Anta Simplício

 

Programa de Preservação do Patrimônio Cultural na Área sob Influência da LT 138 Kv Anta Simplício - Rocha Leão - Estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

 

Este Programa de arqueologia na área da LT 138 kV Anta-Simplício-Rocha Leão (RJ-MG-RJ), de Furnas Centrais Elétricas S/A, foi integrado por quatro projetos de atuação (prospecções interventivas, resgate dos sítios, educação patrimonial e levantamento e mapeamento do patrimônio imaterial) e teve como objetivo efetuar a prospecção complementar e o resgate simultâneo de sítios arqueológicos históricos e pré-históricos já localizados pela equipe da empresa Arkaios Consultoria Ltda, que anteriormente havia atuado na área da LT; Pesquisar se havia novos sítios, registrar a cultura imaterial e realizar ações de educação patrimonial em comunidades que seriam afetadas direta ou indiretamente pelas Linhas de Transmissão que, então,  seriam implantadas.

Ele foi definido em função de cláusulas do Contrato celebrado entre Furnas Centrais Elétricas S/A e o Instituto de Arqueologia Brasileira e encaminhado à mesma pelo Ofício de nº 31, datado de 03 de maio de 2010.

Esta LT abrangeu os municípios de Chiador e Além Paraíba, no Estado de Minas Gerais, e os municípios de Sapucaia, Sumidouro, Duas Barras, Bom Jardim, Trajano de Morais, Macaé e Rio das Ostras, em território fluminense, alcançando uma extensão total de cerca de 150 quilômetros.

Educação Patrimonial em Sumidouro

 

Levantamento do Patrimônio Material e Imaterial de Sapucaia Levantamento do Patrimônio Material e Imaterial de Sumidouro Levantamento do Patrimônio Material e Imaterial de Bom Jardim e Duas Barras
Levantamento do Patrimônio Material e Imaterial de Macaé Levantamento do Patrimônio Material e Imaterial de Trajano de Moraes Levantamento do Patrimônio Material e Imaterial de Rio das Ostras

 

 

A Pesquisa Arqueológica

 

Os trabalhos contratados ao IAB se concentraram no trecho fluminense da LT de propriedade de Furnas Centrais Elétricas S.A. e por isso foram abordados os municípios do Estado do Rio de Janeiro os quais seriam cruzados pela mesma.

A região atravessada pela LT, acima delineada, é caracterizada pelo seu relevo recortado e complexo, muito montanhoso a ponto de denominar a região como da “Serra Fluminense”. Esta se estende pelo Vale do Paraíba, divisor político entre os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Conforme a definição sancionada pelo uso, esta área que se encontra em oposição “à longa faixa deprimida e litorânea que forma a Baixada Fluminense, é toda a parte montanhosa compreendendo a bacia do médio Paraíba” (Lamego, 1969:11).

Este vale corre entre relevo acidentado, com montanhas de altitude variada, entre colinas conhecidas como “meia-laranja” e cabeços graníticos imponentes e de grande altura. Em direção ao litoral as colinas tendem a aumentar de altitude formando o grande maciço da Serra do Mar com vales ainda florestados e escarpas alcantiladas. Rochas graníticas e gnáissicas predominam. A partir de Trajano de Morais em direção ao Oceano Atlântico, em especial naqueles municípios mais próximos do litoral, o relevo diminui de altitude e penetra na região da restinga e das praias abertas, já em Rio das Ostras.

Nos cinco municípios fluminenses, somente dois sítios foram devidamente registrados pelos trabalhos anteriores de prospecção efetivados na LT, mas o território em si, como um todo, se encaixa em área regularmente bem conhecida pela pesquisa arqueológica.

A pesquisa de caráter arqueológico já se desenvolveu em ocasiões anteriores tanto no vale do rio Paraíba, quanto dos seus afluentes serranos, em especial nos rios Grande, Pomba e Preto, por exemplo, quanto no rio Macaé, do litoral.

