas chácaras na área, como aquelas registradas no mapa anterior.   

Mapa de 1808 Mapa de 1818

Por estes mapas pode-se acompanhar o crescimento da ocupação da área que seria um dia cortada pela Avenida Presidente Vargas. A população se concentrava, sobretudo, nas proximidades da Candelária, mas o caminho pelo mangue já era transitado e sofria pequenos aterros localizados.

No mapa de baixo, nas vizinhanças do Campo de Santana aparece uma construção quadrada e grande onde se alojaria o quartel militar, depois “Ministério da Guerra” e hoje Sede do Comando Militar do Leste, ao lado da Central do Brasil.

Mapa de 1829 Mapa de 1831

Por estes dois mapas, com pequena diferença cronológica entre si, podemos observar o avanço da ocupação em direção ao interior, alastrando-se pelo mangal de São Diogo.

Sem dúvida a diferença na ocupação em dois anos, no entorno do Campo de Santana, é questão de representação cartográfica somente, assim como as diferenças no arruamento da área do Mangue. O que importa, aqui é o fato de que naquele trecho da cidade já figuram traçados de ruas. Mas a ligação do centro com o trecho além do Rio Comprido continua sendo feita por uma ponte ou pela estrada do Mata Cavalos, no limite inferior das imagens.

Destaque-se também que durante muito tempo a desembocadura do Mangue se fez por um braço de mar mais largo que, deixando de correr em direção ao Oeste, infletia para o Norte, desembocando na Baía de Guanabara no Saco do Alferes, nas proximidades das Ilhas das Moças e dos Cães. Toda esta área seria aterrada posteriormente, para a passagem da Avenida Francisco Bicalho. Outros mapas posteriores poucas diferenças apresentam, e serão estudados quando abordarmos o próximo trecho, relativo a São Cristovão.

: Localização da Igreja da Candelária em 1874 na rua do mesmo nome, paralela à Rua Direita (Primeiro de Março) e detalhe da sua fachada voltada para o Mar, que foi preservada quando da abertura da Avenida Presidente Vargas. O prédio se encontrava na época totalmente cercado de construções. E existiam dois quarteirões de casas e um da alfândega, entre a Igreja e o cais da praia.

Pesquisa histórica Parte II