Notas Prévias sobre Pesquisas Arqueológicas na Região Norte Mineira

PROPEVALE – Programa de Pesquisas do Vale do São Francisco, no Estado de Minas Gerais - Pesquisa Acadêmica. Fase III. Apoio: SPHAN (atual IPHAN), Smithsonian Institution Fundation e Latin American Archeology Fund, Fundação MUDES Prefeituras Municipais locais e Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Para o ano de 1972 o Departamento de Pesquisas do Instituto de Arqueologia Brasileira, coordenado por Ondemar Dias, traçou como programa base a continuação das pesquisas realizadas a partir de 1968 no Estado de Minas Gerais, tendo em vista o crescente interesse decorrente das prospecções iniciais no Vale do rio São Francisco.

Estas, como trabalho específico, foram incluídas no Propevale criado com o objetivo exclusivo de estabelecer um quadro de povoamento indígena  naquela região, até então inexplorada arqueologicamente. Foi portanto a partir de 1970, após ser encerrada a primeira etapa do Pronapa, que procuramos centralizar nossos estudos no vale mineiro, cujo conhecimento tornou-se fundamental, a partir dos dados já obtidos nas áreas limítrofes, a saber, Sul do Brasil e Meio Norte. A correlação existente ou por existir decorrerá das prospecções que previamente visamos para o vale sanfranciscano, historicamente reconhecido como rota de migração indígena.

O rio São Francisco vem sendo abordado simultaneamente em diversas frente a fim de que possamos atingi-lo nos setores considerados mais importantes.

Área de Pesquisa

A área específica por nós pesquisada teve como foco principal o município de Montes Claros. Devido sua localização geográfica privilegiada, foi o que melhores condições proporcionou para que mantivéssemos contatos com a região visando o desenvolvimento dos trabalhos.

Montes Claros situa-se na Zona Norte do Estado de Minas Gerais, pertencente ao conjunto dos 42 municípios mineiros integrantes do Polígono das Secas. É o principal daquele Polígono e do Alto Médio São Francisco em população, importância econômica, política e social. Obs.: ressalta-se o interesse da Prefeitura Municipal.

Limita-se com dois dos municípios então pesquisados, a saber: Francisco Sá, a leste e Coração de Jesus a oeste. Possui comunicação permanente com todas as localidades e cidades da região norte mineira, o que possibilitou nosso deslocamento ainda nos municípios de Joaquim Felício e Lassance.

As pesquisas desenvolveram-se com a devida autorização do Iphan e tiveram a duração de 25 dias, de 8 de julho a 2 de agosto. Contamos com o apoio logístico da Fundação Mudes e das Prefeituras dos municípios visitados. Devemos ressaltar o interesse demonstrado pelos poderes públicos municipais em incrementar as pesquisas arqueológicas naquele setor.

A coordenação dos trabalhos esteve a cargo de Ondemar Dias e Claro Calasans Rodrigues coube a chefia da equipe, assim constituída:

Waldick Pereira, Lilia Tavares Cheuiche, Eliana Teixeira de Carvalho, Fernanda Araújo Costa, Artur Jardim de Castro Gomes, Antonio Mendes, Francisco Sobrinho, Artur Jardim de Castro Gomes Filho.

Nos trabalhos de campo contamos sempre com a valiosa colaboração de autoridades e dos habitantes das cidades visitadas.

Características Fitogeográficas                    

A região abrange a bacia fluvial do rio São Francisco, sendo os rios principais: Verde Grande, Pacuí, S. Lamberto, Traíras, Vieira, Jequitaí) e afluentes.

O relevo é variado. Caracteriza-se pela alternância de áreas planas, pertencentes à depressão sanfranciscana, com regiões mais altas, tabuleiros e chapadas.

Sob o ponto de vista geológico, a região apresenta duas unidades básicas: o escudo cristalino e a Bacia de S. Francisco-Bambuí. A primeira é formada principalmente de quartzito e outras rochas muito antigas, enquanto que a bacia de São Francisco se caracteriza pelos calcáreos (mármores) e ardósias, um pouco mais recentes.

As serras da região pertencem à cadeia de Espinhaço, que ao norte de Minas Gerais leva o nome de serra Geral, com várias denominações regionais como Catuni, Cabral, Montes Claros e outros, formando o divisor de águas dos vales Jequitinhonha e Verde Grande.

O trabalho da água nas serras calcáreas, durante séculos, formou numerosas grutas em todo o Estado. Efetuamos prospecção em várias delas nos municípios de Montes Claros e Coração de Jesus.