Segundo os dados disponíveis, o predomínio ocupacional pertence aos grupos da Tradição ceramista Una produtora de um material típico, organizada em tribos (fases) que habitaram preferencialmente os vales montanhosos e que chegaram ao litoral do norte fluminense e sul capixaba, estendendo-se da região de Vitória (ES) até – pelo menos – Iguaba Grande (RJ). Hoje se discute sua presença na área do recôncavo da Guanabara, cujos indícios são muito rarefeitos.

Ainda que a cerâmica constitua o principal acervo cultural, outros tipos de artefatos são a ela associados, e em grande parte foram preservados graças à preferência de seus integrantes em enterrar seus mortos em cavernas ou nelas depositar as urnas com os ossos (enterramentos secundários). Em diversas ocasiões tais sepultamentos são acompanhados por adereços de contas, ossos, tecidos, armas etc. Um dos sítios resgatados neste Programa se refere a uma aldeia desse povo, ainda que não se tenha registrado a presença de acompanhamentos funerários na mesma proporção daqueles de outros sítios.

Em menor escala também os povos tupiguarani se espalharam pela região, em especial nos vales dos rios maiores e em locais de vales amplos e arenosos.

Os sítios arqueológicos que resultaram dessas ocupações são variados e podem ser encontrados em cavernas ou abrigos comuns na região; em trechos de dimensões variadas a campo aberto, locais de antigos acampamentos ou áreas mais amplas resultantes de aldeias de ocupação mais prolongada. Todos eles, no entanto, sempre diagnosticados pela existência de material de superfície e de profundidade, com maior ou menor espessura resultante do tempo de ocupação. Tal espessura ocupacional é resultante da superposição de camadas estratificadas e indicam maior ou menor intensidade da mesma.  A elas se junta como imperativo para tal identificação, a existência de material arqueológico significativo e encontrado em contexto. 

A região em foco foi habitada em tempos proto-históricos e históricos por povos da grande nação macro-gê, que podem ser associados aos habitantes anteriores vinculados à Tradição arqueológica pré-histórica Una. Após a conquista do litoral pelos europeus, grupos tribais tupi foram expulsos para o Vale do Paraíba, onde contataram com povos mais antigos, todos englobados em uma imensa variedade de denominações genéricas dadas pelos europeus, como “coropós”, “puris”, “coroados” etc., mas culturalmente vinculados aos “goitacás” de Campos.

Com a supressão gradual desses outras sociedades gentílicas mais interioranas, como os “botocudos”, ocuparam a área normalmente descidos do Norte, chegando mesmo às vilas litorâneas.

Toda esta movimentação não impediu que a colonização europeia se espalhasse pela área, fosse subindo o rio Paraíba e seus afluentes de ambas as margens e ambos os estados. Muitas vezes esta expansão aproveitou os “peabirus”, indígenas que favoreciam a penetração para o interior, contornando ou rasgando a serra pelos “passos” desde antigas datas conhecidas. Assim, o cultivo da cana ocupou os vales e gerou a necessidade da criação de gado e, com a sua decadência, sobretudo a partir do final do século XVIII, a área passou a ser grande produtora de café, inclusive sendo considerada a maior do mundo. Por sua vez decaindo esta produção, razão da substituição pelas áreas com maior potência econômica e o partilhamento das grandes propriedades, a produção agropastoril tornou-se a dominante, ainda que algumas indústrias ali tenham se fixado. Hoje a criação de gado de qualidade faz da área um centro importante da economia nacional.

Tendo em vista este histórico de ocupação, os sítios arqueológicos históricos podem variar desde casas simples de colonos livres a cabanas ou senzalas de escravizados, ou ainda a grandes mansões senhoriais, incluindo as estruturas de produção dos engenhos, das fazendas de café e daquelas voltadas para a criação pastoril. Tais estruturas podem ser de alvenaria, de cantaria, tijolos, pau a pique e mais raramente de taipa de pilão.

