IAB 60 Anos – Acervos Especiais – Coleção Salles Cunha: um acervo e uma obra a serem conhecidos

A Antropologia física, enquanto estudo científico de vestígios humanos no Brasil, remonta ao século XIX com as primeiras descobertas arqueológicas do naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund

A Antropologia física, enquanto estudo científico de vestígios humanos no Brasil, remonta ao século XIX com as primeiras descobertas arqueológicas do naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, nas cavernas de Lagoa Santa em Minas Gerais. No começo o foco de interesse eram os debates sobre as origens das raças humanas e questões a elas associadas.

Segundo Cláudia Rodrigues (2019), as primeiras observações relacionadas à Paleopatologia por investigadores brasileiros locais, foram registrados em um adendo no Artigo de Lacerda Filho e Peixoto (1876). Informa que nesta nota, o autor falava de suas pesquisas sobre os dentes dos crânios estudados, em 1876, observando naqueles o “intenso desgaste dentário e a baixa presença de cárie nos materiais brasileiros”.

Apesar dessas observações, problemas de saúde e patologias não eram o foco de investigações e os estudos feitos, “até a primeira metade do século 20, (tinham) como objetivo da maioria das escavações arqueológicas obter esqueletos a serem usados para estabelecer tipos humanos considerados representante do passado”, conforme sugerido por Gaspar et al. (2014: 92).

Esses estudos, ora em desenvolvimento, avançavam lentamente. Os Antropólogos-físicos andavam mais interessados nas questões relacionadas a diversidade morfológica da população brasileira contemporânea, em termos de suas características somáticas e outros aspectos, enquanto os estudos de sepultamentos humanos relacionados a pré-história ou a história permaneciam secundários.

De todo modo, as investigações sobre a morfologia craniana eram o ponto alto das pesquisas e prevaleciam sobre todas as outras abordagens. É neste cenário que surge o professor catedrático em odontologia Ernesto de Salles Cunha, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, que apaixonado por arqueologia, vinha desde a década de 1950, realizando escavações arqueológicas de forma amadorística. Desenvolvendo a partir de suas coletas de crânios e dentes os primeiros estudos sobre antropologia dentária, sendo a Paleopatologia seu principal tópico de interesse.

Esta matéria pretende, a partir de uma coleção de artefatos e documentos, deixada por ele como legado ao Instituto de Arqueologia (IAB), trazer a luz evidências de seu pioneirismo nas pesquisas de Campo, uma mostra de Expositores montados e utilizados por ele, como material didático, para dar aulas e ensinar seus alunos sobre o tema da doença bucal na pré-história e uma vasta produção científica sobre suas descobertas, base para o avanço da Bioarqueologia no Brasil.       Com o tema “Coleção Salles Cunha: um acervo e uma obra a serem conhecidos” celebramos sua relação com este Instituto em seu sexagésimo aniversário de existência.

Histórico

Ernesto de Mello Salles Cunha, nasceu em 25 de Janeiro de 1907 e faleceu em 02 de maio de 1977 aos 70 anos. Formou-se em Odontologia pela Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro em 1927 e exerceu o magistério por 40 anos como professor da Faculdade Fluminense de Medicina e da UFRJ.

Gostava de escrever! Sua vastíssima obra compreende livros didáticos, edição de periódicos e artigos científicos. Foi também o criador da jornada de Odontologia Professor Coelho e Souza. Mas, incomparável mesmo foi seu interesse pela arqueologia e o desenvolvimento de estudos sobre antropologia dentária e patologias da boca de Povos Pré-Históricos e Históricos/modernos feitos a partir de análises de crânios e dentes coletados em sítios arqueológicos de pelo menos quatro estados brasileiros, sendo os mais importantes os de sítios Sambaquis do Rio de Janeiro.

Foi sócio do Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB em 1964 e para nós deixou uma coleção de restos biológicos (humanos e faunísticos) e de outros artefatos arqueológicos, assim como diversas de suas publicações.