A vegetação característica é o cerrado, cuja área de maior expressão em Minas Gerais é a do vale do Médio São Francisco, onde é constituído por dois estratos distintos: um formado pelo conjunto de árvores esparsas de pequeno porte (3/4m de altura) que se dispõem sobre um outro, herbáceo e composto principalmente de gramíneas e alguns subarbustos que não alcança, em geral, mais de cinquenta centímetros de altura. Variações de solo e irrigação dão origem a pequenas matas com árvores de porte mais elevado – o cerradão.

Nas altitudes superiores a 900m (serra do Cabral) já aparecem os campos limpos ou campos gerais, construídos predominantemente de herbáceas.

Certas áreas apresentam condições fitogeográficas específicas devido à exploração tipicamente predatória. A interferência do homem, através de cortes, fogo e pastoreio, ocasionou a degradação da cobertura florística quase extinta localmente.

O clima, segundo Köpen, é do tipo Aw quente e úmido, com estação seca de outono-inverno. Preponderam as chuvas de regime tropical no qual se nota a ocorrência de uma estação seca perfeitamente definida. Há, portanto, um período chuvoso de outubro a março e outro de precipitações bem mais reduzidas no semestre oposto. A precipitação pluviométrica oscila entre 900 a 1000 mm anuais. A temperatura varia entre 160 e 36,60 (médias anuais).

Desenvolvimento do Projeto

Logo após a chegada da equipe a Montes Claros, os trabalhos foram iniciados tendo em vista os contatos preliminares estabelecidos com o setor norte mineiro do IAB.

Contamos com o apoio das autoridades locais, no que diz respeito ao transporte da equipe para o campo, indispensável para o êxito das prospecções iniciais, que exigiram um deslocamento de quilômetros ao longo da área.

A técnica de pesquisa de campo de prospecção arqueológica foi a mesma adotada pelo Pronapa. Objetivou-se, inicialmente, o conhecimento extensivo. Selecionaremos, a longo prazo, áreas para futuras escavações.

Nos locais em que se constatou a ação predatória do homem ocasionando perturbações dos sítios, além da coleta superficial, efetuamos cortes experimentais. Procedendo-se ao estudo das evidências arqueológicas levantadas pelas pesquisas, efetuamos a análise de material cerâmico, seguindo o método utilizado em geral na arqueologia americana, que é de James Ford.

Devido a não existir para o período lítico uma metodologia estabelecida e uniforme, somente uma pequena parte deste material foi analisado, encontrando-se o restante em fase de processamento.

Também as pictografias se ressentem de uma tipologia aplicada e generalizadamente aceita, o que nos levou a documentá-las amplamente, para futuras interpretações.

Os Sítios Arqueológicos

As prospecções tiveram um resultado favorável, tendo sido cadastrados para o Iphan um total de 14 sítios arqueológicos, dos quais cinco cerâmicos e nove não cerâmicos.

Com exceção de três sítios situados à meia encosta próximos a rios, os demais estão associados a cavernas ou abrigos.

Coletou-se material cerâmico, lítico, ósseo e procedeu-se a documentação das pictografias.

Material Arqueológico

Os dados iniciais obtidos pela análise da cerâmica coletada na região, embora ainda em processamento, parecem enquadrá-la em uma das fases determinadas recentemente (em fase de publicação) por Ondemar Dias, Braz Pepe, Calasans Rodrigues: a fase Cochá, Tupiguarani e a fase Paraopeba.

No presente trabalho descreveremos apenas o material coletado no sítio Morro da Abelha, situado ao município de Francisco Sá e cuja análise já foi completada.

Trata-se de um sítio-habitação localizado na propriedade do Sr. José Reis, à cerca de 600m do centro urbano no local denominado Morro da Abelha (cota 50m), próximo ao córrego São Domingos, subafluente do São Francisco. A vegetação característica, o cerrado, foi substituída pela caatinga, devido à utilização do local para uma agricultura de subsistência. Efetuou-se coleta superficial de cerâmica e material lítico, numa extensão de 100mX100m no terreno anteriormente arado.

Foi possível, também, coletar-se material estratigraficamente (cerâmica e amostras de carvão para datação por C-14. Coletou-se cerca de 300 cacos de cerâmica, entre simples e decorados.

A cerâmica apresenta coloração avermelhada e textura geralmente coesa. Registrou-se um tipo de cerâmica inclusiva, negra, de tempero muito fino e de pouca espessura.

As formas de vasilhames, apresentam-se, em geral, pouco variadas o que, aliás, têm caracterizados os sítios da fase Cochá.

Considerações definitivas sobre a cerâmica da região norte mineira dependerão do término das análises em laboratório, bem como do retorno à área para continuação das pesquisas iniciadas em 1972.