Como foi decidido pelo Iphan, pelo menos desde 1987, que não se deve considerar casas habitadas como sítio arqueológico, pelas implicações legais que tal título ou qualidade envolve, nossas equipes nunca cadastram como sítios arqueológicos quaisquer residências com moradores, mesmo que procedam a atividades arqueológicas em porções das mesmas. Foram estes os trechos documentados e, se for do interesse do Iphan, posteriormente poderão vir a ser registrados como tal.

A área pesquisada abrangeu os Municípios de Rio das Ostras, Macaé, Trajano de Moraes, Bom Jardim, Duas Barras, Sumidouro e Sapucaia, no Estado do Rio de Janeiro. 

Os trabalhos desenvolvidos neste projeto foram executados de acordo com a metodologia aplicada e experimentada pelo Instituto de Arqueologia Brasileira em trabalhos de levantamento e salvamento arqueológico em linhas de transmissão. O início dos trabalhos se deu na comunidade conhecida com Córrego do Ouro no Município de Macaé, uma vez que todos os trabalhos envolvidos no empreendimento estavam sendo iniciados nesta região. A pesquisa seguiu desta localidade ao Município de Rio das Ostras na comunidade conhecida como Rocha Leão. Em seguida os trabalhos prosseguiram em direção à cidade de Bom Jardim e foram concluídos no município de Sapucaia. Esta área foi deixada para o fim pelo fato de que todo o trecho se encontrava interditado por estar ainda em fase de discussão entre os representantes de Furnas e os proprietários. O prazo da pesquisa se esgotou de forma que o trecho ficou sem ser pesquisado. De uma maneira geral, no entanto, como o total de pontos pesquisados ultrapassou a casa dos 85%, quando o mínimo exigido é de 20%, pode-se concluir que a área como um todo foi suficientemente abordada e conhecida.

O primeiro trabalho executado foi o levantamento e prospecção da área diretamente impactada e seus arredores. Além do levantamento, também foi feita uma pesquisa oral com os moradores das áreas, direta e indiretamente impactadas, na tentativa de identificar alguma informação sobre possíveis evidências arqueológicas na região. Este trabalho foi mais bem sucedido do que o da pesquisa na linha de impacto direto, onde não se logrou identificar qualquer vestígio arqueológico, nos 214 (dos 250) pontos programados. Neste caso, através das informações fornecidas pelos moradores locais foi possível identificar mais três sítios arqueológicos e uma ocorrência.

Durante os trabalhos de levantamento foram feitos também o reconhecimento dos sítios arqueológicos identificados pela equipe da empresa Arkaios Consultoria Ltda que executou os primeiros trabalhos de levantamento e prospecção na região e identificou três sítios, sendo dois históricos e um pré-histórico. Foram eles: Sítio lítico Santo Antônio na localidade de Boa Ventura; Sítio Boa Vista do Batatal - ocorrência na localidade e Fazenda Boa Vista do Batatal; Restos de estruturas de pedra  no Município de Duas Barras, 20 metros distantes de uma plantação de caqui, em local brejoso.

O Sítio Santo Antônio, em Sumidouro, não forneceu qualquer vestígio arqueológico durante as escavações, apesar de estar localizado em uma área propícia para localização de uma oficina lítica ou um aldeamento. Todo o material existente foi recolhido pelo morador em época de gradeamento e plantio do terreno. É possível que as evidências tenham sido destruídas com o passar dos anos e o aproveitamento frequente do solo que se encontra hoje totalmente antropizado. A área é utilizada tanto para plantio quanto para a criação de gado e tem-se a informação de que neste local havia uma construção (casa sede da fazenda), com um terreiro de café e um curral de boi, que, inclusive, permanece até hoje. E com toda esta movimentação, a camada ocupacional onde possivelmente poderia haver algum vestígio arqueológico foi toda retirada e lixiviada, destruindo por completo qualquer evidência arqueológica do local. Foram praticadas sondagens em pontos diversos da malha estabelecida. O IAB não foi informado se houve ou não coleta de material pela Arkaios.

