A arqueologia brasileira, após uma longa transição de um campo de explorações assistemáticas para uma disciplina científica de rigor internacional, perdeu, em 21 de janeiro de 2026, um de seus pioneiros fundamentais. O Professor Dr. Ondemar Ferreira Dias Júnior, Diretor Presidente do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) ao longo dos últimos 20 anos, faleceu aos 86 anos, deixando um vácuo intelectual e institucional que marca o início do fim de uma era de pioneirismo na arqueologia brasileira. Sua trajetória não se resume apenas à coordenação de escavações ou à autoria de teses; ela representa o esforço contínuo de institucionalizar a ciência arqueológica em um país que, muitas vezes, negligenciou suas raízes mais profundas. O Professor Ondemar Dias foi, simultaneamente, o Historiador que leu a terra, página por página, o Arqueólogo que decifrou a cerâmica, nos seus mais variados tipos, e o Gestor, apaixonado por sua profissão e instituição, que deu a vida para proteger o que restou de milhares de anos de ocupação humana no território brasileiro.
GÊNESE INTELECTUAL: SUA VIDA E FORMAÇÃO ACADÊMICA
Nascido em 17 de dezembro de 1939, no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro, filho de Ondemar Ferreira Dias e Angelina D’Amato Dias, desde a infância, demonstrou interesse pelo passado humano e pelas narrativas históricas, estimulado por leituras precoces e pela convivência com espaços de valor histórico, como a Quinta da Boa Vista.
Sua formação inicial ocorreu em um contexto no qual a arqueologia não existia como graduação autônoma no Brasil. Ingressando na Universidade do Brasil (hoje UFRJ) em 1959, ele graduou-se em História no ano de 1962, mesmo ano em que iniciou sua formação especializada em arqueologia com a pesquisadora Annette Laming-Emperaire, integrando desde cedo redes científicas nacionais e internacionais.
Antes dos 20 anos, já produzia textos técnicos sobre o papel profissional do arqueólogo e relatórios de pesquisa, demonstrando rara precocidade intelectual e compromisso metodológico.
A busca pelo aprimoramento técnico levou-o à Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde se especializou em Pré-História em 1962. Naquela época, a UFPR era o epicentro da arqueologia científica sob a influência de pesquisadores que buscavam sistematizar a classificação de materiais. Ondemar complementou esse treinamento com um curso de Técnico de Cerâmica pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT) em 1963, o que lhe conferiu uma precisão única na análise de fragmentos cerâmicos, elemento vital para a definição de tradições culturais. Sua jornada acadêmica culminou na própria UFRJ, onde obteve o título de Doutor em História Social em 1977, defendendo a tese “Pré-História do Estado do Rio de Janeiro”.
O PIONEIRISMO DO PRONAPA E O INSTITUTO DE ARQUEOLOGIA BRASILEIRA (IAB)
O Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA), a partir de 1965, pode ser considerado o marco inicial da arqueologia moderna no Brasil. O Programa, uma cooperação estratégica entre pesquisadores e instituições brasileiras com a Smithsonian Institution (liderada por Betty Meggers e Clifford Evans), visava substituir o amadorismo de antiquário por uma metodologia comparativa rigorosa, além de priorizar o mapeamento de vários sítios do Brasil e a criação de uma metodologia de classificação e comparação dos artefatos. Neste contexto, o Professor Ondemar Dias participou ativamente na consolidação deste Programa, além de assumir uma das coordenações regionais.
A experiência no PRONAPA não foi isenta de desafios. Em seus relatos posteriores, o Professor recordava as dificuldades logísticas de acessar áreas remotas. No entanto, essa dificuldade já havia forjado a resiliência do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), fundado por ele e outros entusiastas ainda em 1961, para servir de braço operacional independente para a pesquisa, o ensino e a divulgação da arqueologia brasileira.