O material lítico foi encontrado em quatro abrigos e três sítios abertos e uma única vez em cavernas. Esteve quase sempre associado a outras evidências arqueológicas como cerâmica e pinturas rupestres.

Apenas no sítio denominado “das Lajes” as evidências foram exclusivamente líticas.

Embora ainda não possamos situar o material em questão num quadro tipológico determinado para a região, foi possível efetuarmos uma abordagem generalizada que sugeriu uma padronização referente a aspectos tais como: as dimensões quase sempre reduzidas dos artefatos; a matéria prima utilizada predominantemente, o cristal de rocha; indústria de lascas bem caracterizadas – o número reduzido de lascas apresentando retoques presente, na maioria das vezes, sobre a face externa; a pouca variação nas formas, essencialmente raspadores e facas e finalmente o grande número de peças não aproveitadas.

Vale a pena ressaltar a coleta efetuada na caverna “Madame Cassou”, em Coração de Jesus, de um exemplar lítico de calcedônia, material inexistente na região, encontrado sob uma camada de calcário de 10cm de profundidade

No sítio denominado “das Lajes” no município de Montes Claros, coletou-se, à superfície, 21 artefatos cuja matéria prima predominante foi o cristal de rocha (8) e calcedônia (7).

A indústria de núcleo compreendeu peças que foram classificadas como enxós; raspadores de bordo convexo, plano convexo; quanto à indústria de lascas, esta se caracterizou igualmente por raspadores: côncavo-retos e outros com escotadura.

No abrigo “Pedras Altas” no município de Joaquim Felício, com cerâmica e pictogravuras, o material lítico foram cerca de vinte peças, sendo a maior parte composta de pequenas lascas que não apresentam, na quase totalidade, sinais de retoques ou evidências de uso. A matéria prima empregada foi o quartzito e o cristal de rocha, embora o primeiro predominasse na área. As peças foram classificadas como raspadores e três facas. Novamente computamos grande número de peças aproveitadas.

Pictografias

Foram cadastrados seis sítios com pictografias, geralmente em locais de acesso muito difícil nos municípios de Lassance, Joaquim Felício e Gouveia.

Constavam, predominantemente, de extensos painéis em paredões rochosos de quartzito ou calcário, formando, ou não, abrigos. Dentre estes, verificou-se ocupação superficial com coleta de material lítico e cerâmico nos sítios “Lapa do Camelinho”, Calionguê e Pedras Altas, sendo que nos dois últimos a camada de ocupação atingiu a profundidade de 30cm. Não possuímos, entretanto, nenhum dado que nos permita estabelecer correlações culturais entre as manifestações da arte rupestre com as demais evidências arqueológicas assinaladas.

As pinturas representam, em sua maioria, figuras zoomorfas e geométricas, sendo que as antropomorfas são em pequena proporção. Monocromas ou policromas são mais comuns as representações em vermelho e amarelo, sendo mais rara a utilização do branco e preto.

As pictografias encontram-se, em sua quase totalidade, sob forte ação erosiva sofrendo destruição parcial por espoliação. A isto acrescente-se as iniciativas amadorísticas cujas consequências dificultam a realização dos trabalhos em moldes sérios. Mais uma vez fica comprovada a urgência de se criar uma conscientização visando preservar os sítios arqueológicos de ações não comprometidas com as técnicas não científicas. Esta observação é extensiva à maioria dos sítios incluídos na área atingida pelo projeto.

A falta de um estudo aprofundado sobre as pinturas rupestres no Brasil e de dados cronológicos mais precisos, limitou o nosso trabalho nesta primeira fase a uma ampla documentação das sinalações. Pressupomos o retorno à área para posterior tentativa de análise, de acordo com um método específico e uniforme em elaboração.

O enfoque ecológico é de grande importância dada à exiguidade de permanência (duração) da configuração fitogeográfica atual das regiões em constante mutação em virtude, especialmente, de estarem sujeitas à ação predatória de seus habitantes, na procura constante de áreas produtivas de um lado, e de outro imbuídos de uma mentalidade amadora e inconsequente, tornando-os simples “colecionadores” dos testemunhos arqueológicos, sem nenhuma razão científica determinada.

Portanto, situar ecologicamente uma área é perpetuar um momento que sofre sérios riscos de se ver bruscamente transformado. Assim, perder-se-ia um elo precioso de ligação entre um passado que se pretende reviver em todos os aspectos possíveis e um futuro impreciso, em seus dados cada vez mais distanciados da realidade primeira.