 

Sítio (e Ocorrência) Boa Vista do Batatal – Como não se possui informações completas sobre o registro do sitio na ficha do Iphan somos levados a acreditar que o informado pela equipe anterior seja apenas a área da antiga senzala. Esta foi demolida a mais de 100 anos e as estruturas de pedra que formavam a casa do colono, também parcialmente destruída, atualmente servem de oficina para os moradores atuais.

Após pesquisas complementares verificou-se que o sítio/ocorrência trata-se das ruínas da antiga sede da fazenda do século XIX, denominada Boa Vista do Batatal, e suas estruturas de pedra que formavam o pátio de cafezal, a antiga senzala, a casa do colono e as pontes, que formam o conjunto. A casa da sede atual, sobre ruínas da antiga casa grande, é habitada pelos atuais proprietários e a maior parte do terreno aproveitada para atividades agrícolas.  Este fato não permite que se faça o registro como sítio arqueológico e sim como uma ocorrência remanescente.

Em tal fazenda subsistem estruturas imponentes, em especial muros de arrimo de pedra seca, alicerces de prédios, restos de obras de alvenaria como colunas, arcos e escadaria e são comuns os artefatos fragmentados (ou não), em especial de metal, louça e cerâmica.

O local do antigo terreiro de café ainda guarda marcas e trechos empedrados de calçamento, assim como o curral calçado com grandes lages. Os locais da senzala e da casa do administrador ou feitor, mesmo a rés do chão, são mantidos conhecidos, assim como o recinto conhecido como “cozinha dos escravos” que está localizado nos fundos da propriedade e é uma estrutura de pedra de vinte por cinco metros, atualmente (2010) alagada no seu interior.

Em todos os cortes feitos no local observou-se um solo de argila negra muito úmida atingindo o lençol freático aos cinquenta centímetros de profundidade.

A cerca de um quilômetro distante, no alto de uma colina situada nos fundos da casa, em um pequeno planalto após um terreno densamente arborizado foi recém-construído um açude para o gado, pelo atual proprietário, em cujas obras, segundo o mesmo, foram recolhidas inúmeras evidências antigas. Nas proximidades subsistem estruturas de pedra, os alicerces de uma casa mais antiga. Conforme os moradores seria a principal casa antiga, em que pese a dificuldade de acesso.

Na área do açude, conforme o atual proprietário, ele mesmo encontrou vestígios do que teria sido uma adega. O mesmo proprietário relata que antes da sua construção o local era um brejo e que contratou uma máquina para trabalhar no terreno. O objetivo era o de retirar uma camada de barro do brejo para aprofundar o solo cerca de um metro e represar a água para formação do lago. Foi quando encontrou os vestígios da suposta adega, com “toras de braúna, louças e garrafas de vidro e cerâmica”. Até mesmo um camafeu, o qual foi posteriormente mostrado para a nossa equipe, com a figura do primeiro imperador brasileiro que teria sido encontrado dentro de um vaso de louça.

Igualmente haviam sido encontrados vários fragmentos de louça quando feita a limpeza do córrego, também segundo a Sra. Iara Wermelinger.

Neste local, durante as escavações realizadas pela equipe do IAB, foram evidenciados apenas fragmentos de vidro e cinco fragmentos de cerâmica aparentemente neobrasileira.

Com a realização deste trabalho foi possível formular a hipótese de que, na época em que havia moradia no local, a área de brejo era um pequeno córrego que abastecia a residência. Provavelmente era também utilizado como local para lavar pertences pessoais e da casa, assim como seria também utilizado para guarda ou armazenamento e esfriamento de garrafas de bebidas. Com o decorrer do tempo e o desmatamento local, o mesmo foi sendo assoreado e acabou por encobrir os vestígios arqueológicos. Há relatos do proprietário de que na época do seu avô o local era utilizado como passagem e parada de tropeiros.