O IAB constituiu-se desde então como uma das mais significativas instituições científicas do país, e, a única instituição privada a participar do PRONAPA. Desde os primeiros anos, assumiu o papel de centro formador de pesquisadores e de produção metodológica e interpretativa, articulando parcerias nacionais e internacionais que consolidaram sua atuação em contextos acadêmicos e práticos. Devido a necessidade de local para guarda de acervo durante o PRONAPA, estabeleceu sede no atual município de Belford Roxo (RJ) a partir de 1965, e desenvolveu, ao longo de seis décadas, programas de pesquisa, documentação e guarda de acervos. Essa trajetória de serviço contínuo e institucional à arqueologia brasileira posicionou o IAB como um agente estruturante, que não apenas acompanhou, mas ajudou a moldar as práticas e padrões da arqueologia moderna no Brasil.
E o Professor Ondemar Dias, antes mesmo de se tornar Diretor Presidente do IAB, atuava ativamente como seu Diretor de Pesquisas. Foi sob sua coordenação que o IAB pesquisou ao longo de mais de dez anos o Programa de Pesquisas Arqueológicas no Vale do São Francisco em Minas Gerais (PROPEVALE), e, através do “Programa Grutas Mineiras” concentrou suas escavações em abrigos calcários a partir de 1976. Nesse contexto se deu a escavação da Gruta do Gentio II, em Unaí (MG), em 1976-1977, sítio que se tornaria uma de suas maiores contribuições científicas e, ironicamente, de suas maiores indignações éticas no final da vida.
Desta maneira, a história do IAB e do Professor Ondemar Dias não podem ser contadas separadamente. Ainda na década de 70, mais especificamente a partir de 1974, por convênio com o Departamento de Cultura do então Estado da Guanabara, o IAB passou a manter o Centro de Estudos Arqueológicos na Casa do Capão do Bispo.
Assim sendo, esse período destaca-se pela chegada de novos associados e pesquisadores. Para evitar o risco de omissões, dada a relevância de cada pesquisador e pesquisadora, evitamos citar todos os nomes, mas ressaltamos a Dra. Eliana Teixeira de Carvalho, Museóloga, Arqueóloga, Pesquisadora do IAB e sua segunda esposa. Aquela que junto ao Professor Ondemar Dias contribuiu enormemente para o crescimento do IAB e das práticas de proteção ao Patrimônio no Brasil.
Foi também nessa época que surgiu o primeiro curso superior de arqueologia, inicialmente na Faculdade Marechal Rondon e, posteriormente, nas Faculdades (depois Universidade) Estácio de Sá. Professores pós-graduados da equipe do IAB colaboraram ativamente em ambas as instituições, nas quais o Professor Ondemar Dias figurou como um dos fundadores.
Contudo, a maior parte dessa jornada foi construída na parceria de 38 anos com a Dra. Jandira Neto, Psicóloga, Arqueóloga, Pesquisadora do IAB e sua terceira esposa. Juntos, foram os pilares de sustentação institucional, social, acadêmico e afetivo do IAB nas últimas décadas. A Dra. Jandira Neto, além de colaborar em inúmeras publicações e pesquisas de campo, desempenhou um papel vital na gestão e na comunicação social do IAB. Juntos, implementaram projetos que viriam a mudar a vida de centenas de pessoas, como o “Projeto Pesquisador Curumim”, focado na inclusão de jovens em situação de risco social na pesquisa científica.
A sede atual do IAB em Belford Roxo (RJ), com seus 15.000 m² e um acervo estimado em 4,5 milhões de artefatos, é o testemunho físico dessa parceria. Ondemar e Jandira formaram gerações de arqueólogos, atuando como mentores em cursos de pós-graduação, mantendo viva a chama da arqueologia mesmo quando as instituições estatais enfrentavam crises agudas.
A INDIGNAÇÃO ÉTICA: O “FESTIVAL DA FALTA DE RESPEITO” E A CRÍTICA AO PRESENTISMO
Em seus últimos anos, o Professor Ondemar Dias tornou-se um crítico feroz da superficialidade e da falta de ética no ofício do Arqueólogo contemporâneo. Em seu artigo “Festival da Falta de Respeito que Assola o País (FEFAREAPÁ) II”, ele externou sua repulsa contra a omissão sistemática de trabalhos anteriores em prol de um sensacionalismo midiático e/ou de crescimento profissional.