No Museu Nacional deixou a coleção na qual desenvolveu estudos com a Antropóloga-Física Marília Alvim, a qual infelizmente foi perdida no incêndio de 2018. A que resta agora será compartilhada no site do IAB, pois foi deixada por ele como parte de seu legado ao Instituto.

Na Universidade Federal Fluminense (UFF) era professor de Patologia e Terapêutica Aplicadas, mas na Arqueologia era um amador, tanto no sentido de Amar quanto no Fazer. Iniciou a prática de coletas de artefatos culturais e de restos biológicos ainda na década de 1950 e foi impedido de fazê-lo pelo IPHAN após a publicação da Lei 3924/1961.

Viajou e pesquisou em sítios sambaquis de Santa Catarina em dois Municípios: Laguna e São Francisco do Sul. Dentre os Sítios arqueológicos de Laguna, se encontram os do sambaqui da Barra da Laguna e os do sambaqui da Passagem da Barra I ou (passagem da Barra II), ambos situados na localidade de Barra da Laguna.

Em São Francisco do Sul, pesquisou no sambaqui do Forte Marechal Luz (também chamado de Forte Marechal São Francisco e de Sítio SFS040).

No Sudeste pesquisou em sambaquis e em sítios Históricos coloniais de escravos no Espírito Santo.

Na ilha do Felix pesquisou no sambaqui denominado Sambaqui Ilha do Felix coletando ali somente material biológico humano; na Ilha de Vitoria pesquisou o sitio arqueológico Sambaqui Mirim I e no sitio Sambaqui do Pau Seco também na Ilha de Vitoria, nos foi deixado os restos esqueletais completos de um indivíduo masculino jovem, e que hoje se encontra em exposição na área museal do IAB como parte da Exposição IAB – 50 anos de Descobertas. Este indivíduo, por exemplo apresenta hipoplasia dentaria. Também é da mesma área o sitio Sambaqui das Aroeiras.

No município de Cariacica, pesquisou um sitio colonial de escravos, denominando-o de Roças Velhas, coletando crânios de indivíduos de ascendência africana. Ainda no Sudeste também visitou Minas Gerais e se interessou pelas características especificas dos paleoíndios habitantes das cavernas de Lagoa Santa.

 

Em Lagoa Santa pesquisou sítios arqueológicos hoje famosos, e que se encontram em cavernas daquele município na localidade de São José dos Confins (MGBF50), segundo consta do registro de cadastro do IPHAN como Sítio arqueológico Lapa ou Abrigo do Galinheiro.

Mas foi no Estado do Rio de Janeiro que seu trabalho de pesquisador ganhou força e relevância junto à comunidade cientifica de seu tempo em fins da década de 1950 e por toda a década de 1960. Sua pesquisa só entra em decadência na década de 1970, quando fica “proibido” pelo IPHAN de pesquisar arqueologia sob a alegação de não ser arqueólogo. Suas primeiras pesquisas no Estado se deram no Município do Rio de Janeiro, na localidade de Guaratiba, onde a época estava sendo destruído o sambaqui do Piracão, registrado como um dos os mais antigos da região.

Em Guaratiba pesquisou o sitio arqueológico Sambaqui Cabeça do Índio coletando farto material biológico de origem animal e humano e alguns poucos artefatos culturais, também feitos sobre material biológico e apenas um em material lítico e o Sambaqui Panela do Pai João do qual temos apenas uma mandíbula humana na coleção.

Ainda em Guaratiba pesquisou o sitio Sambaqui da Bananeira, o sitio arqueológico Poço das Pedras de tradição ceramista Tupiguarani, do qual ficou na coleção do IAB um cachimbo antropomorfo e um cachimbo zoomorfo, muito diferentes do usual, apontando provavelmente para um local de Contatos Interétnicos indígena – europeu.

Ainda temos ali o Sambaqui Caminho do Cajueiro ou da Cajazeira, o Sambaqui Praia do Malhador e o Sambaqui do Piraquê.

 Na Ilha do Governador temos material do sitio arqueológico de tradição Tupiguarani denominado por ele de Sambaqui Praia do Governador.