Sem dúvida se trata de um local de importância, ainda que bem significativo dos padrões de vida do interior. O camafeu encontrado pelo proprietário, se realmente se enquadrava no contexto relatado, demonstra a importância que o local deve ter desempenhado no passado. É também importante ressaltar que, apesar de exigir esforços consideráveis por parte dos seus senhores, a fazenda até os dias de hoje garante sua subsistência e se auto mantém com a produção local.

Seu proprietário é preocupado com a preservação das ruínas e as mantém, na medida do possível, ainda que venha se desfazendo de material arquitetônico por carência financeira.

De uma maneira geral as pesquisas ali praticadas somente comprovaram, pelo material recolhido, a importância da propriedade mesmo que hoje sua produção agropastoril tenha decaído e seja mantida com dificuldades. O acervo recuperado pelos trabalhos foi, no entanto, relativamente reduzido, sobretudo pelo fato de que os donos colecionam material histórico de toda a ordem e praticam arqueologia amadora em sua propriedade. É sua pretensão organizar um museu. A equipe do IAB forneceu as indicações necessárias, explicou a questão legal e deixou publicações para referência, colocando-se ao inteiro dispor dos mesmos para auxiliar, em especial na questão da legislação e da guarda do acervo. Resta registrar que a equipe foi muito bem recebida.

Na estrada de acesso próximo a residência, local onde existia um bueiro de pedras e teriam sido encontrados, pelo proprietário, vários fragmentos de louça após escavado um metro de profundidade só foram encontrados alguns poucos fragmentos de louça, vidro e metal.

E assim foram encerradas as escavações neste sítio/ocorrência

No último Sítio (Restos de Estruturas de Pedra) localizado pela equipe que antecedeu o IAB não foi possível fazer intervenções porque o proprietário Sr. Manoel Messias Oliveira impediu a entrada da equipe de arqueologia em sua propriedade em virtude de encontrar-se em litígio com Furnas por questões de uso do seu terreno. Registre-se que, no entanto, o sítio propriamente dito se encontra fora da área de domínio do empreendimento, apesar de estar localizado apenas a cem metros da linha de transmissão.


Todos os sítios acima descritos estão circunscritos em áreas indiretamente impactadas, uma vez que a faixa de domínio da linha de transmissão ou faixa de servidão é de vinte metros no eixo e doze metros e meio para cada lado e foram identificados pela equipe anterior.

No decorrer das atividades a equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira localizou, além dos três sítios já citados, mais quatro locais com potencialidade arqueológica. Dois deles, em que pese a existência de material arqueológico, não confirmaram a presença de comunidades humanas antigas no local, sendo, portanto, categorizados como “ocorrências”. O terceiro, um sítio coberto, encontra-se praticamente destruído, mas deve ter sido utilizado no passado como abrigo ou caverna funerária. O último, sem dúvida o de maior potencialidade, configura-se como uma aldeia da Tradição Una que possibilitou um trabalho acurado pela equipe do IAB. Todos, no entanto, situados fora da área de impacto direto e são eles:

A Ocorrência Anta de Sapucaia foi localizada no município de Sapucaia na comunidade Campo Alegre e encontra-se distante da área do empreendimento cerca de quatro quilômetros e meio. Trata-se de um local de ocorrência de material lítico (machados e batedores) localizado em meia-encosta na extremidade leste de um morro, com declive médio, aproximadamente a cinquenta metros de um córrego que corre no sentido Oeste e abastece a propriedade. O local encontra-se entre uma criação de abelhas e um pomar muito denso com várias árvores frutíferas e capim muito alto, impossibilitando a visualização do solo.

Todo o material existente é proveniente de coletas feitas pelo proprietário em época de plantio. Este sítio, portanto, não pode ser resgatado e nem sequer pudemos confirmar se tratar realmente de um sítio. Consideramos suficiente enquadrá-lo na categoria de ocorrência.

 

Ocorrência Bertoloto - localiza-se em área montanhosa no Município de Sumidouro em terras da Fazenda São Geraldo. Neste local foram identificados e coletados artefatos líticos em uma área de plantio de hortaliças, inclinada e a 775m de altitude. O material encontrado apresenta as mesmas características dos encontrados no sítio lítico Santo Antônio. Não foram praticadas intervenções nesta ocorrência pelo fato de o terreno se encontrar plantado e também devido à distância da LT.