Pictografias

 Abrigos    Características    Cor    Material Associado
 MG-VF-1 zoomorfos, geométricos, antropomorfos vermelha XXXXXXX
 MG-GF-3                                                               zoomorfos, geométricos, antropomorfos  branco e amarelo  lítico
 MG-EF-3 zoomorfasvermelho e amarelo       XXXXXXX
 MG-EF-4 Zoomorfas, geométricas vermelho, amarelo e preto Cerâmica e lítico
MG-BF-14 zoomorfas, geométricas Vermelho, amarelo lítico
 MG-BF-15 zoomorfos, geométricos, antropomorfos vermelho, amarelo      XXXXXXX


Material Ósseo

Foi assinalado apenas um sítio (Lapa da Tábua), onde se coletou material ósseo humano proveniente de populações indígenas extintas, localizado no município de Coração de Jesus. Trata-se de um abrigo cuja denominação local é Lapa da Tábua, na fazenda de mesmo nome, distando 11 km da sede do município. O sítio, já bastante perturbado, consta de uma reentrância na rocha calcárea, formando pequeno abrigo de oito metros de comprimento por três metros de altura. Numa extensão de dois metros, aproximadamente, coletou-se, à superfície, uma relativa quantidade de ossos humanos inteiros e fragmentados. O material ósseo encontra-se no Laboratório  de Osteometria do Departamento de Antropologia do Museu nacional, onde será analisado.

Considerações Parciais

As pesquisas realizadas no norte de Minas serviram para evidenciar a necessidade, já de antemão prevista, de se preencher o vazio arqueológico que até então representava aquela área. A confirmação veio em pleno êxito demonstrar que, pela extensão da região, um trabalho a longo prazo faz-se mister, inicialmente de prospecção, que nos proporcionará um conhecimento generalizado do potencial arqueológico para, em seguida, determo-nos em setores em que se aconselhará uma investigação sistemática, tendo em vista uma visão mais precisa. Talvez mesmo o esclarecimento quanto ao papel desempenhado pelas migrações indígenas na difusão de suas técnicas e padrões culturais durante a nossa pré-história.

Dentro do aspecto inicial e em decorrência deste, não só a análise cerâmica nos fornecerá a chave para estabelecermos os critérios de povoamento e dispersão, como também o estudo tipológico dos sítios que acarretará recurso aos fatores ecológicos, que permitiriam uma maior fixação do elemento humano ao meio ambiente ou, ao contrário, que o restringiria a uma simples passagem de caráter temporário e imediato.

Eliana Carvalho – Instituto de Arqueologia Brasileira

Lilia Cheuiche – bolsista do CNPq

Fernanda A. Costa – Instituto de Arqueologia Brasileira

Agradecimentos

Ressaltamos, mais uma vez, nossos agradecimentos à Fundação MUDES que financiou os trabalhos da presente pesquisa, assim como as Prefeituras locais, que sempre nos apoiaram. Especial ênfase deve ser dada à Prefeitura de Montes Claros que destinou uma verba específica para incrementar as pesquisas arqueológicas na região.

Estendemos nossos agradecimentos à SUDEMOC na pessoa do seu Diretor, Sr. Ubaldino Assis de Oliveira e ao Rotary Clube de Montes Claros, setor Norte. Também ao Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes, Diretor Executivo do IAB, setor Norte de Minas, ao Prof. Antônio Mendes e aos demais componentes da Diretoria, cujo apoio e dedicação nos foram valiosos.

Cumpre-nos, ainda, agradecer à família Mascarenhas Diniz, da cidade de Curvelo, notadamente aos Srs. Randolfo M. Diniz, Márcio M. Diniz e Cristiano Diniz Neto e a todos que, de uma forma ou de outra, contribuíram para o bom êxito das pesquisas.

Notas

1 – Este trabalho foi realizado com o auxílio da Prof.ª Elisabete Mesquita, estagiária do Setor de Arqueobiologia do IAB e bolsista de Aperfeiçoamento do CNPq

Bibliografia

BOFFI, Alexandre V – 1979 – Moluscos brasileiros de interesse médico e econômico – FAPESP-HUCITEC, São Paulo: 182p, 11.

CARVALHO, Eliana – 1984 – Estudo arqueológico do sítio Corondó, missão de 1978 – Boletim do Instituto de Arqueologia Brasileira, Série Monografias, Rio de Janeiro, 2, 243p., 11.

OLIVEIRA, M.P., REZENDE, G.J. & CASTRO, G. A. – 1981 – Catálogo dos moluscos da Universidade Federal de Juiz de Fora – Sinenimia de Família, Gênero e Espécie MEC, UFJF, Juiz de Fora.

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