Em Cabo Frio um sitio arqueológico da tradição Tupiguarani foi pesquisado na Praia do Forte em Cabo Frio, ele o denominou de Sambaqui do Forte e do qual também temos alguma coisa na coleção.

No município de Arraial do Cabo podem ser apontados três sítios com material na coleção: sitio Ilha de Cabo Frio do qual consta somente material biológico de origem humana, o da Ponta da Cabeça, e um terceiro sitio sem identificação do qual restam algumas vértebras lombares e um crânio com a mandíbula, mas sem a maxila.

Niterói – Na localidade de Itaipu pesquisou o sitio arqueológico Duna de Itaipu e dele coletou farto material biológico animal constante da coleção.

Ainda de Itaipu, identificou outros materiais com mais seis sítios numerados (Itaipu 1,6, 7, 2,13 e 15) mas não localizados  (dos quais não existem registros no IPHAN nem no IAB, que, pressupomos, devem se oriundos de alguma prospecção feita por ele ao longo da praia de Itaipu) e identificou o sitio arqueológico de Camboinhas (posteriormente pesquisado por Lina Kneip)  com um único fragmento de material biológico na coleção oriundo de macrofauna e alguns artefatos líticos, entre eles um quebra – cocos simples e um com corante.

Em São Gonçalo cita o sitio São Gonçalo a ele se referindo como sambaqui, mas não cita a localidade onde se encontra (Jardim Catarina?). Cita o Cemitério Multisecular ou Cemitério Colonial e descreve os artefatos restantes como sitio de Contato entre a gente de tradição Tupiguarani e os colonizadores europeus, mas não conseguimos confirmar o fato pelas evidências da coleção. 

Sapucaia – Na localidade de Aparecida de Sapucaia pesquisou o importante sítio arqueológico Toca do Puri ou Caverna do Índio como o designou inicialmente, deixando nesta coleção precioso material biológico e cultural. Sitio pertencente a Tradição Una (A Tradição Una é aquela que apresenta a mais antiga cerâmica arqueológica já localizada fora da região Amazônia e se estende por vasta área do território nacional, tanto no interior quanto no litoral. Seu nome se deve à primeira Fase cultural a ela vinculada e localizada por Ondemar Dias na área do rio Una, Estado do Rio de Janeiro). Ver exposição virtual –  https://arqueologia-iab.com.br/museu-virtual/

Magé –  Na localidade de Suruí pesquisou o entorno da Igreja de Suruí e de lá consta na coleção um crânio feminino com mandíbula de características negroides. 

Campos dos Goitacazes –  do sitio do Caju também pertencente à Tradição Una, consta uma mandíbula na coleção. Este sitio foi posteriormente registrado por Ondemar Dias e pesquisado pelo IAB na década de 1990.

O material arqueológico constante da coleção que se encontra no IAB é oriundo de pesquisas realizadas por ele em 14 Municípios diferentes, sendo nove deles somente no Estado do Rio de Janeiro.

A coleção é composta por materiais oriundos de 28 sítios arqueológicos e revelam uma possível concomitância de ocupação por grupos humanos diferentes, especialmente os do litoral do Rio de Janeiro. Em Guaratiba, por exemplo, pudemos observar que nas margens dos rios Piracão, Piraquê e Portinho houveram três tipos de ocupações pré-históricas: grupos de Tradição Sambaquiana, grupos da Tradição Itaipu (pequenos indícios) e grupos da Tradição Tupiguarani.

Queremos ressaltar que além do material identificado, existe uma grande quantidade de peças sem qualquer identificação, como por exemplo material biológico de origem animal sem local de coleta identificado.

Todo o acervo citado encontra-se curado e acondicionado na Reserva Técnica Museológica do IAB – Sala de Coleções e a ideia de futuro é disponibilizar o acesso ao inventário dos documentos arqueológicos (cultura material) e republicar os documentos escritos para pesquisadores interessados no tema.

Nas comemorações dos 60 anos do Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB, uma amostra dessa coleção está em exposição temporária na sede do Instituto e será aberta ao público tão logo a pandemia do Coronavirus-19 arrefeça e nos permita fazê-lo.  

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