Ambas as Ocorrências podem se tratar de locais de passagem, de fabrico de peças ou simplesmente locais de achados ocasionais, mas permanecem registrados para quaisquer possíveis reabordagens futuras.

Sítio (destruído) Mãe D’Água - localizado no Município de Sumidouro e se trata de um sítio cerâmico pré-histórico destruído. Um abrigo totalmente entulhado por blocos calcários de pequeno, médio e grande porte. Logo na chegada podem-se visualizar fragmentos e escamas de peixe incrustados em um bloco de calcário e também, em um pequeno nicho ao fundo da possível caverna, um esqueleto de animal de pequeno porte já em fase de fossilização. Observa-se também que sobre um bloco de pedra de grande porte com uma inclinação acentuada, uma camada suave de terra e limo, com cerca de cinco centímetros de espessura com alguns cacos de cerâmica. A mesma ocorrência acontece em uma pequena prateleira natural com a mesma camada de solo e limo e mais cacos de cerâmica pré-histórica.

Também em algumas fendas entre os blocos de pedra ocorrem fragmentos de cerâmica, levando a supor que este material foi rolado do alto dos blocos agora desmoronados. Possivelmente haveria no local uma caverna com piso coberto por sedimento com material arqueológico e que desmoronou por qualquer motivo desconhecido. Este piso teria subsistido em plano inclinado, de forma que o sedimento e o material arqueológico que o encobria escorreram para o fundo do recinto juntamente com vários blocos de pedra. Não se observou nenhum tipo de piso com sedimento no local que pudesse caracterizar uma caverna com real possibilidade de moradia por longo tempo. Suas condições atuais são de tamanha destruição que só permite concluir se tratar de uma caverna ou abrigo de sepultamento, como ocorre, aliás, na fase Mucuri da Tradição Una. Sítios semelhantes foram pesquisados pelas equipes do IAB no passado em Duas Barras, Santa Maria Madalena, Trajano de Moraes, Sapucaia, etc.

 

As ocorrências acima citadas forneceram artefatos líticos, polidos ou picoteados, sempre recolhidos sobre a superfície. Apesar das pesquisas desenvolvidas não foi possível associar tais peças a qualquer evidência de ocupação nos três locais. Embora importe o fato de se vincularem a formas e tipologia muito repetidas e pouco definidoras, parecem pertencer à mesma tradição de confecção. Sem dúvida se vinculam a uma mesma tradição de produção, inclusive pela utilização de matéria prima semelhante. Mas o próprio volume de material coletado é ainda muito baixo de forma que, somente com novos aportes e a localização de um sítio passível de escavação é que se poderá avançar um pouco em relação a esta configuração inicial.     

Sítio dos Tardim – Está localizado na comunidade de São Jose do Ribeirão no município de Bom Jardim, num platô de uma pequena colina com 360 graus de visibilidade, com declive acentuado a céu aberto e aproximadamente duzentos metros distante do Córrego Ribeirão São José que corre no sentido leste. Encontra-se em área de construção e plantio de hortaliças e protegido por aterro feito pelo atual proprietário. Foi identificado como sítio cerâmico pré-histórico com enterramentos dentro de urnas, artefatos líticos e marcas de estacas. Foram resgatados artefatos líticos, destacando-se pontas de flecha, um polidor e uma enxó e evidenciadas treze urnas funerárias. Apesar de estarem muito fragmentadas pôde-se observar que em quatro delas subsistiam fragmentos de ossos humanos.