Argumentou que vivemos em um “novo festival”, onde a busca por projeção pessoal e o afã de obter “likes” nos meios digitais (e na vida acadêmica) fazem com que muitos pesquisadores ignorem a produção científica prévia. Suas críticas, embora indiretas, foram pontuais e devastadoras quanto à conduta de instituições e indivíduos que anunciavam pesquisas como se estivessem diante de sítios intocados, omitindo décadas de produção do IAB. Este fenômeno é descrito como uma forma de “apagamento acadêmico”, onde o conhecimento prévio é deliberadamente ignorado, ou amplamente criticado, para que o pesquisador atual possa reivindicar o status de descobridor original.
Mas, a história evidencia a injustiça de julgar o passado com as lentes do presente. Avaliar os trabalhos pioneiros das décadas de 1960 e 1970 à luz das metodologias e parâmetros tecnológicos da atualidade é um erro de anacronismo.
O anacronismo ocorre quando se projeta sobre o passado um conjunto de expectativas, ferramentas e normas que não pertenciam àquele contexto. A incoerência reside no fato de que o pesquisador moderno que critica o pioneiro só possui as ferramentas e o conhecimento de hoje porque o pioneiro abriu o caminho. O presentismo, ao tratar o conhecimento atual como um estágio absoluto de verdade, descarta o processo histórico que permitiu chegar a esse estágio, transformando a ciência em um espetáculo de ineditismo sem raízes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE UM GIGANTE DA CIÊNCIA
A partida do Professor Ondemar Ferreira Dias Júnior, em 21 de janeiro de 2026, assim como de outros pesquisadores de sua época, nesta década, marca o fim de um ciclo ímpar na história da arqueologia científica no Brasil. No entanto, sua ausência física jamais poderá apagar o rastro profundo que deixou. Não apenas nas areias e sedimentos dos sítios que escavou, mas na própria formação institucional e ética da Arqueologia no país.
Mais do que um arqueólogo, o Professor Ondemar Dias foi um construtor de saberes, um mentor incansável e um defensor intransigente da memória científica como bem público. Sua trajetória demonstra, de forma inquestionável, que a arqueologia é muito mais que técnica de campo: ela é reflexão crítica, compromisso ético e memória compartilhada. Ele nos ensinou que cada fragmento é também um testemunho de histórias humanas que merecem ser preservadas com rigor e respeito.
O legado que deixa no Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), em parceria com a Dra. Jandira Neto, é um monumento vivo à ciência: uma instituição que sobreviveu a inúmeras adversidades, que formou gerações de pesquisadores e que consolidou acervos e práticas que hoje são referência no país. Os programas de inclusão social e científico que lideraram, como o “Projeto Pesquisador Curumim”, são testemunhos de sua visão ampliada de arqueologia: uma visão que transcende o estritamente acadêmico para tocar vidas e transformar realidades.
As críticas que formulou em vida, especialmente contra o que chamou de “Festival da Falta de Respeito”, continuam ressoando como um alerta ético imprescindível. Elas nos lembram de que a ciência se sustenta pela honestidade intelectual, pelo diálogo com o passado e pela valorização das contribuições que o precederam. Sua denúncia ao presentismo acadêmico não é apenas uma queixa: é um convite à reflexão sobre como construímos conhecimento e sobre a responsabilidade que cada geração tem para com as anteriores e com as futuras.
O Professor Ondemar Dias Júnior “ancestralizou”, como nos disse uma mulher indígena que estudou com ele e fez questão de prestar uma última homenagem, mas os princípios que defendeu permanecem como bússolas para todos aqueles que seguem pesquisando, ensinando e divulgando. A arqueologia brasileira honra-se em manter viva a chama que ele acendeu: a de uma ciência comprometida com a história, com as comunidades humanas e com a integridade de seu próprio fazer.
Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB
06 de Fevereiro de 2026