 

Os trabalhos de resgate no Sítio dos Tardim revelou a existência de uma típica pequena aldeia da Tradição Una. Um sítio localizado sobre uma pequena colina, entre vales e com excelente visibilidade do entorno, próximo a cursos d’água e nas proximidades de altas montanhas, “cabeços” rochosos que caracterizam a paisagem da região e que se configura como o meio ambiente de preferência dos povos desta tradição ceramista. Ela é hoje considerada como a mais antiga do país fora da Amazônia, estando, inclusive, associada às experiências com a domesticação de plantas no interior (em especial com o milho, amendoim, abóbora, etc.). Esta Tradição se estende do Nordeste, em especial da Bahia ao Tocantins (na Região Norte), passa por Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Há quem a detecte ainda mais para o Sul ainda que nesta Região outras tradições locais sejam, há mais longa data, conhecidas.

Esta Tradição, no Estado do Rio de Janeiro, é composta por duas fases cada uma englobando um número variado de sítios arqueológicos. A fase arqueológica corresponde aproximadamente ao que dentro da etnografia se denomina unidade tribal. Neste caso a fase arqueológica resultaria do deslocamento no tempo e no espaço de somente uma dessas unidades culturais.  Ou seja, uma única tribo que no seu sistema de vida deslocou-se por uma área considerada vital e que, portanto, deixou marcas dessas passagens na expressão de sítios arqueológicos, todos, portanto, marcados pela mesma técnica de aproveitamento da natureza ou satisfação das suas necessidades. Neste caso, as fases de longa duração cronológica geralmente resultam desse tipo de intervenção cultural no meio ambiente. As variações culturais observadas no seu interior resultariam, portanto, mais da deriva do que de qualquer outro elemento da dinâmica cultural. Embora uma fase possa vir a ser também resultante de ocupações concomitantes de unidades tribais muito próximas culturalmente, que se espalhariam por uma área considerada vital para satisfação de suas necessidades econômicas e sociais.

Os diversos sítios resultariam de ocupações coexistentes de aldeias culturalmente similares em um período de tempo mais curto do que aquele exigido para a caracterização de fases do tipo anterior. Neste caso, por integrarem diversos grupos vinculados culturalmente, admitem maior variação na bagagem cultural e, logicamente, menor período de tempo cronológico.

Mas, as fases também podem resultar (e geralmente resultam) tanto da deriva de determinados grupos bem caracterizados ao longo do tempo, quanto da ocupação simultânea do seu espaço por grupos diferenciados, ainda que vinculados aos mesmos padrões de uso, costumes e exploração do meio.

Por tudo isto é que só é seguro o reconhecimento de alguma fase cultural quando se dispõe de um suficiente número de sítios espalhados ao longo do espaço e com uma duração ocupacional igualmente bem demarcada e suficientemente longa.

Sítios isolados podem ser vinculados a Tradições reconhecidas quando estes são bem caracterizados e desde que apresentem no seu acervo arqueológico traços e dados suficientes para tal associação; desde que o interpretador esteja ciente que pode se tratar de sítio vinculado a uma ou qualquer fase ainda não identificada.

A Tradição Una no Rio de Janeiro tem uma expressão ceramista litorânea mais antiga, formada pela Fase que deu nome à Tradição, no rio Una, cujos testemunhos se alongam até a região de Iguaba Grande. Povos desta Tradição contataram com os antigos habitantes sambaquianos e da Tradição Itaipu, possivelmente ocupando alguns dos seus sítios na sua fase terminal. A hipótese mais aceita é de que as origens da Tradição ceramista Una se prendam aos ocupantes da região calcária do vale do São Francisco.

No interior, justamente na serra fluminense, são inúmeros os sítios da Tradição Una vinculados à fase Mucuri. Graças ao microclima de muitas das cavernas ocupadas, preservou-se farto material cultural constituído de adornos de sementes, ossos, fibras, tecidos, além de material cerâmico característico, poucos artefatos líticos, peças de madeira (como arcos e bastões). São comuns os enterramentos em urna ou fora delas com variada forma de deposição do corpo. Este grupo constitui a fase Mucuri, ocupando a região de Santa Maria Madalena, Duas Barras, Trajano de Morais, Visconde do Imbé, Cantagalo, etc.

Um grande sítio, também pesquisado pela equipe do IAB, a quem se credita a maior soma de créditos para o reconhecimento dessa Traição e a quem se deve os trabalhos pioneiros na área, se localiza na cidade de Campos: o sítio do Caju. Por se tratar de um sítio isolado, ainda que com as mesmas características da Tradição, pela distância em relação às fases já reconhecidas, foi ele vinculado à fase Mucuri. Aguardam-se a localização de outros sítios na região que confirme a vinculação, ou que indique se tratar de uma fase nova. Este é o mesmo caso do sítio dos Tardim, que – a princípio – se pode vincular à fase Mucuri, mas que também poderá vir a constituir uma nova fase da mesma tradição na dependência do registro de novos sítios similares.     

Os resultados das análises de laboratório e, sobretudo, as datações a virem a ser obtidas sobre as amostras de carvões coletadas, poderão constituir novos dados que ajudarão no esclarecimento dessas questões. De qualquer forma, no entanto, a pesquisa no sítio dos Tardim contribuiu de forma exemplar para o aumento do conhecimento científico tanto da área quanto da tradição acima definida.

Em relação ao sítio (destruído) denominado “Mãe D’Água”, uma caverna hoje entulhada por desmoronamento, onde se recolheram alguns poucos fragmentos de cerâmica. Seu número é muito reduzido, mas a análise inicial, já efetiva, os associa igualmente à Tradição discutida acima. De fato, como já foi comentado rapidamente anteriormente, é de todo comum a associação habitacional de povos desta Tradição a sítios cobertos, sejam abrigos, sejam cavernas. Muitas cavernas já foram pesquisadas pelas equipes do IAB, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro sobretudo; desde sítios localizados em paredões calcários quanto em matacões graníticos do interior fluminense. Prateleiras, fendas, espaços protegidos ou simplesmente colocados à superfície ou sob o solo, este povo dava preferência a enterrar seus mortos neste tipo de sítio, considerado por muitas culturas como um elo de ligação com o mundo dos mortos. Ainda que os fragmentos recolhidos sejam insuficientes para comprovar a hipótese, é de todo provável que o sítio em questão tenha sido utilizado no passado com este propósito por população vinculada àquela Tradição. Isto, no entanto, em nenhum momento os impediu de colocar as urnas funerárias sob o solo em campo aberto, como é o caso do sítio dos Tardim.     

Desta forma, os locais pesquisados, sítios ou ocorrências, contribuíram para alargamento do nosso conhecimento a respeito da Tradição no Estado do Rio de Janeiro.

Além de cumprir todas as tarefas assumidas, tanto de prospecção quanto de resgate, a equipe do IAB procedeu a um levantamento sistemático das informações sobre a existência de possíveis sítios arqueológicos na região.

Também se procurou visitar o sítio mais antigo localizado pelo IAB no município de Duas Barras, uma caverna com sepultamento superficial, em local de dificílimo acesso, mas não foi possível encontrar guia na cidade, e as pessoas que conhecem a região declararam que nada mais existe no local. Também a notícia dada por moradores naquele Município a respeito de um possível cemitério indígena, em nada resultou, tendo sido verificado tratar-se de um cemitério recente sem vestígio arqueológico no local.

No município de Sumidouro, a equipe também tentou chegar até a caverna localizada na comunidade de Barra alegre, mas também infelizmente o guia que conhece a região e a caverna não se encontrava na cidade. Foram dadas informações de que na cidade de Friburgo haviam sido encontradas panelas de índio enterradas, na verdade o material foi retirado pelo proprietário do terreno e não se tratava de urnas funerárias e sim de uma panela de ferro que estava em um aterro dentro de um terreno.    

Desta forma, apesar do tempo escasso definido para os trabalhos, todos os objetivos foram alcançados, com a prospecção em mais de 85% dos locais das torres, visita, prospecção e resgate dos sítios já cadastrados e localização de novos sítios, devidamente pesquisados.

E assim o projeto de pesquisas e resgates arqueológicos foi dado por encerrado.